Hannah Arendt
Parte III
TOTALITARISMO
Os homens normais não sabem que tudo é possível.
David Rousset
3.3 - O Domínio Total
Como instituição, o campo de concentração não foi criado em nome da produtividade; a única
função econômica permanente do campo é o financiamento dos seus próprios supervisores;
assim, do ponto de vista econômico, os campos de concentração existem principalmente para si
mesmos. Qualquer trabalho que neles tenha sido realizado poderia ter sido feito muito melhor e
mais barato em condições diferentes.[135] A Rússia especialmente, cujos campos de concentração
são em geral descritos como campos de trabalho forçado, porque a burocracia soviética preferiu
honrá-los com esse nome, revela com mais clareza que o trabalho forçado não é a questão
fundamental; o trabalho forçado é a condição normal de todos os trabalhadores russos, já que
eles não têm liberdade de movimento e podem ser arbitrariamente convocados para trabalhar em
qualquer lugar a qualquer momento. A incredibilidade dos horrores é intimamente ligada à
inutilidade econômica. Os nazistas levaram essa inutilidade ao ponto da franca antiutilidade
quando, em meio à guerra e a despeito da escassez de material rolante e de construções,
edificaram enormes e dispendiosas fábricas de extermínio e transportaram milhões de pessoas
de um lado para o outro.[136] Aos olhos de um mundo estritamente utilitário, a evidente
contradição entre esses atos e a conveniência militar dava a todo o sistema a aparência de louca
irrealidade.
[135] Ver Kogon, op. cit., p. 58: "Grande parte do trabalho imposto nos campos de concentração era inútil; ou era supérfluo ou era
tão mal planejado que tinha de ser feito duas ou três vezes". Ver também Bettelheim, op. cit., pp. 831-2: "Os novos prisioneiros
eram forçados a realizar tarefas idiotas. (...) Sentiam-se degradados (...) e preferiam trabalho mais pesado que produzisse alguma
coisa de útil". Mesmo Dallin, que baseou seu livro sobre a tese de que a finalidade dos campos soviéticos é proporcionar mão-de
obra barata, é forçado a admitir a ineficiência do trabalho nos campos: op. cit., p. 105. As teorias correntes sobre o sistema de
campos russo como uma medida econômica, destinada a prover mão-de-obra barata, seriam claramente refutadas se recentes
informes acerca de anistias em massa e da abolição dos campos de concentração provarem-se corretos. Pois, se os campos serviam a
um importante objetivo econômico, o regime certamente não poderia ter-se permitido sua rápida liquidação sem graves
consequências para todo o sistema econômico.
[136] Além dos milhões de pessoas que os nazistas transportaram para os campos de extermínio, constantemente experimentavam
novos planos de colonização, transportando alemães da Alemanha ou dos territórios ocupados para o Leste para fins de colonização.
Isso, naturalmente, constituía sério obstáculo às ações militares e à exploração econômica. Quanto às numerosas discussões sobre
esses assuntos e ao constante conflito entre a hierarquia civil nazista nos territórios ocupados do Leste e a hierarquia da SS, ver
especialmente o volume XXIX de Trialof the major war criminais, Nuremberg, 1947.
Essa atmosfera de loucura e irrealidade, criada pela aparente ausência de propósitos, é a
verdadeira cortina de ferro que esconde dos olhos do mundo todas as formas de campos de concentração. Vistos de fora, os campos e o que neles acontece só
podem ser descritos com imagens extraterrenas, como se a vida fosse neles separada das
finalidades deste mundo. Os campos de concentração podem ser classificados em três tipos
correspondentes às três concepções ocidentais básicas de uma vida após a morte: o Limbo, o
Purgatório e o Inferno. Ao Limbo correspondem aquelas formas relativamente benignas, que já
foram populares mesmo em países não-totalitários, destinadas a afastar da sociedade todo tipo
de elementos indesejáveis — os refugiados, os apátridas, os marginais e os desempregados —;
os campos de pessoas deslocadas, por exemplo, que continuaram a existir mesmo depois da
guerra, nada mais são do que campos para os que se tornaram supérfluos e importunos. O
Purgatório é representado pelos campos de trabalho da União Soviética, onde o abandono alia-se ao trabalho forçado e desordenado. O Inferno, no sentido mais literal, é representado por
aquele tipo de campos que os nazistas aperfeiçoaram e onde toda a vida era organizada,
completa e sistematicamente, de modo a causar o maior tormento possível.
Os três tipos têm uma coisa em comum: as massas humanas que eles detêm são tratadas como
se já não existissem, como se o que sucedesse com elas hão pudesse interessar a ninguém, como
se já estivessem mortas e algum espírito mau, tomado de alguma loucura, brincasse de
suspendê-las por certo tempo entre a vida e a morte, antes de admiti-las na paz eterna.
Mais que o arame farpado, é a irrealidade dos detentos que ele confina, que provoca uma
crueldade tão incrível que termina levando à aceitação do extermínio como solução
perfeitamente normal. Tudo o que se faz nos campos tem o seu paralelo no mundo das fantasias
malignas e perversas. O que é difícil entender, porém, é que esses crimes ocorriam num mundo
fantasma materializado num sistema em que, afinal, existiam todos os dados sensoriais da
realidade, faltando-lhe apenas aquela estrutura de consequências e responsabilidade sem a qual
a realidade não passa de um conjunto de dados incompreensíveis. Como resultado, passa a
existir um lugar onde os homens podem ser torturados e massacrados sem que nem os
atormentadores nem os atormentados, e muito menos o observador de fora, saibam que o que
está acontecendo é algo mais do que um jogo cruel ou um sonho absurdo.[137]
[137] Bettelheim, op. cit., observa que os guardas dos campos adotavam uma atitude semelhante à dos próprios
prisioneiros no tocante à atmosfera de irrealidade.
Os filmes documentários divulgados na Alemanha e em outros países depois da guerra
demonstraram claramente que essa atmosfera de loucura e irrealidade não se dissipa com a
simples reportagem. Para o observador sem preconceitos essas visões são quase tão pouco
convincentes quanto as fotos de misteriosas substâncias tiradas em sessões espíritas.[138] O bom
senso reagiu aos horrores de Auschwitz com o argumento plausível: "Que crime essas pessoas devem ter cometido
para que se lhes fizessem tais coisas!"; ou, na Alemanha e na Áustria, em meio à fome e ao ódio
geral: "Que pena que pararam de matar os judeus!"; e, em toda parte, com o ceticismo com que
é recebida a propaganda ineficaz.
[138] Tem certa importância compreender que todas as fotografias dos campos de concentração eram enganadoras,
uma vez que mostravam os campos em seus últimos estágios, no momento em que chegavam as tropas aliadas. Não
existiam campos de extermínio na Alemanha propriamente dita e, a essa altura, todo o equipamento de extermínio já
havia sido desmontado. Por outro lado, o que mais provocou a indignação dos aliados e o que constitui o lado mais horroroso dos filmes — isto é,
a visão dos esqueletos humanos — não era de modo algum típico dos campos de concentração alemães; o extermínio
era levado a cabo sistematicamente por meio de gás e não de fome. A condição dos campos foi o resultado da guerra
durante os últimos meses: Himmler havia ordenado a evacuação de todos os campos de extermínio do Leste europeu
onde eles se concentravam (principalmente na Polônia), e, em consequência, os campos de concentração alemães
ficaram superpovoados com a vinda dos sobreviventes deportados, sem que houvesse possibilidade de assegurar o
suprimento de alimentos.
Se a propaganda da verdade não convence o homem comum, por ser demasiado monstruosa, é
positivamente perigosa para aqueles que sabem, em sua própria imaginação, o que são capazes
de fazer e, portanto, acreditam plenamente na realidade dos filmes. De repente, torna-se-lhes
claro que aquilo que durante milhares de anos fora relegado pela imaginação do homem a uma
esfera além da competência humana pode ser fabricado aqui mesmo na Terra, que o Inferno e o
Purgatório, e até mesmo um arremedo da sua duração perpétua, podem ser criados pelos
métodos mais modernos da destruição e da terapia. Para essas pessoas (e em qualquer cidade
grande elas são mais numerosas do que desejamos admitir), o inferno totalitário prova somente
que o poder do homem é maior do que jamais ousaram pensar, e que podemos realizar nossas
fantasias infernais sem que o céu nos caia sobre a cabeça ou a terra se abra sob os nossos pés.
Essas analogias, repetidas nos relatos do mundo dos agonizantes,[139] parecem ser mais que uma
tentativa desesperada de exprimir o que está além da linguagem humana. Talvez nada melhor do
que a perda da fé num Julgamento Final distinga tão radicalmente as massas modernas daquelas
dos séculos passados: os piores elementos perderam o temor, os melhores perderam a esperança.
Incapazes de viver sem temor e sem esperança, as massas são atraídas por qualquer esforço que
pareça prometer uma imitação humana do Paraíso que desejaram e do Inferno que temeram. Do
mesmo modo como a versão popularizada da sociedade sem classes de Marx tem uma estranha
semelhança com a Era Messiânica, também a realidade dos campos de concentração lembra,
antes de mais nada, as pinturas medievais do Inferno.
Há, porém, um detalhe que tornava a antiga concepção de Inferno tolerável para o homem e que
não pode ser reproduzido: o Julgamento Final, a ideia de um critério absoluto de justiça aliado à
infinita possibilidade da misericórdia. Pois, no cálculo humano, não existe crime nem pecado
comensuráveis com os tormentos eternos do Inferno. Daí a perplexidade, daí a pergunta decorrente do bom senso: que crimes essas pessoas podem ter cometido para sofrer tão desumanamente? Daí,
também, a absoluta inocência das vítimas: nenhum homem jamais mereceu tal coisa. E daí, finalmente, a
grotesca casualidade da escolha das vítimas dos campos de concentração no reino aperfeiçoado do terror:
esse "castigo" pode, com igual justiça ou injustiça, ser aplicado a qualquer
um.
Comparado ao insano resultado final — uma sociedade de campos de concentração —, o processo pelo
qual os homens são preparados para esse fim e os métodos pelos quais os indivíduos se adaptam a essas
condições são transparentes e lógicos. A desvairada fabricação em massa de cadáveres é precedida pela
preparação, histórica e politicamente inteligível, de cadáveres. O incentivo e, o que é mais
importante, o silencioso consentimento a tais condições sem precedentes resultam daqueles eventos que,
num período de desintegração política, súbita e inesperadamente tornaram centenas de milhares de seres
humanos apátridas, desterrados, proscritos e indesejados, enquanto o desemprego tornava milhões de
outros economicamente supérfluos e socialmente onerosos. Por sua vez, isso só pôde acontecer porque os
Direitos do Homem, apenas formulados mas nunca filosoficamente estabelecidos, apenas proclamados
mas nunca politicamente garantidos, perderam, em sua forma tradicional, toda a validade.
O primeiro passo essencial no caminho do domínio total é matar a pessoa^jurídica do homem. Por um
lado, isso foi conseguido quando certas categorias de pessoas foram excluídas da proteção da lei e quando
o mundo não-totalitário foi forçado, por causa da desnacionalização maciça, a aceitá-los como os fora-da-lei; logo a seguir, criaram-se campos de concentração fora do sistema penal normal, no qual um crime
definido acarreta uma pena previsível. Assim, os criminosos, que, aliás, constituíam um elemento
essencial na sociedade dos campos de concentração, geralmente só eram ali confinados depois de
completarem a sentença a que haviam sido condenados. Em todas as circunstâncias, o domínio totalitário
cuidava para que as categorias confinadas nos campos — judeus, portadores de doenças, representantes
das classes agonizantes — perdessem a capacidade de cometer quaisquer atos normais ou criminosos. Do
ponto de vista da propaganda, essa "custódia protetora" era apresentada como "medida policial
preventiva",[140] isto é, medida que tira das pessoas a capacidade de agir. As exceções a essa regra, na
Rússia, devem ser atribuídas à calamitosa escassez de prisões e a um desejo, até agora não realizado, de
transformar todo o sistema penal num sistema de campos de concentração.[141]
[140] Maunz, op. cit., p. 50, insiste em que os criminosos nunca deviam ser mandados para os campos para
cumprimento das sentenças regulares.
[141] A escassez de prisões na Rússia era tal que, no ano de 1925-6, somente 36% das sentenças puderam ser
cumpridas. Ver Dallin, op. cit., p. 158 ss.
A inclusão de criminosos — a que acabamos de aludir — é necessária para emprestar credibilidade à
alegação propagandística do movimento de que a instituição existe para abrigar elementos fora da sociedade.[142] Os criminosos não deveriam estar em
campos de concentração, porque é mais difícil matar a pessoa jurídica de um homem culpado por algum
crime do que a de um outro totalmente inocente. O fato de constituírem categoria permanente entre os
internos é uma concessão do Estado totalitário aos preconceitos da sociedade, que assim pode habituar-se
mais facilmente à existência dos campos. Por outro lado, para não alterar o sistema de campos, é
essencial, enquanto exista no país um sistema penal, que os criminosos somente sejam enviados para lá
depois de haverem completado a sentença, isto é, quando de fato já têm direito à liberdade. Em hipótese
alguma deve o campo de concentração transformar-se em castigo previsível para um crime definido.
Misturar criminosos às outras categorias de presos tem, além disso, a vantagem de tornar chocantemente
evidente a todos os outros internos o fato de que atingiram o mais baixo nível social. E, na verdade, estes
logo perceberão que não lhes faltam motivos para invejar o mais vil ladrão ou assassino; mas, no início
parecia o nível mais baixo um bom começo. Ademais, tratava-se de eficiente meio de camuflagem: isso
só acontece a criminosos; e não está acontecendo nada pior do que os criminosos merecem.[142]
[142] "A Gestapo é a SS sempre deram grande importância ao fato de se misturarem as categorias dos internos nos
campos. Em nenhum campo os internos pertenciam exclusivamente a uma categoria" (Kogon, op. cit., p. 19). Na
Rússia, sempre se costumou misturar prisioneiros políticos e criminosos. Durante os primeiros dez anos de poder
soviético, os grupos políticos da Esquerda gozavam de certos privilégios; contudo, o pleno desenvolvimento do
caráter totalitário do regime mudou a situação e "após a década de 20, os prisioneiros políticos passaram a ser
tratados como inferiores aos criminosos comuns, mesmo oficialmente" (Dallin, op. cit., p. 177 ss).
Os criminosos constituem a aristocracia de todos os campos. (Na Alemanha, durante a guerra, foram
substituídos na liderança dos campos pelos presos comunistas, pois as caóticas condições criadas por uma
administração de criminosos não permitiam a realização sequer de uma transformação temporária na
época em que o andamento da guerra o exigia. Tratava-se, porém, apenas de uma transformação
temporária dos campos de concentração em campos de trabalho forçado, fenômeno inteiramente atípico e
de curta duração.[143]) O que leva os criminosos à liderança não é tanto a sua afinidade com o pessoal da
supervisão — na União Soviética, aparentemente, os supervisores não são, como a SS, uma elite especial,
treinada para cometer crimes[144] — quanto o fato de que somente os criminosos são mandados para o
campo em virtude de alguma atividade definida. Eles, pelo menos, sabem por que estão num campo de
concentração, e, portanto, conservam ainda um resíduo da personalidade jurídica. Para os criminosos políticos, isso é apenas subjetivamente verdadeiro; seus
atos, enquanto atos e não meras opiniões ou vagas suspeitas de terceiros, ou a participação
acidental num grupo politicamente condenado, geralmente não são previstos no sistema legal do
país nem juridicamente definidos.[145]
[143] O livro de Rousset peca por seu exagero da influência dos comunistas alemães, que dominavam a
administração interna de Buchenwald durante a guerra.
[144] Ver, por exemplo, o testemunho da sra. Buber-Neumann (ex-esposa do comunista alemão Heinz Neumann),
que sobreviveu aos campos de concentração soviéticos e alemães: "Os russos nunca (...) se mostravam tão sádicos
quanto os nazistas. (...) Nossos guardas russos eram homens decentes e não sádicos, mas satisfaziam fielmente as
necessidades daquele desumano sistema" (Under two dictators).
[145] Bruno Bettelheim "Behavior in extreme situations", no Journal of Abnormal and social psycology, vol.
XXXVIII, n? 4, 1943, descreve a vaidade dos criminosos e prisioneiros políticos comparada com a atitude dos que
não haviam feito nada. Estes "eram menos capazes de suportar o choque inicial", os primeiros a se desintegrar.
Bettelheim atribui isso à sua origem na classe média.
A mistura de políticos e criminosos com que os campos de concentração da Rússia e da
Alemanha iniciaram a sua carreira foi logo acrescentado um terceiro elemento que, em breve,
iria constituir a maioria dos internos dos campos de concentração. Desde então, esse grupo mais
amplo tem consistido em pessoas que absolutamente nada fizeram que tivesse alguma ligação
racional com o fato de terem sido presas, nem em sua consciência nem na consciência dos seus
atormentadores. Na Alemanha, a partir de 1938, esse componente era representado por judeus;
na Rússia, por qualquer grupo que, por motivos que nada tinham a ver com os seus atos, havia
incorrido no desagrado das autoridades. Esses grupos, inocentes em todos os sentidos, prestam
se melhor a experiências radicais de privação de direitos e destruição da pessoa jurídica e são,
portanto, em qualidade e quantidade, a categoria mais essencial da população dos campos —
princípio que teve a sua aplicação mais ampla nas câmaras de gás, que, pelo menos por sua
enorme capacidade, não podiam destinar-se a casos individuais, mas a grandes números de
pessoas. A esse respeito, o seguinte diálogo espelha a situação do indivíduo: "Para que servem
essas câmaras de gás?" "E para que é que você nasceu?"[146] Esse terceiro grupo dos totalmente
inocentes é o que sempre leva a pior nos campos. Certos criminosos e políticos são incorporados
a essa categoria; destituídos da distinção protetora de haverem feito alguma coisa, ficam
completamente expostos à arbitrariedade. O objetivo final, parcialmente conseguido na União
Soviética e claramente visível nas últimas fases do terror nazista, é que toda a população dos
campos seja composta dessa categoria de pessoas inocentes.
[146] Rousset, op. cit.,p. 71.
Em contraste com o completo acaso com que os internos são escolhidos, existem as categorias,
inexpressivas em si, mas úteis do ponto de vista organizacional, em que geralmente são
divididos por ocasião da chegada. Nos campos alemães, essas categorias eram os criminosos, os
políticos, os elementos anti-sociais, os infratores religiosos e os judeus, cada uma com a sua
insígnia diferente. Quando os franceses criaram campos de concentração depois da Guerra Civil
Espanhola, adotaram imediatamente o método totalitário de misturar políticos com criminosos e
inocentes (no caso, os apátridas) e, a despeito da sua inexperiência, mostraram-se
extraordinariamente inventivos na criação de categorias inexpressivas de internos.[147]
[147] Quanto às condições nos campos de concentração franceses, ver Arthur Koestler, Scum oftheearth, 1941.
Originalmente destinada a evitar qualquer solidariedade entre os internos, essa técnica demonstrou-se particularmente valiosa, pois ninguém podia saber se a categoria a que pertencia era melhor ou pior que as outras, embora na Alemanha os judeus fossem, em toda e qualquer circunstância, a categoria mais baixa. O aspecto grotesco de tudo isso é que internos se identificavam com as categorias que lhes eram imputadas, como se elas fossem o último vestígio autêntico da sua pessoa jurídica. Não é de se admirar que, em 1933, um comunista saísse dos campos mais comunista do que antes, um judeu mais judeu e, na França, a esposa de um legionário mais convencida do valor da Legião Estrangeira, como se as categorias a que pertenciam lhes acenassem com o último vislumbre de tratamento previsível, como se representassem uma identidade jurídica derradeira e, portanto, fundamental.
Originalmente destinada a evitar qualquer solidariedade entre os internos, essa técnica demonstrou-se particularmente valiosa, pois ninguém podia saber se a categoria a que pertencia era melhor ou pior que as outras, embora na Alemanha os judeus fossem, em toda e qualquer circunstância, a categoria mais baixa. O aspecto grotesco de tudo isso é que internos se identificavam com as categorias que lhes eram imputadas, como se elas fossem o último vestígio autêntico da sua pessoa jurídica. Não é de se admirar que, em 1933, um comunista saísse dos campos mais comunista do que antes, um judeu mais judeu e, na França, a esposa de um legionário mais convencida do valor da Legião Estrangeira, como se as categorias a que pertenciam lhes acenassem com o último vislumbre de tratamento previsível, como se representassem uma identidade jurídica derradeira e, portanto, fundamental.
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Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.3b - O Domínio Total)
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