IV
Logo que chegaram à nova residência, pediu Pahóm que o admitissem na comuna de uma grande aldeia; tratou com os dirigentes e deram-lhe os documentos necessários; depois, concederam-lhe cinco talhões de terra para ele e para o filho, isto é, trezentos e setenta e cinco hectares em campos diferentes, além do direito aos pastos comuns. Pahóm construiu as casas precisas e comprou gado; só de terra da comuna tinha ele três vezes mais do que dantes e toda ela era excelente para trigo; estava incomparavelmente melhor, com terra de cultivo e de pastagem, e podia ter as cabeças de gado que quisesse.
A princípio, enquanto durou o
trabalho de se estabelecer, tudo
satisfazia Pahóm, mas, quando se
habituou, começou a pensar que
ainda não tinha bastante terra; no
primeiro ano, semeou trigo na terra
da comuna e obteve boa colheita;
queria continuar a semear trigo,
mas a terra não chegava e a que já
tinha não servia porque, naquela
região, era costume semear o trigo
em terra virgem, durante um ou
dois anos, depois deixar o campo
de pouso, até se cobrir de novo de
ervas de prado. Havia muitos que
desejavam estas terras e não havia
bastantes
para todos, o que
provocava conflitos; os mais ricos
queriam-nas para semear trigo e os
que eram pobres para as alugar a
negociantes, de modo a terem
dinheiro para pagar os impostos.
Pahóm queria semear mais trigo e
tomou uma terra de renda por um
ano; semeou muito, teve boa
colheita, mas a terra era longe da
aldeia e o trigo tinha de ir de carro
umas três léguas. Certo tempo
depois, notou Pahóm que alguns
camponeses viviam em herdades
não comunais e enriqueciam;
pensou consigo: “Se eu pudesse
comprar terra livre e arranjar casa,
então é que as coisas me haviam
de correr bem”.
A questão de comprar terra livre
preocupava-o
sempre;
mas
continuou durante três anos a
arrendar campos e a cultivar trigo;
os anos foram bons, as colheitas
excelentes, ele começou a pôr
dinheiro
de
lado. Podia ter
continuado a viver assim, mas
sentia-se cansado de ter que
arrendar terras de outros todos os
anos e ainda por cima disputando-as; mal aparecia uma terra boa
todos
os
camponeses
se
precipitavam para a tomarem, de
modo que, ou se andava ligeiro, ou
se ficava sem nada. Ao terceiro
ano, aconteceu que ele e um
negociante arrendaram juntos a uns
camponeses uma pastagem: já a
tinham amanhado quando se
levantou qualquer disputa, os
camponeses foram para o tribunal
e todo o trabalho se perdeu. “Se
fosse terra minha — pensou
Pahóm — já eu era independente e
não me via metido nestas
maçadas”.
E começou a procurar terra de
compra; encontrou um camponês
que tinha adquirido uns quinhentos
hectares, mas que, por causa de
dificuldades, os queria vender
barato; Pahóm regateou com o
homem e assentaram por fim num
preço de 1 500 rublos, metade a
pronto, a outra metade a pagar
depois.
Tinham arrumado o
negócio, quando se deteve em casa
de Pahóm um comerciante que
queria forragem para os cavalos;
tomou chá com Pahóm e travou-se
conversa; o comerciante disse que
voltava da terra dos Baquires, que
era muito longe, e onde tinha
comprado cinco mil hectares de
terra por cem rublos. Pahóm fez
lhe mais perguntas e o negociante
respondeu:
“Basta fazer-nos amigos dos
chefes. Dei-lhes coisa de cem
rublos de vestidos de seda e de
tapetes, além duma caixa de chá, e
mandei distribuir vinho por quem
o quisesse; e arranjei a terra a
cinco kopeks (a centésima parte da
rublo) o hectares”.
E, mostrando a Pahóm as
escrituras, acrescentou:
“A terra é perto dum rio e toda
ela virgem.” Pahóm continuou a
interrogá-lo e o homem respondeu:
“Há por lá mais terra do que
aquela que se poderia percorrer
num ano de marcha; e toda ela
pertence aos Baquires. São como
cordeirinhos e arranja-se a terra
que se quer, quase de graça”.
“Bem — pensou Pahóm — para
que hei de eu, com os meus mil
rublos, arranjar para os quinhentos
hectares e aguentar ainda por cima
com uma dívida? Na outra terra
compro dez vezes mais, e pelo
mesmo dinheiro”.
Continua na pág 30...
Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой. Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
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De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / De quanta terra um homem precisa? - III /
De quanta terra um homem precisa? - IV /
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Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.
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