sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida


O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR


SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     Mas é apenas uma ilusão. Porque ela não fez realmente o filho: ele se fez nela; sua carne só engendra carne: ela é incapaz de fundar uma existência, que se terá de fundar ela própria; as criações que emanam da liberdade põem o objeto como valor e o reevestem de uma necessidade; no seio materno o filho é injustificado, não passa ainda de uma proliferação gratuita, um fato bruto cuja contingência é simétrica à da morte. A mãe pode ter suas razões de querer um filho, mas não poderá dar, a esse outro que vai ser amanhã, suas próprias razões de ser; ela engendra-o na generalidade de seu corpo, não na singularidade de sua existência. É o que compreende a heroína de Colette Audry quando diz:

Nunca pensara que ele pudesse dar um sentido a minha vida... Seu ser germinara em mim; o que quer que acontecesse, tinha de conduzi-lo a bom termo, até o fim, sem poder apressar as coisas, ainda que fosse preciso morrer. Depois ali estivera, nascido de mim; assim, assemelhava-se à obra que eu teria podido realizar na vida. . . mas afinal não o era (cf. On joue perdant, "1'Enfant").

     Em certo sentido, o mistério da encarnação repete-se em cada mulher; toda criança que nasce é um deus que se faz homem: não poderia realizar-se como consciência e liberdade se não viesse ao mundo; a mãe presta-se a esse mistério, mas não o comanda; a suprema verdade desse ser que se forma em seu ventre escapa-lhe. É esse equívoco que ela traduz por dois fantasmas contraditórios: toda mãe tem a ideia de que o filho será um herói; exprime assim seu deslumbramento à ideia de engendrar uma consciência e uma liberdade; mas teme também dar à luz um enfermo, um monstro, porque conhece a horrível contingência da carne e esse embrião que a habita é somente carne. Há casos em que tal ou tal mito vence, mas muitas vezes a mulher oscila entre um e outro. Ela é sensível também a outro equívoco. Presa no grande ciclo da espécie, afirma a vida contra o tempo e a morte: com isso tem a promessa da imortalidade; mas experimenta também na carne a realidade da afirmação de Hegel: "O nascimento dos filhos é a morte dos pais". O filho, diz ele ainda, é para os pais "o ser para si do amor deles que cai fora deles", e inversamente, ele obterá seu ser para si "na separação da fonte, uma separação em que essa fonte seca". Essa superação de si é também para a mulher prefiguração da morte. Ela traduz essa verdade pelo medo que sente quando imagina o parto; receia nele perder a própria vida.
     Sendo assim ambígua a significação da gravidez, é natural que a atitude da mulher seja ambivalente: de resto, modifica-se, nos diversos estádios da evolução do feto. É preciso sublinhar primeiramente que, no início do processo, o filho não está presente; ele ainda não tem senão uma existência imaginária; a mãe pode sonhar com esse pequeno indivíduo que nascerá dentro de meses, pode diligenciar para preparar-lhe um berço, uma fralda: só apreende concretamente os turvos fenômenos orgânicos que nela se verificam. Certos incensadores da Vida e da Fecundidade pretendem misticamente que a mulher reconhece pela qualidade de seu prazer que o homem acaba de torná-la mãe: trata-se de um desses mitos que cumpre abandonar. Ela nunca tem uma intuição decisiva do acontecimento: ela o induz partindo de sinais incertos. Cessam as regras, engorda, os seios tornam-se pesados e doem, ocorrem vertigens e náuseas; por vezes, ela acredita simplesmente estar doente e é um médico que a informa. Sabe então que seu corpo recebeu um destino que o transcende; dia após dia, um pólipo nascido de sua carne e estranho a sua carne vai crescer nela; a mulher torna-se presa da espécie que lhe impõe suas misteriosas leis e, geralmente, essa alienação a amedronta: seu medo traduz-se por vômitos. Estes são parcialmente provocados pelas modificações das secreções gástricas que então se produzem; mas se essa reação, que outras fêmeas mamíferas ignoram, assume importância é por motivos psíquicos: manifesta o caráter agudo que o conflito entre a espécie e o indivíduo (Cf vol. I, cap. 1) reveste na fêmea humana. Ainda que a mulher deseje profundamente o filho, seu corpo revolta-se primeiramente quando lhe cumpre parir. Nos Estados Nervosos de Angústia, Stekel afirma que o vômito da mulher grávida exprime sempre certa recusa ao filho; se este é acolhido com hostilidade — por motivos amiúde inconfessados — as perturbações estomacais exageram-se.

     "A psicanálise ensinou-nos que a exageração psíquica dos sintomas do vômito só se observa no caso em que a expulsão oral traduz emoções de hostilidade em relação à gravidez ou ao feto", diz H. Deutsch. E ela acrescenta: "Muitas vezes o conteúdo psíquico do vômito da gravidez é exatamente o mesmo que nos vômitos histéricos das moças, provenientes de um fantasma de gravidez [1] ". Em ambos os casos reaviva-se a velha ideia da fecundação pela boca que se encontra nas crianças. Para as mulheres infantis, em particular, a gravidez é, como no passado, assimilada a uma doença do aparelho digestivo. H. Deutsch cita o caso de uma doente que estudava, com ansiedade, seus vômitos para verificar se não encontrava neles fragmentos de embrião; sabia, no entanto, pelo que afirmava, que a obsessão era absurda. A bulimia, a falta de apetite, as repugnâncias assinalam a mesma hesitação entre o desejo de conservar e o de destruir o embrião. Conheci uma jovem mulher que sofria ao mesmo tempo de vômitos exasperados e de uma constipação feroz; disse-me, ela própria, que tinha a impressão de procurar expulsar o feto e ao mesmo tempo retê-lo; o que correspondia exatamente a seus desejos confessados.

[1] Citaram-me precisamente o caso de um homem que, durante os primeiros meses da gravidez da mulher — que no entanto ele amava pouco — apresentou exatamente os mesmos sintomas de náusea, de vertigem e de vômitos que se observam nas mulheres grávidas. Traziam evidentemente, de uma maneira histérica, conflitos consciente.

     O Dr. Arthus (Le Mariage) cita o exemplo seguinte, que resumo:

Mme T. apresenta graves perturbações de gravidez, com vômitos incoercíveis... A situação é tão inquietante que se deve pensar em praticar uma interrupção da gravidez em processo... A mulher está desolada... A rápida análise que pôde ser praticada revela (que): Mme T. procedeu a uma identificação inconsciente com uma de suas antigas amigas de pensão que desempenhou papel muito grande em sua vida afetiva e morreu em consequência de sua primeira gravidez. Logo que a causa pode ser revelada, os sintomas melhoram; depois de uma quinzena de dias verificam-se ainda vômitos, porém sem mais nenhum perigo. 

     Constipação, diarreias, trabalho de expulsão manifestam sempre a mesma mistura de desejo e de angústia; disso resulta, por vezes, um aborto: quase todos os abortos espontâneos têm uma origem psíquica. Tais incômodos se acentuam tanto mais quanto a mulher lhes dá maior importância e "se ouve" mais. Em particular, os famosos "desejos" das mulheres grávidas são obsessões de origem infantil complacentemente acariciadas: relacionam-se sempre aos alimentos, em virtude da velha ideia da fecundação alimentar; sentindo perturbações em seu corpo, a mulher traduz, como acontece muitas vezes nas psicastenias, esse sentimento de estranheza por um desejo que por vezes a fascina. Há, de resto, uma "cultura" desses desejos pela tradição, como houve outrora uma cultura da histeria; a mulher, na expectativa de ter desejos, espera por eles, inventa-os. Relataram-me o caso de uma mãe solteira que tinha um desejo tão frenético de espinafres que corria a comprá-los no mercado e ficava numa terrível impaciência a olhá-los enquanto os cozinhava: exprimia assim a angústia de sua solidão; sabendo que só podia contar consigo mesma, era com pressa febril que diligenciava para satisfazer seus desejos. A Duquesa de Abrantes descreveu de maneira muito divertida, em suas Mêmoires, um caso em que o desejo é imperiosamente sugerido pelo ambiente da mulher. Queixa-se de ter sido cercada de excessiva solicitude durante a gravidez.

Esses cuidados, essas atenções aumentam o mal-estar, o enjoo, o nervosismo, os mil e um sofrimentos que quase sempre acompanham a primeira gravidez. Senti-o... Foi minha mãe quem começou, um dia em que jantava em casa dela... "Ah! Meu Deus, disse-me de repente largando o garfo e encarando-me com um ar consternado, ah! meu Deus, não pensei em perguntar qual era teu desejo."
- Mas não tenho nenhum — respondi.
- Não tens desejo — disse minha mãe... — Não tens desejo! Mas nunca se viu isso! Tu te enganas. É que não prestas atenção. Falarei com tua sogra.
E eis minhas duas mães se consultando, e eis meu Junot que, com medo de que lhe desse um filho com cabeça de javali... me perguntava todas as manhãs: "Laure, de que tens vontade?" Minha cunhada, que voltou de Versalhes ampliou o coro das perguntas... nem podia enumerar quantas pessoas vira desfiguradas por desejos não satisfeitos... sei, assustando-me também... Até procurei em minha imaginação algo de que gostasse especialmente e não encontrei nada. Enfim, um dia, aconteceu-me, comendo uma pastilha de ananás, refletir que um ananás deveria ser uma coisa excelente... Uma vez persuadida de que tinha desejo de ananás, senti uma vontade muito grande, que aumentou quando Corcelet declarou que não estava no tempo. Oh! Então experimentei esse sofrimento que participa do desespero e põe a gente num estado de morrer ou satisfazê-lo. 
(Junot, após numerosas gestões, acaba recebendo um ananás das mãos de Mme Bonaparte. A Duquesa de Abrantes acolheu-o alegremente e passou a noite a cheirá-lo e tocá-lo, por lhe ter o médico ordenado que só o comesse pela manhã. Quando finalmente Junot me serviu): 
Empurrei o prato para longe de mim, "Não sei o que tenho, não posso comer ananás." Ele punha-me o nariz no maldito prato, o que provocou uma asserção positiva de que não podia comer ananás. Foi preciso não somente levá-lo, mas ainda abrir as janelas, perfumar meu quarto para tirar o menor vestígio de um odor que um segundo bastara para tornar odioso. O que há de mais singular neste fato é que, desde então, nunca pude comer ananás sem um esforço violento... 

     São as mulheres de quem se ocupam demasiado ou que se ocupam demasiado consigo mesmas que apresentam maior número de fenômenos mórbidos. As que vencem mais facilmente a prova da gravidez são, por um lado, as matronas totalmente entregues a sua função de poedeiras e, por outro lado, as mulheres viris que as aventuras do corpo não fascinam e que fazem questão de sobrepujá-las com desembaraço; Mme de Stael conduzia uma gravidez com tanta vivacidade e displicência quanto uma conversação.
     Quando a gravidez prossegue, a relação entre a mãe e o feto muda. Este acha-se solidamente instalado no ventre materno, os dois organismos se adaptaram um ao outro e há entre ambos trocas biológicas que permitem à mulher reencontrar seu equilíbrio. Ela não se sente mais possuída pela espécie: ela é que possui o fruto de suas entranhas. Durante os primeiros meses era uma mulher qualquer e diminuída pelo trabalho secreto que se realizava no seu interior; posteriormente torna-se, com evidência, uma mãe e suas fraquezas são o reverso de sua glória. A impotência de que sofria torna-se, acentuando-se, um álibi. Muitas mulheres encontram, então, em sua gravidez uma maravilhosa paz: sentem-se justificadas; tinham sempre tido prazer em se observar, em espiar o corpo; não ousavam, por senso de seus deveres sociais, interessar-se por ele com demasiada complacência: agora têm o direito de fazê-lo, porque tudo o que fazem para seu próprio bem-estar fazem para o filho. Não se lhes pede mais trabalho, nem esforço; não têm mais que se preocupar com o resto do mundo; os sonhos de futuro que acariciam dão um sentido ao momento presente; basta-lhes se deixarem viver, estão de férias. A razão de sua existência está em seu ventre e dá-lhes uma impressão perfeita de plenitude. "É como um pequeno aquecedor no inverno, sempre aceso e que só para você existe, inteiramente submetido à sua vontade. É também uma ducha fresca, escorrendo sem cessar durante o verão. Está ali", diz uma mulher citada por H. Deutsch. Satisfeita, a mulher conhece também o prazer de se sentir "interessante", o que constituiu seu maior desejo desde a adolescência; como esposa, sofria com sua dependência em relação ao homem; agora não é mais um objeto sexual, uma serva; encarna a espécie, é promessa de vida, de eternidade; os que a cercam, respeitam-na; até seus caprichos tornam-se sagrados: o que a incita, já o vimos, a inventar "desejos". "A gravidez permite à mulher racionalizar atos que de outro modo pareceriam absurdos", afirma Helen Deutsch. Justificada pela presença de um outro em seu seio, ela goza enfim plenamente de ser ela própria.

continua página 268...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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