domingo, 8 de março de 2026

Moby Dick: 54 - A História do Town-ho(a)

Moby Dick

Herman Melville

54 - A História do Town-ho (Tal como foi contada na Estalagem Dourada)
 
     O Cabo da Boa Esperança, e toda a região das águas à sua volta, se parece muito com uma encruzilhada de uma estrada importante, onde se encontram mais viajantes do que em qualquer outro lugar. Não muito tempo depois do Goney, encontramos o Town-Ho,{a} um outro baleeiro de regresso à pátria. Era tripulado quase inteiramente por Polinésios. Durante o breve gam que se seguiu, trouxe-nos grandes notícias de Moby Dick. Para alguns, o interesse geral pela Baleia Branca então aumentou muito devido a uma circunstância da história do Town-Ho, que parecia obscuramente envolver com a baleia uma certa manifestação espantosa, invertida, de um desses chamados julgamentos de Deus, que, segundo dizem, às vezes arrebatam alguns homens. Tal circunstância, e seus desdobramentos particulares, que constituem o que se pode chamar de parte secreta da tragédia a ser contada, nunca chegou aos ouvidos do Capitão Ahab ou de seus imediatos. Pois essa parte secreta da história era desconhecida do próprio capitão do Town-Ho. Era propriedade particular de três confederados, marinheiros brancos daquele navio, um dos quais, ao que parece, a comunicou a Tashtego, com romanas injunções de sigilo, mas na noite seguinte Tashtego falou durante o sono e revelou uma parte tão grande que quando acordou não podia mais deixar de contar o resto. Não obstante, isso teve uma influência tão poderosa sobre os marinheiros do Pequod que ficaram sabendo da história toda, que decidiram manter o segredo entre eles, isso por uma delicadeza estranha, por assim dizer, para que nunca transpirasse à ré do mastro principal do Pequod. Tecendo corretamente esta linha obscura em meio à história que foi narrada em público no navio, começo agora um registro completo e extenso desse caso estranho.
     A bem do meu próprio humor, preservarei o estilo que usei para narrar certa vez em Lima, para um círculo ocioso de amigos espanhóis, na véspera de um feriado santo, fumando na varanda de telhas douradas da Estalagem Dourada. Daqueles cavalheiros elegantes, os jovens dons, Pedro e Sebastian, eram os mais próximos; por isso, as perguntas deles feitas durante o relato foram respondidas na mesma hora.

“Cerca de dois anos antes de quando fiquei sabendo sobre os eventos que vou lhes narrar, senhores, o Town-Ho, baleeiro de Nantucket, atravessava este vosso Pacífico, estando a poucos dias de viagem a oeste das beiras desta boa Estalagem Dourada. Estava algures ao norte da linha do Equador. Certa manhã, ao acionarem as bombas como era o costume diário, observaram que o porão estava fazendo mais água do que de costume. Supuseram que um peixe-espada tivesse atingido o navio, senhores. Mas o capitão, tendo inusitadas razões para acreditar que uma sorte especial o aguardava naquelas latitudes; e por isso não querendo abandoná-las, e o vazamento não tendo sido considerado perigoso, embora, de fato, não conseguissem achá-lo depois de procurarem no porão até a sua porção mais baixa, com um tempo bastante ruim, o navio continuou seu cruzeiro, os marinheiros trabalhando nas bombas a intervalos largos e cômodos; mas a boa sorte não veio; passaram-se mais dias, e não apenas ainda não haviam achado o vazamento, como também sensivelmente este aumentara. Tanto que, então um pouco alarmado, o capitão se encaminhou a todo o pano para o porto mais próximo das ilhas, para examinar e consertar o seu casco.
“Embora não tivesse uma travessia curta diante de si, o capitão, se a sorte mais comum o favorecesse, não receava que seu navio fosse a pique durante o caminho, porque suas bombas eram das melhores e, mesmo ficando periodicamente sem elas, os seus trinta e seis homens poderiam facilmente manter o navio flutuando; ainda que o vazamento dobrasse de tamanho. Na verdade, sendo quase toda a travessia servida por uma brisa propícia, o Town-Ho teria chegado em segurança total ao porto sem que ocorresse a menor fatalidade, não fosse pela arrogância brutal de Radney, o imediato, de Nantucket, e a consequente vingança cruel de Steelkilt, um lacustre, um criminoso de Buffalo que não tinha nada a perder.
“Um lacustre! – De Buffalo! Por favor, o que vem a ser um lacustre, e onde fica Buffalo?”, disse Don Sebastian, erguendo-se de sua esteira de palha.
“Na margem leste de nosso lago Erie, Don Sebastian; mas – rogo-lhe a gentileza – o senhor logo saberá mais a esse respeito. Ora, senhores, em brigues de velas quadradas ou navios de três mastros, quase tão grandes e tão fortes como qualquer um dos que tenham zarpado do seu porto de Callao para a distante Manila; este lacustre, no coração da nossa América, crescera alimentado por todas essas impressões bucólicas da pilhagem popularmente associadas ao mar aberto. Pois, em seu conjunto interligado, esses nossos grandes mares de água doce – o Erie, o Ontário, o Huron, o Superior e o Michigan – possuem uma expansividade como a do oceano, com muitas das características mais nobres do oceano; com muitas variedades de raças e de climas. Contêm arquipélagos circulares de ilhas românticas, como nas águas da Polinésia; em grande parte, estão cercados por dois grandes países contrastantes, assim como o Atlântico; servem de grandes caminhos marítimos para as nossas numerosas colônias no território do leste, que pontilham suas margens; aqui e ali se encontram sob a carranca das baterias e dos escabrosos canhões espalhados como cabras no soberbo Mackinaw; ouviram o estrondo das vitórias navais; por vezes, entregaram suas praias a bárbaros selvagens, cujos rostos vermelhos pintados cintilam em suas tendas de pele; por léguas e léguas, são margeados de antigas florestas interditas, onde pinheiros lúgubres parecem fileiras cerradas de reis nas linhagens góticas; essas mesmas florestas que abrigam selvagens feras africanas e sedosas criaturas, cuja pele exportada veste os imperadores tártaros; espelham as capitais pavimentadas de Buffalo e Cleveland, assim como os vilarejos de Winnebago; navega aí o navio mercante equipado, o cruzeiro armado do Estado, o barco a vapor e a canoa de bétula; são varridos por ventos boreais e rajadas desmastreadoras tão medonhas quanto as de água salgada; sabem o que são naufrágios, pois longe dos olhos, mas no interior, afundaram ali muitos navios à meia-noite com toda a tripulação aos gritos. Por isso, senhores, embora fosse do interior, Steelkilt nasceu no oceano bravio e foi criado no oceano bravio, tanto quanto qualquer outro marinheiro audacioso. Quanto a Radney, embora na infância tivesse se deitado na praia isolada de Nantucket, embalado pelo oceano maternal; embora durante toda a sua vida tivesse seguido o nosso Atlântico austero ou o seu Pacífico contemplativo; ainda assim, era tão vingativo e briguento quanto um marinheiro matuto, que não sabe o que é o chifre no cabo de um punhal. Mas o homem de Nantucket tinha alguns traços de bondade, e o lacustre, Steelkilt, era um marinheiro que, apesar de ser praticamente um diabo, podia, com uma firmeza inflexível apenas abrandada pela decência do reconhecimento humano, que é o menor dos direitos de um escravo, permanecer inofensivo e dócil. Em todas as ocasiões, sempre provara ser assim; mas Radney estava condenado e enlouquecido, e Steelkilt ora, senhores, ouçamos.
“Não mais do que um ou dois dias, no máximo, após ter apontado sua proa rumo àquele porto na ilha, o vazamento do Town-Ho parecia estar novamente aumentando, mas só a ponto de requerer uma hora ou mais das bombas por dia. Os senhores devem saber que em um oceano colonizado e civilizado como o nosso Atlântico, por exemplo, alguns capitães nem pensam em usar as bombas durante toda a travessia; mas, se numa noite tranquila e indolente um oficial do convés se esquece do seu dever, os riscos são de que ele e os seus companheiros de bordo nunca mais se lembrem de nada, pois irão todos aqueles braços gentis repousar no fundo do mar. Mesmo nos mares solitários e selvagens, lá bem longe dos senhores, no oriente, é bastante incomum os navios manterem ativa a manivela da bomba, até numa viagem consideravelmente longa; isto é, se estiverem ao largo de uma costa razoavelmente acessível, ou se algum outro recuo razoável for possível. Apenas quando uma embarcação com um vazamento está num lugar muito distante dessas águas, em alguma latitude sem terra à vista, é que o seu capitão começa a ficar um pouco ansioso.
“Muito próximo disso foi o que se passou com o Town-Ho; e assim, quando se descobriu que o seu vazamento começava a crescer de novo, na verdade houve alguma preocupação manifestada pelo grupo; especialmente Radney, o imediato. Ele ordenou que as velas superiores fossem içadas, as escotas puxadas e que as velas ficassem abertas ao vento. Ora, este Radney, suponho, era tão pouco covarde, tão pouco inclinado à apreensão nervosa no que dizia respeito à sua pessoa, quanto qualquer outra criatura irracional e destemida, da terra ou do mar, que se possa imaginar, meus senhores. Por esse motivo, quando demonstrou tal solicitude quanto à segurança do navio, alguns marinheiros declararam que foi apenas porque ele era um dos proprietários. Então, naquela noite, enquanto trabalhavam nas bombas, não era pouca a malícia das brincadeiras entre eles, com os seus pés enfiados na água clara ondulante; clara como a fonte na montanha, senhores – o borbulhar das bombas atravessou o convés e jorrou em sopros uniformes no mar, pelos embornais a sotavento.
“Agora, como os senhores bem sabem, não é raro o caso neste nosso mundo convencional – das águas ou outro – de que uma pessoa no comando dos seus semelhantes pense que um deles lhe seja superior em orgulho viril, e que por isso sinta imediatamente uma aversão e rancor incontroláveis; e assim que tiver uma chance irá derrubar e pulverizar a torre desse subalterno, e fazer dela um monte de poeira. Seja lá o que for, senhores, mas em qualquer hipótese, Steelkilt era um animal alto e nobre com um perfil romano, e uma barba espessa e dourada como as franjas dos atavios do fogoso cavalo de guerra do último vice-rei dos senhores; e um cérebro e um coração e uma alma, cavalheiros, que teria feito de Steelkilt um Carlos Magno, houvesse ele nascido do pai de Carlos Magno. Mas Radney, o imediato, era feio como uma mula; e tão duro, teimoso e malicioso quanto a mesma. Não gostava de Steelkilt, e Steelkilt sabia disso.
“Vendo o imediato chegar perto enquanto trabalhava com a bomba junto com os outros, o lacustre fingiu não notá-lo, e sem medo continuou com sua troça divertida.
“Pois é, meus alegres rapazes, que vazamento mais animado! Um de vocês, aí, pegue uma caneca, e vamos provar. Cruzes, valeria a pena engarrafar! Vou dizer uma coisa, o investimento do velho Rad deve ter valido a pena! É melhor que ele tire a sua parte do casco e reboque para casa. A verdade, rapazes, é que o peixe espada só começou o serviço; ele voltou agora com um cardume de peixes carpinteiros, peixes-serradores e peixes-lixadores, e não sei o que mais; e todo o pelotão está trabalhando arduamente, atacando e cortando o fundo; acho que para fazer melhorias. Se o velho Rad estivesse aqui, eu sugeriria que ele pulasse ao mar e os espantasse. Estão fazendo o diabo com a sua propriedade, isso eu garanto. Mas ele é uma alma pura e boa, o Rad, e muito bonito, também. Rapazes, dizem que todo o resto de suas propriedades ele investiu em espelhos. Será que ele daria o molde do seu nariz para um pobre-diabo como eu?
“Malditos sejam! Por que pararam de bombear?”, rugiu Radney, fingindo não ter escutado a conversa do marinheiro. “Quero ouvi-la trovejar!”
“Sim, sim, senhor”, disse Steelkilt, gaiato como um grilo. “Força, rapazes, força!”, e fez soar aquela bomba como se fossem cinquenta carros de bombeiros; os homens arregaçaram as mangas e logo se ouviam os pulmões arfando, o que denotava a tensão máxima das energias vitais.
“Deixando finalmente a bomba, com o resto de seu grupo, o lacustre foi à frente, arfante, e sentou-se no sarilho; com o rosto afogueado, vermelho, os olhos injetados de sangue, enxugou da testa o suor copioso. Que demônio trapaceiro, senhores, tomou conta de Radney, para fazê-lo se meter com um homem daquele, naquele estado de exasperação física, eu não sei; mas foi o que aconteceu. Andando impaciente pelo convés, o imediato ordenou-lhe que pegasse uma vassoura e varresse as pranchas, e também uma pá, e removesse as coisas repugnantes que um porco solto ali deixara.
“Pois bem, senhores, varrer o convés de um navio no mar é uma tarefa doméstica que, a não ser em caso de tempestades furiosas, sempre é feita à noite; há casos relatados em que essa tarefa foi executada mesmo em navios que estavam afundando. Tal é a inflexibilidade, senhores, dos costumes do mar, e o amor instintivo dos homens do mar pela limpeza; alguns dos quais não iriam se afogar sem primeiro lavar o rosto. Mas em todo navio o uso da vassoura é competência exclusiva de meninos, se houver meninos a bordo. Além disso, os homens mais fortes do Town-Ho haviam sido divididos em grupos, que se revezavam nas bombas; e, sendo o mais atlético de todos os marinheiros, Steelkilt fora designado capitão de um dos grupos; consequentemente, ele deveria ser liberado das tarefas mais simples, que não fossem ligadas aos deveres náuticos, o mesmo valendo para os seus companheiros. Menciono todos esses pormenores para que saibam exatamente como se deram as coisas entre os dois homens.
“Mas não era só isso: a ordem de pegar a pá foi quase tão diretamente dada para ofender e insultar Steelkilt, como se Radney tivesse cuspido em seu rosto. Todo homem que já embarcou num baleeiro entenderá isso; e tudo isso, e sem dúvida muito mais, o lacustre compreendeu perfeitamente quando o imediato deu a ordem. Mas sentou-se calado por alguns instantes, olhou com firmeza para os olhos malignos do piloto e percebeu que neles havia barris de pólvora empilhados e um estopim queimando lentamente; quando instintivamente percebeu tudo isso, aquela estranha abstenção e a indisposição para açular as paixões mais profundas de um ser já iracundo – uma aversão sentida por homens verdadeiramente corajosos, mesmo quando sobressaltados –, este anônimo sentimento imaginário, senhores, arrebatou Steelkilt.

Continua na página 240...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
53 - O Gam / 54 - A História do Town-ho(a) /     
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

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