PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
27. Os Filibusteiros na Abordagem
Na concepção geopolítica do imperialismo, a América
Central não é nada mais do que um apêndice natural dos
Estados Unidos. Nem mesmo Abraham Lincoln, que também
pensou em anexar seus territórios, conseguiu escapar dos
preceitos do “destino manifesto” da grande potência em
relação às suas áreas contíguas.
[1]
Em meados do século passado, o filibusteiro William
Walker, que operava em nome dos banqueiros Morgan e
Garrison, invadiu a América Central à frente de um bando
de assassinos que se autodenominavam “a falange
americana dos imortais”. Com o respaldo oficioso do
governo dos Estados Unidos, Walker roubou, matou,
incendiou e se proclamou, em expedições sucessivas,
presidente da Nicarágua, El Salvador e Honduras.
Reimplantou a escravidão nos territórios que sofreram sua
devastadora ocupação, continuando, assim, a obra
filantrópica de seu país nos estados que, pouco antes,
tinham sido usurpados ao México.
Em seu regresso foi recebido nos Estados Unidos como
herói nacional. Desde então sucederam-se as invasões, as
intervenções,
os
bombardeios,
os
empréstimos
compulsórios e os tratados assinados ao pé do canhão. Em
1912, o presidente William H. Taft afirmava: “Não está longe
o dia em que três bandeiras de barras e estrelas vão
assinalar em três pontos equidistantes a extensão de nosso
território: uma no Polo Norte, outra no Canal do Panamá e a
terceira no Polo Sul. Todo o hemisfério, de fato, será nosso,
como já é nosso moralmente em virtude de nossa
superioridade racial”
[2]. Taft dizia que o reto caminho da
justiça na política externa dos Estados Unidos “não exclui de
modo algum uma ativa intervenção para assegurar às
nossas mercadorias e aos nossos capitalistas facilidades
para os investimentos lucrativos”. Na mesma época, o ex-presidente Teddy Roosevelt recordava em voz alta sua
exitosa amputação da terra da Colômbia: I took the Canal,
dizia o flamante Prêmio Nobel da Paz, enquanto contava
como havia independentizado o Panamá
[3]. A Colômbia
receberia pouco depois uma indenização de 25 milhões de
dólares: era o preço de um país, nascido para que os
Estados Unidos dispusessem de uma via de comunicação
entre os dois oceanos.
As empresas se apoderavam de terras, alfândegas,
tesouros e governos; os marines desembarcavam em todas
as partes para “proteger a vida e os interesses dos cidadãos
norte-americanos”, pretexto igual ao que usariam, em 1965,
para apagar com água benta o rastro do crime na República
Dominicana. A bandeira envolvia outras mercadorias. Em
1935, já aposentado, o comandante Smedley D. Butler, que
encabeçou muitas expedições, resumia assim sua atividade:
“Passei 33 anos e quatro meses no serviço ativo, como
membro da mais ágil força militar deste país: o Corpo de
Infantaria da Marinha. Servi em todos os postos, de
segundo-tenente a general de divisão. E durante todo esse
período passei a maior parte do tempo em funções de
pistoleiro de primeira classe para os Grandes Negócios, para
Wall Street e para os banqueiros. Em uma palavra: fui um
pistoleiro do capitalismo (...). Assim, por exemplo, em 1914
ajudei a fazer com que o México, e especialmente Tampico,
fossem uma presa fácil para os interesses dos petroleiros
norte-americanos. Ajudei a fazer com que Haiti e Cuba
fossem lugares decentes para o retorno de investimentos do
National City Bank (...). Em 1909-12, ajudei a purificar a
Nicarágua para a casa bancária internacional de Brown Brothers. Em 1916 levei a luz à República Dominicana, em
nome dos interesses açucareiros norte-americanos. Em
1903 ajudei a ‘pacificar’ Honduras em benefício das
companhias fruticultoras norte-americanas”.
[4]
Nos primeiros anos do século o filósofo William James foi
autor de uma frase que poucas pessoas conhecem: “O país
vomitou de uma vez e para sempre a Declaração de
Independência”. Para ficar num só exemplo, os Estados
Unidos ocuparam o Haiti durante vinte anos, e ali, nesse
país negro que tinha sido o cenário da primeira revolta
vitoriosa dos escravos, introduziram a segregação racial e o
regime de trabalhos forçados, mataram 1.500 operários
numa só de suas operações repressivas (segundo
investigação do Senado norte-americano), e quando o
governo local se negou a fazer do anco Nacional uma
sucursal do National City Bank de Nova York, suspenderam
o pagamento dos soldos aos presidentes e aos seus
ministros, para que tornassem a andar na linha.
[5]
Histórias semelhantes se repetiam nas demais ilhas do
Caribe e em toda a América Central, o espaço geopolítico do
Mare Nostrum do império, no ritmo alternado do big stick ou
da “diplomacia do dólar”.
O Corão menciona a bananeira entre as árvores do
paraíso, mas a bananização da Guatemala, Honduras, Costa
Rita, Panamá, Colômbia e Equador permite suspeitas de que
se trata de uma árvore do inferno. Na Colômbia, a United
Fruit já se tornara dona do maior latifúndio do país quando,
em 1928, eclodiu uma grande greve na costa atlântica. Os
trabalhadores bananeiros foram aniquilados a tiros, na
frente de uma estação ferroviária. Um decreto oficial tinha
sido publicado: “Os homens de força pública estão
autorizados a castigar pelas armas...”, e depois não houve
necessidade de editar nenhum decreto para apagar a
matança da memória oficial do país.
[6]
Miguel Ángel Asturias narrou o processo da conquista e
do saque da América Central. El papa verde era Minor Keith,
o rei sem coroa da região inteira, pai da United Fruit,
devorador de países. “Temos portos, ferrovias, terras,
edifícios, mananciais”, enumerava o presidente, “circula o
dólar, fala-se em inglês e se hasteia nossa bandeira (...).
Chicago devia no mínimo orgulhar-se desse filho que havia
partido com um par de pistolas e regressava para reclamar
seu posto entre os imperadores da carne, reis das ferrovias,
reis do cobre, reis da goma de mascar”.
[7] Em O paralelo 42
John dos Passos traçou a rutilante biografia de Keith,
biografia da empresa: “Na Europa e nos Estados Unidos as
pessoas começaram a comer bananas assim que foram
derrubadas as florestas da América Central para a
semeadura da bananas e a construção de ferrovias para
transportá-las; a cada ano, mais vapores da Great White
Fleet iam para o norte repletos de bananas, e essa é a
história do império norte-americano no Caribe e no canal do
Panamá e do futuro canal da Nicarágua e dos marines e dos
encouraçados e das baionetas (...)”.
As terras ficavam tão exaustas quanto os trabalhadores:
das terras roubavam o húmus, dos trabalhadores os
pulmões, mas sempre havia novas terras para explorar e
mais trabalhadores para exterminar. Os ditadores, próceres
de opereta, velavam pelo bem-estar da United Fruit com o
punhal entre os dentes. Depois, a produção de bananas foi
caindo e a onipotência da empresa das frutas passou por
várias crises, mas a América Central, em nossos dias,
continua sendo um santuário do lucro para os aventureiros,
ainda que o café, o algodão e o açúcar tenham derrubado a
banana de seu trono de privilégios. Em 1970, as bananas
são a principal fonte de divisas para Honduras e Panamá, e
na América do Sul para o Equador. Por volta de 1930, a
América Central exportava 38 milhões anuais de cachos, e a
United Fruit pagava para Honduras um centavo de imposto
por cacho. Não havia maneira de controlar o pagamento
desse minimposto (que depois subiu um pouquinho), e
ainda não há, pois até hoje a United Fruit exporta e importa
o que quiser sem responder às alfândegas estatais. A
balança comercial e a balança de pagamentos do país são
obras de ficção a cargo de técnicos de pródiga imaginação.
continua na página 176...
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[1] RIBEIRO, Darcy. Las Américas y la civilización, t. III: Los pueblos trasplantados. Civilización y desarrollo. Buenos Aires, 1970.
[2] SELSER, Gregorio. Diplomacia, garrote y dólares en América Latina. Buenos Aires, 1962.
[3] JULIEN, Claude. L’empire americain. Paris, 1968.
[4] Publicado em Common Sense, novembro de 1935. v. HUBERMAN, Leo. Man’s
Wordly Goods. The Story of the Wealth of Nations. New York, 1936.
[5] KREHM, William. Democracia y tiranías no Caribe. Buenos Aires, 1959.
[6] Este é o grande tema do romance de Álvaro Cepeda Samudio, La casa
grande ( Buenos Aires, 1967) e também integra um dos capítulos de Cien años
de soledad ( Buenos Aires, 1967), de Gabriel García Márquez: “Por certo foi um
sonho”, insistiam os oficiais.
[7] O ciclo compreende os romances Viento norte, El papa verde e Los ojos de
los enterrados, trilogia publicada em Buenos Aires na década de 50. Em Viento
norte, um dos personagens, Mr. Pyle, diz profeticamente: “Se em lugar de fazer
novas plantações comprarmos os frutos de produtores particulares, ganharemos
muito no futuro”. Isto é o que ocorre atualmente na Guatemala: a United Fruit
agora United Brands – exerce seu monopólio bananeiro através dos mecanismos
de comercialização, mais eficazes e menos arriscados do que a produção direta.
Cabe anotar que a produção de bananas caiu verticalmente na década de 60, a
partir do momento em que a United Fruit decidiu vender e ou arrendar suas
plantações na Guatemala, ameaçadas pelos fervores da agitação social.
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Os Filibusteiros na Abordageml(16)
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