quinta-feira, 19 de março de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (6)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     Entretanto, não sendo as circunstâncias inteiramente desfavoráveis, a mãe encontrará no filho um enriquecimento.

Era como uma resposta à realidade de sua própria existência... Por ele tinha a possibilidade de aprender todas as coisas e a si mesma para começar, 

escreve C. Audry a propósito de uma jovem mãe. 
     E empresta a outra estas palavras:

Pesava em meus braços, no meu peito como o que há de mais pesado no mundo, até o limite de minhas forças. Afundava-me na terra, no silêncio e na noite. De uma só vez jogara-me o peso do mundo sobre os ombros. É bem por isso que o quisera. Sozinha eu era leve demais.

     Se certas mulheres, que são mais "poedeiras" do que mães, se desinteressam do filho logo depois da desmama, logo depois do nascimento, e não desejam senão uma nova gravidez, muitas, ao contrário, consideram que é a própria separação que lhes dá o filho; este não é mais um pedaço indistinto de seu eu e sim uma parcela do mundo; não lhes habita mais surdamente o corpo, mas pode-se vê-lo, tocá-lo; após a melancolia do parto, Cécile Sauvage exprime a alegria da maternidade possessiva  

Eis-te meu pequeno amante 
No grande leito de tua mamãe 
Posso beijar-te, abraçar-te, 
Ponderar teu belo futuro; 
Bom dia, minha pequena estátua 
De sangue, de alegria e de carne nua, 
Meu pequeno duplo, minha emoção...¹

[1] Te voilà mon petit amant 
      Sur le grand lit de ta maman 
      Je peux t'embrasser, te tenir, 
     Soupeser ton bel avenir; 
     Bonjour ma petite statue 
     De sang, de joie et de chair nue, 
     Mon petit double, mon émoi...,

     Já se disse e repetiu que a mulher encontra felizmente no filho uma equivalência do pênis: é inteiramente inexato. Na realidade, o homem adulto deixou de ver no pênis um brinquedo maravilhoso; o valor que seu órgão conserva é o dos objetos desejáveis cuja posse ele assegura; do mesmo modo, a mulher adulta inveja ao homem a presa que ele anexa, não o instrumento da anexação; o filho satisfaz esse erotismo agressivo que o amplexo masculino não satisfaz: é o homólogo dessa amante que ela entrega ao homem e que este não é para ela; bem entendido não há equivalência exata: toda relação é original; mas a mãe encontra no filho — como o amante na amada — uma plenitude carnal e isso não na rendição mas no domínio; ela apreende nele o que o homem procura na mulher: um outro, a um tempo natureza e consciência, que seja sua presa, seu duplo. Ele encarna toda a natureza. A heroína de C. Audry diz-nos que encontrava no filho

A pele que era para meus dedos, que cumprira a promessa de todos os gatinhos, de todas as flores... 

     A carne dele tem essa doçura, essa elasticidade morna que, em criança, a mulher desejara através da carne materna, e mais tarde por toda parte no mundo. Ele é planta, bicho, há em seus olhos chuvas e riachos, o azul do céu e do mar, as unhas são de coral, os cabelos uma vegetação sedosa, é uma boneca viva, um pássaro, um gatinho; minha flor, minha pérola, meu pintinho, meu cordeirinho... a mãe murmura as palavras do amante e, como ele, serve-se avidamente do adjetivo possessivo; emprega os mesmos modos de apropriação: carícias, beijos; aperta o filho contra o corpo, envolve-o no calor dos braços, do leito. Por vezes essas relações revestem-se de um caráter nitidamente sexual. Assim é que se lê na confissão recolhida por Stekel e já citada.

Amamentava meu filho, mas sem alegria porque não crescia e ambos perdíamos peso. Isso representava algo sexual para mim e eu experimentava um sentimento de pudor dando-lhe o seio. Tinha a sensação adorável de sentir o corpinho quente que se achegava ao meu; arrepiava-me quando sentia suas mãozinhas me tocarem... Todo o meu amor se destacava de meu eu para se voltar para meu filho... O filho estava demasiado comigo. Logo que me via na cama, e tinha então dois anos, arrastava-se para o leito, tentando colocar-se sobre mim. Acariciava-me os seios com suas mãozinhas e queria descer com o dedo; o que me dava tanto prazer que tinha dificuldade em afastá-lo. Muitas vezes tive de lutar contra a tentação de brincar com o pênis dele...

     A maternidade assume novo aspecto quando o filho cresce; nos primeiros tempos, ele não passa de um "pequerrucho-standard", só existe em sua generalidade: pouco a pouco, individualiza-se. As mulheres muito dominadoras ou muito carnais esfriam-se então ; é nesse momento, ao contrário, que outras — como Colette — começam a se interessar por ele. A relação entre mãe e filho torna-se cada vez mais complexa: ele é um duplo e por vezes ela é tentada a alienar-se inteiramente nele, mas ele é um sujeito autônomo, logo rebelde; é hoje vivamente real, mas no fundo do futuro um adolescente, um adulto imaginário, uma riqueza, um tesouro; é também um fardo, um tirano. A alegria que a mãe pode encontrar nele é uma alegria de generosidade; é preciso que ela se compraza em servir, em dar, em criar felicidade, como a mãe que pinta C. Audry:  

Ele tinha pois uma infância feliz como nos livros, mas que estava para a infância dos livros como as rosas de verdade estão para as rosas dos cartões-postais. E essa felicidade dele saía de mim como o leite com que o amamentara. 

     Como a amorosa, a mãe encanta-se ao sentir-se necessária; é justificada pelas exigências a que atende; mas o que faz a dificuldade e a grandeza do amor materno é o fato de que não implica uma reciprocidade; a mulher não tem diante de si um homem, um herói, um semideus, e sim uma pequena consciência balbuciante, afogada em um corpo frágil e contingente; o filho não detém valor algum, nem pode conferir nenhum; diante dele a mulher permanece só; ela não espera nenhuma recompensa em troca de seus dons, cabe a sua própria liberdade justificá-los. Essa generosidade merece os louvores que os homens incansavelmente lhe outorgam; mas a mistificação começa quando a religião da maternidade proclama que toda mãe é exemplar. Por que o devotamento materno pode ser vivido numa perfeita autenticidade; mas o caso é raro, na realidade. De costume, maternidade é um estranho compromisso de narcisismo, de altruísmo, de sonho, de sinceridade, de má-fé, dedicação e cinismo.
     O grande perigo que nossos costumes fazem o filho correr é que a mãe, a quem o confiam de pés e mãos amarrados, é quase sempre uma mulher insatisfeita: sexualmente é fria ou irrealizada; socialmente, sente-se inferior ao homem; não tem domínio sobre o mundo e o futuro; procurará compensar através do filho todas as suas frustrações; quando se compreendeu a que ponto a situação atual da mulher lhe torna difícil sua plena realização, quantos desejos, revoltas, pretensões, reivindicações a habitam surdamente, espanta-nos que filhos sem defesa lhe sejam entregues. Suas condutas são simbólicas como no tempo que ora embalava a boneca, ora a torturava: mas esses símbolos tornam-se uma áspera realidade para o filho. Uma mãe que bate no filho não bate somente nele, em certo sentido não bate absolutamente na criança: vinga-se de um homem, do mundo, de si mesma; mas é o filho que recebe as pancadas. Mouloudji fez-nos sentir em Enrico esse mal-entendido penoso: Enrico compreende muito bem que não é nele que a mãe bate tão loucamente; e, despertando de seu delírio, ela soluça de remorso e de ternura; ele não guarda rancor, mas nem por isso é menos desfigurado pelas pancadas. Do mesmo modo, a mãe descrita em L'Asphyxie, de Violette Leduc, desencadeando-se contra a filha, vinga-se do sedutor que a abandonou, da vida que a humilhou e venceu. Sempre se conheceu esse aspecto cruel da maternidade; mas com um pudor hipócrita desfez-se a ideia de "mãe-má", inventando o tipo da madrasta; é a esposa de segundas núpcias que atormenta o filho de uma "boa mãe" defunta. Em verdade, em Mme Fichini, é uma mãe, exatamente igual à edificante Mme de Fleurville, que Mme de Ségur nos descreve. Depois de Poil de carotte, de Jules Renard, os atos de acusação multiplicaram-se: Enrico, L'Asphyxie, La Haine maternelle, de S. de Tervagnes, Vi père au poing de Hervé Bazin. Se os tipos descritos nesses romances são algo excepcionais, é porque em sua maioria as mulheres recalcam por moralidade e decência seus impulsos espontâneos; mas estes manifestam-se por momentos através de cenas, tapas, raivas, insultos, castigos etc. Ao lado das mães francamente sádicas, muitas há simplesmente caprichosas; o que as encanta é dominar; bem pequenino, o bebê é um brinquedo; se é menino, elas divertem-se sem escrúpulo com o sexo dele; se é menina, fazem dela uma boneca; mais tarde querem que um pequeno escravo lhes obedeça cegamente; vaidosas, exibem a criança como um animal ensinado; ciumentas e exclusivas, isolam-no do resto do mundo. Muitas vezes também a mulher não renuncia a uma recompensa pelos cuidados que deu à criança; modela através dela um ser imaginário que a reconhecerá com gratidão como uma mãe admirável e em quem esta se reconhecerá. Quando Cornélia, mostrando os filhos, dizia com orgulho: "Eis minhas joias dava o mais nefasto exemplo à posteridade; número demasiado grande de mães vivem na esperança de repetir um dia esse gesto orgulhoso; e não hesitam em sacrificar a esse objetivo o pequeno indivíduo de carne e osso cuja existência contingente, indecisa, não as satisfaz. Impõem-lhe que se assemelhe ao marido ou, ao contrário, que não se lhe assemelhe em nada, ou que reencarne um pai, uma mãe, um antepassado venerado; imitam um modelo prestigioso: uma socialista alemã admirava profundamente Lily Braun, conta H. Deutsch; a célebre agitadora tinha um filho genial e que morreu moço; sua imitadora obstinou-se em tratar o próprio filho como um futuro gênio e o resultado foi tornar-se ele um bandido. Nociva à criança, essa tirania desadaptada é sempre uma fonte de decepção para a mãe. H. Deutsch cita outro exemplo impressionante, o de uma italiana cuja história acompanhou durante vários anos.  

A Sra. Mazetti tinha numerosos filhos e queixava-se sem cessar de se achar em dificuldade com um ou outro; pedia ajuda, mas era difícil auxiliá-la porque ela se imaginava superior a todo mundo e principalmente ao marido e aos filhos; fora da família, conduzia-se com muita ponderação e altivez, mas em casa, ao contrário, mostrava-se muito excitada e fazia cenas violentas. Saíra de um meio pobre, inculto e sempre quisera "subir"; frequentava cursos noturnos e talvez houvesse realizado suas ambições se não se tivesse casado aos 16 anos com um homem que a atraía sexualmente e que a fizera mãe. Continuou a tentar sair de seu meio indo a cursos etc.; o marido era um bom operário especializado que a atitude agressiva e superior da mulher levou, como reação, ao alcoolismo; para vingar-se, talvez, foi que a engravidou tantas vezes. Separada do marido, após um período em que se resignou a sua situação, começou a tratar os filhos da mesma maneira que o pai; nos primeiros tempos, eles lhe deram satisfação: trabalhavam direito, tinham boas notas na escola etc. Mas quando Luísa, a mais velha, fez 16 anos, ela teve medo de que repetisse sua própria experiência: tornou-se tão severa e dura que Luísa, com efeito, teve, por vingança, um filho ilegítimo. Em conjunto, os filhos tomavam o partido do pai contra a mãe, que os aborrecia com suas exageradas exigências morais; ela era incapaz de se apegar ternamente a mais de um filho cada vez, nele pondo todas as suas esperanças; depois mudava de predileção, o que tornava os outros furiosos e ciumentos. Uma após outra, as filhas puseram-se a receber homens, a pegar sífilis e a trazer filhos ilegítimos para casa; os filhos tornaram-se ladrões, E a mãe não queria compreender que suas exigências ideais é que os haviam impelido a esse caminho. 

     Essa obstinação educadora e o sadismo caprichoso de que falei misturam-se muitas vezes; como pretexto para suas cóleras, a mãe afirma que deseja "formar" o filho; e, inversamente, o ma logro do empreendimento exaspera-lhe a hostilidade.

continua página 282...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (6)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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