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terça-feira, 5 de julho de 2022

parábolas de uma professora: a morte de 700.000 vidas é a política da morte

 parábolas de uma professora


a morte de 700.000 vidas é a política da morte
Ensaio 021B – 3ª.ed


baitasar e paulus e marko e kamilá



gente, essa reunião está difícil de acompanhar, longe de ser aconchegante, a altíssima não olha mais para o relógio, não faz mais movimentos para interromper as conversas paralelas, parece cansada, com certeza tem mais recados e avisos administrativos, o ponto e as regras digitais, crachás, as filas, o refeitório, o nosso novo normal como entregadores on-line de notas, frequência e planos pedagógicos, tudo acostuma e vira costume

e as aulas? continuam e continuam, precisam continuar

que tempo assustador – e ao mesmo tempo desafiador – para ser professora de história e geografia, explicar que hoje homens e mulheres – e sua criadagem subalterna –, no poder da república, sem amorosidade, sem abraço, sem paciência, sem esperança, qualificam a ignorância de uma terra plana pré-copernicana para preservarem sua posse econômica concentrada e o orgulho da sua não qualificação humana

acredito na escola pública que brilha por estar atenta à vida, a nossa necessidade ontológica de ser mais, por se manter amorosa e acolhedora às diferenças, não para jogá-las em um gueto de extermínio lento e gradual – e se tranquilizar da tarefa cumprida – ou acomodar a vida sortida e colorida em uma estufa no quartinho dos fundos

uma escola pública ética e verdadeira luta contra o mundo excludente, falso e caridoso

acredito na escola pública que denuncia a dissimulação de um mundo egoísta que faz das sobras das sobras a caridade que salva – remido por necessidade, nunca por vocação –, um mundo mumificado que valoriza o ter mais e mais além do que a vida pede, um amontoado de pessoas indiferentes às vidas além do próprio umbigo

Se me permitem, gostaria de continuar... posso? Ainda não terminei, é rapidinho, a altíssima calada, o relógio no pulso, o polegar da mão esquerda acariciando o mostrador de vidro que protege os ponteiros do relógio, mais importante é entender que o nacionalismo é o chicote dos patriotas ultraconservadores, Ame do nosso jeito ou saia! Lembram? Eu não acredito nesse mundo patriota e caridoso, mas sem igualdade social, sem pensamento livre, sem a voz que não se cala, a voz assassinada. 

Professor, esperança sem intenção, atenção e tesão é água morna para os pés, um alívio, mas os sapatos continuam apertados...

digo, a mim mesma, para prestar atenção no entorno, nas vozes silenciosas que não se mostram em tudo que já foi dito, e mais importante, vozes que poderiam denunciar-anunciar o que não foi dito, esquecido pelo desânimo implacável de acreditar um pouco menos, a cada dia, quase suplico para que uma outra voz se permita dizer a sua palavra, destas que nunca ou quase nunca se mostram, mas pulsam aqui, nas conversas silenciosas

Eu saúdo a escola que ensina e educa, não quer nossos alunos e alunas desaparecendo no cotidiano das avaliações cartesianas – aprovada ou reprovado, sabe ou não sabe as respostas –, mas discute e questiona, debate e conversa, se transforma na fecundidade frágil entre escutar e falar, reviro-me toda para trás, procuro a voz nova, lá está, Quem é esse, Agnes, Carne nova, Anita. Chegou hoje... filosofia, minhas súplicas dialógicas foram atendidas, precisamos dizer nossa palavra, descobrir que pensamos diferentes, dialogar com o silêncio é constrangedor e perigoso, nosso destino humano é o diálogo.

Destino? Por favor, professor! Ficamos de uma hora para outra obsoletas e irrelevantes. Perdemos nossa proteção permanente, não temos respostas para essa avalanche de baboseiras nas redes sociais. Então, nossa histórica posição de adestradoras, segundo as palavras do Marko, está ameaçada de uma forma ou de outra. Todas sentimos essa impotência.

Concordo em parte, colega...

Cabayba...

Certo, professora Cabayba. As redes estão adestrando mais e mais rápido. E só exigem um like, um olhar superficial e a sua replicação. Mas temos o diálogo presencial, a disputa ao vivo das ideias, dos pensamentos, dos conceitos, o olhar, a voz, a amorosidade, o abraço, as conversas no pátio, no recreio, no refeitório. A vida pulsa na escola, desde que evitemos a tsunami do silêncio...

Ou deveria pulsar...

Não concordo, Cabayba, corro em socorro do filósofo, sei que não dei o tempo do pedido ou não de socorro, sinto os olhares voltados para mim, respiro fundo enquanto me penso, E agora, Anita? Vamos, dê o próximo passo, continue, mostre suas unhas e dentes, não se deixe comer pela multidão, olhos de todos os lugares, dentro e fora de mim mesma, continuo pulsando, acredito nos atos e reflexões de homens e mulheres num fazer renovador que pretende incinerar a neutralidade estúpida – curta de inteligência, mal-intencionada e esquecida, “Não gosto de política” ou “Não faço política” ou “Político é tudo igual” ou –, tudo é política, sinto as veias do pescoço prontas para explodirem

Então, Anita... estamos esperando...

pronto, me joguei dentro de um lugar organizado para ter o controle, nada pode ser feito diferente, paralisando, parece que passei de culpada a perseguida, sigamos a nos mexer

Cabayba, concordo com o colega...

Filipe, professor de filosofia...

Seja bem-vinda, senhor filosofia.

Obrigado.

Concordo com o professor Filipe, para de gaguejar anita, as mãos suando, o nosso destino é dialógico. O caminho é a conversa, o entendimento, a solidariedade, as reuniões pedagógicas, etcetcetc... tudo é política. A neutralidade é estúpida. O preço da carne é política, o preço da gasolina é política, o salário menor para as mulheres é política, o extermínio dos jovens pretos é política, os alfas e betas na alfabetização é política, aumentar a carga horária de português e matemática é política, o transporte público é política, a saúde pública é política, o SUS é política, os alagamentos e buracos nas ruas é política, a iluminação pública é política, água e luz para todos é política, defender o estado de direito e fortalecer a justiça é política, paro para respirar, as veias continuam pulsando, não lembro quando levantei, mas estou em pé, a educação pública é política, defender e lutar pela escola pública de qualidade para todos e todas é fazer política! Escolher se calar é fazer política. Anunciar que a terra é plana é fazer política, colocar em dúvida que vacina salva é fazer política. Acabar com a fome é fazer política. Criar empregos é fazer política. Proteger as terras indígenas é fazer política. Proteger o meio ambiente é fazer política. Lutar pela água como um bem comum é fazer política. Proteger e cuidar da vida é fazer política. 




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sábado, 12 de março de 2022

parábolas de uma professora: o patriotismo de fachada

 parábolas de uma professora



o patriotismo de fachada
Ensaio 020B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




Rachel, por favor...

a altíssima não reconheceu de imediato quem a chamava, gostava de se elogiar, nos encontros das quatro escudeiras pelos pubs da cidade alegre, da sua habilidade de reconhecer colegas pela voz, Nossa, Rachel, O que foi, Você é vigiadora e controladora, Bem capaz, gurias, O mito da grande mãe, Podem parar, Mas é verdade, você está sempre atenta e vigilante, Isso mesmo, querendo saber de tudo, Vocês acham, gurias, Peito de mulher poderosa, As obrigações não podem engolir nossas percepções, as três riram, O que foi, No seu caso, as obrigações aumentam seu percebimento, Não entendi, estamos aqui para vocês falarem de mim, É um elogio, Rachel, Brindemos a isso, A nós, Uma por todas, E todas...

Um momento, professora Agnes, a Antônia está organizando às inscrições, será o papel da burocracia defender os fracos que ninguém quer defender? não sei, mas para o burocrata é irresistivelmente vitorioso – uma razão para fazer pose – acreditar que emana dele esse arreganhar de dentes caducos que fará mudar o curso da história, acredito que dá para viver sem ele ou, pelo menos, sem a sua dominância, para isso, precisamos de uma outra vida, uma outra anarquia que ainda não aguentamos

Está bem, Rachel, ela empurra o olhar até Antônia com seu lápis 8b inseparável, apontador duplo ao lado do borrachão deformado e manchado de apagões, na sua frente, na fórmica verde, seu caderno de apontamentos com capa dura, já temos alguma inscrição, Antônia?

Não, professora Agnes, responde sem nenhum papelório na voz

Posso, Rachel?

somos pessoas comuns com uma infinidade de virtudes, mas algumas de nós – será que estou sendo boazinha? – não conhecem direito o trabalho, ainda acreditam que basta ensinar ler, escrever, contar sem os dedos e decorar os números da tabuada, nossa jornada está enfraquecida por erros, movimentos inseguros, pensamentos confusos em uma névoa de discussões intermináveis, um cotidiano rachado de falsas premissas nos fragiliza e fragmenta, mas, de alguma maneira precisamos fortalecer o coletivo para não sucumbirmos em bate-bocas e desentendimentos periféricos, Cruzes, eu rindo de mim mesma, pensa sério, Anita... desentendimentos periféricos? também não resisto ao teatro verbal enquanto o espetáculo do cinismo e da hipocrisia segue em frente: escolas privadas 
– e bem pagas proporcionam estudos filosóficos, cartesianos, artísticos, laborais, psicofísicos, com muitos encantamentos e convencimentos; escolas públicas caducas, desconfortáveis e tristes com seu português e matemática laboral, a decomposição do prazer de aprender, indiferença com desejar o conhecimento

Por favor, Agnes, 
continue.

Como já disse, não sou uma grande entendida em Rui Barbosa, concordo em parte com o professor Rodolfo, mas de fato Rui Barbosa estaria se revirando no túmulo? Também não sou especialista em biografias, mas considero um anacronismo dizer que Rui Barbosa não concordaria com as disciplinas de OSPB, Moral e Cívica, e também, com a ditadura cívico-militar a partir de 1964. Ele não viveu esse tempo, mas a partir da vida dele, de quem ele foi e o que ele defendeu, muito provavelmente, e por ter sido oposição a um governo militar, ele faria oposição à ditadura cívico-militar de 64, e a estas disciplinas. Então, professor, no meu modo de ver, não faz sentido os seus argumentos se apoiarem em Rui Barbosa.

Mas então, deixe-me ver se entendi, Agnes... com quais argumentos do professor Rodolfo você concorda, nos surpreenderíamos muito se pudéssemos ver o filme sobre a multidão de personagens que representamos ao falar ou fazer qualquer coisa, somos um almoxarifado de arranjos e exibições desarranjadas

Na verdade, eu não concordo em nada. Talvez, Rui Barbosa se entusiasmasse com o patriotismo verde-amarelo, não esse patriotismo de fachada, excludente e discriminador. Mas qual Rui Barbosa o professor cita e enaltece? O homem Águia de Haia ou o ministro de Deodoro que mandou destruir parte da documentação histórica relacionada ao tráfico escravizador? Estamos falando de um dos intelectuais mais conhecido do seu tempo, coautor da Constituição da Primeira República ou do opositor da vacinação como possível condutora da moléstia e da morte?

a vida e as contradições de tempo histórico



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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

parábolas de uma professora: a luta nunca acaba

 parábolas de uma professora



a luta nunca acaba
Ensaio 019B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




Não sou uma grande entendida em Rui Barbosa, mas, se me permitem, sabemos que ele era uma grande defensor das liberdades individuais e como advogado defendeu e libertou, junto ao STF, os presos políticos opositores ao governo de Floriano Peixoto, segundo Presidente do Brasil, um militar – assim como o primeiro, Mal. Deodoro da Fonseca –, como políticos são ótimos candidatos a ditadores, formatados para dar-obedecer ordens e com muita dificuldade para ouvirem o contraditório. Rui Barbosa fez oposição ao governo de Floriano Peixoto e precisou ficar exilado por dois anos, entre 1893 e 1895, lembram do lema, “Ame o Brasil do nosso jeito, ou deixe-o!”, pois o grande Rui Barbosa, citado pelo professor Rodolfo, foi exilado, graças a essa oposição ao governo de mais um militar. Mas nem por isso seria unanimidade esse abolicionista, liberal e defensor das liberdades individuais, que experimentou as próprias contradições no seu tempo histórico.

a sala do pânico escutava em silêncio

Colegas, a altíssima pediu a palavra, parecia incomodada, talvez, quem sabe, com o rumo que a reunião tomou e a falta de tempo para os recados administrativos, media o falar, vocês sabem que gosto muito das aulas de História e das histórias que escuto aqui, bem como, dos debates e das conversas, e tudo que estamos escutando e ouvindo hoje não me permite interromper, mas por uma questão de ordem vou pedir que quem quiser fazer uso da palavra se inscreva com a Antônia, certo? Não estamos em uma conversa informal, precisamos estar organizadas minimamente ou poderemos experimentar o pressentimento da falta de sentido deste momento, muito bem, muito bem, enganei-me com a altíssima, a conversação vai continuar

E o que faço com o assunto que queria prosseguir, mas não cabe mais na sequência dos inscritos com a Antônia?

Por favor, Fernando, né? É só retomar a pauta...

quem consegue compreender que exista tanto ódio e preconceito entre tanta gente do bem, muitos e muitas se comportam como se os outros fossem ruins, o ódio e os preconceitos estão no outro, nunca em mim, adoram complicar

E aproveitando que estou fazendo uso da palavra, a altíssima prosseguindo e a sala do pânico em silêncio, gostaria de dizer ao professor Rodolfo que estou muito triste e chocada com suas palavras à nossa comunidade escolar. Professor, essa comunidade precisa do seu trabalho, mas vou entender se o senhor deseja estar num outro lugar, bem longe daqui, um outro sabor pedagógico, quem sabe, mais calmo, tranquilo e sossegado. Na mantenedora, por exemplo. Não vou julgá-lo por suas palavras, seria uma estupidez intelectual e emocional da minha parte, se é preto não presta, se mora na vila não presta, se é mãe solteira não presta, se não gosta das minhas aulas não presta, se não gosta da escola não presta, se não gosta de dar aulas não presta, todos e todas se vigiam e ninguém é feliz nesse teatro de horror que montamos. E vergonha, medo, culpa e agressão não são as melhores parcerias para caminharmos pela vida.

uau, uma solicitação de remanejo ao vivo e a cores, isso jamais havia presenciado

Ora, ora, o pau que não querem que bata em Francisco pode bater no Chico! A senhora diretora da escola está me mandando embora? Hum... Ame do nosso jeito, ou deixe-a!

por mim, se é por falta de adeus já deveria ter ido, menos um idiota preconceituoso e cagão! não temos tempo para educá-lo, não tenho a sua paciência Anton Makarenko, minha escolha é estar entre as crianças, adolescentes, adultas e velhas pessoas abandonadas, os mais necessitados e menos atendidos pelos poderes públicos e privados

Não, não é isso. O colega escutou, mas não ouviu, se ouviu não entendeu. Acredito que a vida é complexa e alegre, e também triste, claro, mas é nossa obrigação, neste poema pedagógico – uau! estamos em sintonia altíssima –, desfrutar dela sem menosprezar as outras vidas. O nosso trabalho precisa ser feito com competência e com resultados, sim... e com muita amorosidade. Entendo que ninguém sabe tudo, e mais importante, ninguém sabe nada. Sair ou ficar é sua escolha, mas ficar sem amorosidade não é opção. Ficar por desabafo ou ressentimento só demonstra quão tolos podemos ser.

a fórmica verde que se erguera dois metros do chão afundava os pés, o ajudante bélico com seus argumentos grosseiros e ofensas para justificar um bem-estar falso e estéril estava calado, não para sempre, nunca se calam ideias de dominação para sempre, elas retornam revestidas com outras ignorâncias, mas sempre sob o mesmo desejo da subjugação

essa luta nunca acaba



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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

parábolas de uma professora: atrás do rabo

parábolas de uma professora



atrás do rabo
Ensaio 018B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




o professor Rodolfo levanta a fórmica verde, exaltado, danado, a voz alterada, fazendo alvoroço, olhar assombrado, desarticulado, Povinho inculto com cara de fome. Rui Barbosa deve estar se revirando no túmulo. Gente preguiçosa e com má vontade de suportar privações. Quem passa fome é o vagabundo, quem trabalha não passa fome. Haja zoológico para enfiar tanto vileiro.

qual a razão para palavras tão preconceituosas, desumanas, tanto desprezo e ódio, gente cafajeste e canalha, experimento o ódio e a impotência, sei que não é somente o Rodolfo, outros e outras, nesta sala, pensam e sentem assim, apenas não falam, silêncio conveniente

com raras exceções, as comunidades das nossas escolas reconhecem a necessidade de trabalhar e estudar, compreendem que esses são interesses mútuos, Professor.. por favor, não fale assim. Não diga isso, essa sua postura agressiva assume um caráter primitivo, desqualifica a escola, reduz o nosso trabalho em doença e morte.

E todos não iremos morrer um dia, Marko? Por que não hoje?

nunca sei quando a crueldade é apenas crueldade ou ignorância, Colega, parece-me que o cotidiano da nossa comunidade é algo desconhecido e distante para você e, pelo qual, nutre um profundo desprezo.

tristeza e desespero brotavam silenciosamente em meu coração, precisava salvar-me a todo custo deste ódio deprimente e desesperado, mas é preciso estranhar e reagir contra, fazer esse infeliz retornar ao seu papel vazio costumeiro no rebanho

não é o medo que vai nos salvar e nos manter na linha justa, só nos faz definhar até virarmos zumbis de nós mesmas, não existindo, desaparecendo nas prateleiras de cimento e flores de plástico

parecia inútil tentar conversar, mas mesmo assim voltei-me para o colega, Não faz muito sentido o colega usar o nome de Rui Barbosa no seu raciocínio sobre OSPB e Moral e Cívica...

E o que faz sentido para a colega?

Eu posso lhe dizer com mais certeza o que não faz sentido.

E o que não faz sentido?

uma parte das pessoas daquela reunião evitava encarar-me, e se pudessem me calariam, estava cercada por sentimentos clandestinos, sabia que seria preciso fustigar quem estava estava ali sem estar, uma presença sem entusiasmo e olhar baixo, um comparecimento de fachada, fisionomias suspeitas, sem curiosidade, sem desejo, dispersas num desprezo generalizado, essa reunião, por exemplo, caro colega, não faz sentido, fiz uma pequena pausa, um pouco de pose, talvez, gargalhava e me preparava para arreganhar os dentes, para mim não faz sentido ficarmos aqui, neste calorão do inferno, derretendo e escutando essa merda toda que sai da boca do colega.

Anita!

o desafio estava aceito, precisamos avançar na prática dialética da reflexão e do debate, encontrar pontos para motivar a discussão, superar compromissos machistas, racistas, preconceitos que não libertam e não transformam a realidade, mas também precisamos arreganhar os dentes e cerrar os punhos, E as outras vidas possíveis, professor? Continuaremos contando histórias de lagartas e borboletas? A lagarta não se vê borboleta, a borboleta não se sabe lagarta, é isso? Uma depende da morte da outra para voar? É isso que queremos contar? E as outras vidas possíveis? Vidas no casulo autoritário da escola que inviabiliza a criticidade, a conscientização, a aceitação das outras vidas possíveis. Chega, professor, meus ouvidos não são esgoto.

nunca haverá na escola que se submete a ser domicílio das relações verticais militares espaço para transformar as relações sociais que estabelecem e fixam as desigualdades de moradia, saúde, alimentação, transporte, emprego, a raiz do analfabetismo é o medo que as pessoas se descubram

Anita, por favor...

O que foi? Eu disse algo mais estúpido que o colega? Ah, o colega é mestre em alguma coisa... aham, o diploma diz cada vez menos sobre as nossas competências pessoais de empatia, gentileza e compromisso com as vidas.

Anita, a escola se transformou num centro de mediação com o mercado...

Quanta merda, Cabayba! Esse deus mercado, o deus da prosperidade, são pessoas manipuladoras, gente atrás de estratégias e estatísticas que lucra com o meu trabalho, o teu, o nosso, o trabalho dos jovens desta escola. E quem não se adapta é eliminada no paredão da vila. Olha aí, é o meu guri!

o silêncio se espalha em pânico e o mais furioso se cala, esconde os dentes, desfaz seu olhar assombrado, relaxa os punhos, não vai se engalfinhar comigo, estou fervendo clara e espontaneamente, eu sei que essa selvageria não acaba aqui

gente burra e surda

o silêncio começa a pesar sobre nossa reunião pedagógica – ou seria... a reunião administrativa da altíssima?

sei lá, já pouco me importa, parecemos em círculos tentando agarrar o rabo



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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

parábolas de uma professora: acertou, ele mesmo...

 parábolas de uma professora



acertou, ele mesmo...
Ensaio 017B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




não há isenção em nada do que fazemos; não acredito em destino, mas na escolha de menosprezar ou não as pessoas, o monólogo da dominação é tentador, ele se repete não como se a história estivesse se repetindo, ele se replica como erros que não conseguimos evitar; assim, temos nazistas e fascistas revigorados em nosso convívio, parecemos sempre perdendo as vidas humanas dos sonhos para vaidades e intolerância

O momento merece uma pequena reflexão se o senhor me permite, o Paulo continua disposto a ir ao passado para voltar ao presente, não existe o agora sem o que aconteceu antes, a Educação Moral e Cívica e a OSPB surgiram em contextos de pura “ideologia neutra”, portanto, jamais foram, ou como requer o querido professor, nunca foram disciplinas neutras. Inclusive, no período da ditadura cívico-militar, foram utilizadas para diminuírem o ensino da História e da Geografia, que tinham uma posição de criar um pensamento crítico nos alunos e alunas. Alguma similaridade com os dias atuais? Uma cópia autenticada do passado da educação e a desconstrução do pensamento crítico.

E vocês acreditam nessa baboseira de direitos políticos e a identidade que o trabalho dá ao trabalhador ralé? O pobre se serve do trabalho para sobreviver! Não está interessado em direitos políticos, essa gente só quer comer, mesmo que sejam ossos, farelo ou pés de galinha! Sobreviver, essa é a urgência!

Mas então, Cabayba, não entendo essa sua contradição, esse seu discurso contra a alimentação na escola...

Eu não sou contra, apenas afirmo que a prioridade dessa gente não é estudar, é comer! É quando concordo com o Rodolfo, a identidade com o trabalho é a identidade da sobrevivência, “Não gosto do que faço, mas preciso levar o pão pra mesa”, a Cabayba parecia ter um esquematismo de nuances de explicações ou ausências de desculpas e muitas acusações, e me respondam, qual a memória que os filhos da fome herdam e reconstroem em suas vidas?

talvez, uma memória que os filhos e filhas da abastança desprezem, ao mesmo tempo que pregam a farsa do amor ao trabalho, o lugar em que alguns exploram muitos e muitas enquanto se fortalecem sobre os sobreviventes

É disso que eu falo, o Rodolfo parecia um morto que se sucede em camadas de vivos, não existe uma conspiração. É isso, e pronto. O circo, o pão e bundas cantando bastam para ficarem bestificados, é uma apatia coletiva de violência incorporada ao nosso dia após dia. Qual a saída? A escola? A teimosia? Eu desisto, vou ficar no meu feijão e arroz, quer estudar? Estuda. Não quer? Tudo bem...

Um minuto, por favor. Gostaria de continuar, aqui não vou mencionar as caras e caretas que vi sendo jogadas para o Paulo

Por favor, professor Paulo, continue. Se possível seja mais objetivo, o fio da navalha de administrar uma escola democrática, um desafio que nos salva? talvez

Obrigado, professora Rachel. Vou tentar  ser mais direto. Não quero parecer enfadonho nem melodramático, muito menos repetitivo, já sendo, mas não acho que possa ser tão sintético. De qualquer maneira, quero fazer uma pergunta a todos e todas, nesta sala de aula. É à toa que retiram, novamente!, a Filosofia das escolas públicas? É ao acaso que o tamanho das horas da História e Geografia diminuíram para alguns minutos enquanto aumentam as horas da matemática e português?

É claro que não, Paulo!, respondi intempestiva e, imediatamente, senti um rubor aquecer meu rosto, ainda não rompi a barreira com o poder, mais ou menos como deixar de escrever por ter medo das vírgulas, tenho pavor das vírgulas

Obrigada, Anita. Devido ao tempo, vou tentar esclarecer esse desejo abastado de ver e querer a escola pública como parte desse circo, já citado pelo professor Rodolfo. Lá atrás, nos anos 60, não queriam pensamento crítico, e agora, também... não.

o Marko não se contém e solta o grito que trás engasgado, tenho vontade de gritar junto

Acordem! Esse patriotismo de arrepios interessa a quem? A liberdade só é liberdade quando é para libertar os explorados da exploração e da fome. Esse patriotismo que luta por essa causa de menos História e Geografia – e mais português e matemática –, menos pensamento e mais trabalho, trabalho, trabalho, pensa que pensa, mas quem pensa é o dono do dinheiro, do trabalho e da informação. Eu concordo com a professora Cabayba, a fome é ideológica, trazer, novamente, o Brasil para o mapa da fome é ideológico, mas a professora precisa se decidir se luta contra a fome, ou não. O patriotismo e o nacionalismo sempre são discursos ideológicos, mesmo que quem os use não diga, “Ame o Brasil do nosso jeito, ou deixe-o!”

Isso, Marko. Se você me permite, esse é o ponto em que eu quero chegar. Lembram? Esse foi um dos principais discursos da ditadura civil-militar. Pois é, podemos perguntar aos exilados ou as famílias dos desaparecidos e mortos pelos militares sobre o seu patriotismo, talvez, essas pessoas tenham outra visão de amor pelo país, mas infelizmente não tiveram chance de ver esse amor reconhecido. Aliás, aulinha grátis de História: o nacionalismo também foi um dos principais discursos utilizados por Hitler! Também por Vargas durante a ditadura do Estado Novo. Ah, também foi usado durante o Brasil Império, num contexto de escravização e tentativa de branquear a população, por acharem que negros e indígenas estavam “atrasando o País”, sabe o que fizeram? Trouxeram imigrantes europeus para criarem uma “Nação de Verdade”! Uma nação branca e elitista! Só alguns exemplos históricos, queridos professores e professoras, sobre a importância de desvelar esse discurso nacionalista e patriótico anticorrupção. A história não se repete, apenas cometemos os mesmos erros, é simples. A gravidade desse momento exige denunciar que os arrepios e bandeiras deste patriotismo nacionalista nunca foi neutro ou bonzinho, mas acredito que os colegas e as colegas já sabiam disso tudo, não é?

o grande susto do professor Rodolfo foi encontrar alguém que já sabia o que ele escondia debaixo do seu colchão, uma visão distorcida dos fatos reais, uma ficção onde não haveria vida além da vida dele e seus iguais, um mundo de fingimento ético, cultural e social, um faz de conta da sua bravura desperdiçada nos almoços da mesa grande, e na tardinha, à volta para casa, entre acomodado e revoltado por ter que retornar amanhã, um mormaço de resmungões reprimidos, até o dia que pudessem levantar à sua moda o colchão grotesco das maldades genocidas do bem

Não podemos mais amar o nosso País e querer o melhor para Ele?

Claro, Rodolfo. Podemos e devemos, respondeu o Marko, afinal, o país somos todos e todas nós, não é mesmo?

E desde quando reproduzir Hinos e Símbolos da Pátria virou tempestade?

Não virou, professor. O que discutimos é a apropriação de um discurso histórico de ficção para uma plateia passiva e alheia aos dramas do passado, reproduzindo hinos e símbolos na intenção de apagar a diversidade, querendo um único tipo de nação, isso é extremamente perigoso. Aliás, sabe quem deve adorar essas disciplinas de OSPB e Moral e Cívica? Isso mesmo... acertou, ele mesmo... lord voldemort





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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

parábolas de uma professora: Eva e a uva

parábolas de uma professora


a Eva e a uva
Ensaio 016B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




estávamos em silêncio, sentadas e bem comportadas nas cadeiras de fórmica verde, observando o Rodolfo e o Marko com suas palavras e olhares de provocação, todos e todas somos mais ou menos exibidas, mas dava para perceber a postura orgulhosa dos dois, nenhum homem está salvo da própria história, o fascínio e o assombro de ser homem, rostos abismados e aturdidos, mas nunca desnorteados, donos de tudo, as caras que Rodolfo fazia mostravam além, anunciavam o seu desprezo, Como esse homenzinho torto de ideias – e seus óculos ridículos – tem coragem de dizer isso? Parece uma mulherzinha...

Colegas, precisamos nos acalmar, está bem, a altíssima nos vigiava de perto, o poder seja qual for – mesmo o legítimo – tem receio do debate, está sempre atenta e se faz presente, a raiva pode ser perigosa, não concordam? Sei que é difícil entrar e sair de um debate sem que a emoção, em algum momento, acelere nossos corações e suba o tom das palavras, mas estamos entre colegas, não estamos? É nossa reunião pedagógica, certo?

às vezes, não entendo a altíssima tentando amornar as disputas, ora se aproxima ora se afasta de confrontar essa vida minguada de beleza, mas recheada de fome, pobreza, injustiça, opressão, doenças, violências e ignorância, quanto medo temos das palavras mais profundas da outra pessoa, os pensamentos guardados falando sozinhos são os mais perigosos, adormecidos e latejando, uma infecção se alastrando

Sei que algumas de vocês não me entendem, mas quero lembrar que criar com nossas mãos, palavras e coração o mundo da esperança requer mais que insultos. Desaforos não legitimam as ideias, discernimento, discernimento...

não sei se a altíssima percebeu meu sorriso amargo, a história me parece um histórico recomeço de recontar a prosperidade que está logo ali, na esquina sem endereço, mas parece que para o professor Rodolfo está tudo muito claro e definido, a estrada traçada e o mapa desenhado

Estamos vivendo tudo isso porque nossos jovens não têm disciplina! Essa escola parece uma colônia de delinquentes juvenis. Repito: Nossos jovens não têm disciplina, não sabem o Hino Nacional – muito menos, nosso valoroso Hino Rio-grandense –, precisam de uma educação familiar com disciplina e um ensino escolar sem ideologia política para ensinar o que é certo e o que é errado. Precisamos fortalecer a disciplina e decorar nossos hinos! Rezar mais e rir menos! Tenho guardado um livrinho de civismo e OSPB que herdei do papai. Acredito que o Paulo vai lembrar desse livrinho, estou com ele guardado todos esses anos. Às vezes, abro suas páginas e me arrepia o que leio. Uma relíquia. É esse arrepio que gostaria de ver nessas gerações novas, esse sentimento de Pátria Amada Acima de Todos, mas elas não sabem nem conhecem esse livrinho, muito menos, o que está escrito nele.

olho para o Paulo, sempre penso nas suas palavras quando o discurso dos sem ideologia e sem política ressurge, um discurso que tem lugar garantido nos desejos de dominação da vida do outro e das outras, o ecumenismo da política sem política, onde a pátria é a trincheira do homem e da mulher de bem acima do bem

Professora Rachel, gostaria de dizer umas duas ou três palavras, se me permite, já que fui citado, sobre as palavras do querido professor Rodolfo. Prometo que não quero me estender muito, mas acho que o momento requer uma pequena reflexão sobre a Eva e a uva.

o professor Rodolfo atira o seu gemido de desdém – ou teria vomitado seu mal-estar?  ao ser confrontado com suas verdades seculares de opressão

Professor Paulo, por favor, sabemos que estudos bíblicos não é a sua disciplina curricular. O seu forte é o comunismo. E já anuncio que vou lutar para termos mais ensino religioso em nossas escolas, mas, por ora, deixemos a coitada da Eva e o seu pecado original para quem entende do assunto. O senhor não concorda?

Desculpe, Rodolfo, não era essa a minha intenção, por agora. Mas gostaria de conversar sobre as nossas vidas serem geridas por minorias ínfimas e sem justiça que não seja dessa da classe dominante. Posso?

A troco do quê? Qual a razão? Essa sua conversinha mole de comunistinha não me agrada.

Mas foi o professor que me citou...

E já me arrependo! Posso retirar a citação?

Pode, claro. Mas não lhe parece estranho e oportunista que quando a conversa encetada não corresponde aos seus planos – e arrepios – o senhor resolve silenciar a treta? O esvaziamento das ideias. Não, não vou permitir que interdite o que penso. O senhor pode e deve – e não precisa minha permissão, claro – criticar e argumentar minhas palavras, mas vou dizê-las. Aceite o peixe, às vezes, não é preciso pescar, o pescador pode ser outro ou outra: isso pode ser política, isso pode ser ideologia, e pode ser bom senso, mas saiba que o preço do peixe é política, o preço da carne é política, todos os nossos atos e omissões no cotidiano são ideológicos e políticos. O simples ato de separar os resíduos secos e orgânicos em nossas casas é ideológico e político. E o senhor... está ao lado do opressor ou do oprimido? Isso também é político e ideológico. Mas para responder essa pergunta, cada um de nós e cada uma de nós, precisa saber quem é, onde está, qual o lugar que ocupa, e depois, descobrir que não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho. Não basta ler livrinhos de civismo e ficar arrepiado. É preciso descobrir quem lucra com esse patriotismo de retórica arrepiada.

Retórica! Agora, Pátria e Deus viraram retórica! Cada um inventa a Pátria e o Deus que quiser, é isso?!

uau, ele está começando a entender... não, acho que não, a doação de si próprio não é generosa, não entende que nossa liberdade é abstrata, não tem a ver com disciplina do colégio, restrições familiares ou hábitos sociais



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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

parábolas de uma professora: silenciar o outro não é educar

parábolas de uma professora


silenciar o outro não é educar
Ensaio 015B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




Nos basta acomodar ventos e desejos no quartinho dos fundos? Estamos descobrindo que gritos não bastam, Cala a boca, senta, copia, não incomoda, silêncio, escuta, não pode, não!

invejo professoras e professores – que na sua coragem de ter esperança – mobilizam com determinação a realidade à sua volta com alegria e convencimento, acreditam na ternura, na palavra amorosa, têm medo da prepotência e da maneira como ela se infiltra nas pessoas, mesmo naquelas transbordando de boas intenções

querida, eu as invejo

minha inveja não é invejosa – espero que não –, não despreza nem é melancólica, é resiliente e transgressora da vontade estabelecida, desde muito antes, do esquecimento aprisionado no passado sem margens na história, gentes incorporadas e desincorporadas da vida sem o reconhecimento da sua existência – quero ver a justiça se fazer justiça para essas gentes –, destruídas sem nenhuma narração da sua destruição

ninguém educa com o chicote na mão, silenciar o sonho do outro e a alegria da outra não é educar, é o autoritarismo pedagógico do mais forte com seu olhar de ceticismo e medo de ser rejeitado, quando falham os argumentos recorre às armas para sustentar seus pontos de vista

precisamos pensar e ser esperança

queridas, os momentos de desilusão com o cotidiano foram e são e serão muitos, não podemos permitir sem luta a invasão da desesperança do mundo no outro, na nossa própria dor e desalento, sem luta murcharemos

Para, Marko! Essa gente só quer comer!

haja paciência, é preciso muita ternura e um pote sem fundo de esperança

E por acaso – e só por acaso –, nós não queremos comer, também? Às vezes, até um pouco a mais do que deveríamos do picadinho de angu, né?

Picadinho de angu, cruzes!

bem no alvo – e nas periferias do alvo –, eu também não consigo controlar meus desejos por doçuras – minhas travessuras – quando estou ansiosa, agora mesmo, comeria uma barra de chocolate e um sonho fofinho – e redondinho – com creme

Tira a comida e acaba com essa lei comunista que obriga os pais mandarem a ninhada à escola... e voltamos a conversar!

mais difícil de tudo isso é aguentar essa enxurrada de amargura, desencanto e frustração sem um sonho de acolhimento, preciso da amorosidade do chocolate

que tempo difícil, e ao mesmo tempo desafiante, ser professora de história, já tivemos pelo mundo muitas elites com mais ou menos valia, engenhos diversos e explicações sortidas para sua formação e suas categorias, posse econômica concentrada, qualificação educacional, mas todas têm em comum serem formadas por homens brancos que preservam com unhas e dentes os padrões que qualificam o alistamento ao grupo, concedendo à mulherada o papel de cuidadora da casa e da infância como sentido para suas vidas

Será isso mesmo, Rodolfo?

Vagabundos e preguiçosos! Precisamos diminuir os impostos! Amar a Pátria acima de tudo, temer à Deus acima de todos! Menos direitos e mais deveres é o que essa gente precisa!

bem... conseguimos, as elites da idade média ressurgiram aos gritos do seu adormecimento

Eu gosto mais, Rodolfo, daqueles versos que cantamos – acho que você já cantou, também –, A gente não quer só comida, lembra? A gente quer a vida como ela quer, é isso, né? Queremos diversão, música e balé. Vocês têm medo do quê, mesmo? De fazer amor? Têm medo do prazer que alivia a dor? Queremos inteiro ou só pela metade?

O desejo injusto é pecado!

Malditas as religiões que se armam do ódio, da ganância e da ignorância para sustentar seus pontos de vista!



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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

parábolas de uma professora: a esperança mobiliza a realidade

parábolas de uma professora


a esperança mobiliza a realidade
Ensaio 014B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




Professor Paulo, aqui, nesta reunião – ou em qualquer outra –, correndo os riscos que toda generalização nos impõe, ninguém ficaria surpreso ou atônita com a inexistência de professores e professoras como coletivo pedagógico, pelo menos, naquelas em que trabalhei, nestes quarenta e tantos anos de reuniões administrativas-instrutivas. Vi algumas tentativas diferentes na educação de jovens e adultos, mas também muito espanto, crises, bolos de aniversário, almoço, piadas-reclamações, abandonos e tarefas de calendário, planejamentos de eventos: dia da criança, do índio do professor da árvore, dias das bruxas – como bons colonizados e colonizadas não podemos esquecer o Halloween, é tão divertido pedir balas ou travessuras, uma gracinha. Mas ainda tenho esperança de encontrar planejamento e sentido coletivo em nossas ações pedagógicas.

eu também, querido Marko, escutei muitos sonhos, presenciei muitas discussões, e algumas tentativas, que não passaram de desejo de uns poucos e poucas, lutas coletivas sabotadas por nós mesmas, Gente, o que nos impede de existirmos como um coletivo pedagógico, a pergunta pairava na reunião administrativa-instrutiva

O professor Marko precisa participar mais das nossas reuniões. Caso o professor não saiba, construímos em nossas reuniões a Árvore Pedagógica, desta escola!

Eu sei, Ofélia. Eu já estava aqui, mas confesso que minha participação foi pequena, deveria ter acreditado. Um erro entre tantos que cometi num tempo de esperança. Uma pena que nossa árvore virou um lindo quadro esquecido nos corredores. E não sei se os professores e professoras, novas e novos na escola, sabem que temos uma Árvore Pedagógica. Aposto que não sabem. Voltamos no tempo, onde cada um e uma ocupa o seu quadrado e o defende com unhas e dentes.

Então, gente, o que nos impede de sair deste isolamento? O que vocês precisam da direção da escola, a altíssima sendo objetiva e clara, no que podemos ajudar, o que nos impede de fazer e colocar em prática um planejamento coletivo?

Rachel, os eventos do calendário já estão planejados...

Cabayba, eu acho que não é esse planejamento que está em discussão... se entendi, a nossa altíssima diretora está garantindo nossas reuniões, ou não?

Sim, Anita... até no limite do respaldo que vocês e a comunidade quiserem me oferecer, sem esse apoio não tenho muito o que fazer.

o Marko levanta a mão, essa coisa de sentar um e uma atrás da outro e outra não ajudam as conversas

Eu tenho um sonho, haverá o tempo que nas escolas públicas pensaremos uma educação coletiva solidária com o todo e com as partes, incluindo pais e mães, alunos e alunas, todas e todos dialogando com a educação que querem para si ou para seus filhos e filhas.

Vai sonhando, Marko! Vamos falar sério, gente! Vocês não acham um desperdício do dinheiro público a nossa cidade investir nesse entulho da filosofia nas vilas? Não que eu ache a filosofia um entulho, nem a geografia, muito menos a história, não me entendam mal, mas nas escolas em que valem a pena esses estudos. Essa gente aqui precisa aprender português e matemática! Arrisco dizer que nem educação física é tão necessária assim, a menos que seja para preparar bons corredores da nossa boa polícia. Por favor, precisamos é de mais religião nas escolas. Sonho com uma administração corajosa para enfrentar essa merda de democracia na escola. Esse desperdício de escola inclusiva, libertária e sociedade justa. Educação com qualidade na escola pública é com muitas e boas aulas de português e matemática. Vileiro fingi que aprende, nós fingimos que ensinamos, caso vocês ainda não se deram conta. O sentido da escola pública é educar a disciplina e a obediência nesses pobres coitados. Fala sério, gente! Francês e espanhol nas vilas? É deboche, né?

a desesperança da Ofélia se antecipa à maldade, nos faz viver com medo, cheias de nós mesmas e ao mesmo tempo descrentes, seguindo regulamentos, esperando a recompensa que nunca vem, anônimas e anônimos zumbis despercebidos

Você acredita em tudo isso? Você não acredita na força do diálogo? Você não acredita na força transformadora da educação? O que você está fazendo aqui? Saia e vá ser feliz fazendo outras coisas. 

Marko, esses vileiros me deprimem. Essa gente não tem o que me ensinar. Ainda não chegou o dia em que o poste vai fazer xixi no cachorro, essas palavras da Ofélia me torturam, tão cheias de amargura, desencanto frustração, escondida em queixas, reclamações, críticas, xingamentos e acusações, mas com certeza não foi ela que inventou essa educação de alfas e betas utilitárias, instrumento de dominação, sem utilidade alguma além de desumanizar a educação

Ofélia, estou falando sério... Salve-se e nos permita prosseguir.

Eu acho que precisamos escutar todos e todas sobre o que esperam de nós, professores, mesmo que seja, Queremos que façam o seu trabalho e ensinem os nossos filhos e filhas.

Isso, Carlos. As pessoas precisam escutar a própria voz, nós precisamos escutá-las. Mas é fundamental que o nosso discurso consagrado pelo púlpito catedrático – exaltado e aclamado apenas por nós, é verdade – não seja uma oração pedagógica para lhes afirmar de maneira contundente, definitiva e incompreensível que somente nós entendemos educação, e vocês, pais e mães, nada de relevante têm a nos dizer. Será?

Também tenho poucas certezas e muitas dúvidas, Marko. Conseguiremos desvelar com amorosidade à necessidade da argumentação crítica e a construção das palavras como alimento amoroso do pensamento?

Eu entendo, Paulo. Parece que na maioria das vezes conduzimos as palavras em voos só por voar, voos sem sonhos.

Isso nos basta?

Espero que não. Espero que não nos baste lutar por nossa dignidade como profissionais da educação – a nossa eterna luta salarial -, esquecendo a defesa dos direitos de todos e todas, crianças e adolescentes, jovens e adultos, a todo conhecimento que a humanidade acumulou, seja na filosofia, na história, geografia, o conhecimento do próprio corpo, reconhecendo limites e estratégias para superar esses limites com uma educação física que faça sentido para suas vidas, divertida, lúdica e construtora da determinação individual e coletiva.





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quinta-feira, 16 de abril de 2020

parábolas de uma professora: o sorriso cínico da desesperança maliciosa

parábolas de uma professora


o sorriso cínico da desesperança maliciosa
Ensaio 013B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




Então, minha gente... vamos iniciar a nossa reunião?

essa é rachel, diretora da escola, a altíssima, entrou no abrigo para chamar-nos à reunião semanal dos professores e professoras, talvez, a última reunião ou última diretora eleita pela comunidade, o futuro nos responderá

Desculpe, Rachel...

Sim, Marko.

gosto do mundo com gentilezas e cuidados com a vida, a delicadeza e a civilidade com todas às vidas, mesmo as palavras duras e decisões para resistir e subsistir não precisam ser cruéis, meu sonho pequeno burguês

O professor Paulo estava descrevendo a esperança. Acredito que todos e todas deveríamos ouvi-lo. Essa discussão já vem da reunião passada.

E a reunião desta semana faremos aqui no abrigo...?

a rachel está toda de branco, veste-se com elegância, confidenciou – numa dessas saídas que fazemos em pubs, quatro ou cinco viciadas em trabalho e festa – que às reuniões antecipadamente marcadas, pensa nas roupas e no efeito nas pessoas, Vestir calça jeans, tênis e blusinha básica nas reuniões? Nem pensar, de jeito nenhum. A roupa faz parte da reunião. A imagem mostra o que as palavras não podem alcançar. Antes de ouvirem qualquer argumento ou falação as pessoas precisam parar para ouvirem, escutar e entender é outra questão, mas precisam parar, seja por medo, respeito ou curiosidade, Ou cobiça e ciúme, E as reuniões não agendadas, aquelas que surgem devido as surpresas do cotidiano, Essas, por si só, já provocam atenção, É claro, o cotidiano já foi alterado por alguma razão mais importante que repetir o habitual, Então, esse conjuntinho elegante todo branco também é para nossas reuniões, a resposta que recebo é um sorriso imenso e um abraço maior, uma mulher forte e indestrutível, uma avó cada dia mais linda

Acho que podemos fazer aqui, né? O que vocês acham?

Pode ser... eu acho...

Eu acho que sim...

Nenhuma objeção? Então, tá... professor Paulo, por favor, continue...

Obrigado, Rachel. Bom dia, novamente, a todos e todas. Esse chamamento do Marko convoca em mim a responsabilidade solene de falar com uma breve tensão da memória. O que eu disse que provocou tal reação no Marko? Não sei se sei. Esse é o mistério que enfrentamos em nosso cotidiano nas salas de aula: o que dizer, como dizer, para quem dizer, por que, quando, essa mágica é interminável. Para os desesperançados e desesperançadas pode se tornar um pesadelo respondê-las, e talvez, por isso, esquecemos essas perguntas que precisamos nos fazer todos os dias. E desanimamos de nos esperançar no outro e na outra – seja esse outro criança, jovem ou adulto –, desesperançamos da educação, e nos agarramos, por último, e no fim de tudo, para não desesperançar em nós mesmos, na salvação de ensinar e virar às costas, fugir para longe, pelo menos, até amanhã, quando teremos que estar de volta, pouco a pouco, cada dia, mais desesperançados. Até que precisamos estar cínicos de desesperança. E o cinismo é a forma mais rápida de morrer para o outro.

será tarde demais para recuar, me pergunto, escuto o paulo em meu socorro, Anita, recuar para avançar com esperança, enfrentar o cinismo que mata o espetáculo da vida, Eu sei, me respondo, a merda toda é que estabelecemos que o cinismo da desesperança seria um lugar firme o bastante para nos salvar. Acho que estamos afundando num pântano de indiferença e descrença em nós mesmas.

Se me permitirem gostaria de continuar, esperou pelo quietude das vozes, grato, caro Marko, a esperança no homem e na mulher, independentemente da maneira como se manifesta e se diz pertencente, querendo a humanidade que nos habita, é permanentemente mobilizada para recriar as condições humanas de ser mais...

eis o nosso ofício de ser professora, não podemos nos entregar ao deserto da desesperança, fugindo do sofrimento do nosso povo – que também somos, lutando pelo reconhecimento do nosso trabalho –, caminhantes que caminham e fazem o caminho com as sombras que abrigam os esfomeados e as sobras que refrescam nossas vidas

... esperar o que se deseja é o natural, a necessidade que transcende a biologia e vem se assentar em nossa condição humana, no desejo que existe na palavra e na reflexão que impregna nossa ação. E é essa palavra carregada com nossos desejos que aviva a práxis – não esqueçamos que a palavra provoca reflexão e a reflexão encoraja a palavra, ação e reflexão, pensar e agir – voltada para o humano que se quer sendo mais humana, recriadora das possibilidades e oportunidades que nos aproximam...

olho pela janela, outro prédio repartido em salas de aula, precisamos levantar e mirar a montanha, sair do curso do rio para fecundar suas margens, alargar a vida – dialogar com as pessoas que buscam estreitar a vida à sua imagem e semelhança –, levantar e mirar indignadas com as injustiças, lutemos pela justiça unidas pela esperança dialógica que não se nega ao diálogo esperançoso, um só coração com sabor de vida que já experimentou a morte

... da esperança que sonha a vida como um chá refrescante de hortelã. A xícara em nossas mãos, quentinha e aconchegante, um chá tomado delicada e decididamente sem esperar que amorne ou esfrie. A esperança do chá está na sua delicadeza e na sua maneira diferente de observar e influir na vida, na saúde da existência, na ausência da violência e resultados inflamados por fármacos pedagógicos tirânicos e decorativos.

temos tantos irmãos e irmãs que não podemos contar, dizem que se passou o tempo das cartas, a história se acabou e o presente já chega com gosto de passado, vivemos o tempo das frases curtas e palavras abreviadas, a necessidade decorativa das relações íntimas tornadas públicas e curtidas, uma vida veloz que mata as cartas que nos contam histórias marginais e clandestinas, viria daí essa preguiça de escrever? esse desânimo para ler? não sei, mas sei que isso corrói as esperanças da maioria cansada de conviver, cotidianamente, com  a frustração, o drama, a dor e a banalização da violência na civilização do espetáculo

Obrigada, professor. O Paulo é um obstinado no crédito que dá ao ser humano educador. Vamos começar?

essa é a altíssima sendo pragmática, sabe que a reunião não irá se alongar além do horário estipulado, e o paulo não estava incluído na pauta nem na arrumação do tempo – precisamos aliviar essa corrida contra o tempo, antes que esse tempo veloz nos engula e nos impeça para todo sempre de estarmos juntas, o amor não é paz, mas a contradição do outro e da outra em mim mesma, assim a diversidade pode nos ajudar a mudar o mundo, desmascarando a pedagogia antibiótica que se revela eficaz para acabar com o analfabetismo porque acaba com o analfabeto –, o que nos recusamos reconhecer é que antes dos conteúdos precisamos das águas transparentes do amor, dar graças à vida e ao convívio das ideias, gratidão

Querida Rachel, só mais um instante, fico pensando naqueles e naquelas desesperançadas por pura teimosia, se negam existindo e fazendo o seu teatro pedagógico. Têm medo de narrar com esperança, se negam registrar a sua biografia, não acreditam que podem cantar a esperança na sua própria fábula, se fogem da amorosidade...

continuo olhando à montanha, erguida pelo sonho da maioria, quem sabe se voltarmos aos dezessete anos, memórias frágeis e determinadas dos nossos passos, reconhecendo os sentimentos, aceitando o amor brotando como musgos nas pedras

... não se acreditam e impedem aos seus alunos e alunas esperançadas de se acreditarem, se jogam de cabeça no abismo da fatalidade e do destino, se proíbem de acreditar em si, e nos outros e outras, se julgam menores para a tarefa da esperança – se medem conforme o tamanho do outro ou da outra –, estão jogados nas águas oceânicas da vida e se deixam embalar até o naufrágio, na primeira tempestade, que cedo ou tarde virá...

sofrimento inútil não serve para consertar nada porque nunca está no lugar certo e na hora marcada, nada é seguro quando estamos desorientadas na desesperança, Nossa desconfiança aumenta em relação a todas e a tudo, Gurias, eu concordo com o Paulo. Acredito que a desesperança é um importante fator anti-revolucionário, E vocês sabem por que, né? A culpa estando na outra, nos alunos, nas alunas, nos pais e nas mães, E na diretora, É... também, se a culpa está fora de mim mesma, não preciso mudar, Mas Rachel, às vezes, você dá um empurrãozinho, Anita! Não acredito, e todas sorrimos nosso melhor riso, Quem vai pedir mais um chopinho? Afinal, sextou, gurias!

tudo está tão ruim por fora que precisamos consertar por dentro

... os desesperançados navegam na aposta moral que os ventos não mudam, não circulam, não aumentam, os vagalhões não existem, são frutos da imaginação, e por isso, também, se impedem de imaginar e sonhar além do que conhecem e reconhecem. Os desesperançados têm medo de encontrar a verdade nos pesadelos das fantasias e ilusões opressoras. Teimam que a esperança não existe como um ato de mudança, como um fato do cotidiano, como uma xícara com chá de hortelã.

o destino pode sim ser torcido e retorcido até a dor intensa da consciência ou ficar dominado moralmente pelos desatinos do medo, Anita, Estou escutando, Rachel, Quem não acredita no que fazemos é porque acredita que a escola que fazemos não vai mudar nada do que sempre foi, Eu me pergunto se a escola que fazemos é suficiente, É uma escola que acredita na mudança, E essa mudança nos leva para onde, Para mais perguntas, Anita, Um tintin à escola que acredita na mudança, Quero fazer um brinde, também, É só fazer, Anita, Na verdade, tenho vários brindes, Uau, sextou... sextou, Estamos esperando, Anita, Um brinde à beleza da escola que educa com esperança porque acredita na palavra do outro e da outra, Um brinde a isso, Um brinde aos alunos que nos educam, E às alunas, também, Perfeito, Rachel, E um brinde à Camila! Adorei essa menina na reunião, sempre cirúrgica e comedida em suas intervenções. Mas ontem, você foi sanguínea, Sei lá, achei que alguém precisava contrapor a Cabayba mais preocupada com o horário do que com a reunião.

Paulo...

Sim, Cabayba.

Não me considero uma desesperançada, até porque venho todos os dias, não chego atrasada, cumpro meus deveres, mas não existe esse outro que nos educa. Eu educo a mim mesma quando não desisto, mas essa conversinha poderíamos ter em outro momento. Quem sabe em uma formação aos sábados, por exemplo?

Paulo, por favor, gostaria de dizer alguma coisa...

Como você quiser, Camila. Eu já falei demais...

Cabayba, existimos nos educando juntas, nas histórias vividas – ora com uma, ora com outra –, nada é igual o tempo todo, mas quem quer entender? Quem quer desimpedir-se do preconceito contra a escola que educa porque aprende? A escola modeladora não consegue – ou não quer – ser a escola que liberta. E quanto a sugestão para o sábado de formação eu concordo, mas você virá? Não esteve em nenhuma das formações ainda...

Com assim, eu vim em dois dos três sábados!

Isso mesmo, você veio. Eu lembro, sim. No primeiro, você ficou duas horas conversando com a Ofélia, depois do intervalo a conversa continuou. E no segundo, você usou toda a manhã daquele sábado para corrigir as provas de outra escola, outros alunos, lembra? Está difícil para todas as colegas do ensino privado, né? Aqui, também.

a camila não se calou para o sorriso cínico que grita com desesperança maliciosa e ordeira





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parábolas: Ensaio 006A / civismo cínico
parábolas: Ensaio 007A / o compromisso
parábolas: Ensaio 008A / minicontos de natal
parábolas: Ensaio 009A / a fome que nunca passa
parábolas: Ensaio 010A / o medo no cardápio pedagógico
parábolas: Ensaio 011A / o futuro não é eterno
parábolas: Ensaio 012A / o bufê das comidas invisíveis
parábolas: Ensaio 013B / o sorriso cínico da desesperança maliciosa
parábolas: ensaio 014B / a esperança mobiliza a realidade

quarta-feira, 4 de março de 2020

parábolas de uma professora: o bufê das comidas invisíveis

parábolas de uma professora


o bufê das comidas invisíveis
Ensaio 012A – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




o curioso para mim não é o medo nem a falta de audácia da professora que raciocina e ensina só com o conhecimento, um belo exemplar do professor reacionário sentado num perfeito vazio – quis ser professor, e agora, josé? não consegue ser e culpa tudo ao seu redor – acomodada com a própria indiferença, vazia e desenamorada de si mesma, diz que foi enganado, Mentira! Enganou-se porque quis, nunca quis pôr mãos à obra!

a obra da construção do homem e da mulher nova de maneira nova, diferente dos séculos e séculos, Mas ninguém sabe, grita uma voz da multidão de professoras e professores, Mentira!, respondo

Mentira? E qual é esse jeito novo?, fico em silêncio, Viu? Nem você sabe!

O que eu sei? Eu sei que o jeito novo não é o velho, cansado e repetitivo, jeito sentado nos ditados, cópias e decorebas. Claro, as crianças, jovens e adultos têm que aprender, mas precisamos aprender juntas.

Pois vá em frente, queridinha. Essa causa está desgraçada. A terra ficou plana, ler é perda de tempo, o funk virou poesia pedagógica e a curiosidade se satisfaz com o celular.

para mim, o estranho é continuarmos abraçadas na reprodução assexuada e severa do conhecimento sem sentido, um saber que esbraveja sozinho com exaustos, infelizes e frustradas alunos sentadas

estamos cansados antes de sairmos de nossas casa, os pés exaustos e as mãos sozinhas – oferecidas dadivosamente para essa gente que nos procura, mas não sabemos ser o vento da doçura e do encanto que educa com dignidade e esperança – com nosso bufê de comidas invisíveis

não somos o milagre do alimento, mas poderíamos ser o conforto do acolhimento

quanto mais fazermos nada para aumentar nosso apetite pedagógico mais desenamoramos da pedagogia da esperança para os oprimidos, surrupiadas e conformadas com a teoria livresca que iríamos escrever – novas e libertárias fórmulas pedagógicas –, mas nunca escrevemos

talvez, amanhã

primeiro, perdemos a pressa – tempo não vai faltar  

depois, ficamos longe demais das leituras e sonhos, e hoje, não reconhecemos a nós mesmas, esquecemos do passado o presente e ficamos minguadas, deslumbrados e deslinguadas

vencidas pelas conveniências do mercado político

não satisfaz mais o índice de difusão da amorosidade, talvez por isso, seja tão fácil ao terrorismo do mercado – marionetes que lutam para conservar a riqueza nas mãos dos seus mentores pela ação dos seus atores políticos, econômicos, midiáticos e religiosos – atacam, humilham e intimidam a educação pública! entre risadas e gritos apocalípticos, não sentem nenhum embaraço em anunciar, A escola pública só dá prejuízo!, gente assim existe, não lhes basta menos que intimidar e mentir para dominar a esperança coletiva, Educação não é investimento é gasto!, repetem e repetem e repetem

e nós? paralisamos atônitas, até que chega nossa vez de repetir, repetir, e tornar a dizer o que já dizemos ontem, e antes de anteontem, Fomos enganadas!, continuamos repetidoras, E a riqueza fica com quem?

é fácil ver, basta ter olhos e querer ver a burguesia em seus condomínios fechados, usufruindo o lucro daltônico do sangue verde, e não se iludam... não existe tratamento, estão acuados e hermeticamente fechados, a sensibilidade dessa gente de sangue verde adora confundir caridade com solidariedade, precisamos enxergar além dos políticos e entender quem puxa as cordinhas destes marionetes 

precisamos da coragem para sair da cama e encarar as mesmas coisas repetitivas e decorativas para diminuir índices tão altos de analfabetismo, êxodo escolar, desânimo e indiferença, outra e outra vez – sem um tratamento justo para nossos desejos e sonhos –, enquanto a burguesia dos condomínios fechados reclama que a educação pública só dá prejuízo e já temos o que merecemos

eu sei que estamos encerradas em mentiras e se tornou impensável desmenti-las: a ditadura dos dogmas e do funk

é uma tarefa muito difícil compreender esses tempos das mentiras instantâneas em que se fica sozinha como a agulha em um palheiro ou famosa e esquecida cedo demais

... brincadeira ou não, espero que não tenha sido uma zombaria essa possibilidade do diálogo com alunos e alunas sobre o que aprender, sobre o que precisamos ensinar. Isso é modernidade, isso é educar.

o marko se impõe além dos gesto sem exageros, a voz perfeitamente disciplinada, cordial, nenhuma vaidade, se impõe pelas palavras e suas ações – gritos ou ameaças não fazem parte do seu repertório de dissuasão –, pelo menos, não escutamos as vozes do paulos, markos e camilas, em sala de aula, cada um com seus jeitos, mas sempre dialogando 

gostaria muito de ser uma das suas alunas

Marko, você acredita que a nossa vida está se desenvolvendo e aperfeiçoando? E os nossos jovens? E o funk? E o rock?

O rock é eterno, respondeu, mas não precisamos negar o funk, e todas sorrimos, se é dizendo a palavra do funk que homens e mulheres transformam o diálogo com o mundo precisamos dialogar com o funk.

a cabayba é um desafio constante, é preciso escutá-la, só escutando podemos confrontar as ideias, sei que, muitas e muitas vezes, dá um cansaço e até desespero, como puderam destruir tudo em tão pouco tempo e por que permitimos

sem desculpas e sem perdão nos deixamos desviar, é penoso descobrir que o autoritarismo é um projeto de muitas de nós, um desejo que se mostra nas táticas das conversas, na descarga sanitária do mau humor, na ironia vulgar que nos mostra como somos – claro, percebemos isso se queremos decifrar esse duelo entre o diálogo e o esquecimento póstumo – enquanto o golpe só espera o silêncio e a neutralidade covarde para dar o golpe

ele também se apoia no mexerico; assim, ninguém se responsabiliza por nada porque nada é muito sério, o mexerico explica sem explicar nada do que escolheu não explicar, apenas faz insinuações, fuxico e encenações

até que falamos contra nós mesmas – intempestiva e impensadamente – com medo, um estranho medo que nos faz vítimas e opressoras

preferimos agarrar o jovem que nos assaltou e espancá-lo até o limite da vingança, esquecidas que silenciamos – e colaboramos sobre isso tudo que está acontecendo: desemprego, fome, desilusão, medo 

exigimos dos miseráveis que fiquem onde estão e não se atrevam sair

sim, o rock é eterno

o marko se mantém sorrindo, sereno, firme e disposto no embate

transporto meus pensamentos curiosos – soltos pelo ar e sem palavras, sim sou uma das silenciosas – enquanto recordo acusações que a educação popular tornaria a escola comunista e sem gosto, sem cores democráticas, Que horror, Vamos todas rachar lenha no mato, A coisa toda vai mal, O que dizer a esses parasitas nojentos, Ditadores, Não podemos ensinar alunos indigentes e abandonados, Querem demais de todas nós, Delinquentes pequenos e juvenis, Sujos e famintos!

sim, a fome é eterna

E a nossa fome? A nossa saúde?

Concordo, Sofhya. Nós também temos o nosso direito a saúde.

a primeira necessidade da vida é o alimento, depois o acolhimento

e o que vejo? tristeza e sofrimento e muitas incertezas, a desesperança

vejo as administrações conservadoras impedindo e dificultando toda forma de organização e de representação popular, aqui, nesta escola, todos os movimentos democráticos e de inclusão precisam ser feitos à revelia dos governantes conservadores

vejo a mim, minhas colegas e meus colegas, bem crescidinhos, educadas nos preceitos mais significativos da academia: severas, controladoras, conservadoras e preconceituosas

estou errada? gostaria de estar errada

e se estou errada, onde o caminho da curiosidade, alegria, desejo e amorosidade foi esquecido, quando e por quê? como chegamos a isso

jovens professores assustados com a teoria da terra plana – teoria válida para o século XV, lembram... 1492... 1500... as grandes navegações rumo ao desconhecido abismo dos mares –, alunas com medo do eclipse do sol e alunos mansos e tristes castrados em seus cadernos limpos e higiênicos de copiar, ainda carrego uma vaga lembrança dos meus cadernos com capa ou sem capa, mas com a teimosia curiosa e criativa das perguntas e mistérios a serem decifrados

para enfrentar o medo sem sentido – desenraizado do conhecimento – precisamos da curiosidade que ilumina com suas perguntas e desconserta o silêncio sem sentido, o sossego servil e conivente dos quarteis e conventos

que delícia a infância e sua curiosidade, que tristeza a infância morrendo em algum curral bíblico ou escolástico, que saudade dos sonhos que embalavam a infância com seus pardais ligeiros e tagarelas, balbúrdias distraídas e arrebatadas

estou errada? não sei

não quero ser apenas uma resposta reacionária da escola com sua lista de obrigações, regras gramaticais e ortográficas enquanto enchemos o porão da infância – o quartinho dos fundos – com continhas matemáticas, gritos, azedumes, ressentimentos de mim mesma, por ter desistido da infância entusiasmada, descuidada, imperfeita, inventiva, em nome da organização religiosa-cívico-militar

não que ser uma professora preta que ajuda ensinar negros soldados que matam jovens pretos, não quero ser a professora que apertou esse gatilho nem a professora que vira o rosto indiferente e acredita que isso tudo não lhe interessa, lhe basta ensinar ler, copiar e fazer continhas que estarão salvos

exageros? pode ser 

espero que sim, mas acho que não – afinal, nada deveria ser como é para sempre , tudo pode ser diferente, mas quem uniformiza quem? a esperança que ilumina a multidão vai e vem em tentativas desesperadas deste montão aglomerado do povo, uma multidão que percebe onde está a escuridão e não acredita no que está vendo, aposta na escuridão intransigente das ofensas, argumentos que não debatem com o contraditório, palavrório de intrigas, mentiras e ameaças

não, não fomos enganadas, enganou-se quem quis e continua se enganando quem quer

não somos demônios nem anjos

mas quem quer entender? quantas somos

não sei, mas vejo que muitas assistem ao esvaziamento da educação pública e nem o instinto da autoconservação – legítima defesa do seu trabalho digno – ou o bom senso conseguem mobilizar contra o canto da sereia conservadora que nos chama, Entreguem-se...

não tenho medo da morte e não quero apodrecer pelos cantos, em silêncio, esquecendo que fui esquecida, perdendo pedaços – tortinha ou tontinha –, peço que me acabem num gesto de humanidade, mas mesmo faminta – o tamanho do meu apetite pela vida me impede que eu me entregue – libertem as dores e as saudades da minha alma solidária, enterrem meu corpo deselegante da idade indelicada com alguma novela balzaquiana

brincadeira, gente

quero ler a mafalda pela eternidade

que delícia, seria muito triste saber ler e não querer ler

a leitura não será só um passatempo, me fará ver o que sou, escutar o que não sei, rir das minhas urgências, chorar meus arrependimentos, duvidar das minhas certezas, sentir o amor na sua plenitude dono de mim

qual o livro que você quer ler na eternidade? não sabe – ah, quer levar o iphone... hum... acho que não tem carregador nem tomada elétrica, parece que o cara é das antigas e tá puto com essas loucuras, Alguém viu meu carregador, O amigo pode me emprestar? Esqueci o meu lá, O seu carregador é igual ao meu, Virgem santinha, perdi o cabo, Aqui é 220 ou 110, É bivolt, Hum... 

bem, além dos meus livros amados, gostaria de ouvir pela eternidade coltrane, dizzy, charlie, miles, billie, stan, chet, piazzolla, charles, nina, ella, tom, louis, sarah – naquelas horas da noite implacável das despedidas, caso eu as tenha –, quero ouvir-me dizendo a poesia de pessoa, vinícius, drummond, neruda, florbela, mistral, baudelaire, federico, benedetti, dias, algum trecho, qualquer trecho, de dostoiévski, camus, cortázar, galeano, machado, paulo freire, stendhal, juan rulfo, bomfim, simone, meu coração era uma primavera que passou te amando, esperando enquanto reclamava e contava histórias, poesias e cantos, comecem com clementina de jesus e o canto dos escravos, e continuem, não parem

declamem as poesias que quiserem, toquem o chico, elis, elza, nelson, altemar, bethânia

e digam adeus, vou estar sorrindo






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