PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
26. A Varinha Mágica do Mercado Mundial Desperta a América Central
As terras da faixa centro-americana chegaram à metade do
século passado sem que lhes infligissem maiores moléstias.
Além dos alimentos destinados ao consumo, a América
Central produzia a cochonilha e o anil, com poucos capitais,
escassa mão de obra e mínimas preocupações. A
cochonilha, inseto que nascia e crescia sem problemas na
espinhosa superfície dos cactos, desfrutava, com o anil, de
uma constante demanda na indústria têxtil europeia. Esses
dois corantes naturais morreram de morte sintética quando,
por volta de 1850, químicos alemães inventaram as anilinas
e outras tintas mais baratas para tingir tecidos.
Trinta anos depois dessa vitória dos laboratórios sobre a
natureza, chegou o turno do café. A América Central se
transformou. De suas plantações recém-nascidas provinha,
por volta de 1880, pouco menos da sexta parte da produção
mundial de café. Foi através desse produto que a região,
definitivamente, integrou-se ao mercado internacional. Aos
compradores ingleses seguiram-se os alemães e os norte
americanos; os consumidores estrangeiros deram vida a
uma burguesia nativa do café, que no princípio da década
de 1870 irrompeu no poder político através da revolução
liberal de Justo Rufino Barrios. A especialização agrícola,
ditada de fora, despertou o furor da apropriação de terras e
de homens: na América Central, o latifúndio atual nasceu
sob as bandeiras da liberdade de trabalho.
Assim passaram às mãos privadas grandes extensões
desocupadas, que não pertenciam a ninguém ou eram da
Igreja ou do Estado, e teve lugar o frenético despojamento
das comunidades indígenas. Os camponeses que se
negavam a vender suas terras eram incorporados ao
exército, à força; as plantações se converteram em
podredouros de índios, ressuscitaram os mandamentos
coloniais, o recrutamento forçado de mão de obra e as leis
contra a vadiagem. Os trabalhadores fugitivos eram
perseguidos a tiros; os governos liberais modernizavam as
relações de trabalho instituindo o salário, mas os
assalariados se tornavam propriedade dos flamantes
empresários do café. Em nenhum momento, ao longo do
século transcorrido desde então, os períodos dos preços
altos repercutiram no nível dos salários, que continuaram
sendo uma retribuição de fome, sem que jamais as
melhores cotações do café se traduzissem em aumentos.
Esse foi um dos fatores que impediram o desenvolvimento
de um mercado interno de consumo nos países centro
americanos.
[1]
Como em todos os lugares, o cultivo do café, em sua
expansão sem freios, inibiu a agricultura de alimentos
destinados ao mercado interno. Também esses países foram
condenados a padecer uma crônica escassez de arroz,
feijões, milho, trigo e carne. Sobreviveu apenas uma
miserável agricultura de subsistência nas terras altas e
acidentadas, onde o latifúndio encurralou os indígenas ao
apossar-se das terras baixas de maior fertilidade. Nas
montanhas, plantando em minúsculas áreas o milho e os
feijões imprescindíveis para que não morram de fome,
vivem os indígenas uma parte do ano, ao passo que na
outra, durante as colheitas, cedem seus braços às
plantações. Estas são as reservas de mão de obra do
mercado mundial. A situação não mudou: o latifúndio e o
minifúndio constituem, juntos, a unidade de um sistema que
se apoia na impiedosa exploração da mão de obra nativa.
Em geral, e muito especialmente na Guatemala, essa
estrutura de apropriação da força de trabalho mostra-se
identificada com todo um sistema de preconceito racial: os
índios são vítimas do colonialismo interno de brancos e
mestiços,
ideologicamente
abençoado pela cultura
dominante, do mesmo modo que os países centro
americanos padecem do colonialismo estrangeiro.
[2]
Desde o princípio do século apareceram também, em
Honduras, Guatemala e Porto Rico, os enclaves bananeiros.
Para levar o café aos portos, tinham sido construídas
algumas ferrovias financiadas com capital nacional. As
empresas norte-americanas se apossaram dessas ferrovias
e construíram outras, exclusivamente para o transporte de
banana desde as plantações, ao mesmo tempo em que
implantaram o monopólio dos serviços de luz elétrica,
correio, telégrafo, telefone e, serviço público não menos
importante, também o monopólio da política: em Honduras,
“uma mula custa mais do que um deputado”, e em toda a
América Central os embaixadores dos Estados Unidos
presidem mais do que os presidentes. A United Fruit Co.
engoliu seus concorrentes na produção e venda de bananas,
transformou-se na principal latifundiária da América Central,
e suas filiais açambarcaram o transporte ferroviário e
marítimo. Tornou-se dona dos portos, dispondo de alfândega
e polícia próprias. O dólar se converteu, de fato, na moeda
nacional centro-americana.
continua na página 176...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Varinha Mágica do Mercado Mundial Desperta a América Central(15)
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[1] TORRES-RIVAS, Edelberto, Procesos y estructuras de una sociedad
dependiente (Centroamérica). Santiago de Chile, 1959.
[2] OCKLER, Carlos Guzmán & HER ERT, Jean-Loup. Guatemala: una
interpretación histórico-social. México, 1970.
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