Moby Dick
Herman Melville52 - O Gam
A razão expressa pela qual Ahab não foi a bordo do baleeiro de que
falávamos foi esta: o vento e o mar agouravam tempestades. Mas, mesmo que não
tivesse sido este o caso, ele, afinal de contas, talvez não o fizesse – a julgar por sua
conduta subsequente em ocasiões similares – se ocorresse que, no processo da
saudação, recebesse uma resposta negativa à pergunta que fazia. Pois, como por
fim se revelou, ele não dava importância à convivência, nem mesmo por cinco
minutos, com um capitão desconhecido, a não ser que este pudesse contribuir
com alguma informação sobre o que ele arrebatadamente buscava. Mas tudo isso
pode ainda ser avaliado inadequadamente, se aqui não se disser alguma coisa
sobre os costumes particulares dos navios baleeiros quando se encontram em
águas estrangeiras, e em especial numa mesma zona de navegação.
Quando dois estranhos, atravessando as áridas terras de Pine Barrens, no
Estado de Nova York, ou as igualmente desoladas planícies de Salisbury, na
Inglaterra, casualmente se encontram em tais agrestes inóspitos, eles não deixam,
de maneira alguma, de fazer uma saudação mútua; e de parar por um momento
para trocar notícias; e, talvez, de sentar um pouco e descansar conciliados: assim,
seria ainda mais natural que, nas ilimitadas Pine Barrens e Salisbury do mar, dois
navios baleeiros que se avistam nos confins do mundo – ao largo da isolada ilha
de Fanning, ou das distantes King’s Mills; muito mais natural, repito, que em tais
circunstâncias, os navios não apenas trocassem saudações, como tivessem um
contato mais próximo, amistoso e sociável. E isso pareceria especialmente
obrigatório no caso de duas embarcações que pertencessem ao mesmo porto, e
cujos capitães, oficiais e não poucos marinheiros se conhecessem pessoalmente; e
que, consequentemente, tivessem todos os tipos de diletos assuntos domésticos
para conversar.
Para o navio ausente há mais tempo, o que ainda está em início de viagem,
talvez, traz cartas a bordo; de qualquer modo, este certamente terá alguns jornais
um ou dois anos mais recentes do que o outro, nas suas tão surradas e
compulsadas pastas. Para compensar a gentileza, o navio que está começando a
viagem receberia as últimas notícias baleeiras sobre a zona de caça à qual se
destina, informação de importância capital. E do mesmo modo tudo isso vale
também para os navios baleeiros que se cruzam na mesma zona de caça, mesmo
que ambos estejam há muito longe da pátria. Pois um deles pode ter recebido
uma transferência de cartas de um terceiro navio, agora distante; e algumas
dessas cartas podem ser destinadas a pessoas do navio encontrado. Além disso,
trocariam notícias baleeiras e teriam uma conversa agradável. Pois não apenas
esses homens contariam com toda a simpatia dos marinheiros, mas também com
as solicitudes peculiares que surgem de uma mesma busca e privações e perigos
mutuamente compartilhados.
Tampouco a diferença de país faria grande diferença; isto é, desde que os dois
grupos falassem a mesma língua, como é caso dos norte-americanos e dos
ingleses. Ainda que, a bem da verdade, devido ao pequeno número de baleeiros
ingleses, tais encontros não ocorram com muita frequência, e, quando ocorrem, é
fácil haver um certo acanhamento entre os dois; pois o Inglês é um tanto
reservado, e o Ianque não aprecia esse tipo de coisa em mais ninguém a não ser
nele mesmo. Além disso, os baleeiros Ingleses, às vezes, demonstram um tipo de
superioridade metropolitana em relação aos baleeiros Norte-Americanos,
considerando o que vem de Nantucket, alto e magro, com sua tacanhice
indescritível, uma espécie de caipira do mar. Mas seria difícil dizer em que
consiste realmente essa superioridade dos baleeiros ingleses, visto que os Ianques
matam, em conjunto, mais baleias em um dia do que os Ingleses todos em dez
anos. Mas essa é uma fraqueza menor e inofensiva dos baleeiros Ingleses, que os
de Nantucket não levam muito a sério; provavelmente porque sabem que
também têm as suas próprias fraquezas.
Assim, pois, vemos que de todas as embarcações que navegam no oceano os
baleeiros são os que têm mais motivos para ser sociáveis – e, de fato, o são. Ao
passo que alguns navios mercantes que cruzam as rotas no meio do Atlântico, às
vezes, prosseguem sem trocar uma única palavra de reconhecimento, passando
um pelo outro em alto-mar como dois dândis na Broadway; e, talvez,
refestelando-se o tempo todo com críticas mordazes sobre a aparência do outro.
Quanto aos navios de guerra, quando se encontram por acaso no mar, executam
logo de início uma tal série de tolas mesuras e rapapés, uma tal agitação de
bandeiras, que não parece haver muita sinceridade cordial, boa vontade ou amor
fraternal nisso tudo. No que tange aos navios negreiros, ora, estes estão sempre
com tanta pressa, que fogem uns dos outros o mais depressa possível. Quanto aos
piratas, quando seus ossos cruzados se cruzam, a primeira saudação que fazem é– “Quantas caveiras?” –, do mesmo modo que os baleeiros fazem a saudação
“Quantos barris?”. E, com a pergunta assim respondida, os piratas separam-se
imediatamente, pois são todos canalhas de quatro costados e não lhes agrada ver
tanta semelhança com a canalhice alheia.
Mas veja o navio baleeiro, piedoso, honesto, humilde, hospitaleiro, sociável e
simples! O que faz o baleeiro quando encontra outro baleeiro e o tempo é
agradável? Faz um gam, uma coisa tão completamente desconhecida de outros
navios, que nunca sequer ouviram esse nome; e, se, por acaso ouvissem, sorririam
com superioridade e fariam gracejos sobre “jatos” e “caldeiras de gordura”, e
outras exclamações jocosas. Por que será que os marinheiros mercantes, e
também os piratas e marujos de navios de guerra e de navios negreiros, sentem
tanto desdém pelos navios baleeiros? É uma pergunta difícil de responder. Pois,
no caso dos piratas, por exemplo, eu gostaria de saber se há algum tipo de glória
em sua profissão. Às vezes, terminam numa posição elevada incomum, de fato;
mas só no alto de um cadafalso. E, além disso, quando um homem é elevado
desse modo insólito, talvez não tenha fundamento o bastante para tanta
superioridade. Portanto, devo concluir que o pirata, ao se vangloriar de estar
acima do baleeiro, não encontra nessa asserção nenhuma base sólida para se
sustentar.
Mas o que é um gam? Você pode gastar o indicador percorrendo as colunas
dos dicionários e jamais encontrar essa palavra. O Dr. Johnson nunca alcançou tal
erudição; a arca de Noé Webster não a inclui. Não obstante, essa palavra
expressiva é usada constantemente há muitos anos por cerca de quinze mil
Ianques legítimos. É claro que necessita de uma definição e que deveria ser
incorporada ao Léxico. Com este objetivo, vou defini-la com erudição.
GAM. Substantivo – Encontro social de dois (ou mais) navios baleeiros, em geral,
nas zonas de caça; quando, depois da troca de saudações, as tripulações nos botes
se visitam mutuamente: os dois capitães permanecendo temporariamente a
bordo de um navio, e os dois primeiros imediatos no outro.
Há mais um pormenor relacionado com o gam que não pode ser aqui esquecido.
Todas as profissões têm os seus próprios detalhes peculiares; assim também é
com a pesca das baleias. Num navio de guerra, de piratas ou de escravos, quando
o capitão é levado de bote para algum lugar, sempre se senta na popa, ali, num
assento confortável e acolchoado, e, com frequência, pilota ele mesmo com uma
cana de leme muito bonita, decorada com laços e fitas alegres. Mas o bote
baleeiro não tem assento na popa, nenhum tipo de sofá e nada de cana de leme.
Que grande coisa seria se os capitães baleeiros fossem transportados pelas águas
em sofás elegantes, como antigos conselheiros em cadeiras de rodas. Quanto à
cana de leme, um baleeiro jamais admite tal efeminação; portanto, quando há
um gam, a tripulação toda do bote deve sair do navio, e nesse grupo é o arpoador
quem leva o leme do bote, o subordinado é então o timoneiro, e o capitão, sem
lugar para se sentar, é transportado de pé, como um pinheiro, para a sua visita.
Muitas vezes, percebe-se que, estando consciente de que os olhos de todo o
mundo visível estão voltados para ele dos costados dos dois navios, esse ereto
capitão atenta para a importância de sustentar sua dignidade, mantendo-se em
pé. O que não é uma tarefa muito fácil; pois na popa também fica o enorme
remo do piloto que, ao se mover, vez por outra, bate em suas costas, e o remo da
frente retribui, dando-lhe pancadas nos joelhos. Preso dessa forma, pela frente e
por trás, ele pode apenas se mexer para os lados, apoiando-se nas pernas
esticadas; mas um balanço súbito e violento do bote pode fazê-lo tombar, pois a
extensão da base não é nada sem a largura correspondente. Faça um simples
ângulo bem aberto com duas varetas e veja como não consegue mantê-las em pé.
Também não conviria, diante dos olhos cravados do mundo todo, não seria nada
conveniente, repito, que esse capitão de pernas abertas fosse visto agarrando
alguma coisa com as mãos, por menor que fosse, para se equilibrar; de fato,
como sinal de seu autocontrole pleno e flutuante, ele em geral coloca as mãos no
bolso da calça; mas talvez, por serem, em geral, mãos grandes e pesadas, ele ali
as coloque como lastro. Ainda assim, há casos, de todo bem documentados, em
que o capitão, num momento mais crítico, digamos, numa borrasca, pegou nos
cabelos do remador mais próximo e ali se agarrou como a morte implacável.
Continua na página 235...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1 - Miragens
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Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1 - Miragens
53 - O Gam /
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.
E você com o quê se identifica?
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