quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Varinha Mágica do Mercado Mundial Desperta a América Central(15)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     26. A Varinha Mágica do Mercado Mundial Desperta a América Central
          As terras da faixa centro-americana chegaram à metade do século passado sem que lhes infligissem maiores moléstias. Além dos alimentos destinados ao consumo, a América Central produzia a cochonilha e o anil, com poucos capitais, escassa mão de obra e mínimas preocupações. A cochonilha, inseto que nascia e crescia sem problemas na espinhosa superfície dos cactos, desfrutava, com o anil, de uma constante demanda na indústria têxtil europeia. Esses dois corantes naturais morreram de morte sintética quando, por volta de 1850, químicos alemães inventaram as anilinas e outras tintas mais baratas para tingir tecidos.
     Trinta anos depois dessa vitória dos laboratórios sobre a natureza, chegou o turno do café. A América Central se transformou. De suas plantações recém-nascidas provinha, por volta de 1880, pouco menos da sexta parte da produção mundial de café. Foi através desse produto que a região, definitivamente, integrou-se ao mercado internacional. Aos compradores ingleses seguiram-se os alemães e os norte americanos; os consumidores estrangeiros deram vida a uma burguesia nativa do café, que no princípio da década de 1870 irrompeu no poder político através da revolução liberal de Justo Rufino Barrios. A especialização agrícola, ditada de fora, despertou o furor da apropriação de terras e de homens: na América Central, o latifúndio atual nasceu sob as bandeiras da liberdade de trabalho.
     Assim passaram às mãos privadas grandes extensões desocupadas, que não pertenciam a ninguém ou eram da Igreja ou do Estado, e teve lugar o frenético despojamento das comunidades indígenas. Os camponeses que se negavam a vender suas terras eram incorporados ao exército, à força; as plantações se converteram em podredouros de índios, ressuscitaram os mandamentos coloniais, o recrutamento forçado de mão de obra e as leis contra a vadiagem. Os trabalhadores fugitivos eram perseguidos a tiros; os governos liberais modernizavam as relações de trabalho instituindo o salário, mas os assalariados se tornavam propriedade dos flamantes empresários do café. Em nenhum momento, ao longo do século transcorrido desde então, os períodos dos preços altos repercutiram no nível dos salários, que continuaram sendo uma retribuição de fome, sem que jamais as melhores cotações do café se traduzissem em aumentos. Esse foi um dos fatores que impediram o desenvolvimento de um mercado interno de consumo nos países centro americanos. [1]
     Como em todos os lugares, o cultivo do café, em sua expansão sem freios, inibiu a agricultura de alimentos destinados ao mercado interno. Também esses países foram condenados a padecer uma crônica escassez de arroz, feijões, milho, trigo e carne. Sobreviveu apenas uma miserável agricultura de subsistência nas terras altas e acidentadas, onde o latifúndio encurralou os indígenas ao apossar-se das terras baixas de maior fertilidade. Nas montanhas, plantando em minúsculas áreas o milho e os feijões imprescindíveis para que não morram de fome, vivem os indígenas uma parte do ano, ao passo que na outra, durante as colheitas, cedem seus braços às plantações. Estas são as reservas de mão de obra do mercado mundial. A situação não mudou: o latifúndio e o minifúndio constituem, juntos, a unidade de um sistema que se apoia na impiedosa exploração da mão de obra nativa. Em geral, e muito especialmente na Guatemala, essa estrutura de apropriação da força de trabalho mostra-se identificada com todo um sistema de preconceito racial: os índios são vítimas do colonialismo interno de brancos e mestiços, ideologicamente abençoado pela cultura dominante, do mesmo modo que os países centro americanos padecem do colonialismo estrangeiro. [2]
     Desde o princípio do século apareceram também, em Honduras, Guatemala e Porto Rico, os enclaves bananeiros. Para levar o café aos portos, tinham sido construídas algumas ferrovias financiadas com capital nacional. As empresas norte-americanas se apossaram dessas ferrovias e construíram outras, exclusivamente para o transporte de banana desde as plantações, ao mesmo tempo em que implantaram o monopólio dos serviços de luz elétrica, correio, telégrafo, telefone e, serviço público não menos importante, também o monopólio da política: em Honduras, “uma mula custa mais do que um deputado”, e em toda a América Central os embaixadores dos Estados Unidos presidem mais do que os presidentes. A United Fruit Co. engoliu seus concorrentes na produção e venda de bananas, transformou-se na principal latifundiária da América Central, e suas filiais açambarcaram o transporte ferroviário e marítimo. Tornou-se dona dos portos, dispondo de alfândega e polícia próprias. O dólar se converteu, de fato, na moeda nacional centro-americana.

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Varinha Mágica do Mercado Mundial Desperta a América Central(15)
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[1] TORRES-RIVAS, Edelberto, Procesos y estructuras de una sociedad dependiente (Centroamérica). Santiago de Chile, 1959.
[2] OCKLER, Carlos Guzmán & HER ERT, Jean-Loup. Guatemala: una interpretación histórico-social. México, 1970.  

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