domingo, 15 de fevereiro de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (28a)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

28

      O tempo estava estranhamente quente para o último dia de outubro. Nem sequer precisamos de casacos. O vento estava ficando mais forte e Jem disse que talvez chovesse antes de chegarmos em casa. Não havia lua.
     O poste da esquina projetava sombras estranhas sobre a casa dos Radley. Jem riu baixinho. 

— Aposto que esta noite ninguém vai incomodar os Radley — ironizou.

     Jem carregava minha fantasia de presunto, meio desajeitado, já que era pesada para eu levar. Achei uma gentileza da parte dele. 

— Mas é um lugar assustador, não acha? Boo não quer fazer mal a ninguém, mas fico contente por você estar comigo — eu disse. 
— Você sabe que Atticus não deixaria você ir até a escola sozinha — disse Jem. 
— Não sei por que, é só virar a esquina e passar pelo pátio. 
— É um pátio enorme para uma menininha atravessar à noite. Não tem medo de assombrações? — perguntou, para me irritar.

     Rimos.

— Assombrações, vapores quentes, encantamentos, sinais secretos, aquela coisa toda — lembrou Jem. — Anjo da luz, vivo na morte, saia da estrada, não leve a minha sorte
— Pare com isso agora — mandei. Estávamos na frente da casa dos Radley. 
— Boo não deve estar em casa. Ouça — Jem disse.

     No escuro, bem lá no alto, um solitário rouxinol exibia satisfeito seu repertório, sem saber quem era o dono da árvore onde se empoleirava. Passava do agudo qui-qui-qui do pássaro-girassol para o irritante qua-ack de um gaio, terminando no lamento solitário do noitibó, puu-i, puu-i.
     Quando viramos a esquina, tropecei numa raiz na calçada. Jem tentou me ajudar, mas acabou derrubando minha fantasia no chão. Recuperei o equilíbrio e continuamos nosso caminho.
     Saímos da estrada e entramos no pátio da escola. Estava escuro como breu. 

— Como você sabe onde estamos, Jem? — perguntei, após avançarmos alguns passos. 
— Sei que estamos embaixo do grande carvalho porque estamos passando por um lugar frio. Cuidado para não tropeçar de novo.

     Tínhamos reduzido o passo e estendíamos as mãos à nossa frente para não batermos nas árvores. A árvore era um velho e solitário carvalho com um tronco tão largo que duas crianças juntas não conseguiriam abraçá-lo. Ficava longe dos professores, dos espiões deles e dos vizinhos curiosos e perto do quintal dos Radley, mas eles não eram curiosos. Em um pequeno espaço embaixo do carvalho a terra era mais compactada e firme devido às inúmeras brigas e jogos de dados realizados ali às escondidas.
     As luzes no auditório do ginásio brilhavam ao longe, mas em vez de nos ajudarem nos cegavam.

— Não olhe para a frente, Scout, olhe para o chão para não cair — recomendou Jem. 
— Você devia ter trazido a lanterna, Jem. 
— Não sabia que estava tão escuro. De tarde, não parecia que ia ficar assim. É porque está bem nublado, mas acho que passa logo.

     Alguém pulou diante de nós. 

— Santo Deus! — exclamou Jem.

     Um círculo de luz iluminou nosso rosto e, atrás dele, Cecil Jacobs dava pulos de satisfação. 

— Peguei vocês! Achei que vinham por aqui! — ele berrou. 
— O que faz sozinho nesse lugar, garoto? Não tem medo de Boo Radley?

     Cecil tinha ido para o auditório de carro com os pais e, como não nos viu, foi até lá porque tinha certeza de que passaríamos por ali. Mas pensou que o sr. Finch estaria conosco. 

— Ora, é só virar a esquina — disse Jem. — Quem tem medo de dobrar a esquina?

     Mas tínhamos de reconhecer que Cecil tinha se saído muito bem. Conseguiu nos dar um belo susto e tinha o direito de contar isso para a escola inteira. 

— Ei, você não vai fazer o papel de vaca? Cadê a sua fantasia? — perguntei. 
— Está no camarim. A sra. Merriweather disse que o desfile ainda vai demorar um pouco para começar. Você pode guardar a sua fantasia com a minha e podemos ir ficar com os outros.

     Jem achou a ideia excelente. Também achou ótimo que Cecil e eu ficássemos juntos, assim ele podia ficar com os meninos da idade dele.
     Quando chegamos ao auditório, a cidade inteira estava lá, menos Atticus, as senhoras exaustas de tanto decorar o palco, os párias e os reclusos de sempre. Parecia que o condado inteiro tinha ido: o saguão estava lotado de camponeses com suas melhores roupas. O prédio do ginásio tinha um amplo corredor no térreo, onde as pessoas circulavam por barracas instaladas dos dois lados. 

— Ah, Jem, esqueci de trazer dinheiro — lastimei, quando vi as barracas. 
— Mas Atticus não esqueceu. Tome trinta centavos, dá para fazer seis coisas. A gente se encontra mais tarde — disse Jem. 
— Tudo bem — aceitei, muito satisfeita com trinta centavos e a companhia de Cecil. Fomos para o auditório, entramos por uma porta lateral e chegamos ao camarim. Livrei-me da minha fantasia de presunto e saí correndo, pois a sra. Merriweather estava num pódio na frente da primeira fila, fazendo mudanças de última hora no roteiro, frenética. 
— Quanto dinheiro você tem? — perguntei a Cecil.

     Ele também tinha trinta centavos, estávamos na mesma. Gastamos os primeiros centavos na Casa dos Horrores, que não nos assustou nada: entramos na sala escura do sétimo ano e fomos conduzidos pelo fantasma em exercício, que nos mandou tocar em vários objetos que, segundo ele, eram partes do corpo humano. 

— Estes são os olhos — disse uma voz quando tocamos em duas uvas sem casca num pires. 
— Este é o coração — disse diante de uma coisa que parecia fígado cru. 
— Estas são as tripas. — E nossas mãos foram enfiadas num punhado de espaguete frio.

     Cecil e eu passamos por várias barracas. Cada um comprou um saco de suspiros feitos pela esposa do juiz Taylor. Eu queria brincar de pegar com a boca maçãs boiando na tigela, mas Cecil disse que não era higiênico. A mãe dele tinha dito que aquela brincadeira podia transmitir doenças. 

— Ah, mas não tem nenhuma doença para pegar na cidade — reclamei, mas a mãe de Cecil tinha dito também que era anti-higiênico colocar a boca no mesmo lugar que outras pessoas. Perguntei depois para tia Alexandra e ela disse que gente que pensava assim costumava ser novos-ricos.

     No camarim, Cecil e eu entramos no corredor estreito e cheio: adultos usavam chapéus de três pontas feitos em casa, bonés confederados, boinas da guerra hispano-americana e capacetes da Primeira Guerra. As crianças fantasiadas de produtos agropecuários se amontoavam em volta de uma pequena janela. 

— Amassaram a minha fantasia — reclamei, aborrecida. A sra. Merriweather veio correndo, ajeitou o arame de galinheiro e me enfiou dentro da fantasia de presunto. 
— Está tudo bem aí dentro, Scout? — perguntou Cecil. — Sua voz está tão longe que parece que você está do outro lado de uma colina. 
— A sua voz também está longe.

     A banda tocou o hino nacional e ouvimos a plateia se levantar. Os tambores rufaram. A sra. Merriweather, no estrado ao lado da banda, declarou: 

Condado de Maycomb: ad astra per aspera.

     Os tambores rufaram de novo. 

— Isso quer dizer — traduziu a sra. Merriweather para os menos letrados — “por caminhos difíceis, chegamos às estrelas”. — E acrescentou, o que achei desnecessário: — Um desfile. 
— Se ela não dissesse, eles não saberiam — cochichou Cecil e imediatamente alguém mandou ele ficar quieto. 
— A cidade inteira sabe — sussurrei. 
— Mas os camponeses também vieram — lembrou Cecil. 
— Fiquem quietos — mandou uma voz masculina. E nós nos calamos.

     O tambor rufava a cada frase da sra. Merriweather. Num tom lamentoso, ela contou que o condado Maycomb era mais antigo que o estado, que tinha sido parte dos territórios do Mississippi e do Alabama; que o primeiro branco a pôr os pés naquelas florestas virgens tinha sido um antepassado do juiz de sucessões, cinco gerações antes, e nunca mais se teve notícia dele. Depois veio o destemido coronel Maycomb, que deu nome ao condado.
     Andrew Jackson nomeou o coronel para um cargo importante, mas o excesso de autoconfiança e seu péssimo senso de orientação foram um desastre para todos que o acompanharam nas batalhas contra os índios creek. O coronel perseverou em seus esforços para tornar a região segura para a democracia, porém sua primeira campanha foi também a última. As ordens, levadas até ele por um mensageiro índio de confiança, eram para que o coronel se deslocasse para o sul. Depois de examinar o líquen de uma árvore para saber em que direção ficava o sul e sem dar ouvidos aos subordinados que ousaram contradizê-lo, o coronel partiu em uma jornada resoluta para acabar com o inimigo, embrenhando suas tropas de tal forma na floresta primitiva a noroeste que acabaram sendo resgatados por colonos que iam para o interior.
     A sra. Merriweather passou meia hora descrevendo as proezas do coronel. Descobri que, se dobrasse as pernas, podia enfiá-las dentro da fantasia e me sentar. Sentei, fiquei ouvindo a lenga-lenga da sra. Merriweather, o rufar do tambor e em pouco tempo estava dormindo.
     Depois me disseram que a sra. Merriweather deu tudo de si no final apoteótico e chamou, suave, “Por-co” com a segurança de quem tinha sido prontamente atendida por pinheiros e feijões-manteiga, que entraram em fila no palco. Esperou alguns segundos e repetiu: “Poor-co?” Como nada aconteceu, ela berrou: “Porco!”
     Eu devo tê-la ouvido no meu sono, ou acordei com a banda tocando Dixie, mas foi só quando a sra. Merriweather subiu ao palco, carregando, vitoriosa, a bandeira do Estado, que decidi entrar. Decidir não é o termo apropriado: achei que era melhor me juntar aos outros.
     Mais tarde me disseram que o juiz Taylor foi para o fundo do auditório e ficou lá rindo e batendo nos joelhos com tanta força que a mulher dele teve de levar um copo d´ água e uma de suas pílulas.
     A apresentação da sra. Merriweather parecia ter sido um sucesso, pois todo mundo batia palmas entusiasmadas, mas ela me pegou no camarim e disse que eu tinha arruinado o desfile. Fiquei me sentindo mal, mas quando Jem veio me pegar, ele foi compreensivo. Disse que, do lugar onde estava, não via direito a minha fantasia. Não sei como Jem descobriu que eu estava chateada dentro da fantasia, mas ele disse também que minha atuação tinha sido boa, só tinha entrado um pouco atrasada, mais nada. Jem estava ficando quase tão bom quanto Atticus em matéria de fazer eu me se sentir melhor quando as coisas davam errado. Quase, porque nem ele podia me fazer enfrentar aquele monte de gente, então aceitou esperar comigo no camarim até todo mundo ir embora. 

— Quer tirar a fantasia, Scout? — ele perguntou. 
— Não, vou ficar com ela. — assim eu podia esconder o meu constrangimento. 
— Querem uma carona para casa? — alguém perguntou. 
— Não, senhor, obrigado, é perto — Jem respondeu. 
— Cuidado com as assombrações. Ou melhor, diga às assombrações para tomarem cuidado com a Scout. 
— Já foi quase todo mundo embora. Vamos — disse Jem para mim.
  
     Passamos pelo auditório até a entrada e descemos a escada. Continuava escuro como breu. Os faróis dos carros estacionados do outro lado do prédio iluminavam pouco. 

— Se alguns desses carros fossem na mesma direção que nós, enxergaríamos melhor. Vem, Scout, deixa eu segurar na sua… perna de porco. Você pode se desequilibrar. 
— Estou enxergando bem. 
— Tudo bem, mas pode perder o equilíbrio.
Senti uma leve pressão na cabeça e achei que Jem tinha segurado no alto do presunto. 

— Está me segurando? 
Rã-rã.

     Começamos a atravessar o pátio escuro da escola, fazendo um esforço para enxergar nossos pés. 

— Jem, esqueci os sapatos no camarim atrás do palco. 
— Vamos buscar, então.

     Mas quando nos viramos, as luzes do auditório se apagaram. 

— Você pode pegar amanhã — disse ele. 
— Mas amanhã é domingo — protestei quando Jem me virou na direção de casa. 
— Pode pedir ao vigia para deixar você entrar… Scout? 
— O que foi? 
— Nada.

     Jem fazia isso há tempos. Eu me perguntei no que ele devia estar pensando. Quando quisesse, ele me diria o que era, provavelmente quando chegássemos em casa. Senti os dedos dele apertarem o topo da minha fantasia com muita força. Balancei a cabeça. 

— Jem, não precisa… 
— Fica quieta um minuto, Scout — ele disse, me dando um beliscão.

     Andamos em silêncio. 

— O minuto passou — avisei. — O que você está pensando?

     Virei-me para ele, mas mal dava para ver sua silhueta. 

— Acho que ouvi algo. Pare um minuto.

     Paramos. 

— Está ouvindo alguma coisa? — ele perguntou. 
— Não.

     Mal demos cinco passos e ele me obrigou a parar de novo. 

— Jem, está querendo me assustar? Você sabe que não tenho mais idade… 
— Quieta — ele disse, e vi que estava falando sério.

     A noite estava silenciosa. Dava para ouvir a respiração dele ao meu lado. De vez em quando, uma brisa leve batia nas minhas pernas nuas, embora fosse tudo que restava da previsão de ventania. Era a calmaria antes da tempestade. Ficamos ouvindo. 

— Ouço um cachorro latindo — eu disse. 
— Não é isso. Ouvi alguma coisa enquanto estávamos andando, mas quando paramos não ouvi mais — disse Jem. 
— É o farfalhar da minha fantasia. E está impressionado porque é Dia das Bruxas...
     
continua página 185...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (26) / O Sol é para todos: 2ª Parte (27) / O Sol é para todos: 2ª Parte (28a) / 
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

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