terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

28

      Eu disse isso mais para convencer a mim mesma do que a Jem, porque, quando começamos a andar, ouvi o som do qual ele tinha falado. Não era da minha fantasia. 

— É só o palerma do Cecil. Dessa vez não vai nos dar um susto. Não vamos deixar ele pensar que estamos nos apressando por medo — disse Jem, por fim.

     Diminuímos o passo. Perguntei a Jem como Cecil podia nos seguir naquela escuridão; eu achava que ele ia esbarrar com a gente por trás. 

— Consigo ver você, Scout — disse Jem. 
— Como? Eu não consigo ver você. 
— As marcas de gordura da sua fantasia estão brilhando. A sra. Crenshaw pintou a sua fantasia com aquelas coisas brilhantes para reluzirem sob os holofotes. Estou vendo você, o Cecil também deve estar, pelo menos o suficiente para manter a distância.

     Resolvi mostrar a Cecil que sabíamos que ele estava atrás de nós e estávamos prontos para enfrentá-lo. 

— Cecil Jacobs é uma galinha molhada! — berrei, virando para trás de repente.

     Paramos. Não houve resposta, a não ser o final de molhada ecoando no muro da escola. 

— Vou pegar ele. Ei! — disse Jem.

Ei, respondeu o muro da escola.

     Era pouco provável que Cecil se segurasse por tanto tempo. Quando ele inventava uma brincadeira, repetia sem parar, já devia ter pulado em cima de nós. Jem fez sinal para eu parar de novo. Perguntou baixinho: 

— Scout, você consegue tirar esse negócio? 
— Acho que sim, mas estou quase sem roupa por baixo. 
— Eu trouxe o seu vestido. 
— Não consigo vestir no escuro. 
— Tudo bem, deixa pra lá. 
— Jem, você está com medo? 
— Não, acho que estamos quase chegando na árvore. Mais alguns metros e chegamos na estrada. Então teremos a luz dos postes.

     Jem falava em um tom lento e inexpressivo, e fiquei pensando por quanto tempo ele ia tentar manter a farsa de Cecil. 

— Jem, acha que devemos cantar? 
— Não, fique bem quieta de novo, Scout.

     Seguíamos no mesmo passo. Jem sabia tanto quanto eu que, se corrêssemos, podíamos dar uma topada, tropeçar em pedras e ter outros inconvenientes. Além do mais, eu estava descalça. Vai ver que o som era do vento batendo nas árvores. Mas não estava ventando, nem havia árvores, só o grande carvalho.
     A pessoa que nos seguia arrastava os pés, como se usasse sapatos pesados. Quem quer que fosse, usava calças de algodão grosso; o que eu tinha achado que eram folhas de árvores era o ruído suave de algodão roçando em algodão, uíque, uíque a cada passo.
     Senti a areia ficar mais fria sob meus pés e soube que estávamos perto do grande carvalho. Jem apertou o alto da minha fantasia. Paramos e escutamos.
     Dessa vez, os pés arrastados continuaram andando. As calças roçavam suaves e firmes. Depois, pararam. Ele vinha correndo, correndo na nossa direção, e não eram passos de criança. 

— Corra, Scout, corra! Corra! — berrou Jem

     Dei um passo enorme e cambaleei: no escuro e sem poder estender os braços, perdi o equilíbrio. 

— Jem, Jem, me ajude, Jem!

     Alguma coisa amassou o arame da minha fantasia. Ouvi o barulho de metal batendo em metal, caí e fui rolando, tentando escapar da minha prisão de arame. De algum lugar próximo veio o som de luta, chutes, sapatos e corpos se arrastando contra a terra e as raízes. Alguém rolou para cima de mim e vi que era Jem. Rápido, ele se levantou e me puxou junto, mas, apesar de estar com a cabeça e os ombros livres, meus movimentos estavam tão restritos que não conseguimos ir muito longe.
     Estávamos quase na estrada quando senti a mão de Jem me soltar e ouvi ele cair de costas. Mais barulho de luta, depois alguma coisa estalou e Jem deu um grito.
     Corri na direção do grito dele e bati na barriga flácida de um homem. O dono da barriga fez uf! e tentou me segurar, mas meus braços estavam presos sob o arame. A barriga dele era macia, mas os braços eram duros como aço. Lentamente ele começou a apertar a minha garganta e me sufocar. Eu não conseguia me mexer. De repente, ele caiu para trás, se esparramou no chão e quase me levou junto. Pensei: Jem se levantou.
     Às vezes, a mente de uma pessoa funciona bem devagar. Atordoada, fiquei lá, sem dizer nada. Os sons de luta foram diminuindo, alguém respirava pesado e a noite voltou a ficar silenciosa.
     Silenciosa exceto pela respiração ofegante de um homem aos tropeços. Achei que ele tinha ido até a árvore e se apoiado nela. Ele tossia violentamente, uma tosse soluçante, que fazia os ossos tremerem.

— Jem?

     A única resposta foi a respiração pesada do homem. 

— Jem?

     Jem não respondeu.
     O homem começou a se mover como se estivesse procurando algo. Ouvi-o grunhir e arrastar uma coisa pesada pelo chão. Aos poucos, fui me dando conta de que havia quatro pessoas embaixo da árvore. 

— Atticus…?

     O homem andava pesado e desnorteado em direção à estrada.
     Fui até onde achei que ele estivesse e tateei o chão com os pés. Toquei em alguém. 

— Jem?

     Meus pés tocaram numa calça, numa fivela de cinto, em botões, em algo que não consegui identificar, num colarinho, num rosto. O rosto barbado me disse que não era Jem. Senti cheiro de uísque barato.
     Fui andando na direção que eu achava que era a estrada. Não tinha certeza, porque tinha dado várias voltas. Mas achei a estrada e olhei em direção ao poste. Um homem estava passando embaixo dele. Andava com os passos incertos de quem carregava alguma coisa muito pesada. Ia virar a esquina. Estava carregando Jem, cujo braço balançava de forma estranha à sua frente.
     Quando cheguei à esquina, o homem estava atravessando nosso jardim. Atticus ficou emoldurado pela luz da porta por um instante, desceu a escada e, junto com o homem, carregou Jem para dentro.
     Cheguei na porta da frente quando eles entravam pelo corredor. Tia Alexandra correu ao meu encontro. 

— Chame o dr. Reynolds! — disse Atticus, ríspido, do quarto de Jem. — Onde está Scout? 
— Está aqui — respondeu tia Alexandra, me puxando com ela até o telefone. Ela me apalpava, preocupada. 
— Estou bem, tia. É melhor você telefonar — eu disse.

     Ela tirou o fone do gancho e disse: 

— Eula May, me ligue com o dr. Reynolds, rápido! 
— Agnes, seu pai está em casa? Ah, meu Deus, aonde ele foi? Por favor, diga para ele vir aqui o mais rápido possível. Por favor, é urgente!

     Tia Alexandra não precisou se identificar, em Maycomb todo mundo conhecia a voz de todo mundo.
     Atticus saiu do quarto de Jem. Assim que tia Alexandra desligou, Atticus pegou o fone da mão dela. Bateu no gancho e disse: 

— Eula May, me ligue com o xerife, por favor. 
— Heck? Aqui é Atticus Finch. Alguém atacou meus filhos, Jem está ferido. No caminho da escola para casa. Tenho de ficar com meu filho. Por favor, vá ver se a pessoa ainda está por lá. Não creio que esteja, mas gostaria de vê-lo, se você o encontrar. Preciso desligar. Obrigado, Heck. 
— Atticus, Jem está morto? 
— Não, Scout. Irmã, cuide dela — pediu, saindo pelo corredor.

     As mãos de tia Alexandra tremiam enquanto ela tirava minha fantasia amassada e retorcida. 

— Está se sentindo bem, querida? — perguntou várias vezes enquanto me libertava.

     Foi um alívio tirar aquela roupa. Meus braços estavam começando a formigar e estavam cobertos de pequenas manchas vermelhas. Esfreguei-as e melhorou. 

— Tia, Jem morreu? 
— Não… não, querida, só está inconsciente. Só vamos saber o estado dele depois que o dr. Reynolds chegar. Jean Louise, o que aconteceu? 
— Não sei.

     Ela não insistiu. Trouxe uma roupa para mim e, se minha cabeça estivesse funcionando naquela hora, eu nunca a teria deixado esquecer: distraída, ela me levou o meu macacão. 

— Vista isso, querida — ela disse, me entregando a roupa que mais detestava.

     Foi rápido até o quarto de Jem, depois voltou, me deu um tapinha carinhoso e foi para o quarto de Jem outra vez.
     Um carro parou na frente da casa. Eu conhecia os passos do dr. Reynolds quase tão bem quanto os do meu pai. Ele tinha nos trazido ao mundo, Jem e eu, nos tratou de todas as doenças infantis conhecidas pelo homem, inclusive quando Jem caiu da casa na árvore, e nunca deixou de ser nosso amigo. O dr. Reynolds dizia que, se tivéssemos tendência a ter pústulas, furúnculos e coisas do gênero, nossa relação seria diferente, mas nós não acreditávamos.
     Ele entrou pela porta e exclamou: 

— Meu Deus. — Veio na minha direção, disse “você ainda está de pé” e virou as costas. Conhecia a casa toda e sabia que, se eu estava mal, Jem também estava.

     Séculos depois, o dr. Reynolds voltou: 

— Jem está morto? — perguntei. 
— Longe disso — ele respondeu, se agachando diante de mim. — Está com um galo na cabeça como você e com o braço quebrado. Scout, olhe para lá; não, sem virar a cabeça, mexa só os olhos. Olhe para longe. Ele teve uma fratura grave, acho que no cotovelo. Como se alguém tivesse tentado arrancar o braço dele… Agora, olhe para mim. 
— Então ele não morreu? 
— Nã-ã-ão! — o dr. Reynolds se levantou. — Não podemos fazer muito agora à noite além de deixá-lo confortável. Vamos ter que radiografar o braço, acho que vai ter de engessar por um tempo. Mas não se preocupe, ele vai ficar novo em folha. Meninos da idade dele se recuperam logo.

     Enquanto falava, o dr. Reynolds olhava bem para mim, tocando de leve o galo na minha testa. 

— Você não está se sentindo quebrada em nenhum lugar, está?

     Ri da piadinha dele. 

— Então, você não acha que Jem morreu? — insisti.

     Ele colocou o chapéu. 

— Claro que posso estar enganado, mas acho que está bem vivo. Tem todos os sinais vitais. Vá lá dar uma olhada nele e, quando eu voltar, nós nos reunimos para dar o diagnóstico.

     O dr. Reynolds tinha um andar jovem e rápido. Já o sr. Heck Tate, não. As pesadas botas dele castigaram o assoalho da varanda. Ele abriu a porta, desajeitado, e entrou perguntando a mesma coisa que o dr. Reynolds: 

— Você está bem, Scout? 
— Está. Vou ver o Jem. Atticus está lá com ele. 
— Vou com você — disse o sr. Tate.

     Tia Alexandra tinha colocado uma toalha em cima do abajur de Jem e o quarto estava na penumbra. Jem estava deitado e tinha uma marca feia no rosto. O braço esquerdo estava afastado do corpo e o cotovelo estava meio dobrado, mas na direção errada. Jem estava de cenho franzido. 

— Jem…?

     Atticus respondeu por ele: 

— Ele não pode ouvir você, Scout, está apagado como uma luz. Estava voltando à consciência, mas o dr. Reynolds tirou-o do ar novamente. 
— Sei — eu disse, dando um passo atrás.

     O quarto de Jem era grande e quadrado. Tia Alexandra estava numa cadeira de balanço ao lado da lareira. O homem que tinha levado Jem para casa estava num canto, encostado na parede. Era um camponês que eu não conhecia. Devia ter ido ver o desfile e estava por perto quando tudo aconteceu. Provavelmente ouviu os gritos e foi correndo ajudar.
     Atticus estava ao lado da cama de Jem.
     O sr. Heck estava parado na porta, com o chapéu na mão e uma lanterna saindo do bolso da calça. Usava uniforme de xerife. 

— Entre, Heck — disse papai. — Descobriu alguma coisa? Não entendo como alguém pode ser tão desprezível a ponto de fazer uma coisa dessas. Espero que você o encontre.
    
     O sr. Tate fungou. Olhou rapidamente para o homem no canto, cumprimentou-o com a cabeça e olhou em volta, para Jem, tia Alexandra, depois Atticus. 

— Sente-se, sr. Finch — ele disse, afável.

     Atticus convidou: 

— Vamos todos nos sentar. Fique com aquela cadeira, Heck. Vou pegar outra na sala.

     O sr. Tate sentou-se na cadeira da escrivaninha de Jem. Esperou Atticus voltar da sala e se acomodar. Fiquei pensando por que papai não tinha levado uma cadeira para o homem que estava no canto, mas ele conhecia as pessoas do campo melhor do que eu. Atticus tinha alguns clientes que eram do campo; amarravam seus cavalos orelhudos embaixo dos cinamomos do quintal e Atticus se reunia com eles na escada dos fundos. Aquele homem devia se sentir mais à vontade como estava. 

— Sr. Finch, vou dizer o que achei — disse o sr. Tate. — Um vestido de menina… está lá no carro. É seu, Scout? 
— Sim, senhor, se for cor-de-rosa, bordado com casinhas de abelha — respondi.

     O sr. Tate parecia estar no banco de testemunhas. Gostava de falar as coisas do jeito dele, sem ser interrompido pela defesa ou pela acusação, e às vezes isso demorava. 

— Encontrei também uns pedaços de pano marrons esquisitos… 
— Eram da minha fantasia, sr. Tate.

     O sr. Tate passou as mãos pelas coxas, esfregou o braço esquerdo e observou a cornija da lareira de Jem, depois a lareira. Passou os dedos pelo nariz comprido. 

— O que foi, Heck? — perguntou Atticus.

     O sr. Heck levou a mão ao pescoço e coçou-o. 

— Bob Ewell está estirado embaixo da árvore, com uma faca de cozinha enfiada nas costelas. Ele está morto, sr. Finch.

continua página 190...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) /   
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

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