sexta-feira, 27 de março de 2026

De quanta terra um homem precisa? - II

Liev Tolstói

II

     Perto da aldeia vivia uma senhora, pequena proprietária, que possuía um terreno de cerca de cento e vinte hectares. Tinha mantido sempre com os camponeses excelentes relações, até o dia em que tomou como feitor um antigo soldado que se pôs a multar toda a gente. Por mais cuidado que Pahóm tivesse, ora um cavalo lhe fugia para os campos de aveia da senhora, ora uma vaca ia para os jardins, ora as vitelas andavam pelos prados; e a multa lá vinha.
     Pahóm pagava, resmungava e, irritado, tratava mal a família; todo o verão, o camponês teve conflitos com o feitor e só o alegrou a chegada do inverno em que o gado tinha de ir para o estábulo; dava lhe a ração de má vontade, mas ao menos estava livre de sustos. Durante o inverno, correu que a senhora ia vender as terras e que o estalajadeiro se preparava para as comprar; toda a aldeia ficou alarmada.

“Bem” — pensavam os camponeses — “se o estalajadeiro comprar as terras, as multas serão mais fortes ainda; o caso é sério”.

     Foram então, em nome da Comuna, pedir à senhora que não vendesse as terras ao estalajadeiro, porque estavam dispostos a pagar lhe melhor; a senhora concordou e os camponeses reuniram-se para que o campo fosse comprado por todos e cultivado por todos; houve duas assembleias, mas o Diabo semeava a discórdia e não chegaram a nenhuma combinação; cada um compraria a terra que pudesse; a senhora acedeu de novo.
     Pahóm ouviu dizer que um seu vizinho ia comprar vinte hectares e que a proprietária receberia metade em dinheiro e esperaria um ano pela outra metade; sentiu inveja e pensou: 

“Ora, vejam isto; vão comprar toda a terra e eu não apanho nenhuma.”

     Falou depois à mulher:

“Toda a gente está a comprar terras; vamos nós comprar também uns dez hectares; a vida assim é impossível; o feitor mata-nos com multas”.

     A mulher concordou e consideraram sobre a maneira de realizar o seu desejo; tinham uns cem rublos de parte; venderam um potro e metade das abelhas, meteram um filho a jornaleiro, recebendo a soldada adiantada, e pediram emprestado a um cunhado o que faltava para perfazer metade da quantia necessária.
     Feito isto, escolheu Pahóm um campo de uns quinze hectares, com um pouco de bosque, e foi ter com a senhora para tratarem do negócio; chegaram a acordo e o camponês pagou adiantada uma certa quantia; depois foram à cidade e assinaram a escritura em que ficava estabelecido pagar ele logo metade da quantia e entregar o resto dentro de dois anos.
     Agora tinha Pahóm terra sua; pediu sementes emprestadas, semeou-as na terra que comprara; como a colheita foi boa, pôde, dentro de um ano, pagar ao cunhado e à senhora; tornou-se assim proprietário, lavrando e semeando a sua terra, fazendo feno na sua terra, abatendo as suas árvores, alimentando o seu gado nos seus pastos. Sentia-se cheio de contentamento quando ia lavrar ou olhava para os trigais ou para os prados; a erva que ali crescia e as flores que ali desabrochavam pareciam-lhe diferentes de todas as outras; a princípio parecera-lhe que a sua terra era igual a qualquer outra; agora, totalmente diversa.

 Continua na pág 8...
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De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / 
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Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.

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