quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - O Sr. de Cambremer estava ingenuamente feliz)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     O Sr. de Cambremer estava ingenuamente feliz em rever os lugares onde vivera por tanto tempo: 

- Reencontro-me - disse à Sra. Verdurin, enquanto o seu olhar se maravilhava por reconhecer as pinturas de flores em extremos acima das portas, e os bustos em mármore sobre seus altos pedestais. Entretanto, podia achar-se desambientado, pois a Sra. Verdurin havia trazido uma boa quantidade de velhas coisas bonitas que possuía. Desse ponto de vista, a Sra. Verdurin, mesmo passando aos olhos dos Cambremer por devastar tudo, não era revolucionária, mas inteligentemente conservadora, num sentido que eles não compreendiam. Assim, acusavam na injustamente de detestar a velha mansão e desonrá-la com simples tecidos em vez de sua rica pelúcia, como um cura ignorante que censurasse um arquiteto diocesano por recolocar no seu lugar próprio velhas madeiras esculpidas deixadas num canto e que o eclesiástico achava melhor substituir pelos ornamentos adquiridos na praça de Saint-Sulpice. Enfim, um jardim de pároco principiava a substituir, diante do castelo, as platibandas que faziam o orgulho não só dos Cambremer, mas também de seu jardineiro. Este, que considerava os Cambremer como os seus únicos senhores e gemia sob o jugo dos Verdurin, como se a terra tivesse sido momentaneamente ocupada por um invasor e uma tropa de veteranos, ia em segredo levar suas condolências à proprietária despojada, indignava-se com o desprezo com que eram tratadas as suas araucárias, suas begônias, seus saiões, suas dálias duplas, e de que ousassem, numa tão rica morada, plantar flores tão comuns como a macela e o mimo-de-vênus. A Sra. Verdurin sentia essa oposição surda e havia decidido, caso fizesse um longo contrato de arrendamento ou até mesmo chegasse a comprar La Raspeliere, a impor como condição a demissão do jardineiro, a quem a velha proprietária, ao contrário, prezava muito. Ele a servira por nada em tempos difíceis, adorava-a; mas, por esse estranho desdobramento da opinião das pessoas do povo, em que o desprezo moral mais profundo se entranha na mais apaixonada estirpe que, por sua vez, cavalga velhos rancores não abolidos, ele dizia muitas vezes que a Sra. de Cambremer, em 1870, surpreendida pela invasão do castelo que possuía no Leste, tivera de sofrer durante um mês o contato dos prussianos: 

- O que muito se censurou na senhora marquesa foi o de ter tomado, durante a guerra, o partido dos prussianos e de tê-los inclusive alojado em sua casa. Em uma outra ocasião, eu compreenderia; mas em tempo de guerra, ela não deveria ter feito isso. Não é correto. -  

     De motivo que ele lhe era fiel até a morte, venerava-a por sua bondade e acreditava culpada de traição. A Sra. Verdurin sentiu-se melindrada porque o Sr. de Cambremer pretendia reconhecer tão bem La Raspeliere. 

- No entanto, o senhor deve encontrar algumas mudanças - respondeu. - Primeiro, havia uns grandes diabos de bronze de Barbedienne e uns ridículos banquinhos de pelúcia que me apressei a mandar para o sótão, que ainda é bom demais para eles. -

     Depois dessa réplica acerba dirigida ao Sr. de Cambremer ela lhe ofereceu o braço para ir à mesa. Ele hesitou por um momento, dizendo consigo:

"Ainda assim, não posso passar adiante do Sr. de Charlus''

     Mas, pensando que este era um velho amigo da casa, uma vez que não tinha o lugar de honra, decidiu-se a tomar o braço que lhe era oferecida. E disse à Sra. Verdurin o quanto se sentia orgulhoso por ser admitido cenáculo (era assim que ele chamava o pequeno núcleo, não sem rir um pouco de satisfação por saber esse termo).  
     Cottard, que estava sentado ao lado do Sr. de Charlus, observava-o por sob o lorgnon a fim de travar conhecimento e quebrar o gelo, com piscadelas muito mais insistentes do que outrora, e não cortadas pela timidez. E seus olhares insinuantes, acrescidos pelo sorriso, já não eram contidos pelas lentes do lorgnon e transbordavam de todos os lados. O barão, que em toda parte via facilmente semelhantes, não duvidou que Cottard fosse um deles e estivesse a namorá-lo. E logo evidenciou ao professor a dureza dos invertidos sexuais tão desdenhosos com aqueles a quem agradam como ardentemente soltos para com quem lhes agrada. Sem dúvida, embora cada qual fala mentirosamente da ternura de ser amado, sempre recusada pelo destino trata-se de uma lei geral, cujo império está bem longe de estender-se unicamente sobre os Charlus, a que diz que a criatura a quem não amam que nos ama pareça-nos insuportável. A essa criatura, a essa mulher dá quem não diremos que nos ama, mas que nos importuna, preferimos a companhia de qualquer outra, que não terá o seu encanto, nem seus dotes, seu espírito. Ela só os recobrará para nós quando nos deixar de amar. Neste sentido, poderia ver-se apenas a transposição, sob uma forma engraçada, dessa regra universal, na irritação causada num invertido por um homem que lhe desagrada e o procura. Mas nele, ela é bem mais forte. Assim, ao passo que o comum dos homens a procura dissimular quando a experimenta, o invertido, implacavelmente, fá-la sentir ao homem que a provoca, como com certeza a não faria sentir a uma mulher; como, por exemplo, o Sr. de Charlus à princesa de Guermantes, cuja paixão o entediava, embora o lisonjeasse. Mas, quando veem um outro homem testemunhar-lhes um gosto particular; então, ou por incompreensão de que seja o mesmo gosto do deles; ou por lembrança infeliz de que esse gosto, por eles embelezado enquanto eles mesmos o experimentam, é considerado como vício; seja pelo desejo de se reabilitarem com um rompante, numa circunstância em que isso nada lhes custa; seja pelo temor de serem adivinhados, que experimentam de súbito, quando o desejo não mais os impulsiona, de olhos vendados, de imprudência em imprudência; seja pelo furor de sofrer de fato com a atitude equívoca de outro o dano que, quanto à sua atitude, se esse outro lhes agradasse, não receariam causar-lhe, aqueles a quem não constrange seguirem um rapaz durante léguas, não lhe tirarem os olhos de cima no teatro, mesmo que esteja com amigos, arriscando-se com isso a fazê-lo brigar com eles, a gente pode ouvi-lo dizer, por pouco que os olhe um outro que não lhes agrada: 

- Cavalheiro, por quem o senhor me toma? (simplesmente porque os tomam pelo que eles são.) Não o compreendo, é inútil insistir, o senhor está enganado; ir, se necessário, até as bofetadas e, diante de alguém que conhece o imprudente, indignar-se: 
- Como? O senhor conhece esse salafrário? Ele tem um jeito de olhar para a gente! E que maneiras! -

     O Sr. de Charlus não foi tão longe, mas mostrou o ar ofendido e glacial que assumem, quando parecemos julgá-las levianas, as mulheres que o não são, e ainda mais aquelas que o são. Ademais o invertido, posto em presença de outro invertido, vê não apenas uma imagem desagradável de si mesmo que, puramente inanimada, só poderia ferir seu amor-próprio, mas também um outro eu, vivo, que age no mesmo sentido, portanto capaz de fazê-lo sofrer em seus amores. Assim, é num instinto de conservação que ele falará todo o mal do possível concorrente, ou com as pessoas que podem prejudicar a este (e sem que o invertido não se inquiete de passar por mentiroso, quando desse modo liquida o invertido não aos olhos das pessoas que podem ser informadas a respeito de seu próprio caso), ou com o rapaz que ele "agarrou", que talvez lhe venha a ser arrebatado, e a quem trata de convencer que as mesmas coisas, que este tem todas as vantagens de fazer com ele, causariam a desgraça da sua vida se se deixasse levar a fazê-las com o outro.
     Quanto ao Sr. de Charlus, que talvez pensasse nos perigos (totalmente imaginários) que a presença desse Cottard, cujo sorriso entendia de modo errôneo, faria correr a Morel, um invertido que não agradasse não era apenas uma caricatura de si mesmo, era igualmente a rival escolhido. Um comerciante que explora um ramo raro dos negócios desembarcando numa cidade da província onde acaba de instalar-se para o resto da vida, se vê que, na mesma praça, bem defronte, o mesmo negócio é explorado por um concorrente, não fica menos desnorteado que um Charlus que, indo ocultar seus amores numa região tranquila, vê no dia de chegada o gentil homem do lugar, ou o cabeleireiro, cujo ar e maneiras não lhe deixam quaisquer dúvidas. Muitas vezes, o comerciante acaba sentindo um verdadeiro ódio pelo concorrente; por vezes, tal ódio degenera em melancolia, e por pouco que haja hereditariedade bastante carregada, já se vê em cidadezinhas o comerciante mostrar indícios de loucura que só se pode curar convencendo-o a vender seu "fundo" e a expatriar-se. A raiva do invertido é ainda mais lancinante. Compreendeu que, desde o primeiro instante, o gentil-homem e o cabeleireiro desejaram seu jovem camarada. Por mais que repita a este, cem vezes por dia, que o cabeleireiro e o gentil-homem são bandidos cuja aproximação o desonraria, é obrigado, como Harpagão, a velar pelo seu tesouro e levanta-se da cama à noite para ver se não lhe roubam. E sem dúvida é mais ainda que o desejo ou até comodidade de hábitos comuns e quase tanto como essa experiência de si mesmo que é a única verdadeira, faz com que o invertido despiste o invertido com uma rapidez e uma segurança quase infalíveis. Ele pode enganar-se por um momento; mas uma adivinhação rápida o põe de novo no caminho da verdade. Assim, o erro do Sr. de Charlus foi de curta duração. Discernimento divino mostrou-lhe, após um instante, que Cottard não era de sua espécie e que não havia o que temer de seus avanços, nem quanto a si mesmo, o que só faria deixá-lo exasperado, nem quanto a Morel, o que lha pareceria mais grave. Voltou a tranquilizar-se e, como estivesse ainda sob a, influência da passagem de Vênus Andrógina, sorria às vezes debilmente aos Verdurin sem se incomodar em abrir a boca, apenas franzindo um canto dos lábios e, por um segundo, acendia ternamente os olhos, ele, tão cioso de sua virilidade, exatamente como o teria feito sua cunhada, a duquesa de Guermantes. 

- Caça muito, senhor? - perguntou a Sra. Verdurin com desprezo ao Sr. de Cambremer. 
- Ski já lhe contou que nos aconteceu uma boa? - indagou Cottard à Patroa. 
- Caço principalmente na floresta de Chatepie - respondeu o Sr. de Cambremer. 
- Não, não contei nada - disse Ski. 
- Merece ela o seu nome? - perguntou Brichot ao Sr. de Cambremer, depois de ter-me olhado com o rabo dos olhos, pois me havia prometido falar em etimologias, recomendando que dissimulasse à Cambremer o desprezo que lhe inspiravam as do cura de Combray. 
- Com certeza é porque não sou capaz de compreender, mas não alcancei sua pergunta disse o Sr. de Cambremer. 
- Quero dizer: será que por lá cantam muitas pegas? - esclareceu Brichot.

     Entretanto, Cottard sofria porque a Sra. Verdurin ignorava que eles quase haviam perdido o trem. 

- Vamos - disse a Sra. Cottard ao marido para animá-lo-, conta a tua odisséia. 
- De fato, ela sai fora do comum - disse o doutor, que recomeçou sua narrativa. - Quando vi que o trem estava na gare, fiquei petrificado. Tudo isso por culpa de Ski. 
- O senhor é meio bizarróide em suas informações, meu caro! E Brichot que nos esperava na gare! - Pensava - disse o universitário, lançando a seu redor o que lhe restava de olhar e sorrindo com seus lábios delgados - que, se o senhor se havia demorado em Graincourt, era porque encontrara alguma peripatética. 
- Cale-se, por favor. Imagine se minha mulher o ouvisse! - disse o doutor. - A patroa é ciumenta. 
- Ah, esse Brichot! - exclamou Ski, em quem o divertido gracejo de Brichot despertara a alegria costumeira. - É sempre o mesmo. - embora na verdade não soubesse dizer se o universitário tivesse sido libertino algum dia. E, para acrescentar a essas palavras consagradas o gesto ritual, fingiu que não podia resistir ao desejo de lhe beliscar a perna. - Ele não muda, esse galhofeiro de Brichot - continuou Ski, e, sem pensar no que a quase cegueira do universitário ajuntava de triste e cômico a essas palavras, acrescentou: - Sempre um olhinho para as mulheres. 
- Vejam - disse o Sr. de Cambremer - o que é encontrarmos um sábio. Faz quinze anos que caço na floresta de Chantepíe e nunca havia pensado no que seu nome significa.

     A Sra. de Cambremer lançou um olhar severo ao marido; não gostaria que ele se humilhasse de tal forma diante de Brichot. Ficou mais contrariada ainda quando, a cada "frase feita" empregada por Cancan, Cottard, que conhecia o forte e o fraco delas, pois tinha-as trabalhosamente aprendido, demonstrava ao marquês, o qual confessava sua tolice, que elas não queriam dizer nada: 

- Por que: burro como uma porta? Acha que as portas são mais burras do que qualquer outra coisa? O senhor diz: repetir cem vezes a mesma coisa. Por que particularmente cem? Por que: dormir como uma pedra? Por que: com todos os diabos? Por que: levar vida desregrada? - Mas então a defesa do Sr. de Cambremer ficava a cargo de Brichot, que explicava a origem de cada locução. Mas a Sra. de Cambremer ocupava-se principalmente em examinar as mudanças que os Verdurin tinham trazido a La Raspeliere, a fim de poder criticar algumas, levar outras para Féterne, ou talvez as mesmas. 
- Pergunto-me o que quer dizer este lustre todo atravessado. Mal reconheço minha velha Raspeliere - acrescentou com um sorriso familiarmente aristocrático, como se falasse de um servidor, não propriamente para designar-lhe a idade, mas para dizer que ele a vira nascer. E, como era um tanto livresca na linguagem: 
- Ainda assim, - acrescentou a meia voz - parece-me que, se eu morasse em casa alheia, teria algum escrúpulo em mudar tudo assim. 
- É uma pena que os senhores não tenham vindo com eles - disse a Sra. Verdurin ao Sr. de Charlus e a Morel, na esperança de que o Sr. de Charlus voltasse com frequência e se inclinasse à regra de chegarem todos no mesmo trem. - Tem certeza de que Chantepie quer dizer "a pega que cantai!”; Chochotte? - ajuntou ela, para mostrar que, como grande dona-de-casa; tomava parte em todas as conversas ao mesmo tempo. 
- Mas fale-me um pouco desse violinista - disse-me a Sra. de Cambremer - ele me interessa; adoro a música e creio que já ouvi falar nele, por favor queira informar-me, sim? -

     Soubera que Morel tinha vindo com o Sr. de Charlus e desejava, sendo apresentada ao primeiro, travar relações com o segundo. Entretanto, acrescentou, para que eu não pudesse adivinhar esse motivo: 

- O Sr Brichot também me interessa. -

     Pois, se era muito instruída, como ocorre com certas pessoas predispostas à obesidade e que mal comem e caminham o dia inteiro sem cessar de engordar a olhos vistos, assim a Sra. de Cambremer, por mais que se aprofundasse, sobretudo em Féterne, numa filosofia cada vez mais esotérica, numa música cada vez mais transcendente, só saía desses estudos para maquinar intrigas que lhe permitissem "acertar" as amizades burguesas de juventude e travar relações que a princípio julgara fazerem parte da sociedade da família do marido, mas que em seguida percebeu estarem situadas muito mais alto e longe. Um filósofo que não era bastante moderno para ela, Leibnitz, disse que a trajetória da inteligência ao coração é muito longa. Essa trajetória, a Sra. de Cambremer, berre como o seu irmão, não tinha mais forças para percorrê-la. Só abandonando a leitura de Stuart Mill pela de Lachelier, à medida que acreditava menor na realidade do mundo exterior, mais se encarniçava, antes de morrer, em conseguir uma boa posição neste último. Apaixonada pela arte realista nenhum objeto lhe parecia suficientemente humilde para servir de modelo ao pintor ou ao escritor. Um quadro ou um romance mundano lhe provocariam náuseas; um mujique de Tolstoi e um camponês de Millet eram o extremo limite social, que ela não permitia ao artista ultrapassar. Mas franquear o que limitava suas próprias relações, elevar-se até o convívio das duquesas, era a finalidade de todos os seus esforços, de tal modo permanecia ineficaz, contra o esnobismo congênito e mórbido que nela se desenvolvia, o tratamento espiritual a que se submetia através do estudo de obras-primas. Esse esnobismo terminara até curando certas inclinações à avareza e ao adultério, a que era propensa quando jovem, assemelhando-se nisso a esses singulares e contínuos estados patológicos que parecem imunizar os que deles sofrem contra outras doenças. Aliás, eu não podia, ao ouvi-la falar, deixar de fazer justiça ao refinamento de suas expressões, sem todavia sentir nenhum prazer nisso. São as que empregam, numa certa época, todas as pessoas de uma mesma estatura intelectual, de modo que a expressão refinada fornece de imediato, como o arco de um círculo, o meio de descrever e limitar toda a circunferência. Assim, tais expressões fazem com que as pessoas que as empregam me aborreçam logo como já conhecidas, mas também passam por superiores e muitas vezes me foram oferecidas como vizinhas deliciosas e inapreciadas. 

 A senhora bem sabe que muitas regiões florestais tiram o seu nome dos animais que as povoam. Vizinho à floresta de Chantepie, temos o bosque de Chantereine. 
- Não sei de que rainha se trata, mas o senhor não é galante com ela - disse o Sr. de Cambremer. 
- Pegue essa, Chochotte - disse a Sra. Verdurin. - E, fora isso, a viagem correu bem? 
- Só encontramos vagas humanidades que enchiam o trem. Mas respondo à pergunta do Sr. de Cambremer; rainha não é aqui a mulher de um rei, mas a rã. É o nome que ela conservou por muito tempo nesta região, como o testemunha a estação de Renneville, que deveria escrever se Reinneville. 
- Parece-me que a senhora possui aí um belo animal - disse o Sr. de Cambremer à Sra. Verdurin, mostrando-lhe um peixe. Era um desses cumprimentos com que ele julgava pagar sua cota num jantar e já retribuir à gentileza. (“Inútil convidá-los," dizia com frequência à mulher, falando de tais ou quais amigos. "Ficaram encantados de nos terem à sua mesa. Eles é que nos agradeciam.") - Aliás, devo dizer-lhe que há muitos anos vou quase diariamente a Renneville e lá não vi mais rãs do que em qualquer outro lugar. A Sra. de Cambremer mandou vir aqui o cura de uma paróquia onde possui fortes propriedades e que tem o mesmo feitio de espírito que o senhor, pelo que parece. Ele escreveu uma obra. 
- Sei disso, eu a li com grande interesse - respondeu hipocritamente Brichot.

     A satisfação que seu orgulho recebia indiretamente dessa resposta fez rir longamente o Sr. de Cambremer. 

- Pois bem, o autor, como direi, dessa geografia, desse glossário, discorre longamente acerca do nome de uma pequena localidade de que nós éramos outrora, se assim posso dizer, os senhores, e que se chama Pont-à-Couleuvre. Ora, é evidente que não passo de um vulgar ignorante ao lado desses poços de ciência, mas já fui mil vezes a Pont-à-Couleuvre, e diabos me levem se vi alguma vez uma única dessas serpentes danadas, digo danadas, apesar do elogio que lhes faz o bom La Fontaine (O Homem e a Cobra era uma das duas fábulas). 
- O senhor não viu, mas foi o senhor quem viu direito - respondeu Brichot. 
- Certames, o escritor de que fala conhece a fundo o seu assunto, escreveu um litro notável. 
- Claro! - exclamou a Sra. de Cambremer. - Este livro, é bolo que se diga, é um verdadeiro trabalho de beneditino. 
- Sem dúvida ele consultado pouillés (entende-se por isso a lista dos benefícios e curatos de cada diocese, o que lhe pôde fornecer o nome dos patronos antigos e dos colatores eclesiásticos). Mas existem outras fontes. Um de meus amigos mais sábios nelas se abeberou. Descobriu que este mesmo lugar era denominado Pont-à-Quileuvre. Esse nome esquisito o incitou a remontar mais longe ainda, a um texto latino em que a ponte que o seu amigo crê infestada de cobras é designada: Pons cus aperit. Ponte fechada, que se abria mediante uma contribuição razoável. 
- O senhor falava de rãs. Eu; achando-me no meio de pessoas tão sábias, tenho a impressão de que via rã diante do areópago - (era a segunda fábula) - disse Cancan, que muitas vezes fazia rindo esse gracejo, graças ao qual acreditava ao mesmo tempo, por humildade e bem a propósito, fazer profissão de ignorância e ostentação de saber. Quanto a Cottard, bloqueado pelo silêncio do Sr. de Charlus e tentando dar-se importância sob outros aspectos, voltou-se para mim e me fez uma dessas perguntas que impressionavam seus doentes se eram acertadas e mostravam que ele estava, por assim dizer, no corpo deles; se pelo contrário, eram erradas, permitiam-lhe retificar certas teorias, ampliar antigos pontos de vista. 
- Quando o senhor chega a locais relativamente elevados como este em que nos encontramos no momento, reparou que isto aumenta sua tendência às sufocações? - indagou, certo ou de se fazer admirar, ou de completar seus conhecimentos. O Sr. de Cambremer ouviu a pergunta, e sorriu. 
- Não posso lhe dizer como me agrada saber que o senhor tem sufocações - lançou-me ele através da mesa. Com isso, ele não queria dizer que a coisa o alegrava, embora isso também fosse verdade. Pois esse homem excelente não podia no entanto ouvir falar de desgraça de outrem sem um sentimento de bem-estar e um espasmo de hilaridade que rapidamente cediam à piedade de um bom coração. Mas sua frase tinha um outro sentido, que esclareceu a seguinte: 
- Isto me agrada - disse - porque precisamente a minha irmã também sofre disso.

     Em suma, aquilo lhe agradava como se me tivesse ouvido citar como sendo um de meus amigos alguém que tivesse frequentado muito a sua casa. 

- Como é pequeno o mundo - foi a reflexão que ele formulou mentalmente e que vi escrita no seu rosto sorridente quando Cottard me falou de minhas sufocações. E estas se tornaram, a partir desse jantar, uma espécie de relações comuns de que o Sr. de Cambremer jamais deixava de pedir notícias, nem que fosse apenas para transmiti-las à irmã.

     Enquanto respondia às perguntas que sua mulher me fazia sobre Morel, eu pensava numa conversa que tivera com minha mãe à tarde. Como, embora não me desaconselhasse a ir à casa dos Verdurin, se isso podia distrair-me, ela me lembrasse que se tratava de um ambiente que não teria agradado a meu avô e o teria feito exclamar:

"Em guarda!", minha mãe havia acrescentado: - Escuta, o presidente Toureuil e sua esposa me disseram que haviam jantado com a Sra. Bontemps. Não me perguntaram nada. Mas julguei compreender que o casamento de Albertine contigo seria o sonho da sua tia. Creio que a verdadeira razão é que és muito simpático a todos eles. Ainda assim, o luxo que eles acham que poderias lhes dar, as relações que mais ou menos sabem que nós temos, creio que tudo isso não lhes é estranho, embora secundário. Não te falaria nisso porque não ligo muito para tais coisas, mas, como suponho que vão te falar, preferi tomar a dianteira.

- Mas tu, que achas de Albertine? perguntara eu a mamãe. 
- Ora, eu, não serei eu quem se casará com ela. Decerto podes arranjar coisa mil vezes melhor em matéria de casamento. Mas creio que tua avó não gostaria que te influenciassem. Atualmente não posso te dizer como acho Albertine, não acho nada. Direi como a Sra. de Sévigné: "Ela tem boas qualidades, pelo menos é o que creio. Mas agora no começo, só sei louvá-la com negativas. Ela não é isto, ela não tem o sotaque de Rennes. Com o tempo, talvez, eu diga: ela é isto." E sempre a acharei bem, se ela te fizer feliz. -  

     Mas, com essas mesmas palavras, que colocavam nas minhas mãos a decisão sobre a minha própria felicidade, minha mãe me pusera nesse estado de dúvida em que eu já me vira quando, tendo meu pai permitido que eu fosse à representação da Fedra, e principalmente, que me tornasse escritor, sentira de súbito uma responsabilidade excessivamente grande, o medo de afligi-lo, e aquela melancolia que se sente quando se deixa de obedecer a ordens que, no dia-a-dia, nos ocultam o futuro, de perceber que afinal começamos a viver a vida de verdade, como gente grande, a única vida que está à disposição de todos nós. Talvez fosse melhor esperar um pouco, começar a lidar com Albertine como antigamente, para tentar ver se a amava de verdade. Poderia levá-la à casa dos Verdurin para distraí-la, e isso me lembrou que eu mesmo só estava ali aquela noite para saber se a Sra. Putbus ali estava hospedada ou ainda ia chegar. Em todo caso, não viera para jantar. 

- A propósito de seu amigo Saint-Loup - disse-me a Sra. de Cambremer, empregando assim uma expressão que denotava mais seguimento nas ideias do que suas frases dariam a entender; pois, falando de música, pensava em Guermantes -, o senhor sabe que todo mundo fala de seu casamento com a sobrinha da princesa de Guermantes. Dir-lhe-ei que, de minha parte, não me preocupo a mínima com esses mexericos mundanos. -

continua na página 150...
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