terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: A grande irritação - [b]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
A grande irritação 


     Mas, quando o Sr. Settembrini introduziu na conversa a palavra “justiça” e recomendou esse sublime princípio como meio preventivo contra catástrofes políticas, tanto externas como internas, evidenciou-se que o mesmo Naphta que acabava de julgar o espírito por demais elevado para que fosse possível e desejável a sua encarnação numa forma terrena punha agora em dúvida precisamente o espírito e se empenhava em denegri-lo. Justiça? Era ela uma ideia digna de adoração? Uma ideia divina? Uma ideia de primeira categoria? Deus e a natureza eram injustos, tinham favoritos, selecionavam segundo as suas simpatias, concediam perigosas distinções a um e preparavam a outro uma sorte fácil e banal. E o homem dotado de vontade? Para ele, a justiça era, de um lado, uma franqueza paralisante, a dúvida em si, e de outro, uma fanfarra que o chamava para atos inescrupulosos. Desde que o homem, para manter-se dentro da esfera da moral, tinha de corrigir esta “justiça” por aquela – onde ficavam a incondicionalidade e o radicalismo da ideia? Ademais, era-se “justo” para com um ou outro dos dois pontos de vista. O resto não passava de liberalismo, e com isso não se arranjava mais nada hoje em dia. Numa palavra, a justiça era um termo oco da retórica burguesa, e para chegar à ação era preciso saber de que justiça se tratava – daquela que desejava conceder a cada um o que lhe pertencia ou da outra que queria dar parte igual a todos.  
     Escolhemos a esmo, das discussões sem fim, um exemplo para demonstrar a maneira como Naphta trabalhava por perturbar a razão. No entanto, era ainda pior o modo como falava da ciência, na qual não acreditava. Não tinha fé na ciência – dizia – visto o homem ter plena liberdade de crer ou não crer nela. Essa era uma crença como qualquer outra, apenas mais tola e mais prejudicial. A própria palavra “ciência” era a expressão do mais estúpido realismo que não se envergonhava de aceitar e gastar como moeda sonante os reflexos mais que duvidosos que os objetos sofriam do intelecto humano, e de preparar com eles a mais lamentável e a mais insossa doutrina que já se impingiu à humanidade. Não constituía, porventura, o conceito de um mundo material existente por si só a mais ridícula de todas as autocontradições? Ora, a ciência natural moderna, como dogma, baseava-se exclusivamente no postulado metafísico, segundo o qual o tempo, o espaço e a causalidade – a saber, as formas de conhecimento dentro das quais se passam os fenômenos do mundo – eram condições reais, existentes independentemente do nosso conhecimento. Essa afirmação monista era o mais berrante desaforo que já foi pespegado ao espírito. Em linguagem monista, o tempo, o espaço e a causalidade chamavam-se evolução, e com isso estava-se à frente do dogma central da pseudo-religião livre-pensadora e ateística, por meio da qual se tencionava abolir o primeiro Livro de Moisés e opor a sabedoria esclarecedora a uma fábula estultificante, como se Haeckel tivesse estado presente no momento em que nascia a Terra. Empirismo? O éter universal era, acaso, exato? O átomo, essa graciosa brincadeira matemática em torno da “parcela menor e indivisível” – existia uma prova que o demonstrasse? A teoria do espaço e do tempo infinitos fundava-se certamente na experiência; ou talvez não? Com efeito, qualquer pessoa que soubesse pensar logicamente seria levada a experiências curiosas e a resultados divertidos com esse dogma do espaço e do tempo infinitos e reais; obteria precisamente o resultado: nada. Perceberia que o tal realismo era genuíno niilismo. Por quê? Pela simples razão de a relação entre qualquer grandeza e o infinito ser zero. No infinito não existia medida, e na eternidade não havia nem duração nem modificação. No espaço infinito, onde todas as distâncias seriam matematicamente iguais a zero, não era possível conceber nem sequer dois pontos situados um ao lado do outro, e ainda menos dois corpos, para não falar de um movimento. Ele, Naphta, fazia questão de constatar isso, para contrariar o atrevimento com que a ciência materialista apresentava os disparates astronômicos e o seu palavrório frívolo acerca do universo como se fossem conhecimentos absolutos. Coitada da humanidade, que, em face de uma exposição ostensiva de cifras vazias, deixou que lhe impingissem o sentimento da sua própria nulidade e admitiu que a privassem do sentido patético da sua importância! Talvez fosse ainda tolerável que a razão e o conhecimento humanos se mantivessem dentro da esfera terrena e nesse campo tratassem como reais as suas experiências na exploração do objetivo e do subjetivo. Mas quando ultrapassassem esses limites e estendessem a mão para o enigma eterno, dedicando se à chamada cosmologia ou cosmogonia, levariam a brincadeira um pouco longe, e a sua presunção chegaria ao cúmulo do grotesco. Que absurdo blasfemo querer calcular a “distância” entre um astro e a Terra em trilhões de quilômetros ou também em anos-luz e imaginar que por meio dessas mentiras matemáticas se pudesse abrir ao espírito humano a vista para o infinito e o terreno, quando, em realidade, o infinito nada, absolutamente nada tinha que ver com grandezas, e a eternidade, nada com a duração e com os lapsos de tempo. Pelo contrário, o infinito e a eternidade, longe de serem conceitos da ciência natural, representavam justamente a abolição daquilo que chamamos natureza. A ingenuidade de uma criança que tomasse as estrelas por buracos no dossel celeste, através dos quais penetrasse a claridade eterna, lhe parecia mil vezes preferível a toda aquela lengalenga oca, disparatada, presunçosa, que a ciência monista produzia com respeito ao “universo”.
     Settembrini perguntou se Naphta, por sua parte, partilhava dessa crença quanto às estrelas, ao que o jesuíta respondeu que se reservava o direito da humildade e da liberdade do ceticismo. Essas palavras davam mais um ensejo para formar uma ideia daquilo que ele entendia por “liberdade”, e deixavam entrever aonde conduziria esse conceito. Se ao menos o Sr. Settembrini não tivesse motivos ponderáveis para recear que Hans Castorp achasse essas coisas dignas de serem ouvidas!
     A malícia de Naphta ficava à espreita de oportunidade para descobrir as fraquezas do progresso dominador da natureza e para demonstrar que os seus pioneiros e campeões sofriam recaídas muito humanas no irracional. Os aviadores, dizia ele, eram na maioria uns indivíduos suspeitos, de pouco valor, e sobretudo muitíssimo supersticiosos. Costumavam levar consigo a bordo dos aviões mascotes ou uma gralha, cuspiam três vezes em todas as direções e calçavam as luvas dos seus predecessores afortunados. Tal insensatez primitiva era, porventura, compatível com a concepção do mundo em que se alicerçava a sua profissão?... A contradição que Naphta acabava de revelar divertia-o, causava-lhe prazer, de maneira que insistia nessa tecla por muito tempo. Mas todos esses exemplos não são senão casos isolados do sem-número de ditos hostis proferidos por Naphta. Abandonemo-los para contar fatos infelizmente muito reais.
     Certa tarde de fevereiro, os cavalheiros se reuniram para uma excursão a Monstein, localidade situada a uma hora e meia de trenó da sua morada habitual. O grupo era formado por Naphta, Settembrini, Hans Castorp, Ferge e Wehsal. Foram em dois trenós, cada qual tirado por um só cavalo. No primeiro embarcaram Hans Castorp e o humanista, no segundo Naphta, Ferge e Wehsal, que se instalou na boléia, ao lado do cocheiro. Todos estavam bem agasalhados. Às três horas partiram do domicílio dos externos. Os guizos soavam simpaticamente através da paisagem silenciosa sob a sua coberta de neve, enquanto os trenós seguiam ao longo da encosta direita, passando por Frauenkirch e Glaris, rumo ao sul. Nuvens carregadas de neve aproximavam-se rapidamente, vindas dessa mesma direção, de modo que pouco depois desapareceu todo o azul do céu, salvo uma estreita nesga atrás deles, por cima da cordilheira Rética. O frio era intenso. As montanhas estavam envoltas em bruma. A estrada que percorriam, essa plataforma angusta, sem balaustrada, construída entre a parede e o abismo, subia uma vertente íngreme, coberta de abetos. Os cavalos avançavam a passo. Frequentemente vinham a seu encontro desportistas com trenós, deslizando pela encosta, e que desmontavam para dar-lhes passagem. Por detrás das curvas ressoavam em delicada advertência guizos estranhos. Trenós puxados por dois cavalos atrelados um atrás do outro passavam por eles, sendo então preciso esquivar-se com muita cautela. Perto da meta da viagem descortinava-se uma linda vista sobre um trecho rochoso da estrada de Zügen. Defronte ao pequeno hotel de Monstein, que se chamava Kurhaus, desembrulharam-se dos cobertores e caminharam alguns passos para poder contemplar o Stulsergrat. A gigantesca escarpa, de três mil metros de altura, estava escondida na bruma. Só se via em alguma parte um pico alto como o céu, superterreno, por assim dizer, recordando um longínquo Valhala, sagrado e inacessível. Hans Castorp estava cheio de admiração por esse espetáculo e exortou os outros a partilhar com ele desse sentimento. Foi ele quem, tomado de uma sensação de humildade, pronunciou a palavra “inacessível”, dando com isso ao Sr. Settembrini uma oportunidade para observar que aquele cume já havia sido escalado. Era, aliás, uma coisa que quase não existia mais, essa da inacessibilidade e dos lugares em que o homem ainda não houvesse posto o pé. Naphta retrucou que isso era um pequeno exagero e uma gabolice. E citou o monte Everest, que por enquanto opunha uma negativa glacial à arrogância dos homens e parecia querer obstinar-se nessa reserva. O humanista mostrou-se agastado. O grupo voltou ao Kurhaus, à frente do qual se achavam além dos seus próprios trenós mais alguns outros, desatrelados.
     No primeiro andar havia quartos numerados, onde a gente podia hospedar-se. Era também ali que estava situada a sala de refeições, de aspecto rústico, bem aquecida. Os excursionistas encarregaram a hoteleira solícita de lhes trazer uma pequena refeição: café, mel, pão branco e bolo de peras, a especialidade do lugar. Mandaram servir vinho tinto aos cocheiros. As outras mesas estavam ocupadas por turistas suíços e holandeses.
     Gostaríamos de afirmar que em torno da mesa dos nossos cinco amigos o café quente, muito digno de elogios, houvesse originado uma conversa mais elevada. Mas isso seria inexato, uma vez que essa conversa era em realidade um solilóquio de Naphta, que a monopolizou depois de umas poucas palavras com que os outros haviam contribuído para ela, um monólogo pronunciado de forma bastante estranha, censurável do ponto de vista das convenções, visto o ex-jesuíta se dirigir exclusivamente a Hans Castorp, doutrinando-o com muita amabilidade, ao passo que voltava as costas a seu outro vizinho, que era o Sr. Settembrini, e também não prestava a menor atenção aos dois outros senhores.
     Seria difícil definir qual era o tema das suas improvisações, que Hans Castorp acompanhava sacudindo a cabeça em sinal de meia aprovação. Não havia, em realidade, um assunto único. A palestra vagava livremente pela esfera do espírito, roçando isto e aquilo, empenhada, essencialmente, em demonstrar, de forma desanimadora, a ambiguidade dos fenômenos espirituais da vida, bem como a natureza irisante e a debilidade combativa das grandes ideias derivadas deles. Esforçava-se por tornar evidente que o absoluto se apresentava neste mundo em roupas muitíssimo cambiantes.
     A rigor se poderia dizer que a sua conferência se ocupava do problema da liberdade, que ele tratava com o propósito de criar confusão. Entre outras coisas, mencionamos o Romantismo e o fascinante sentido duplo, inerente a esse movimento europeu de princípios do século XIX, em face do qual fracassariam conceitos como “reação” ou “revolução”, a não ser que se reunissem num conceito superior. Naturalmente era ridículo querer associar o conceito do “revolucionário” apenas ao progresso e ao esclarecimento vitorioso. O Romantismo europeu tinha sido, antes de mais nada, um movimento libertador, de caráter anticlassicista e antiacadêmico, dirigido contra o gosto da França antiga, contra a velha escola da razão, cujos paladinos eram ridicularizados como cabeças de perucas empoadas.
     E Naphta veio a falar das Guerras de Libertação, do entusiasmo fichteano, do levantamento delirante, poético, de um povo contra uma tirania insuportável, que, desgraçadamente (ah, ah!), era a encarnação da liberdade, quer dizer, das ideias da Revolução. Que coisa divertida! Cantando a altas vozes, o povo erguera o braço para esmagar a tirania revolucionária em prol da opressão reacionária dos príncipes; e isso tinha sido feito em nome da liberdade!
     Aí o jovem ouvinte podia notar a diferença ou talvez a oposição existente entre a liberdade exterior e a interior. E ao mesmo tempo achava-se diante da escabrosa questão de saber que forma de servidão era mais ou (ah, ah!) menos compatível com a honra de uma nação.
     Em última análise, a liberdade era um conceito do Romantismo antes do que da Época das Luzes, pois com aquele tinha em comum o entrelaçamento inextricável dos impulsos de expansão coletiva e do ensimesmamento apaixonadamente individualístico. A sede individualística de liberdade originara o culto histórico-romântico do nacional, culto esse que era belicoso e que o liberalismo humanitário tachava de sinistro, posto que ele mesmo nada fizesse senão pregar o individualismo, somente de maneira um pouco diversa. O individualismo era romântico-medieval na sua concepção da infinita, da cósmica importância do indivíduo; dela resultavam a doutrina da imortalidade da alma, a teoria geocêntrica e a astrologia. Por outro lado, era o individualismo um aspecto do humanismo de tendências liberalísticas, que inclinava para a anarquia e queria, em todo caso, proteger o querido indivíduo contra o destino de ser imolado à coletividade. Um e outro aspecto eram individualismo, e esse termo servia para muita coisa.
     Mas devia-se admitir que o entusiasmo libertador tinha produzido os mais brilhantes adversários da liberdade, os mais engenhosos campeões do passado, no combate ao progresso impiamente destrutor. Naphta citou Arndt, que amaldiçoara o industrialismo e enaltecera a nobreza; mencionou também Görres, o autor da Mística cristã. A mística, acaso, nada tinha que ver com a liberdade? Não fora ela antiescolástica, antidogmática, anticlerical? Embora fosse forçoso considerar a hierarquia uma potência libertadora, desde que opusera um dique à monarquia absoluta... A mística da última fase da Idade Média pusera à prova o seu caráter liberal como precursora da Reforma. Sim, da Reforma (ah, ah!), que, por sua vez, havia sido um amálgama indissolúvel de liberdade e de reação medieval...
     E a obra de Lutero? Ah, sim, esta obra tinha o mérito de patentear com a mais crua nitidez a natureza dúbia da própria ação, da ação em geral. Sabia o ouvinte de Naphta o que era uma ação? Uma ação fora, por exemplo, o assassínio do Conselheiro de Estado Kotzebue pelo estudante Sand. Que fora aquilo que, para empregar a linguagem da criminologia, pusera a arma na mão do jovem Sand? O amor à liberdade, naturalmente! Mas, diante de uma observação mais detida, manifestava-se que, em realidade, não tinha sido esse amor, senão o fanatismo moral e o ódio à estrangeirice frívola. Por outro lado estivera Kotzebue a serviço dos russos, isto é, a serviço da Santa Aliança, de maneira que Sand talvez, apesar de tudo, o tivesse apunhalado em prol da liberdade... O que, no entanto, também parecia improvável, em face da circunstância de haver jesuítas entre os seus amigos mais íntimos. Em suma, fosse o que fosse a ação, em todo caso era um meio pouco adequado para expressar-se com clareza e contribuía pouco para resolver os problemas espirituais. 

– Posso me permitir a pergunta: quando o senhor tenciona terminar com essas indecências?

     Quem perguntara assim era o Sr. Settembrini, e isso num tom muito veemente. Mantivera-se quieto na sua cadeira, tamborilando na mesa e torcendo os bigodes. Mas aquilo lhe enchia as medidas. Sua paciência estava esgotada. Empertigava-se, numa posição mais do que ereta, com o rosto empalidecido. Era como se, apesar de sentado, se colocasse nas pontas dos pés, de modo que apenas as coxas tocavam o assento. Com os olhos brilhantes encarava o inimigo que acabava de voltar-se para ele com fingida surpresa. 

– Como houve por bem o senhor expressar-se? – foi a pergunta com que Naphta protestou. 
– Eu houve por bem... – disse o italiano, engolindo em seco – eu hei por bem declarar que estou decidido a impedir que o senhor continue a importunar a juventude indefesa com suas palavras equívocas! 
– Convido o senhor a ponderar o que diz. 
– Senhor, dispenso tal convite. Estou acostumado a ponderar o que digo, e a minha expressão corresponde exatamente às circunstâncias, quando afirmo que o seu jeito de perturbar o espírito da juventude já de per si vacilante, de seduzi-la e de debilitar-lhe a moral, é uma infâmia e que palavras não são suficientes para castigá-lo devidamente...

     Ao pronunciar a palavra “infâmia”, Settembrini golpeou a mesa com a palma da mão. A seguir empurrou a cadeira para trás e levantou-se, dando dessa forma aos outros o sinal para imitá-lo. As pessoas que se achavam nas outras mesas observavam a cena com perplexidade; eram os holandeses, visto os suíços já terem partido.
     Todos os componentes do nosso grupo encontravam-se, pois, de pé, em atitude tensa, Hans Castorp e os dois adversários, e em frente deles Ferge e Wehsal. Todos os cinco estavam pálidos, com os olhos arregalados e as bocas crispadas. Não poderiam os três desinteressados ter feito uma tentativa para intervir num sentido conciliador, afrouxando a tensão por meio de uma piada e arranjando tudo mediante um apelo humano? Não fizeram tal tentativa. O seu estado de espírito opunha-se a isso. Quedavam-se de pé, trêmulos, e, sem querer, suas mãos se fechavam. O próprio A. K. Ferge, que declaradamente nada entendia de quaisquer coisas sublimes e de antemão renunciava a imaginar o alcance da querela – também ele estava convencido de que desta vez não havia lugar para transigências e que as pessoas que, elas mesmas fascinadas, presenciavam a contenda, nada podiam fazer senão deixar as coisas tomarem seu curso normal. Seu bigode hirsuto e bonachão subia e descia em movimentos rápidos.
     Reinava completo silêncio, de forma que se podia ouvir como Naphta rangia os dentes. Isso representava para Hans Castorp uma experiência semelhante àquela dos cabelos eriçados de Wiedemann. Pensara ele que “ranger os dentes” fosse somente uma locução e não um fato que se pudesse produzir. Mas, nesse momento, o rangido ressoava realmente através do silêncio, um ruído bastante desagradável, selvagem e fantástico, que, no entanto, dava a prova de um formidável domínio de si próprio; pois, longe de gritar, o jesuíta disse em voz baixa, apenas com uma quase risada ofegante: 

– Infâmia? Castigar? Será que os burros virtuosos se metem a dar coices? Levamos a polícia pedagógica da civilização a desembainhar a espada? Eis o que chamo um êxito, facilmente obtido, logo de início, como acrescento com desdém, visto que uma ironia leve foi suficiente para mobilizar a virtude vigilante! Quanto ao resto, senhor, virá a seu tempo. Inclusive o tal castigo, sim, senhor! Espero que os seus princípios sociais não o impeçam de saber o que me deve. Caso contrário, ver-me-ei forçado a pôr esses princípios à prova por meios que...

     Um gesto terminante de Settembrini fez com que Naphta continuasse: 

– Ah, já vejo que isso não será necessário. Eu estou no seu caminho, o senhor está no meu. Muito bem, liquidemos essa pequena diferença num lugar adequado. De momento só quero dizer uma coisa: o seu temor devoto pela ideologia escolástica da revolução jacobina vê um crime pedagógico na minha maneira de induzir a juventude a duvidar, de derrubar as categorias e de privar as ideias da dignidade acadêmica da virtude. Esse temor é por demais compreensível, pois a sua humanidade saiu de moda – tenha certeza disso – saiu de moda, acabou-se! Hoje em dia já não passa de um rabicho, uma sensaboria classicista, um ennui espiritual que faz bocejar, e que a nova revolução, a nossa, senhor, está a ponto de abolir. Quando, na nossa função de educadores, semeamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais imaginou o seu modesto espírito esclarecido, sabemos perfeitamente o que estamos fazendo. Unicamente do ceticismo radical, do caos moral nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Isso lhe digo para justificar-me e para instruí-lo. O resto pertence a um outro capítulo. O senhor terá notícias minhas. 
– Estou ansioso por recebê-las, senhor! – gritou Settembrini por trás de Naphta, que, abandonando a mesa, se encaminhava ao cabide para apanhar o seu casaco de pele. A seguir, o maçom deixou-se cair pesadamente na cadeira e apertou o coração com ambas as mãos.
Distruttore! Cane arrabiato! Bisogna ammazzarlo! – sibilou arfando. 

     Os outros continuavam de pé em torno da mesa. Os bigodes de Ferge prosseguiam subindo e descendo. Wehsal deixava pender obliquamente a mandíbula inferior. Hans Castorp arremedava o jeito do avô quando escorava o queixo no colarinho, porque sentia a nuca tremer. Todos estavam pensando no inesperado desfecho da sua excursão. Todos, sem exceção do Sr. Settembrini, pensavam também na circunstância feliz de terem alugado dois trenós em vez de um em comum, o que pelo menos facilitava o regresso. Mas que haveria depois? 

– Ele provocou o senhor para um duelo – disse Hans Castorp com o coração angustiado. 
– Com efeito – respondeu Settembrini, erguendo o olhar para o jovem que se achava de pé à sua frente. Mas logo o desviou dele e descansou a cabeça na mão. 
– O senhor aceita? – quis Wehsal saber. 
– Que pergunta! – retrucou Settembrini, lançando também a ele um rápido olhar. – Senhores – continuou então, levantando-se completamente controlado –, lastimo que o nosso passeio tenha chegado a este fim, mas, na vida que vivemos, todo homem deve andar preparado para essa espécie de incidentes. Teoricamente desaprovo o duelo. Por índole sou obediente à lei... Na prática, porém, o caso é diferente, e existem situações onde... existiam contrastes que... Numa palavra, estou à disposição desse cavalheiro. Ainda bem que na minha juventude pratiquei um pouco de esgrima. Algumas horas de treino hão de me devolver a agilidade do punho. Vamos embora! A respeito de tudo o mais a gente se porá de acordo. Acho que aquele senhor já terá dado ordem para atrelar.
   
continua pág 461...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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