terça-feira, 24 de março de 2026

Tratado da Natureza Humana: Introdução

Introdução


     Nada é mais corrente e mais natural do que aqueles que pretendem ·descobrir algo novo para o mundo no campo da filosofia e das ciências insinuarem o louvor dos seus próprios sistemas, desacreditando todos aqueles anteriormente apresentados. Na realidade, se eles se contentassem com lamentar a ignorância em que ainda estamos mergulhados em relação às questões mais importantes que se apresentam perante o tribunal da razão humana, poucos homens haveria que, estando familiarizados com as ciências, não concordassem prontamente com eles. Uma pessoa judiciosa e sabedora facilmente descobre a fraqueza de fundamentos daqueles sistemas que alcançaram o maior crédito e elevaram mais alto as suas pretensões à precisão e profundeza do raciocínio. Princípios admitidos sem demonstração, consequências incorretamente deduzidas, falta de coerência entre as partes e de evidência no todo, é isto o que se encontra por toda a parte nos sistemas dos filósofos mais eminentes, e parece ter lançado em descrédito a própria filosofia.
     Não é preciso possuir um conhecimento muito profundo para descobrir a atual imperfeição das ciências; a própria multidão das ruas pode aperceber-se, pelo barulho e clamor que escuta, de que lá dentro nem tudo corre bem. Não há coisa nenhuma que não seja objeto de discussão, e sobre a qual os homens de saber não tenham opiniões contrárias. Nem mesmo a questão mais trivial escapa à controvérsia, e nas mais importantes somos incapazes de chegar a uma decisão certa. Multiplicam-se as discussões, como se tudo fosse incerto, e estas discussões são conduzidas com o maior entusiasmo, como se tudo fosse certo. Em toda esta agitação não é a razão que alcança o prémio, mas sim a eloquência; e ninguém deve jamais desesperar de conseguir prosélitos para a hipótese mais extravagante, contanto que seja suficientemente hábil para a apresentar com cores favoráveis. Não alcançam a vitória os soldados em pé de guerra, manejando a lança e a espada, mas sim os corneteiros, os tambores e os músicos do exército.
     Aqui tem origem, na minha opinião, o preconceito corrente contra todas as formas de raciocínio metafisico, mesmo entre aqueles que se apresentam como sábios e apreciam no seu justo valor todos os outros gêneros de literatura. Por raciocínio metafisico não entendem eles o raciocínio num determinado ramo da ciência, mas toda a espécie de argumento que é obscuro em algum aspecto e que requer alguma atenção para ser compreendido. Tantas vezes temos desperdiçado o nosso esforço em semelhantes investigações que geralmente as rejeitamos sem hesitação e decidimos que, se temos que ficar sempre presos nas malhas de erros e ilusões, estes devem pelo menos ser naturais e agradáveis. Realmente só o ceticismo mais completo, associado a um alto grau de indolência, pode justificar esta aversão à metafisica. Com efeito, se é que a verdade se encontra ao alcance das faculdades humanas, ela deve certamente ser bem obscura e profunda; esperar atingi-la sem esforço, quando os maiores gênios não o conseguiram com os maiores esforços, temos de concordar que é bastante vaidade e presunção. Não reclamo tal vantagem para a filosofia que vou expor, e consideraria a sua grande facilidade e obviedade razão grave para dela suspeitar.
     E evidente que todas as ciências têm uma relação maior ou menor com a natureza humana; e, por muito que qualquer delas pareça afastar-se da mesma natureza, de uma maneira ou outra torna a ela. Mesmo a Matemática, a Filosofia Natural e a Religião Natural estão em certa medida dependentes da ciência do HOMEM, visto que são abrangidas pelo conhecimento dos homens e julgadas pelos seus poderes e faculdades. Não é possível prever que transformações e aperfeiçoamentos poderíamos realizar nestas ciências se tivéssemos um conhecimento perfeito da extensão e da força do entendimento humano, e pudéssemos explicar a natureza das ideias que empregamos e das operações que realizamos no nosso raciocínio. E tais aperfeiçoamentos são tanto mais de desejar na religião natural, pois esta não se satisfaz com instruir-nos acerca da natureza dos poderes superiores, mas leva sua visão mais longe, até à disposição deles para conosco e aos nossos deveres para com eles; pelo que nós próprios não somos apenas os seres que raciocinam, mas também um dos objetos acerca dos quais raciocinamos.
     Portanto se a Matemática, a Filosofia Natural e a Religião Natural são assim dependentes do conhecimento do homem, que poderemos esperar das outras ciências, cuja relação com a natureza humana é mais íntima e estreita? O fim único da lógica é explicar os princípios e as operações da nossa faculdade de raciocinar e a natureza das nossas ideias; a moral e a crítica ocupam-se dos nossos gostos e sentimentos; e a política considera os homens enquanto agrupados na sociedade e dependentes uns dos outros. Nestas quatro ciências, a Lógica, a Moral, a Crítica e a Política está abrangido quase tudo o que de qualquer modo pode ser do nosso interesse conhecer, ou o que pode tender quer para aperfeiçoar, quer para adornar o espírito humano.
     Eis aqui pois o único processo de que poderemos esperar êxito nas nossas investigações filosóficas: abandonar o método fastidioso e lento que seguimos até aqui e, em vez de tomar de quando em quando um castelo ou uma povoação fronteiriça, avançar diretamente sobre a capital ou centro destas ciências, sobre a própria natureza humana; se nos tornarmos senhores dela, podemos esperar alcançar fácil vitória quanto a todos os outros pontos. A partir desta posição podemos estender a nossa conquista a todas as outras ciências que mais intimamente dizem respeito à vida humana e podemos depois proceder despreocupadamente à descoberta mais completa das que são objeto de pura curiosidade. Não há nenhum problema importante cuja solução não seja abrangida pela ciência do homem, e não há nenhum que possa resolver-se com alguma certeza sem conhecermos esta ciência. Quando pois pretendemos explicar os princípios da natureza humana, de fato propomos um sistema completo das ciências, assente num fundamento quase inteiramente novo e que é o único sobre o qual elas podem estabelecer-se com alguma segurança.
     E assim como a ciência do homem é o único fundamento sólido para as outras ciências, assim também o único fundamento sólido que podemos dar à ciência do homem deve assentar na experiência e na observação. Não deve surpreender-nos constatar que a aplicação da filosofia experimental aos problemas morais se siga à aplicação da mesma aos problemas naturais com um intervalo de mais de um século; com efeito, nota-se que houve aproximadamente o mesmo intervalo entre as origens destas ciências, e que de Tales a Sócrates conta-se um espaço de tempo quase igual ao que medeia entre Lord Bacon e alguns filósofos¹ recentes da Inglaterra, os quais começaram a colocar a ciência do homem em nova base, atraindo as atenções e despertando a curiosidade do público. Assim a verdade é que, embora outras nações possam rivalizar conosco na poesia e exceder-nos em algumas outras artes aprazíveis, o progresso da razão e da filosofia não podem senão dever-se a um país de tolerância e liberdade.

¹ LOCKE, Lord Shaftsbury, Dr. Mandeville, Hutchinson, Dr. Butler, etc ..

     E não devemos pensar que este último progresso da ciência do homem proporcione menores honras ao nosso país do que o progresso anterior da filosofia natural; pelo contrário, devemos considerá-lo maior glória, em razão da maior importância desta ciência, assim como da necessidade em que se encontra de semelhante reforma. Pois parece--me evidente que, sendo a essência do espírito para nós tão desconhecida como a dos corpos exteriores, há de ser igualmente impossível formar qualquer noção dos seus poderes e qualidades, a não ser por meio de experiências cuidadosas e exatas e da observação daqueles efeitos particulares, resultantes das diferentes circunstâncias e situações em que o espírito se encontra. E embora devamos esforçar-nos por tornar os nossos princípios tão universais quanto possível, ampliando ao máximo as nossas experiências e explicando todos os efeitos pelas causas mais simples e menos numerosas, continua a ser certo que não podemos ir além da experiência e que qualquer hipótese que pretenda descobrir as qualidades originais últimas da natureza humana deve desde logo ser rejeitada como presunçosa e quimérica.
     Não creio que um filósofo que se dedicasse tão fervorosamente a explicar os princípios últimos da alma se revelaria grande mestre nessa mesma ciência da natureza humana, a qual ele pretende explicar, nem muito conhecedor daquilo que naturalmente satisfaz o espírito humano. Com efeito, nada há mais certo do que o fato de que o desespero tem sobre nós quase o mesmo efeito que a satisfação, e que tão depressa tomamos consciência da impossibilidade de satisfazer um desejo, logo esse mesmo desejo se dissipa. Quando vemos que alcançámos os limites extremos da razão humana, descansamos, satisfeitos, embora fiquemos em geral perfeitamente cônscios da nossa ignorância e compreendamos que não podemos apresentar qualquer razão para os nossos princípios mais gerais e mais sutis a não ser a nossa experiência da sua realidade; que é a razão do mero vulgo, cuja descoberta não exige qualquer estudo inicial em relação aos fenómenos mais particulares e mais extraordinários. E assim como esta impossibilidade de fazer qualquer novo progresso basta para satisfazer o leitor, assim também o autor pode tirar uma satisfação mais delicada da livre confissão da sua ignorância e da sua prudência em evitar aquele erro em que tantos caíram, de impor ao mundo as suas conjecturas e hipóteses como se fossem os mais certos princípios. Quando conseguirmos chegar a este contentamento e satisfação recíprocos de mestre e discípulo, não sei que mais possamos exigir da nossa filosofia.
     Mas se se deve considerar como uma deficiência da ciência do homem esta impossibilidade de explicar os princípios últimos, ousarei afirmar que esta deficiência é comum a todas as outras ciências e a todas as artes a que possamos dedicar-nos, quer sejam cultivadas nas escolas dos filósofos ou praticadas nas oficinas dos mais humildes artífices. Nenhum deles pode ir além da experiência ou estabelecer quaisquer princípios que não se fundamentem nessa autoridade. A filosofia moral tem sem dúvida uma desvantagem particular, que não se encontra na filosofia natural: não pode coligir as suas experiências deliberada e premeditadamente, e de modo tal que sempre se satisfaça a respeito de qualquer dificuldade que acaso surja. Quando pretendo conhecer os efeitos de um corpo sobre outro, em determinada situação, o que tenho a fazer é colocá-los nessa situação e observar os resultados. Mas se tentasse desfazer qualquer dúvida em filosofia moral pelo mesmo processo, colocando-me num caso igual àquele que considero, é evidente que esta reflexão e premeditação perturbariam de tal modo a operação dos meus princípios naturais, que tornariam impossível chegar a uma conclusão justa sobre o fenômeno. Devemos pois nesta ciência colher as nossas experiências de uma observação prudente da vida humana e tomá-las tais como aparecem no decurso habitual do mundo, através do comportamento dos homens em sociedade, em suas ocupações e em seus prazeres. Quando são judiciosamente reunidas e compara das experiências desta natureza, podemos esperar estabelecer a partir delas uma ciência, que não será inferior em certeza, e será muito superior em utilidade, a qualquer outra de compreensão humana.

continua na página 33...
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Prefácio / Introdução / 
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

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