segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: A grande irritação - [a]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
A grande irritação 


     À medida que se sucediam os anos, um certo quê começou a pairar sobre o Sanatório Berghof, um espírito que, como Hans Castorp vagamente sentia, era o descendente direto do demônio cujo nome maligno já citamos em outra ocasião. O jovem estudara aquele demônio com a curiosidade irresponsável de um viajeiro em busca de formação e até descobrira na sua própria alma perigosas aptidões para desempenhar um papel importante no culto abominável que todo mundo lhe devotava. Segundo a sua índole, o nosso herói não era feito para se entregar ao vício que a essa altura dos acontecimentos se pôs a grassar, ao passo que antes só existira, tal e qual aquele outro, endemicamente ou em surtos espaçados. Contudo notou Hans Castorp, com espanto, que bastava relaxar um pouquinho para que, também ele, na sua fisionomia, nas suas palavras, no seu comportamento, sucumbisse a uma infecção à qual ninguém, nesse ambiente, conseguia subtrair-se.
     Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espírito rixento. Uma irritação aguda. Uma impaciência indizível. Uma tendência geral para discussões venenosas, para acessos de raiva e mesmo para lutas corporais. Querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte surgiam todos os dias entre indivíduos ou grupos inteiros, e o característico era que aqueles que não tomavam parte nos conflitos, ao invés de sentir-se desgostosos diante da conduta dos respectivos adversários ou de servir de pacificadores, simpatizavam com a explosão de sentimentos e intimamente se abandonavam à mesma vertigem. Ficavam pálidos ou estremeciam ao ver uma cena dessas. Os olhos brilhavam agressivamente. As bocas crispavam-se de tanta paixão. Invejava-se aos protagonistas do momento o direito, a oportunidade de berrar. O premente desejo de imitá-los atormentava as almas e os corpos, e quem não tinha a força necessária para refugiar-se na solidão era irresistivelmente arrastado pelo torvelinho. As brigas por motivos fúteis, as recriminações mútuas em presença das autoridades empenhadas em reconciliar os digladiantes, mas que sucumbiam elas próprias, com espantosa facilidade, vítimas da tendência geral para a gritaria grosseira – tudo isso se tornara frequente no Sanatório Berghof. Os que saíam de casa mais ou menos tranquilos eram incapazes de prever em que estado voltariam. Uma pensionista que tinha o seu lugar à mesa dos “russos distintos”, moça muito elegante da cidade provinciana de Minsk, ainda jovem e apenas levemente enferma – só três meses lhe haviam sido impostos –, desceu certo dia à vila para comprar alguma coisa na loja francesa de blusas. Ali teve um atrito tão violento com a modista que, ao regressar possuída da mais viva excitação, teve uma forte hemoptise e, tendo chegado a esse ponto, era agora incurável. Mandaram vir o marido e informaram-no de que ela estava condenada a permanecer para sempre ali em cima.
     Este é um exemplo do estado de espírito que se alastrava. Muito a contragosto citaremos outros casos. Um ou outro leitor talvez se lembre ainda de certo colegial, ou ex-colegial, que usava óculos de aros redondos e comia à mesa da Srª. Salomon, aquele rapaz macilento que tinha o hábito de cortar toda a comida em pedaços, a ponto de obter uma espécie de picadinho, que então engolia vorazmente, com os cotovelos apoiados na mesa, interrompendo-se apenas para passar de vez em quando o lenço por trás das lentes espessas. Assim fizera durante todo o tempo, continuando a ser um colegial, ou um ex-colegial, sempre abarrotando-se de comida e enxugando os olhos, sem dar motivo para se prestar à sua pessoa uma atenção mais do que passageira. Um belo dia, porém, durante o café da manhã, teve, inopinadamente, sem mais nem menos, um ataque de cólera que causou escândalo geral e agitou o ambiente da sala de refeições. Ouviu-se um barulho que partia do lugar onde se achava o rapaz. E ali estava ele sentado, lívido, a gritar, dirigindo-se à anã que se encontrava de pé a seu lado. – É mentira sua! – gritou em voz esganiçada. – O chá está frio! O chá que me trouxe está frio como gelo. Não o quero! Prove-o você mesma antes de mentir. Então vai ver que é uma água morna e já usada, intragável para gente que se preze. Como se pode atrever a servir-me um chá gelado assim, como pode ter a ousadia de me oferecer essa porcaria morna na esperança de que eu beba?! Eu não! Não tomarei isso! – vociferou e meteu-se a esmurrar a mesa com ambos os punhos, de modo que a baixela tinia e dançava. – Eu quero é chá quente! Quero chá fervendo. Tenho direito a isso perante Deus e os homens! Não aceito isto. Faço questão que me sirvam chá quentíssimo! Antes morrer imediatamente do que tomar um só gole de... Maldita aleijada! – uivou de repente, abandonando, por assim dizer, de golpe, os últimos restos de controle e avançando com arrebatamento até os derradeiros limites da raiva. Ameaçou Emerentia com os punhos cerrados e mostrou-lhe literalmente os dentes cobertos de espuma. Prosseguiu dando murros na mesa, batendo o pé no chão e urrando aqueles “Eu quero” ou “Eu não quero”, enquanto na sala se repetia o espetáculo de sempre. Uma simpatia veemente, de alta intensidade, estava sendo dedicada ao colegial raivoso. Alguns pensionistas acabavam de se levantar de um pulo. Enquanto contemplavam o rapaz, também eles tinham os punhos cerrados, os dentes rilhando e os olhos chamejantes. Outros permaneciam sentados, pálidos, com os olhos baixos, sacudidos de tremor. E esse estado persistia ainda, quando o colegial, completamente exausto, havia muito se achava diante de uma xícara de chá novo, sem tocar nela.
     Que era isso?
     Um homem entrou na comunidade do Berghof, um trintão, antigo comerciante, febril desde muito tempo e que passava os anos indo de sanatório em sanatório. Era inimigo dos judeus, anti-semita por princípio e por esporte; era-o com um fanatismo soberbo, e essa atitude negativa constituía todo o seu orgulho e o conteúdo da sua vida. Tinha sido comerciante; já não o era, não era nada no mundo a não ser inimigo dos judeus. Estava gravemente enfermo; sofria de penosos ataques de tosse; às vezes dava a impressão de espirrar pelos pulmões, um só espirro agudo, breve, sinistro. Mas não era judeu, e precisamente isso é que nele havia de positivo. Chamava-se Wiedemann, tinha um nome cristão e não um nome impuro. Era assinante de uma revista intitulada A Tocha Ariana, e dizia coisas como as seguintes: 

– Hospedei-me no Sanatório X., em B... Estou a ponto de me instalar no alpendre de repouso. Quem é que vejo na espreguiçadeira à minha esquerda? O Sr. Hirsch! E quem está deitado à direita? O Sr. Wolf! Claro que parti imediatamente... – E assim por diante.

“Logo você!”, pensou Hans Castorp, cheio de aversão, ao ouvir isso.

     Wiedemann tinha um característico olhar rápido e insidioso. Literalmente, era como se andasse com uma borla suspensa diante do nariz, em que cravasse os olhos com malícia, sem nada enxergar atrás dela. A ideia fixa, absurda, que o acossava, convertera-se numa desconfiança pruriente, numa constante mania de perseguição, que o impelia a catar qualquer impureza oculta ou disfarçada que porventura existisse a seu redor, e a expô-la ao desprezo público. Fosse onde fosse, remoqueava, suspeitava, detratava. Em suma, o que lhe absorvia os dias era a tarefa de levar ao pelourinho todas as criaturas vivas que não tivessem aquela qualidade única que ele possuía.  
     As circunstâncias internas que estamos empenhados em descrever agravaram extraordinariamente a birra desse homem, e como fosse inevitável que topasse também aqui em cima com criaturas que padecessem do defeito de que ele, Wiedemann, estava livre, essas circunstâncias contribuíram para provocar uma cena lamentável que Hans Castorp não pôde deixar de presenciar, e que nos oferece mais um exemplo daquilo que estamos explanando.
     É que existia por ali um outro homem. Não havia nada que desmascarar nele. O caso era claro. O homem chama-se Sonnenschein, e como não se pudesse imaginar nome mais imundo, a pessoa de Sonnenschein formava, desde o primeiro dia, a borla suspensa diante do nariz de Wiedemann, e que este olhava de esguelha, com olhares rápidos e maliciosos; a borla em que batia com a mão, menos para afastá-la do que para fazê-la balouçar a fim de se irritar ainda mais com ela.
     Sonnenschein tinha sido comerciante, tal qual o outro. Também ele estava gravemente enfermo e distinguia-se por uma suscetibilidade doentia. Era homem amável, nada estúpido, de índole bem-humorada. Mas odiava Wiedemann, devido àquelas indiretas e batidas na borla; odiava-o cegamente. E certa tarde, todo mundo acudiu correndo ao vestíbulo onde Wiedemann e Sonnenschein se engalfinhavam de modo desregrado e bestial.
     Era um espetáculo medonho, deplorável. Os dois atracavam-se como meninos, mas com o desespero de homens adultos que chegaram até esse ponto. Arranhavam-se a cara; agarravam se pela garganta e pelo nariz, enquanto se golpeavam mutuamente; cingiam-se com os braços; revolviam-se pelo chão, com uma seriedade pavorosa, radical; cuspiam, davam pontapés, puxões e socos, espumando de raiva. O pessoal da “administração”, que acorreu às pressas, teve muito trabalho em separar os contendores enlaçados e ferrenhos. Wiedemann, babando e deitando sangue, com o rosto atoleimado de tanta cólera, apresentava o fenômeno dos cabelos eriçados. Hans Castorp nunca vira tal coisa e pensava que aquilo não acontecesse em realidade. O Sr. Wiedemann, cujos cabelos conservavam-se eriçados, abandonou o recinto precipitadamente, enquanto o Sr. Sonnenschein, com um dos olhos desaparecido sob uma mancha azul, e com uma lacuna sangrenta na coroa de cabelos pretos que lhe rodeava a calva, era conduzido ao escritório, onde se sentou e chorou amargamente com o rosto enterrado entre as mãos.
     Foi o que se deu entre Wiedemann e Sonnenschein. Todos os que haviam assistido a essa cena continuaram trêmulos durante horas a fio. Em confronto com tal miséria, é relativamente agradável falar de um autêntico ajuste de honra, que se desenrolou nesse mesmo período e merece essa qualificação até as raias do ridículo, por causa da solenidade formal com que foi tratado. Hans Castorp não presenciou as diferentes fases do caso, mas informou-se sobre seu curso complicado e dramático por meio de documentos, declarações e termos referentes à questão, cujas cópias eram difundidas no Sanatório Berghof e fora dele, não só em Davos, no cantão e no país, mas também no estrangeiro, inclusive na América, e remetidas mesmo a pessoas a quem certamente essa história não despertaria o menor interesse.
     Era um assunto polaco, uma querela de honra, originada num grupo de poloneses que recentemente se reunira no Berghof. Era uma verdadeira coloniazinha que ocupava a mesa dos “russos distintos”. (Hans Castorp – seja dito de passagem – já não tinha o seu lugar, ali, mas passara, no decorrer do tempo, pelas mesas da Kleefeld e da Salomon, indo parar na da Srta. Levi.) Aquela roda era de tal modo elegante, cavalheiresca e polida, que o observador só podia arregalar os olhos e preparar-se intimamente para toda sorte de incidentes. Havia lá um casal, bem como uma senhorita que mantinha relações amigáveis com um dos cavalheiros. O resto do grupo era formado exclusivamente por cavalheiros. Chamavam-se Von Zutawski, Cieszynski, Von Rosinski, Michael Lodygowski, Leo von Asarapetian, etc. Ora, aconteceu que no restaurante Berghof um certo Japoll, ao beber champanha em companhia de dois outros cavalheiros, fizera com respeito à esposa do Sr. von Zutawski e à Srta. Krylow, amiga íntima do Sr. Lodygowski, considerações que não é possível repetir. Disso resultaram as providências, os atos e as formalidades que constituíam o conteúdo das atas distribuídas e remetidas a todo mundo. Hans Castorp lia o seguinte:

“Declaração traduzida do original polonês: A 27 de março de 19..., o Sr. Stanislav von Zutawski dirigiu-se aos senhores Dr. Antoni Cieszynski e Stefan von Rosinski, solicitando-lhes que fossem em seu nome ter com o Sr. Kasimir Japoll, para pedir-lhe, em conformidade com o código de honra, satisfação pela grave ofensa e difamação que o Sr. Kasimir Japoll infligiu à Srª. Jadwiga von Zutawski, sua esposa, por ocasião de uma conversa com os senhores Janusz Teofil Lenart e Leo von Asarapetian.
“Quando o Sr. von Zutawski há poucos dias teve por via indireta conhecimento da referida conversa, ocorrida em fins de novembro do ano passado, fez imediatamente o necessário para obter a mais absoluta certeza quanto aos fatos e ao caráter da ofensa perpetrada. No dia de ontem, a 27 de março de 19..., a difamação e a ofensa foram confirmadas pela boca do Sr. Leo von Asarapetian, testemunha auricular da conversa no decorrer da qual foram pronunciadas as palavras e insinuações ofensivas. Em virtude disso, o Sr. von Zutawski viu-se induzido a dirigir se, sem perda de tempo, aos abaixo-assinados, a fim de confiar-lhes o mandato para instaurar um processo contra o Sr. Kasimir Japoll perante um tribunal de honra. 
“Os abaixo-assinados fazem a seguinte declaração:
“1.° – Baseando-se no termo lavrado à instância de uma das partes no dia 9 de abril de 19..., redigido em Lemberg pelos Srs. Zdzistaw Zygulski e Tadeusz Kadyi, na demanda do Sr. Ladislaw Goduleczni contra o Sr. Kasimir Japoll, atendo-se, outrossim, à declaração do Tribunal de Honra, pronunciada a 18 de junho de 19..., em Lemberg, no mesmo caso, verificam que ambos esses documentos acham-se em completo acordo quanto ao fato de que o Sr. Kasimir Japoll, em virtude das suas reiteradas faltas às exigências da honra, não pode ser considerado cavalheiro. 
“2.° – Os abaixo-assinados tiram as últimas consequências do acima relatado, deduzindo ser absolutamente impossível julgar o Sr. Kasimir Japoll capaz de dar uma satisfação de qualquer espécie. 
“3.° – No que se refere às suas próprias pessoas, os abaixo-assinados são de parecer que é inadmissível instaurar perante um tribunal de honra um processo contra um homem que se colocou fora do terreno da honra, e intervir num assunto dessa espécie. 
“Em face dessa situação, os abaixo-assinados chamam a atenção do Sr. Stanislaw von Zutawski para o fato de ser inútil defender os seus direitos contra o Sr. Kasimir Japoll mediante um processo de honra e aconselham-no a recorrer à justiça criminal, a fim de evitar futuros prejuízos que lhe possam ser causados por parte de uma personalidade tão incapaz de dar a devida satisfação como o é o Sr. Kasimir Japoll. – Datado e assinado: Dr. Antoni Cieszynski, Stefan von Rosinski.” 

     Além disso, Hans Castorp teve oportunidade de ler o seguinte: 

“Ata das testemunhas do incidente havido entre os senhores Stanislaw von Zutawski e Michael Lodygowski, de um lado, e os senhores Kasimir Japoll e Janusz Teofil Lenart, do outro, no bar do cassino de D., a 2 de abril de 19..., entre as 7,30 e as 7,45 da tarde. 
“O Sr. Stanislaw von Zutawski, depois de refletir maduramente sobre as declarações feitas pelos seus representantes, os senhores Dr. Antoni Cieszynski e Stefan von Rosinski, com referência ao caso do Sr. Kasimir Japoll, chegou à convicção de que a recomendada denúncia criminal contra o Sr. Kasimir Japoll não lhe poderia dar plena satisfação pela grave ofensa e difamação de sua esposa Jadwiga, 
“1.° – considerando que há justas razões para temer que o Sr. Kasimir Japoll no momento preciso deixe de comparecer perante o tribunal, e que a sua perseguição ulterior se possa tornar não somente difícil, senão até impossível, dada a sua nacionalidade austríaca, e
“2.° – considerando que uma condenação judicial do Sr. Kasimir Japoll não poderia expiar a ofensa pela qual este senhor procurou aviltar caluniosamente o nome e a estirpe do Sr. Stanislaw von Zutawski e de sua esposa Jadwiga; 
“em vista disso, o Sr. Stanislaw von Zutawski escolheu o caminho mais breve, que, segundo a sua convicção, era também o mais radical e, devido às circunstâncias, o mais oportuno, especialmente após ter recebido, por via indireta, a informação de que o Sr. Kasimir Japoll tencionava partir desta cidade no dia seguinte. 
“Assim sendo, encaminhou:se a 2 de abril de 19..., entre as 7,30 e as 7,45 da tarde, ao American Bar do cassino daqui, acompanhado de sua esposa Jadwiga e dos senhores Michael Lodygowski e Ignaz von Mellin. Ali encontrou o Sr. Kasimir Japoll, que consumia bebidas alcoólicas, em companhia do Sr. Janusz Teofil Lenart e de duas moças desconhecidas, e esbofeteou-o diversas vezes. 
“Imediatamente depois, o Sr. Michael Lodygowski esbofeteou o Sr. Kasimir Japoll, acrescentando que isso era a punição das graves ofensas infligidas à Srta. Krylow e a ele mesmo. 
“A seguir, o Sr. Michael Lodygowski esbofeteou o Sr. Janusz Teofil Lenart, em desforra das inqualificáveis injúrias que este senhor assacara contra o casal Von Zutawski, depois do que, 
“sem perda de um instante, também o Sr. Stanislaw Zutawski esbofeteou repetidas vezes o Sr. Janusz Teofil Lenart, por ter manchado caluniosamente a honra de sua esposa e da Srta. Krylow. 
“Os senhores Kasimir Japoll e Janusz Teofil mantiveram-se completamente passivos durante todo esse incidente. 
“Datado e assinado: Michael Lodygowski, Ign. von Mellin.” 

     O estado de espírito em que Hans Castorp se achava a essa altura dos acontecimentos não lhe permitia rir-se dessa metralha de bofetadas oficiais, como o teria feito em outros tempos. Estremeceu ao ler o relatório. O pundonor inatacável de uma das partes e a desonra vil, desprezível, da outra, que os documentos patenteavam aos olhos do leitor – tudo isso o emocionou intensamente pelo contraste pouco vivo e todavia impressionante. O mesmo ocorreu a todo mundo. Onde quer que se fosse, eram vistas pessoas que estudavam apaixonadamente e comentavam com os dentes a rilhar a querela de honra dos polacos. Uma réplica do Sr. Kasimir Japoll, difundida por meio de um folheto, esfriou algum tanto os espíritos. Dizia ele que, tempos atrás, em Lemberg, alguns almofadinhas presunçosos o haviam declarado incapaz de dar satisfação, e que Zutawski tivera perfeito conhecimento desse fato, de maneira que todas as suas medidas tomadas de inopino tinham sido pura comédia, visto ele saber de antemão que não teria necessidade de se bater em duelo. Por outro lado renunciara Zutawski a fazer queixa contra ele, Japoll, unicamente porque sua esposa Jadwiga, como ninguém ignorava, nem sequer o próprio Zutawski, o presenteara com uma verdadeira coleção de cornos, coisa que ele, Japoll, com a maior felicidade, poderia ter provado perante a justiça. Também com respeito à Srta. Krylow, uma citação em juízo teria sido pouco honrosa, dada a sua conduta habitual. De resto, existiam provas da incapacidade de dar satisfação somente no que se referia à pessoa do autor dessas linhas, o próprio Japoll, e não com respeito a seu interlocutor, Lenart; mas Zutawski servira-se de um pretexto para não correr perigo. Do papel que o Sr. Asarapetian desempenhara em toda essa história nem era bom falar. E quanto àquela cena no bar do cassino, convinha levar em conta que ele, Japoll, embora mordaz e propenso a pilhérias, era homem muitíssimo débil. Zutawski, por sua vez, chegara acompanhado dos seus amigos e da esposa, mulher de grande robustez, de modo que tinha a seu favor a superioridade física. Acrescia a isso que as duas senhoritas que se encontravam junto com ele, Japoll, e Lenart, eram criaturas muito alegres, sim, mas medrosas como galinhas. Para evitar um pugilato brutal e um escândalo público, ele mesmo rogara a Lenart, que fazia menção de reagir, que se mantivesse tranquilo e tolerasse, por amor de Deus, o contato passageiro e inconvencional com os senhores Von Zutawski e Lodygowski, uma vez que esse contato não era doloroso e os vizinhos julgariam que se tratava de uma brincadeira de amigos.  
     Assim rezava o folheto de Japoll, que, naturalmente, poucas possibilidades tinha de salvar as aparências. Suas emendas não conseguiram anular senão superficialmente o belo contraste entre a honra e a covardia que as declarações da outra parte acabavam de estabelecer, tanto mais que ele, não dispondo dos meios de ampla divulgação do partido de Zutawski, se limitava a espalhar pelo público algumas cópias datilografadas da sua réplica. Aquelas atas que acabamos de transcrever eram, por sua vez, acessíveis a todo mundo, sendo remetidas até a pessoas completamente desinteressadas, como, por exemplo, Naphta e Settembrini, que também as tinham recebido. Hans Castorp viu-as nas suas mãos e notou com surpresa que até eles as liam com fisionomias contraídas, singularmente arrebatadas. A zombaria alegre que ele mesmo, devido à mentalidade que reinava no Berghof, era incapaz de forjar – esperara-a ao menos da parte do Sr. Settembrini. Mas aquela epidemia que Hans Castorp via grassar a seu redor contagiara também o espírito claro do maçom com uma força que lhe tirava a vontade de rir e o tornava facilmente acessível à fascinação provocante da história das bofetadas. Além disso, sentia-se ele, o lutador, deprimido em face do seu estado de saúde, que piorava lenta, porém inexoravelmente, apenas com melhoras passageiras e ilusórias. O humanista praguejava contra essa miséria, tinha vergonha e desdém de si próprio, e no entanto, já por essa época, não podia evitar de se acamar de vez em quando.
     Naphta, o seu vizinho e adversário, tampouco ia melhor. Minando-lhe interiormente o organismo, ia em progresso a doença que havia sido a causa física – ou deve-se dizer o pretexto? – de ter a sua carreira na ordem chegado a um fim prematuro. As virtudes do ar rarefeito das alturas em que se vivia ali em cima não conseguiam deter o andamento do mal. Também ele tinha de ir para a cama com muita freqüência, e a sua voz soava mais rachada do que nunca, cada vez que falava. E, à medida que a aumentava, tornava-se ainda mais loquaz, mais penetrante e mais cáustico. Aquela oposição idealista à doença e à morte, cuja derrota diante da superioridade esmagadora da natureza infame tanto afligia o Sr. Settembrini, tinha de ser alheia ao pequeno Naphta, e a sua maneira de reagir contra a piora do seu estado de saúde não consistia, por conseguinte, em mágoa e pesar, senão numa animação sarcástica, numa agressividade sem limite, numa necessidade maníaca de duvidar, de negar, de criar confusão, que irritava gravissimamente a melancolia do italiano e incitava cada vez mais as divergências intelectuais. Era claro que Hans Castorp só podia falar das discussões a que assistia. Mas o jovem tinha quase certeza de não perder nenhuma delas, pois a sua presença, ao tratar-se de um tema pedagógico, era indispensável para dar grandeza aos colóquios. E conquanto não se pudesse poupar ao Sr. Settembrini o desgosto de ver que Hans Castorp se interessava pelos ditos maliciosos de Naphta, era forçoso admitir que estes ultrapassavam nos últimos tempos todas as medidas e amiúde os próprios limites de um raciocínio são.
     Esse enfermo não tinha nem a força nem a boa vontade de se elevar acima da doença, senão que via o mundo sob a imagem e o signo dela. Para desespero do Sr. Settembrini, que gostaria de mandar para fora do quarto o discípulo atento ou de tapar-lhe os ouvidos, declarava Naphta que a matéria era uma substância por demais imprestável para que o espírito pudesse completar-se numa habitação feita dela. Esforçar-se por conseguir isso não passava de tolice. Em que dava tal esforço? Numa caricatura! O resultado prático da tão elogiada Revolução Francesa era o Estado capitalista burguês – deveras um belo produto que alguns esperavam melhorar universalizando essa abominação! A república universal traria a felicidade, pois sim. O progresso? Infelizmente podia-se comparar este com o famoso caso do enfermo que sempre estava mudando de posição porque nisso esperava encontrar algum alívio. Um desejo não confessado, mas muito difundido, secretamente, o de ver rebentar uma guerra, era a expressão dessa atitude. Ela não deixaria de vir, essa guerra, e isso era bom, se bem que acarretasse efeitos bem diferentes daqueles que aguardavam seus autores. Naphta menosprezava o Estado burguês, preocupado exclusivamente com a sua segurança. Veio a falar nisso num dia de outono, durante um passeio pela rua principal, quando começava a chover e todo mundo de repente, como a uma ordem de comando, abriu os guarda-chuvas. Aquilo se lhe afigurava como um símbolo da covardia e da efeminação vulgar que a civilização produzia. Um incidente como o naufrágio do navio Titanic tinha um sentido atávico e todavia edificante. Depois reclamavam todos, em altos brados, maior segurança dos meios de transporte. Em geral reinava a mais violenta indignação sempre que a “segurança” se via ameaçada. Isso era miserável, e essa moleza humanitária formava uma harmonia curiosa com a crueldade perversa e bestial daquele campo de batalha econômica que constituía o Estado burguês. Guerra, guerra! Ele, por si, era a favor, e a impaciência com que todos a almejavam parecia-lhe relativamente honrosa.

continua pág 456...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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