I
Uma mulher veio visitar sua irmã mais nova que vivia no campo; a primeira estava casada com um mercador da cidade, a outra com um camponês da aldeia; quando estavam a tomar o chá, começou a mais velha a gabar a vida da cidade, dizendo que se vivia por lá com todo o conforto, que toda a gente andava bem arranjada, que as filhas tinham vestidos lindíssimos, que se bebiam e comiam coisas magníficas e que se ia ao teatro, a passeios e a festas. A irmã mais nova, um pouco despeitada, mostrou todos os inconvenientes da vida do comércio e exaltou as vantagens da existência dos camponeses.
“Não trocaria a minha vida pela
vossa; é certo que vivemos com
alguma rudeza, mas, pelo menos,
não estamos sempre ansiosos;
vocês vivem com mais conforto e
mais
elegância, mas ganham
muitas vezes mais do que precisam
e estão sempre em riscos de perder
tudo; lá diz o ditado: ‘Estão juntos
na merca o ganho e a perca’; quem
está rico num dia pode, no dia
seguinte, andar a pedir pão pelas
portas; a nossa vida é mais segura;
se não é farta é, pelo menos,
comprida; nunca seremos ricos,
mas sempre teremos bastante que
comer”.
A irmã mais velha replicou com
zombaria:
“Bastante? Sim, bastante, se
vocês se contentarem com a vida
dos porcos e das vitelas. Que
sabem vocês de elegância e de
boas maneiras? Por mais que o teu
marido trabalhe como um escravo,
vocês hão de morrer como têm
vivido — num monte de estrume; e
os vossos filhos na mesma”.
“Bem, e depois?” — retorquiu
lhe a outra — “Não nego que o
nosso
trabalho seja rude e
grosseiro; mas em compensação é
seguro e não precisamos de nos
curvar diante de ninguém; vocês,
na cidade, vivem rodeados de
tentações; hoje tudo corre bem,
mas amanhã o Diabo pode tentar o
teu marido com a bebida, o jogo ou
as mulheres — e lá se vai tudo.
Bem sabes que é o que sucede
muitas vezes”.
Pahóm, o dono da casa, estava
deitado à lareira e escutava a
conversa das mulheres.
“É realmente assim — pensava
ele —, os lavradores ocupados
desde meninos no amanho da terra
não têm tempo para pensar em
tolices; só o que nos consome é
não termos terra bastante; se
tivesse toda a terra que quero, nem
o Diabo seria capaz de meter-me
medo”.
As mulheres acabaram o chá, conversaram ainda um bocado sobre
vestidos, depois arrumaram a louça
e
deitaram-se a dormir. Mas o
Diabo tinha estado sentado num
desvão da lareira e tinha ouvido
tudo o que se dissera; ficara
contentíssimo quando vira que a
mulher do camponês arrastara o
marido para a gabarolice e quando
percebera que o homem pensava
que, se tivesse terra à vontade, não
temeria o Diabo.
“Muito bem!” — pensou o
Diabo — “vamos lutar um com o
outro; dou-te toda a terra que
quiseres e há de ser por essa terra
que te hei de apanhar”.
Continua na pág 8...
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Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.
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