sábado, 28 de fevereiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Os Filibusteiros na Abordageml(16)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     27. Os Filibusteiros na Abordagem
          Na concepção geopolítica do imperialismo, a América Central não é nada mais do que um apêndice natural dos Estados Unidos. Nem mesmo Abraham Lincoln, que também pensou em anexar seus territórios, conseguiu escapar dos preceitos do “destino manifesto” da grande potência em relação às suas áreas contíguas. [1]
     Em meados do século passado, o filibusteiro William Walker, que operava em nome dos banqueiros Morgan e Garrison, invadiu a América Central à frente de um bando de assassinos que se autodenominavam “a falange americana dos imortais”. Com o respaldo oficioso do governo dos Estados Unidos, Walker roubou, matou, incendiou e se proclamou, em expedições sucessivas, presidente da Nicarágua, El Salvador e Honduras. Reimplantou a escravidão nos territórios que sofreram sua devastadora ocupação, continuando, assim, a obra filantrópica de seu país nos estados que, pouco antes, tinham sido usurpados ao México.
     Em seu regresso foi recebido nos Estados Unidos como herói nacional. Desde então sucederam-se as invasões, as intervenções, os bombardeios, os empréstimos compulsórios e os tratados assinados ao pé do canhão. Em 1912, o presidente William H. Taft afirmava: “Não está longe o dia em que três bandeiras de barras e estrelas vão assinalar em três pontos equidistantes a extensão de nosso território: uma no Polo Norte, outra no Canal do Panamá e a terceira no Polo Sul. Todo o hemisfério, de fato, será nosso, como já é nosso moralmente em virtude de nossa superioridade racial” [2]. Taft dizia que o reto caminho da justiça na política externa dos Estados Unidos “não exclui de modo algum uma ativa intervenção para assegurar às nossas mercadorias e aos nossos capitalistas facilidades para os investimentos lucrativos”. Na mesma época, o ex-presidente Teddy Roosevelt recordava em voz alta sua exitosa amputação da terra da Colômbia: I took the Canal, dizia o flamante Prêmio Nobel da Paz, enquanto contava como havia independentizado o Panamá [3]. A Colômbia receberia pouco depois uma indenização de 25 milhões de dólares: era o preço de um país, nascido para que os Estados Unidos dispusessem de uma via de comunicação entre os dois oceanos.
     As empresas se apoderavam de terras, alfândegas, tesouros e governos; os marines desembarcavam em todas as partes para “proteger a vida e os interesses dos cidadãos norte-americanos”, pretexto igual ao que usariam, em 1965, para apagar com água benta o rastro do crime na República Dominicana. A bandeira envolvia outras mercadorias. Em 1935, já aposentado, o comandante Smedley D. Butler, que encabeçou muitas expedições, resumia assim sua atividade: “Passei 33 anos e quatro meses no serviço ativo, como membro da mais ágil força militar deste país: o Corpo de Infantaria da Marinha. Servi em todos os postos, de segundo-tenente a general de divisão. E durante todo esse período passei a maior parte do tempo em funções de pistoleiro de primeira classe para os Grandes Negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em uma palavra: fui um pistoleiro do capitalismo (...). Assim, por exemplo, em 1914 ajudei a fazer com que o México, e especialmente Tampico, fossem uma presa fácil para os interesses dos petroleiros norte-americanos. Ajudei a fazer com que Haiti e Cuba fossem lugares decentes para o retorno de investimentos do National City Bank (...). Em 1909-12, ajudei a purificar a Nicarágua para a casa bancária internacional de Brown Brothers. Em 1916 levei a luz à República Dominicana, em nome dos interesses açucareiros norte-americanos. Em 1903 ajudei a ‘pacificar’ Honduras em benefício das companhias fruticultoras norte-americanas”. [4]
     Nos primeiros anos do século o filósofo William James foi autor de uma frase que poucas pessoas conhecem: “O país vomitou de uma vez e para sempre a Declaração de Independência”. Para ficar num só exemplo, os Estados Unidos ocuparam o Haiti durante vinte anos, e ali, nesse país negro que tinha sido o cenário da primeira revolta vitoriosa dos escravos, introduziram a segregação racial e o regime de trabalhos forçados, mataram 1.500 operários numa só de suas operações repressivas (segundo investigação do Senado norte-americano), e quando o governo local se negou a fazer do anco Nacional uma sucursal do National City Bank de Nova York, suspenderam o pagamento dos soldos aos presidentes e aos seus ministros, para que tornassem a andar na linha. [5]
     Histórias semelhantes se repetiam nas demais ilhas do Caribe e em toda a América Central, o espaço geopolítico do Mare Nostrum do império, no ritmo alternado do big stick ou da “diplomacia do dólar”.
     O Corão menciona a bananeira entre as árvores do paraíso, mas a bananização da Guatemala, Honduras, Costa Rita, Panamá, Colômbia e Equador permite suspeitas de que se trata de uma árvore do inferno. Na Colômbia, a United Fruit já se tornara dona do maior latifúndio do país quando, em 1928, eclodiu uma grande greve na costa atlântica. Os trabalhadores bananeiros foram aniquilados a tiros, na frente de uma estação ferroviária. Um decreto oficial tinha sido publicado: “Os homens de força pública estão autorizados a castigar pelas armas...”, e depois não houve necessidade de editar nenhum decreto para apagar a matança da memória oficial do país. [6]
     Miguel Ángel Asturias narrou o processo da conquista e do saque da América Central. El papa verde era Minor Keith, o rei sem coroa da região inteira, pai da United Fruit, devorador de países. “Temos portos, ferrovias, terras, edifícios, mananciais”, enumerava o presidente, “circula o dólar, fala-se em inglês e se hasteia nossa bandeira (...). Chicago devia no mínimo orgulhar-se desse filho que havia partido com um par de pistolas e regressava para reclamar seu posto entre os imperadores da carne, reis das ferrovias, reis do cobre, reis da goma de mascar”. [7] Em O paralelo 42 John dos Passos traçou a rutilante biografia de Keith, biografia da empresa: “Na Europa e nos Estados Unidos as pessoas começaram a comer bananas assim que foram derrubadas as florestas da América Central para a semeadura da bananas e a construção de ferrovias para transportá-las; a cada ano, mais vapores da Great White Fleet iam para o norte repletos de bananas, e essa é a história do império norte-americano no Caribe e no canal do Panamá e do futuro canal da Nicarágua e dos marines e dos encouraçados e das baionetas (...)”.
     As terras ficavam tão exaustas quanto os trabalhadores: das terras roubavam o húmus, dos trabalhadores os pulmões, mas sempre havia novas terras para explorar e mais trabalhadores para exterminar. Os ditadores, próceres de opereta, velavam pelo bem-estar da United Fruit com o punhal entre os dentes. Depois, a produção de bananas foi caindo e a onipotência da empresa das frutas passou por várias crises, mas a América Central, em nossos dias, continua sendo um santuário do lucro para os aventureiros, ainda que o café, o algodão e o açúcar tenham derrubado a banana de seu trono de privilégios. Em 1970, as bananas são a principal fonte de divisas para Honduras e Panamá, e na América do Sul para o Equador. Por volta de 1930, a América Central exportava 38 milhões anuais de cachos, e a United Fruit pagava para Honduras um centavo de imposto por cacho. Não havia maneira de controlar o pagamento desse minimposto (que depois subiu um pouquinho), e ainda não há, pois até hoje a United Fruit exporta e importa o que quiser sem responder às alfândegas estatais. A balança comercial e a balança de pagamentos do país são obras de ficção a cargo de técnicos de pródiga imaginação.

continua na página 176...
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[1] RIBEIRO, Darcy. Las Américas y la civilización, t. III: Los pueblos trasplantados. Civilización y desarrollo. Buenos Aires, 1970.
[2] SELSER, Gregorio. Diplomacia, garrote y dólares en América Latina. Buenos Aires, 1962.
[3] JULIEN, Claude. L’empire americain. Paris, 1968.
[4] Publicado em Common Sense, novembro de 1935. v. HUBERMAN, Leo. Man’s Wordly Goods. The Story of the Wealth of Nations. New York, 1936.
[5] KREHM, William. Democracia y tiranías no Caribe. Buenos Aires, 1959.
[6] Este é o grande tema do romance de Álvaro Cepeda Samudio, La casa grande ( Buenos Aires, 1967) e também integra um dos capítulos de Cien años de soledad ( Buenos Aires, 1967), de Gabriel García Márquez: “Por certo foi um sonho”, insistiam os oficiais.
[7] O ciclo compreende os romances Viento norte, El papa verde e Los ojos de los enterrados, trilogia publicada em Buenos Aires na década de 50. Em Viento norte, um dos personagens, Mr. Pyle, diz profeticamente: “Se em lugar de fazer novas plantações comprarmos os frutos de produtores particulares, ganharemos muito no futuro”. Isto é o que ocorre atualmente na Guatemala: a United Fruit agora United Brands – exerce seu monopólio bananeiro através dos mecanismos de comercialização, mais eficazes e menos arriscados do que a produção direta. Cabe anotar que a produção de bananas caiu verticalmente na década de 60, a partir do momento em que a United Fruit decidiu vender e ou arrendar suas plantações na Guatemala, ameaçadas pelos fervores da agitação social.
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Os Filibusteiros na Abordageml(16)

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