quinta-feira, 12 de março de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (5)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     As primeiras relações da mãe com o recém-nascido são igualmente variáveis. Certas mulheres sofrem desse vazio que depois sentem em seu corpo: parece-lhes que lhes roubaram seu tesouro.  

Sou a colmeia sem palavras 
cujo enxame alçou voo 
Não trago mais o alimento 
De meu. sangue para teu frágil corpo 
Meu ser é a casa fechada 
De que acabam de tirar um morto ¹, 

[¹] Je suis la ruche sans parole 
     Dont l'essaim est parti dans l'air 
     Je n'apporte plus la becquée 
     De mon sang à ton frêle corps 
     Mon être est la maison fermée 
     Dont on vient d'enlever un mort.
   
     escreve Cécile Sauvage. E também:

Não és mais inteiramente meu. Tua cabeça 
Reflete outros céus ².  

[²] Tu n'es plus tout à moi. Ta tête 
     Réfléchit déjà d''autres cieux.

     E ainda:

Nasceu, perdi meu jovem bem-amado 
Agora nasceu, estou só, sinto 
Apavorar-se em mim o vazio de meu sangue...³. 

[³] Il est né, j'ai perdu mon jeune bien-aimé 
     Maintenant il est né, je suis seule, je sens 
     S'épouvanter en moi le vide de mon sang...

     Ao mesmo tempo, entretanto, há em toda jovem mãe uma curiosidade maravilhada. É um estranho milagre ver, ter em mãos um ser vivo formado em si, saído de si. Mas que parte teve exatamente a mãe no acontecimento extraordinário que põe na terra uma nova existência? Ela o ignora. Não existiria sem ela e no entanto ele lhe escapa. Há uma tristeza espantada em vê-lo fora, separado de si. E quase sempre uma decepção. A mulher gostaria de senti-lo seu tão seguramente quanto a própria mão: mas tudo o que ele experimenta está encerrado nele, ele é opaco, impenetrável, separado; ela não o reconhece sequer, porquanto não o conhece; sua gravidez, ela a viveu sem ele: não tem nenhum passado comum com esse pequeno estranho; esperava que ele lhe fosse de imediato familiar: não, é um desconhecido e ela fica estupefata com a indiferença com que o acolhe. Durante os devaneios da gravidez, ele era uma imagem, era infinito e a mãe representava em pensamento sua maternidade futura; agora é um individuozinho finito e presente de verdade, contingente, frágil, exigente. A alegria de enfim vê-lo presente, bem real, mistura-se à tristeza de que seja apenas isso.
     É pela amamentação que muitas jovens mães reencontram, para além da separação, uma íntima relação animal com o filho; é uma fadiga mais exaustiva que a da gravidez, mas que permite à ama perpetuar o estado de folga, de paz, de plenitude saborosa da mulher grávida.

Quando o bebê mamava, diz Colette Audry a propósito de uma de suas heroínas, não havia mais nada que fazer e isso poderia ter durado horas" ela não pensava sequer no que viria depois. Tinha-se que esperar que ele se destacasse do seio como uma grande abelha (On joue perdant). 

     Mas há mulheres que não podem amamentar e em quem a indiferença espantada das primeiras horas se perpetua enquanto não reencontram laços concretos com o filho. É o caso, entre outros, de Colette, a quem não foi possível amamentar a filha e que descreve, com sua habitual sinceridade, seus primeiros sentimentos maternos (Colette, L'Étoile Vésper).

O que se segue é a contemplação de uma nova pessoa, que entrou na casa sem vir de fora. . . Punha eu suficiente amor em minha contemplação? Não ouso afirmá-lo. Sem dúvida tinha o hábito — tenho-o ainda — do deslumbramento. Exercia-o sobre o conjunto de prodígios que é um recém-nascido: as unhas, semelhantes em transparência à escama convexa do camarão rosado, a planta dos pés vinda a nós sem ter tocado o solo. A ligeira plumagem dos cílios baixando sobre o rosto, interpostos entre as paisagens terrestres e o sonho azulado do olho. O pequeno sexo, amêndoa apenas incisa, bívalve, exatamente fechado lábio a lábio. Mas a minuciosa admiração que eu de dicava à minha filha não a chamava amor, não a sentia como tal. Espiava... Não hauria, em espetáculos que minha vida tão longamente esperara a vigilância e a emulação das mães maravilhadas. Quando surgiria para mim o sinal que realiza uma segunda, uma mais difícil violentação? Tive que aceitar que uma soma de advertências, de furtivas revoltas ciumentas, de premonições falsas, e até verdadeiras, o orgulho de dispor de uma vida de que eu era a humilde credora, a consciência algo pérfida de dar ao outro uma lição de modéstia, me transformassem enfim em uma mãe comum. Ainda assim só me tranquilizei quando a linguagem inteligível floriu em lábios encantadores, quando o conhecimento, a malícia e mesmo a ternura fizeram de um pequerrucho standard uma menina, e de uma menina minha filha! 

     Há também muitas mães que se assustam com suas novas responsabilidades. Durante a gravidez, só lhes cabia entregarem-se a sua carne; nenhuma iniciativa lhes era exigida. Agora há em face delas uma pessoa com direitos sobre elas. Certas mulheres acariciam alegremente o filho enquanto se acham no hospital, ainda joviais e despreocupadas, mas começam a encará-lo como um fardo quando voltam para casa. Nem mesmo a amamentação lhes dá alguma alegria, ao contrário, receiam estragar os seios ; e com rancor que os sentem partidos, com as glândulas doloridas; fere-os a boca do filho: parece-lhes que ele aspira-lhes as forças, a vida, a felicidade. Ele inflige-lhes uma dura servidão e não faz mais parte delas: apresenta-se como um tirano; elas olham com hostilidade esse pequeno indivíduo estranho a elas e que constitui uma ameaça à carne, à liberdade, ao seu eu inteiro.
     Muitos outros fatores intervém. As relações com a mãe conservam toda a sua importância. H. Deutsch cita o caso de uma jovem ama cujo leite secava todas as vezes que a mãe a visitava; muitas vezes ela pede auxílio, mas tem ciúme dos cuidados que outra dá ao bebê e com mau humor o encara. As relações com o pai da criança, os sentimentos que ele próprio alimenta têm também grande influência. Todo um conjunto de razões econômicas, sentimentais, define a criança como um fardo, uma cadeia, ou uma libertação, uma joia, uma segurança. Há casos em que a hostilidade se torna ódio declarado que se traduz por uma negligência extrema ou maus tratos. O mais das vezes, a mãe, consciente de seus deveres, combate-a; com isso sente um remorso que engendra angústias em que se prolongam as apreensões da gravidez. Todos os psicanalistas admitem que todas as mães que vivem obsidiadas pela ideia de que podem fazer mal aos filhos, todas as que imaginam horríveis acidentes, experimentam em relação a eles uma inimizade que buscam recalcar. O que, em todo caso, é de notar, e distingue essa relação de qualquer outra relação humana, é o fato de que nos primeiros tempos o filho, ele próprio, não intervém: seus sorrisos, seus balbucios só têm o sentido que lhes empresta a mãe; quer lhe pareça encantador, único, ou aborrecido, vulgar, odioso, ele depende dela e não de si mesmo. É por isso que as mulheres frias, insatisfeitas, melancólicas, que esperavam do filho uma companhia, um calor, uma excitação capaz de arrancá-las de si mesmas, ficam sempre profundamente desapontadas. Como a "passagem" da puberdade, da iniciação sexual, do casamento, a da maternidade engendra uma decepção melancólica nos sujeitos que esperam que um acontecimento exterior possa renovar-lhes e justificar-lhes a vida. É o sentimento que se encontra em Sofia Tolstoi. Eis que escreve:

Estes nove meses foram os mais terríveis de minha vida. Quanto ao décimo, é melhor não falar. 

     Em vão se esforça ela por inscrever no diário uma alegria convencional: é sua tristeza, seu medo das responsabilidades que nos impressionam.

Tudo aconteceu. Dei à luz, tive minha parte de sofrimentos, tive alta e pouco a pouco volto à vida com um medo e uma inquietude constantes acerca de meu filho e principalmente de meu marido. Alguma coisa partiu-se em mim. Algo me diz que sofrerei constantemente, creio que é o temor de não desempenhar meus deveres para com minha família. Deixei de ser natural porque tenho receio desse amor vulgar de uma fêmea pelos filhotes e medo de amar exageradamente meu marido. Afirmam que é uma virtude amar o marido e os filhos. Por vezes esta ideia consola-me. . . Como o sentimento materno é forte e como me parece natural ser mãe! É o filho de Liova, eis por que o amo.

     Mas sabe-se que ela só exibe tamanho amor pelo marido porque não o ama; essa antipatia recai no filho concebido em atos que lhe repugnavam.
     K. Mansfield descreveu a hesitação de uma jovem mãe que adora o marido mas suporta com repulsa suas carícias. Ela sente perante os filhos ternura e ao mesmo tempo uma impressão de vazio que interpreta melancolicamente como uma indiferença completa. Linda, descansando no jardim junto do último filho, pensa no marido, Stanley (Na Baía).

Agora, tinha-o desposado; e até o amava. Não o Stanley que todo mundo conhecia, não o Stanley quotidiano; mas um Stanley tímido, sensível, inocente, que se ajoelhava todas as noites para rezar. Mas a desgraça era. . . que via seu Stanley tão raramente. Havia momentos de beleza e calma, mas o resto do tempo ela tinha a impressão de viver numa casa sempre ameaçada de incêndio, num navio que todos os dias naufragava. E era sempre Stanley que se achava em perigo. Ela passava todo o tempo a salvá-lo, a tratar dele, a acalmá-lo e ouvir-lhe a história. O tempo que sobrava, vivia-o com medo de ter filhos. .. Era muito bonito dizer que ter filhos é a sorte comum das mulheres. Não era verdade. Ela, por exemplo, poderia provar que era falso. Estava quebrada, enfraquecida, desanimada com tanta gravidez. E duro de suportar era que não gostava dos filhos. O mais não vale a pena fingir... Não, era como se um vento frio a tivesse enregelado em cada uma daquelas terríveis viagens; não lhe restava mais calor para dar--lhes. Quanto ao menininho, graças aos céus pertencia à sua mãe, a Beryl, a quem quisesse. Mal o tivera nos braços. Era-lhe tão indiferente enquanto repousava a seus pés. Baixou o olhar... Havia algo tão estranho, tão inesperado no sorriso dele que Linda sorriu também. Mas dominou-se e disse à criança: "Não gosto de bebês. — Não gostas de bebês?" Ele não podia acreditar. "Não gostas de mim?" Agitava estupidamente os braços para a mãe. Linda deixou-se cair na relva. "Por que continuas a sorrir?, disse severamente. Se soubesses o que estava pensando não ririas..." Linda estava tão espantada com a confiança daquela criaturinha. Ah, não, sê sincera. Não era o que sentia; era algo inteiramente diferente, algo tão novo, tão... Lágrimas dançaram-lhe nos olhos; murmurou docemente para o filho: "Bom dia, meu estranho menino..." 

     Todos esses exemplos bastam para mostrar que não existe instinto materno: a palavra não se aplica em nenhum caso à espécie humana. A atitude da mãe é definida pelo conjunto de sua situação e pela maneira por que a assume. É, como se acaba de ver, extremamente variável.

continua página 278...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (5)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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