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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: Manuscrito encontrado numa garrafa (a)

Edgar Allan Poe - Contos


Manuscrito encontrado numa garrafa 

Aquele a quem não resta senão um momento de vida 
Nada mais tem a esconder
Quinault, Atys


     De meu país e de minha família pouco tenho a dizer. Maus costumes e o passar dos anos afastaram-me de um e distanciaram-me da outra. A riqueza herdada proporcionou-me uma educação acima da média e uma disposição de espírito contemplativa permitiu-me sistematizar os tesouros que um estudo precoce muito diligentemente armazenou. Mais do que quaisquer outras, as obras dos moralistas alemães ocasionaram-me grande deleite; não devido a uma mal-avisada admiração de sua eloquente loucura, mas pela facilidade com que meus hábitos de rígido pensamento capacitaram-me a detectar suas falsidades. Muitas vezes fui censurado pela aridez de meu intelecto; uma deficiência de imaginação já me foi imputada como um crime; e o pirronismo de minhas opiniões trouxe-me notoriedade em toda e qualquer circunstância. Na verdade, receio que um forte apetite pela filosofia física tenha impregnado minha mente com um equívoco muito comum de nossos tempos — refiro-me ao fato de relacionar os acontecimentos, até mesmo o menos suscetível de tal relação, aos princípios dessa ciência. Consideradas todas as coisas, não existe pessoa menos inclinada do que eu a se afastar da austera jurisdição da verdade pelos ignes fatui da superstição. Julguei apropriado postular tudo isso de antemão ou de outro modo a incrível história que tenho para contar seria considerada antes a demência de uma imaginação desabrida do que a experiência positiva de uma mente para a qual as quimeras da fantasia têm constituído letra morta e nulidade.
     Após muitos anos passados em viagens pelo estrangeiro, parti no ano de 18— do porto de Batávia, na rica e populosa ilha de Java, com destino ao arquipélago das ilhas da Sonda. Fui na condição de passageiro — não tendo nenhum outro incentivo que não uma espécie de inquietude excitável que me perseguia como um demônio.
     Nossa embarcação era um lindo navio de cerca de quatrocentas toneladas, feito com cavilhas de cobre e construído em Bombaim com teca de Malabar. Ia carregado de algodão em rama e óleo, das ilhas Laquedivas. Levávamos a bordo também fibra de coco, jagra, manteiga ghee, cocos e algumas caixas de ópio. A estiva fora malfeita e a embarcação consequentemente tendia a adernar.
     Pusemo-nos a caminho com uma mera brisa e durante muitos dias permanecemos ao largo da costa oriental de Java sem qualquer outro incidente para fazer esquecer a monotonia de nosso curso além do ocasional encontro com alguma das pequenas embarcações do arquipélago para o qual rumávamos.
     Certo dia, ao anoitecer, apoiando-me no balaústre de popa, observei uma nuvem deveras singular e isolada a noroeste. O que havia de notável, além de sua cor, era o fato de ser a primeira que avistávamos desde a partida de Batávia. Observei-a atentamente até o sol se pôr, quando ela se esparramou inteira de repente no sentido leste–oeste, cingindo o horizonte com uma estreita faixa vaporosa e assumindo a aparência de uma longa linha de praia baixa. Minha atenção foi pouco depois atraída pelo aspecto vermelho e crepuscular da lua e pelo peculiar caráter do oceano. Este último passava por rápida mudança, e a água parecia de uma transparência acima do normal. Embora pudesse enxergar nitidamente o fundo, ao içar o prumo descobri que o navio se encontrava a uma profundidade de quinze braças. O ar agora tornava-se intoleravelmente quente e carregado de exalações espiraladas semelhantes às que sobem do ferro aquecido. Quando a noite chegou, todo sopro de ar desapareceu, e uma calmaria mais completa é impossível de se conceber. A chama de uma vela ardia sobre a popa sem o menor movimento perceptível, e um longo io de cabelo, seguro entre o indicador e o polegar, pairava sem que fosse possível detectar qualquer vibração. Entretanto, conforme a irmou o capitão, ele não conseguia perceber nenhum indício de perigo e, como éramos levados na direção da costa, ordenou o ferrar dos panos e que a âncora fosse lançada. Nenhum quarto de vigia foi determinado, e a tripulação, consistindo principalmente de malaios, largou-se deliberadamente pelo convés. Desci — não sem um pressentimento muito forte de algum infortúnio. Na verdade, todas as aparências me autorizavam a recear um simum. Relatei meus temores ao capitão; mas ele não prestou a menor atenção no que eu disse e deixou-me sem se dignar a me conceder resposta. Meu desconforto, entretanto, impediu-me de pegar no sono, e por volta da meia-noite subi para o convés. Ao pisar no último degrau da escada de tombadilho, sobressaltei-me com um zumbido alto como o que é ocasionado pela rápida rotação de uma roda de moinho e, antes que fosse capaz de averiguar seu significado, percebi que o centro do navio vibrava. No instante seguinte, um vasto manto espumante fez a embarcação adernar acentuadamente e, rugindo sobre nós por toda a sua extensão, varreu todos os conveses de proa a popa.
     A fúria extrema da borrasca se provou, em grande medida, ser a salvação do navio. Embora completamente cheio d'água, como, além disso, seus mastros haviam caído pela amurada, ele, após um minuto, ergueu-se pesadamente do oceano e, oscilando um pouco sob a imensa pressão da tempestade, finalmente se endireitou.
     Mediante que milagre escapei do im é impossível dizer. Atordoado pelo choque da água, dei comigo mesmo, ao me recobrar, en iado entre o cadaste e a roda do leme. Com grande dificuldade me pus de pé e, olhando em torno, a cabeça girando, fui inicialmente tomado pela ideia de que nos encontrávamos em meio à rebentação de rochedos; tão terrível, além da imaginação mais desbragada, era o turbilhão oceânico montanhoso e espumante que nos engolfara. Após algum tempo, escutei a voz de um velho sueco que subira a bordo no momento em que deixávamos o porto. Saudei-o com todas as forças e não tardou para que se dirigisse à popa, cambaleante. Logo descobrimos ser os únicos sobreviventes do navio. Todos sobre o convés, com exceção de nós mesmos, foram varridos para o mar; o capitão e os imediatos deviam ter perecido enquanto dormiam, pois as cabines haviam sido inundadas. Sem auxílio, não podíamos esperar fazer muita coisa pela segurança da embarcação e nossos esforços icaram inicialmente paralisados com a expectativa momentânea de ir a pique. Nosso cabo da âncora havia, é claro, se partido como barbante de embrulho ao primeiro sopro do furacão, ou de outro modo teríamos sucumbido instantaneamente. Singrávamos o oceano com velocidade assombrosa e a água abria visíveis brechas por toda parte. A estrutura à popa estava extremamente dani icada e, em quase todos os aspectos, havíamos sofrido consideráveis avarias; mas para nossa suprema alegria demos com as bombas desobstruídas e vimos que nosso lastro não saíra demasiado do lugar. O pior da fúria da borrasca já amainara e entendíamos haver pouco perigo na violência do vento; mas antecipávamos sua total cessação com desalento; acreditando piamente que em nossa condição avariada pereceríamos inevitavelmente nas tremendas vagas da ressaca que se seguiria. Mas essa bem fundada apreensão não pareceu de modo algum perto de se veri icar. Durante cinco dias e cinco noites — nos quais nosso único meio de subsistência foi uma pequena quantidade de jagra, resgatada a grande custo do castelo de proa —, nossa precária nau deslizou a uma velocidade que desa ia o cálculo, sob uma rápida sucessão de súbitas ventanias, que, embora não se igualando em violência à rajada inicial do simum, foram ainda assim mais terríveis do que qualquer outra tempestade por mim presenciada. Nosso curso ao longo dos quatro primeiros dias foi, com variações desprezíveis, sudeste a um quarto de sul; e devemos ter descido pela costa da Nova Holanda. No quinto dia o frio tornou-se extremo, embora o vento houvesse passado a soprar um ponto mais para o norte. O sol despontou com um brilho amarelo fraco e subiu muitos poucos graus acima do horizonte — sem emitir nenhuma luz determinada. Não havia nuvens à vista, e contudo o vento ganhava cada vez mais força, soprando em furiosas rajadas irregulares, intermitentes. Perto do meio-dia, o mais próximo disso que podíamos supor, nossa atenção foi mais uma vez atraída pelo surgimento do sol. Ele não emitia luz alguma propriamente dita, mas um fulgor baço e sem reflexo, como se todos os seus raios estivessem polarizados. Pouco antes de afundar no mar túrgido, seu clarão central subitamente se extinguiu, como que apagado às pressas por algum poder inexplicável. E não passava de um aro esmaecido com o lustro da prata ao afundar no oceano insondável.
     Esperamos em vão pela chegada do sexto dia — dia que para mim ainda não chegou — e que para o sueco jamais chegará. Daí em diante fomos envolvidos por trevas negras como breu, a ponto de não conseguirmos enxergar um objeto a vinte passos¹ da embarcação. Seguimos mergulhados em uma noite eterna que não era abrandada nem pelo fosfórico brilho marinho a que estamos habituados nos trópicos. Observamos também que, embora a tempestade continuasse a se enfurecer com violência implacável, não mais nos deparávamos com a usual aparência de rebentação, ou espuma, que até então nos havia acompanhado. Tudo em torno era horror, e trevas espessas, e um negro e opressivo deserto de ébano. O terror supersticioso insinuou-se gradativamente no espírito do velho sueco, e minha própria alma permanecia envolta em silenciosa estupefação. Deixamos de lado todo o cuidado com o navio, como coisa mais do que inútil, e, prendendo-nos o melhor possível ao toco remanescente do mastro da mezena, contemplamos amargamente a imensidade oceânica. Não tínhamos meio algum de calcular o tempo, tampouco podíamos conjecturar de algum modo nossa localização. Tínhamos, entretanto, plena consciência de ter ido mais longe na direção sul do que quaisquer navegadores precedentes, e icamos grandemente admirados de não colidir com os usuais obstáculos de gelo. Nesse meio-tempo, cada momento ameaçava ser nosso último — cada monstruoso vagalhão precipitando-se para nos emborcar. As ondas ultrapassavam qualquer coisa que eu imaginava possível e o fato de não submergirmos imediatamente era um milagre. Meu companheiro falou da leveza de nossa carga e lembrou-me das excelentes qualidades do navio; mas eu não conseguia deixar de sentir a completa inutilidade de qualquer esperança e preparei-me sombriamente para a morte que a meu ver nada podia protelar em mais de uma hora, à medida que, a cada nó avançado pelo navio, a descomunal elevação dos mares negros tornava-se mais desoladoramente apavorante. Ora o ar nos faltava, ao cavalgar vagas que ascendiam para além do albatroz — ora éramos acometidos pela vertigem, com a velocidade de nossa descida em algum inferno líquido onde o ar ficava cada vez mais estagnado e onde som algum perturbava o sono do Kraken.

[1] Paces, unidade de comprimento; cerca de quinze metros, neste caso.


     Estávamos no fundo de um desses abismos quando um breve grito de meu companheiro rasgou angustiadamente a noite. “Ali! ali!”, berrou estridente em meus ouvidos, “Deus Todo-Poderoso! ali! ali!” Enquanto ele falava, tomei consciência de uma luminescência vermelha, embaciada e lúgubre que vertia pelas paredes da vasta garganta onde nos achávamos e lançava um brilho intermitente sobre nosso convés. Voltando meus olhos para o alto, contemplei um espetáculo que gelou o sangue em minhas veias. A uma terrível altura, diretamente acima de nós, e bem na beirada do declive escarpado, pairava um navio gigantesco, de talvez quatro mil toneladas. Embora empinando no cume de uma onda com mais de cinquenta vezes sua própria altura, seu tamanho aparente ainda assim excedia o de qualquer navio de linha ou embarcação da Companhia das Índias Orientais existente. Seu imenso casco era de um negro profundo e fuliginoso não atenuado por nenhum desses costumeiros entalhes de um navio. Uma única fileira de canhões de bronze se projetava de suas portinholas abertas, desferindo das superfícies polidas o fogo de inumeráveis lanternas de combate que oscilavam de um lado para outro entre o cordame. Mas o que mais nos encheu de horror e assombro foi que velejava a todo pano na plena fúria daquele mar sobrenatural e daquele furacão desgovernado. No momento em que o avistamos, inicialmente, a curvatura de seu beque era a única parte visível, conforme o navio ascendia vagarosamente do abismo escuro e tenebroso atrás de si. Por um momento de intenso terror ele ficou imóvel sobre o vertiginoso pináculo, como que a contemplar a própria sublimidade, então estremeceu, oscilou — e precipitou-se.
     Nesse instante, não sei que súbito autocontrole se apossou de meu espírito. Cambaleando em direção à popa o máximo que pude, aguardei sem medo o desastre prestes a se abater. Nossa própria embarcação havia enfim cessado de lutar e mergulhava a vante no oceano. O choque da massa despencando atingiu-a, consequentemente, na parte de sua estrutura que já se encontrava sob a água e o resultado inevitável foi me lançar, com violência irresistível, sobre o cordame da outra nau.
     Conforme eu caía, o navio deu uma guinada e virou de bordo; e à confusão que se seguiu atribuo o fato de ter escapado à atenção da tripulação. Não me foi difícil chegar sem ser percebido à escotilha principal, que estava parcialmente aberta, e logo encontrar uma oportunidade de me esgueirar em segredo para dentro do porão. Por que fiz tal coisa não sei dizer ao certo. Uma sensação indefinida de assombro, que a um primeiro exame dos navegadores a bordo se apossou de meu espírito, foi talvez o motivo de minha ocultação. Não me senti inclinado a confiar minha pessoa a uma raça de gente que oferecia, ao olhar superficial que eu lhes lançara, tantos aspectos de vaga novidade, dúvida e apreensão. Desse modo julguei por bem conceber um esconderijo no porão. Para isso, removi uma pequena parte das anteparas, de modo a proporcionar para mim um refúgio conveniente em meio ao imenso cavername do navio.
     Mal completara minha obra quando o som de passos no porão forçou-me a dela lançar mão. Um homem passou próximo de meu esconderijo com um andar débil e vacilante. Não pude ver seu rosto, mas tive oportunidade de observar sua aparência geral. Nela se evidenciava idade avançada e uma condição enfermiça. Seus joelhos bambeavam sob o fardo dos anos, e todo o seu ser estremecia em suportá-lo. Murmurava consigo mesmo, em um tom baixo e alquebrado, palavras de uma língua que não pude compreender, e tateou até um canto entre uma pilha de instrumentos de aparência singular e velhas cartas de navegação deterioradas. Seus modos eram uma mistura desconcertante de malcriação da segunda infância e da solene dignidade de um Deus. Até que finalmente subiu para o convés e não mais o vi.

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continua página 64...
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Manuscrito encontrado numa garrafa (a) /                 
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Poço e o Pêndulo (b)

Edgar Allan Poe - Contos


O Poço e o Pêndulo 

Aqui por muito tempo os impiedosos torturadores nutriram 
o insaciável furor da turba pelo sangue dos inocentes. 
Agora que a pátria está a salvo, e o antro fúnebre foi destruído, 
onde antes havia morte surgem vida e bem-estar.
(Quadra composta para os portões de um mercado a ser erguido 
no local onde ficava o Clube dos Jacobinos, em Paris.)
continuando...

     Tudo isso enxerguei indistintamente e com grande esforço — pois minha situação pessoal se alterara grandemente durante o sono. Eu agora jazia deitado de costas, e com o corpo inteiro, em algum tipo de estrutura de madeira pouco elevada. Prendia-me fortemente a isso uma longa correia parecida com uma sobrecilha. Ela passava em muitas voltas pelos meus membros e meu corpo, deixando em liberdade apenas minha cabeça, e meu braço esquerdo, numa extensão tal que eu pudesse, por meio de enorme esforço, servir-me da comida em um prato de cerâmica que jazia ao meu lado no chão. Vi, para meu horror, que a jarra fora retirada. Digo para meu horror — pois a mim me consumia uma sede intolerável. Sede que aparentemente era parte do plano de meus algozes estimular — pois a comida no prato era uma carne de tempero pungente.
     Olhando para cima, perscrutei o teto de minha prisão. Ficava a cerca de dez ou doze metros de altura, e era construído bem à feição das paredes. Em um de seus painéis uma figura muito singular captou minha completa atenção. Era a figura pintada do Tempo como é normalmente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava o que, a um olhar casual, supus ser a imagem pintada de um imenso pêndulo, tal como se veem em relógios antigos. Havia alguma coisa, entretanto, na aparência dessa máquina que me levou a olhar para ela mais atentamente. Enquanto eu a fitava diretamente (pois sua posição era imediatamente acima de onde me encontrava), julguei vê-la se movimentar. Um instante depois minha imaginação foi confirmada. Seu vaivém foi breve, e, é claro, vagaroso. Fiquei olhando por alguns minutos para aquilo, em certa medida com medo, porém antes admirado. Cansando-me enfim de observar seu moroso movimento, desviei os olhos para os outros objetos na cela.
     Um ligeiro ruído chamou minha atenção e, olhando para baixo, vi inúmeros ratos enormes passando pelo chão. Haviam saído do poço, que eu mal podia enxergar à minha direita. Mesmo então, enquanto os observava, eles subiam aos bandos, apressados, com olhos famintos, atiçados pelo cheiro da carne. Desse momento em diante foi-me exigido tremendo esforço e concentração para espantá-los.
     Isso talvez tenha se dado meia hora antes, ou quem sabe uma hora (pois me era impossível manter uma percepção senão imperfeita do tempo), que eu me pegasse dirigindo o olhar outra vez para o alto. O que vi nesse momento ocasionou-me confusão e assombro. O vaivém do pêndulo aumentara em cerca de um metro de extensão. Como consequência natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que mais me perturbou foi a ideia de que havia perceptivelmente descido. Eu observava agora — com que horror é desnecessário dizer — que sua extremidade inferior era formada por um crescente de aço cintilante, com cerca de trinta centímetros de extensão de um corno a outro; os cornos curvados para o alto, e a parte de baixo evidentemente tão afiada quanto uma navalha de barbeiro. Como uma navalha igualmente, parecia maciça e pesada, a ilando-se a partir do gume em uma sólida e larga estrutura acima. O instrumento era afixado a uma pesada barra de bronze e a peça toda sibilava em suas oscilações através do ar.
     Não havia mais como duvidar da sina para mim preparada pela engenhosidade em tortura dos monges. Minha descoberta do poço chegara ao conhecimento dos inquisidores — o poço, cujos horrores haviam sido destinados a um herege ousado como eu —, o poço, emblemático do inferno, e disseminado de boca em boca como a Ultima Thule de todas suas punições. O mergulho nesse poço, eu o evitara apenas pelo mais casual dos acidentes, e tinha consciência de que a surpresa, ou uma armadilha de tormento, compunha importante elemento de todo o grotesco dessas mortes no calabouço. Tendo-me furtado à queda, não fazia parte dos planos do demônio empurrar-me para o abismo; e assim (por não haver alternativa) uma aniquilação diferente e mais branda me aguardava. Mais branda! Quase sorri em minha agonia ao pensamento de aplicar dessa forma um tal termo.
     De que adianta contar sobre as horas intermináveis de horror mais do que mortal, durante as quais fiquei a enumerar as sibilantes oscilações do aço! Polegada por polegada — linha por linha — com um avanço descendente apreciável apenas a intervalos que se davam como eras — descendo, descendo! Dias se passaram — podia ter acontecido de muitos dias terem se passado — até se deslocar tão próximo de mim que me abanava com seu acre hálito. O odor do aço afiado invadiu-me as narinas. Orei — enfastiei os céus de tanto orar por uma descida mais rápida. A fúria da loucura se apossou progressivamente de mim e lutei para forçar o corpo contra o vaivém da temível cimitarra. E então fiquei subitamente calmo, e aguardei sorrindo a morte cintilante, como uma criança diante de algum raro bibelô.
     Houve mais um outro intervalo de total insensibilidade; foi breve; pois, ao voltar de novo à vida, mais nenhuma descida perceptível do pêndulo se fazia notar. Mas podia acontecer de ter sido longo — pois eu sabia haver demônios observando meu desfalecimento, e que poderiam se comprazer em deter as oscilações. Ao recobrar os sentidos, também, senti-me deveras — ah, indizivelmente — esgotado e fraco, como que a voltar de longa inanição. Mesmo em meio às agonias desse período, a natureza humana clamava por alimento. Com doloroso esforço, estendi o braço esquerdo o mais longe que minhas correias permitiam, e me apossei da pequena sobra que os ratos haviam me deixado. Ao enfiar a porção entre meus lábios, invadiu-me a mente um pensamento incipiente de alegria — de esperança. E contudo, o que queria eu com a esperança? Foi, como disse, um pensamento incipiente — o homem tem tantos desses que jamais são completados. Senti que era de alegria — de esperança; mas senti também que havia perecido já ao se formar. Em vão lutei por completá-lo — por recuperá-lo. O sofrimento prolongado quase aniquilara todas as minhas faculdades comuns de pensamento. Eu era um imbecil — um idiota.
     A oscilação do pêndulo se dava em ângulo reto com o comprimento de meu corpo. Vi que o crescente estava destinado a cruzar a região do coração. Iria desfiar a sarja de meu robe — iria voltar e repetir a operação — outra vez — e outra vez. Não obstante o vaivém terrivelmente extenso (cerca de dez metros ou mais) e o vigor sibilante de sua descida, suficiente para cindir as próprias paredes de ferro, ainda assim o esfiapar de minha roupa seria tudo que, por vários minutos, ele realizaria. E, ao me sobrevir esse pensamento, hesitei. Não ousava ir além dessa reflexão. Demorei-me nele com uma atenção obstinada — como se, ao fazê-lo, pudesse manter aí a descida do aço. Forcei-me a ponderar sobre o som do crescente quando passasse através do pano — sobre a peculiar sensação de estremecimento que a fricção de tecido produz nos nervos. E ponderei sobre toda essa frivolidade até ficar com os nervos à flor da pele.
     Descendo — descendo lenta e regularmente. Extraí um prazer maníaco de contrastar seu movimento para baixo com sua velocidade lateral. Para a direita — para a esquerda — por toda parte — guinchando como um espírito maldito! em meu íntimo, com o passo furtivo do tigre! E alternadamente ria e gemia, conforme uma ou outra ideia ganhava a predominância.
     Descendo — resolutamente, descendo inexoravelmente! Ele vibrava a um palmo de meu peito! Lutei violentamente — furiosamente — para liberar meu braço esquerdo. Estava livre apenas do cotovelo à mão. Eu conseguia esticá-la, pegando do prato ao meu lado e levando-a à boca, com grande esforço, mas nada além disso. Pudesse eu ter rompido as amarras acima do cotovelo, teria agarrado e tentado deter o pêndulo. Poderia perfeitamente ter tentado deter uma avalanche!
     Descendo — ainda incessantemente — ainda descendo, implacavelmente! Eu ofegava e me contorcia a cada vibração. Encolhia convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos acompanhavam esses ciclos para os lados ou para cima com a avidez do mais absurdo desespero; cerravam-se espasmodicamente ao vê-lo descer, embora a morte teria sido um alívio, ah, quão inefável! Mesmo assim, eu estremecia em cada nervo de pensar quão insignificante bastava ser a descida do maquinário para precipitar aquele machado afiado e cintilante contra meu peito. Era a esperança que impelia os nervos a tremer — o corpo a encolher. Era a esperança — a esperança que triunfa na tortura — que sussurra para o condenado à morte até mesmo nos calabouços da Inquisição.
     Percebi que mais dez ou doze oscilações trariam a lâmina a um contato efetivo com meu robe — e ao observar isso de repente baixou sobre meu espírito toda a tranquilidade lúcida, serena, do desespero. Pela primeira vez em muitas horas — ou talvez dias — eu pensava. Agora me ocorria que a amarra, ou sobrecilha, que me cingia era a única coisa. Eu não estava preso por nenhuma outra atadura. O primeiro golpe transversal daquela navalha em meia-lua contra qualquer parte da cinta a soltaria de tal modo que talvez eu pudesse livrá-la de meu corpo com o uso da mão esquerda. Mas quão terrível, nesse caso, a proximidade da lâmina! O resultado do mais leve esforço, quão mortal! Seria plausível, além do mais, que os subordinados do torturador não tivessem previsto e se precavido contra essa possibilidade? Haveria alguma probabilidade de que a faixa cruzasse meu peito no trajeto do pêndulo? Receando ver minha débil e, ao que tudo indicava, derradeira esperança frustrada, ergui ao máximo a cabeça para obter uma visão desobstruída de meu tórax. A sobrecilha envolvia estreitamente meus membros e meu corpo em todas as direções — exceto no caminho do crescente aniquilador.
     Mal deixara cair a cabeça para trás em sua posição original, quando lampejou em minha mente o que não posso descrever melhor do que a metade informe daquela ideia de libertação à qual aludi previamente, e da qual apenas uma metade flutuava incertamente por meu cérebro quando eu levava a comida aos meus lábios em fogo. O pensamento todo agora se me apresentava — fraco, no limiar da insanidade, no limiar da materialidade — mas ainda assim completo. Procedi de pronto a tentar sua execução, com a energia nervosa do desespero.
     Havia horas que a proximidade imediata da estrutura baixa de madeira na qual eu jazia literalmente enxameava de ratos. Selvagens, ousados, famintos — seus olhos vermelhos brilhando em minha direção como se só esperassem a imobilidade de minha parte para tornar-me sua presa. “Com que alimento”, pensei eu, “acostumaram-se eles no poço?”
     Haviam devorado, a despeito de todos os meus esforços para impedi-los, tudo, exceto um pequeno resto do que continha o prato. Eu me habituara a um movimento de sobe e desce, um abano de mão, na imediação do prato; e, com o tempo, a uniformidade inconsciente do movimento privou-o de seu efeito. Em sua voracidade, as criaturas daninhas frequentemente cravavam suas presas afiadas em meus dedos. Com as partículas da vianda gordurosa e condimentada que ainda restavam, esfreguei exaustivamente a correia em todos os pontos que fui capaz de alcançar; então, removendo a mão do piso, permaneci imóvel, quase sem respirar.
     No início, os animais famintos ficaram sobressaltados e atemorizados com a mudança — com a cessação de movimento. Recuaram alarmados; muitos buscaram o poço. Mas isso durou apenas um instante. Eu não contara em vão com sua voracidade. Observando que continuava imóvel, um ou dois mais audaciosos saltaram sobre o estrado e farejaram a sobrecilha. Isso pareceu a deixa para um tropel generalizado. Vieram correndo do poço em novos bandos. Agarraram-se à madeira — correram sobre ela e pularam às centenas em cima de mim. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbou nem um pouco. Evitando seus golpes, ocupavam-se com a amarra besuntada. Pululando — enxameando sobre mim em amontoados cada vez maiores. Contorcendo-se por minha garganta; seus lábios frios tocando os meus; eu quase sufocava com suas hordas fervilhantes; um asco para o qual o mundo não tem nome intumesceu meu peito e enregelou, com uma pesada viscosidade, meu coração. Contudo, mais um minuto e eu sentia que a luta chegaria ao fim. Percebi claramente o afrouxamento da amarra. Sabia que em mais de um ponto ela já devia estar partida. Com resolução mais do que humana permaneci imóvel.
     Eu não havia errado em meus cálculos — eu não havia suportado aquilo em vão. Finalmente, senti que estava livre. A sobrecilha pendeu em tiras de meu corpo. Mas os golpes do pêndulo já se precipitavam sobre meu peito. O instrumento atravessara a sarja do robe. Cortara até a camisa de linho que eu vestia por baixo. Duas vezes mais oscilou, e uma aguda sensação de dor espicaçou cada nervo. Mas o momento da fuga chegara. Ao abanar a mão, meus libertadores fugiram em tumulto. Com um movimento confiante — cauteloso, lateral, contido e vagaroso — deslizei do abraço da correia e para fora do alcance da cimitarra. Naquele momento, ao menos, eu estava livre.
     Livre! — e nas garras da Inquisição! Nem bem deixei a madeira em meu leito de horror e passei ao piso de pedra da prisão, o movimento da máquina infernal cessou, e fiquei assistindo, conforme se recolhia, por alguma força invisível, para dentro do teto. Foi uma lição que aprendi em desespero. Cada movimento meu era sem dúvida observado. Livre! — eu apenas escapara da morte em uma forma de agonia para ser confiado a uma outra qualquer pior que a morte. Com esse pensamento passeei os olhos nervosamente em torno pelas barreiras de ferro que me cercavam. Alguma coisa incomum — alguma mudança que, de início, não pude perceber distintamente —, isso era óbvio, havia ocorrido no ambiente. Por diversos minutos absorto em um transe trêmulo entreguei-me a conjecturas vãs e desconexas. No transcorrer desse período tomei consciência, pela primeira vez, da origem da luz sulfúrea que alumiava a cela. Ela provinha de uma fissura, com cerca de um dedo de largura, que se estendia por todo o perímetro da prisão na base das paredes, que desse modo pareciam, e de fato estavam, completamente separadas do piso. Tentei, mas certamente em vão, olhar através da abertura.
     Quando me levantava após a tentativa, o mistério da alteração na câmara veio-me subitamente à compreensão. Eu observara que, embora os contornos das figuras nas paredes fossem suficientemente nítidos, as cores contudo pareciam borradas e indefinidas. Mas essas cores haviam assumido agora, e assumiam progressivamente, a cada momento, um brilho assustador e mais intenso, que emprestava às imagens espectrais e diabólicas um aspecto que teria talvez abalado nervos até mais firmes que os meus. Olhos demoníacos, de vivacidade selvagem e macabra, fuzilavam-- me de mil direções, quando nenhum havia sido visível antes, e cintilavam com o fantasmático fulgor de um fogo que eu era incapaz de forçar minha imaginação a interpretar como ilusão.
     Ilusão! — No momento em que respirei penetrou em minhas narinas o vapor do ferro aquecido! Um odor asfixiante tomou conta da prisão! Uma incandescência mais profunda ardia a cada momento naqueles olhos que se arregalavam para minhas agonias! Um matiz mais rico de escarlate se difundia pelos horrores de sangue ali retratados. Eu ofegava! Tentava respirar! Não restava dúvida quanto ao que tramavam meus carrascos — ah! os mais implacáveis! ah! os mais demoníacos dos homens! Recuei do metal incandescente em direção ao centro da cela. Em meio aos pensamentos da iminente destruição pelo fogo, a ideia do frescor do poço invadiu minha alma como um bálsamo. Aproximei-me rapidamente de sua beirada mortal. Lancei o olhar para suas profundezas. O fulgor do teto inflamado iluminava seus recessos mais ocultos. E contudo, em um momento de desvario, meu espírito se recusou a compreender o significado do que vi. Após um instante enfim aquilo se impôs — aquilo abriu caminho à força até minha alma — aquilo ficou marcado a ferro e fogo em minha razão trêmula. Ah! quem dera eu tivesse voz para falar! — ah! horror! — ah! qualquer outro horror que não aquilo! Com um uivo, fugi da beirada, e enterrei o rosto nas mãos — chorando amargamente.
     O calor aumentou rápido, e mais uma vez ergui o rosto, tremendo como que num acesso de febre. Uma segunda mudança se efetuara na cela — e agora a mudança era obviamente na forma. Como antes, foi em vão que de início empenhei-me em avaliar ou compreender o que estava ocorrendo. Mas a dúvida não persistiu por muito tempo. A vingança dos inquisidores fora precipitada por minha dupla fuga, e pusera um basta ao meu flerte com o Rei dos Terrores¹. O recinto, antes, era quadrado. Agora eu via que dois de seus ângulos de ferro estavam agudos — os outros dois, consequentemente, obtusos. A assustadora diferença aumentava rapidamente com uma reverberação grave, um som de gemido. Em um instante o ambiente alterara seu formato para o de um losango. Mas a mudança não parou por aí — eu não esperava nem tampouco desejava que o fizesse. Eu teria sido capaz de estreitar as paredes vermelhas junto ao peito como se fossem as vestes da paz eterna. “Morte”, eu disse, “qualquer morte exceto o poço!” Tolo! como podia eu ignorar que era para dentro do poço que o ferro em brasa visava me impelir? Seria eu capaz de resistir a sua incandescência? ou, mesmo que pudesse, como conseguiria resistir a sua pressão? E então, cada vez mais achatado se tornava o losango, com uma rapidez que não me deixava mais tempo algum para a contemplação. Seu centro e, é claro, sua maior largura, debruçavam-se na beira da bocarra escancarada. Recuei — mas as paredes se fechando me empurravam para a frente, era inútil resistir. Até que por im, para o meu corpo queimado e contraído, já não havia mais do que uma polegada onde pisar no sólido chão da prisão. Desisti de lutar, mas a agonia de minha alma buscou desafogo em um agudo, prolongado e derradeiro grito de desespero. Senti que cambaleava sobre a borda — desviei os olhos…

[1] King of Terrors: a Morte (em inglês, death é masculino).


     De repente o burburinho dissonante de vozes humanas! De repente o sopro estridente de inúmeras cornetas! De repente o rangido áspero como de mil trovões! As paredes ardentes recuaram! Um braço se esticou para agarrar o meu quando eu tombava, desfalecendo, dentro do abismo. Era o do general Lasalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição caíra nas mãos de seus inimigos

Fim
continua página 59...
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Manuscrito encontrado numa garrafa (a) /                 
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Poço e o Pêndulo (a)

Edgar Allan Poe - Contos


O Poço e o Pêndulo 

Aqui por muito tempo os impiedosos torturadores nutriram 
o insaciável furor da turba pelo sangue dos inocentes. 
Agora que a pátria está a salvo, e o antro fúnebre foi destruído, 
onde antes havia morte surgem vida e bem-estar.
(Quadra composta para os portões de um mercado a ser erguido 
no local onde ficava o Clube dos Jacobinos, em Paris.)

     Eu estava esgotado — mortalmente esgotado por aquela longa agonia; e quando enfim me desataram, e foi-me dada a permissão de sentar, percebi que os sentidos me faltavam. A sentença — a pavorosa sentença de morte — foi a última de distinta articulação a chegar aos meus ouvidos. Depois disso, o som das vozes inquisitoriais pareceu fundir-se em um único murmúrio vago e onírico. Ele transmitia à alma a ideia de rotação — talvez por associar-se em minha imaginação ao rumor de uma roda de moinho. Isso por um curto período, apenas; pois em breve nada mais ouvi. E contudo, por um tempo, eu vi; mas com que terrível exagero! Vi os lábios dos juízes em seus mantos negros. Pareceram-me brancos — mais brancos que a folha em que traço estas palavras — e finos ao ponto mesmo do grotesco; finos com a intensidade de suas expressões de intransigência — de inamovível determinação — de austero desprezo pelo suplício humano. Vi que os decretos do que para mim era o Destino ainda saíam por aqueles lábios. Vi que se contorciam em mortal elocução. Vi que formavam as sílabas do meu nome; e estremeci, pois som nenhum adveio. Vi também, por alguns momentos de horror delirante, a suave e quase imperceptível ondulação dos reposteiros cor de sable que revestiam as paredes da sala. E então meu olhar recaiu sobre as sete velas altas em cima da mesa. No início, exibiam o aspecto da caridade, e pareciam esguios anjos brancos que me salvariam; mas então, de repente, a náusea mais mortífera tomou conta de meu espírito, e senti cada fibra do corpo vibrar como se eu houvesse tocado o io de uma pilha galvânica, enquanto as formas angelicais tornavam-se espectros sem sentido, com cabeças de fogo, e vi que dali nenhum conforto adviria. E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo. O pensamento se insinuou vagaroso e furtivo, e pareceu transcorrer longo tempo antes que atingisse a plena apreciação; mas no exato momento em que meu espírito enfim o sentiu e o acolheu propriamente, as figuras dos juízes desvaneceram, como que por mágica, diante de meus olhos; as longas velas mergulharam no vazio; suas chamas se extinguiram por completo; o negror das trevas sobreveio; todas as sensações pareceram tragadas num assalto violento e furioso como o da alma pelo Hades. Então o universo se tornou silêncio, imobilidade e noite.
     Desmaiara; mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo — não! No delírio — não! Em um desmaio — não! Na morte — não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia), não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloquentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é — o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba? Mas e se as impressões do que denominei como primeiro estágio não são, voluntariamente, recordadas, acaso, após um longo intervalo, elas não voltam mesmo sem ser convidadas, enquanto imaginamos admirados de onde podem ter surgido? Aquele que jamais desfaleceu, não é ele que encontra palácios estranhos e rostos perturbadoramente familiares nas brasas incandescentes; não é ele que contempla, flutuando em pleno ar, as tristes visões que à maioria são vedadas; não é ele que pondera sobre o perfume de alguma flor incomum — não é ele cujo cérebro fica mais e mais atônito com o significado de alguma cadência musical que nunca antes prendeu sua atenção.
     Em meio aos frequentes e diligentes esforços por lembrar; em meio às obstinadas lutas para recuperar alguma recordação do estado de aparente inexistência em que minha alma mergulhara, houve momentos em que sonhei com o êxito; houve períodos breves, muito breves, em que conjurei lembranças que, segundo me assegura a razão lúcida de uma época posterior, poderiam referir-se apenas àquela condição de aparente inconsciência. Essas sombras de memória evocam, vagamente, figuras altas que me ergueram e me carregaram em silêncio, descendo — descendo — descendo mais —, até que uma medonha vertigem me oprimiu ante a mera ideia da natureza interminável da descida. Evocam também um vago horror em meu coração, por conta da anormal tranquilidade desse mesmo coração. Então segue-se uma sensação de súbita imobilidade de todas as coisas; como se aqueles que me carregavam (um cortejo espectral!) houvessem ultrapassado, em sua descida, os limites do ilimitado, e parado com a exaustão do esforço hercúleo. Depois disso vêm-me à mente horizontalidade e umidade; e então tudo é insanidade — a insanidade de uma lembrança se insinua em meio a coisas proibidas.
     Muito subitamente regressaram-me à alma movimento e som — o tumultuoso movimento do coração e, aos meus ouvidos, o som de seu batimento. Então uma pausa em que tudo é vácuo. Então outra vez som, e movimento, e tato — uma sensação de formigamento permeando meu corpo. Então a mera consciência da existência, sem pensamento — condição que durou longamente. Então, muito subitamente, pensamento, e trêmulo terror, e obstinado esforço de compreender meu verdadeiro estado. Então um forte desejo de mergulhar na insensibilidade. Então uma violenta reanimação da alma e um vitorioso esforço de me mover. E depois a completa lembrança do julgamento, dos juízes, dos negros reposteiros, da sentença, do esgotamento, do desfalecimento. Então o total esquecimento de tudo que se seguiu; de tudo que um dia posterior e grande obstinação de esforço possibilitaram-me vagamente recordar.
     Até esse momento, eu não abrira os olhos. Senti que jazia de costas, desatado. Estiquei a mão, e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa úmida e dura. Deixei-me aí ficar por vários minutos, enquanto me empenhava em imaginar onde e no que podia estar. Ansiava, e contudo não ousava, empregar a visão. Aterrorizava-me o impacto inicial dos objetos em torno de mim. Não que eu temesse ver coisas horríveis, mas fui invadido por um crescente pavor de não haver nada para ver. Finalmente, com descontrolado desespero no coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. O negror da noite eterna me engolfava. Lutei para respirar. A intensidade das trevas parecia me oprimir e sufocar. A atmosfera era intoleravelmente opressiva. Continuei deitado, imóvel, e esforcei-me por exercitar a razão. Evoquei em minha mente o processo inquisitorial, e tentei a partir desse ponto inferir minha real condição. A sentença fora proferida; e a mim me pareceu que um intervalo muito longo de tempo transcorrera desde então. Contudo, nem sequer por um momento supus que estivesse morto de fato. Tal suposição, não obstante o que lemos na ficção, é completamente inconsistente com a existência real; — mas onde e em que estado eu me encontrava? Os condenados à morte, eu sabia, eram normalmente executados nos autos de fé, e um desses fora realizado na exata noite de meu julgamento. Estaria eu sendo mantido sob custódia em meu calabouço, a fim de aguardar o sacrifício seguinte, que não teria lugar senão dali a muitos meses? Percebi na mesma hora que tal não podia ser. As vítimas haviam sido reclamadas de imediato. Além do mais, meu calabouço, assim como as celas de todos os condenados em Toledo, tinha piso de pedra, e a luz não era completamente excluída.
     Uma assustadora ideia agora de repente fez o sangue fluir incontrolavelmente em meu coração e, por um breve período, mais uma vez recaí na insensibilidade. Assim que me recuperei, fiquei de pé na mesma hora, tremendo convulsivamente em cada fibra. Agitei os braços freneticamente acima e em torno de mim, em todas as direções. Nada senti; contudo, hesitava em dar um passo, com receio de ser bloqueado pelas paredes de uma tumba. O suor brotava de cada poro, e formava grossas gotas em minha fronte. A agonia do suspense cresceu até se tornar intolerável e cuidadosamente me movi para a frente, com os braços estendidos, e meus olhos esforçando-se em suas órbitas, na esperança de captar algum débil raio de luz. Avancei vários passos; mas o negror e o vazio continuaram. Respirei mais facilmente. Parecia evidente que o meu não era, ao menos, o mais hediondo dos destinos.
     E então, conforme continuava a andar cautelosamente adiante, invadiu me a memória, num tropel, uma infinidade de vagos rumores sobre os horrores de Toledo. Daqueles calabouços estranhas coisas se contavam — fábulas, eu sempre as reputara —, porém por demais estranhas, e por demais macabras, para serem repetidas, salvo num sussurro. Teria sido eu deixado para morrer de fome nesse mundo subterrâneo de trevas; ou que destino, talvez ainda mais assustador, me aguardava? Que o resultado seria a morte, e morte de uma pungência mais do que costumeira, eu conhecia bem demais o caráter de meus juízes para duvidar. O modo e o momento eram tudo que me ocupava ou distraía.
     Minhas mãos estendidas enfim encontraram alguma obstrução sólida. Era uma parede, em alvenaria de pedra, aparentemente — muito lisa, musgosa e fria. Acompanhei sua superfície; pisando com toda a cuidadosa desconfiança que determinados relatos antigos haviam me inspirado. Esse processo, entretanto, não me possibilitou meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; uma vez que podia completar seu circuito, e regressar ao ponto onde começara, sem dar-me conta do fato; tão perfeitamente uniforme parecia a parede. Procurei desse modo a faca que havia em meu bolso, quando levado à câmara inquisitorial; mas ela se fora; minhas roupas haviam sido trocadas por um camisolão de sarja grosseira. Meu pensamento fora forçar a lâmina em alguma minúscula fenda da alvenaria, de modo a identificar o ponto de partida. A dificuldade, todavia, era apenas trivial; muito embora, na desordem de minha imaginação, parecesse em princípio insuperável. Rasguei um pedaço da bainha em meu robe e dispus a tira de comprido, em ângulo reto com a parede. Ao tatear meu caminho em torno da prisão, não teria como deixar de encontrar o trapo quando completasse o circuito. Assim, ao menos, raciocinei: mas eu não contara com a extensão do calabouço, ou com minha própria debilidade. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleei para a frente por algum tempo, até pisar em falso e cair. Minha fadiga excessiva induziu-me a permanecer prostrado; e ali deitado o sono em breve se apossou de mim.
     Ao despertar, e esticando um braço, encontrei ao meu lado um pão e uma jarra com água. Estava exausto demais para refletir sobre essa circunstância, mas comi e bebi com avidez. Pouco depois, retomei meu reconhecimento do circuito da prisão, e com grande labor, cheguei enfim ao pedaço de sarja. Até o momento de minha queda, eu contara cinquenta e dois passos, e, após retomar minha caminhada, contara quarenta e oito mais — quando cheguei ao pedaço de pano. Havia ao todo, desse modo, cem passos; e, considerando cada dois passos como um metro, inferi que o calabouço tinha um perímetro de cem metros. Eu havia topado, entretanto, com muitos ângulos na parede, e assim não podia formar suposição alguma sobre o formato da cripta; pois uma cripta era o que eu não podia deixar de supor que fosse.
     Eu tinha pouco propósito — certamente nenhuma esperança — nessas investigações; mas uma vaga curiosidade impeliu-me a continuá-las. Deixando por ora a parede, decidi cruzar a área de meu cárcere. No início, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente de material sólido, era traiçoeiro devido ao musgo. Finalmente, entretanto, tomei coragem, e não hesitei em pisar com firmeza — empenhando-me em atravessar numa linha a mais reta possível. Avançara dez ou doze passos dessa maneira quando o que restava da bainha rasgada em meu robe enroscou-se entre minhas pernas. Pisei nela e caí violentamente de bruços.
     Na confusão, preocupando-me com minha queda, não me dei conta imediatamente de uma circunstância um tanto alarmante, que contudo, poucos segundos depois, e enquanto eu ainda jazia prostrado, prendeu minha atenção. Foi o seguinte: meu queixo estava pousado no chão da prisão, mas meus lábios, e a parte superior de minha cabeça, embora aparentemente com uma elevação inferior à do queixo, não tocavam coisa alguma. Ao mesmo tempo, minha testa parecia banhada em um vapor viscoso, e o odor peculiar de fungo em decomposição subia às minhas narinas. Estiquei o braço, e estremeci ao descobrir que caíra bem na beirada de um poço circular, cuja extensão, é claro, eu não tinha meios de averiguar no momento. Tateando a alvenaria logo abaixo da extremidade, consegui deslocar um pequeno fragmento, e deixei que caísse no abismo. Por vários segundos, estiquei os ouvidos para suas reverberações conforme colidia contra as laterais da garganta em sua queda: finalmente, sobreveio um lúgubre mergulho na água, seguido de ecos elevados. No mesmo instante, escutei um ruído similar ao de uma porta no alto sendo rapidamente aberta, e prontamente fechada, enquanto um tênue raio de luz tremeluziu subitamente através da escuridão, e subitamente sumiu.
     Enxerguei claramente a sina que me havia sido preparada e dei graças em silêncio pelo oportuno acidente que me possibilitara dela escapar. Mais um passo antes de minha queda, e o mundo não mais me veria. E a morte que acabara de evitar era exatamente o que eu costumava encarar como a típica história fantasiosa e pitoresca relativa à Inquisição. Às vítimas de sua tirania cabia a escolha da morte com suas mais desesperadoras agonias ou da morte com seus mais hediondos horrores morais. A mim fora reservada esta última. O longo sofrimento abalara meus nervos, a ponto de eu estremecer ao som de minha própria voz e me tornar em todos os aspectos uma vítima sob medida para as variedades de tortura que me aguardavam.
     Tremendo em cada membro do corpo, tateei meu caminho de volta à parede — determinado a aí perecer, em lugar de me arriscar aos terrores dos poços cuja existência eu agora imaginava haver em variados pontos espalhados pelo calabouço. Em outras condições de espírito, talvez tivesse a coragem de dar cabo de minha miséria na mesma hora, mergulhando num daqueles abismos; mas nesse momento eu era o mais rematado dos covardes. E tampouco esquecia o que havia lido a respeito desses poços — que a extinção súbita da vida não fazia parte de seu mais horrendo desígnio.
     A agitação de espírito manteve-me acordado por muitas horas intermináveis; mas finalmente voltei a adormecer. Ao despertar, descobri ao meu lado, como antes, um pão e uma jarra de água. Uma sede excruciante me consumia, e esvaziei o recipiente de um só trago. Devia haver alguma droga ali — pois, mal terminei de beber, senti um torpor irresistível. Um sono profundo se apossou de mim — um sono que era como a morte. Quanto tempo durou é algo que decerto não sei dizer; mas quando, mais uma vez, abri os olhos, os objetos em torno de mim estavam visíveis. Por meio de uma fulguração difusa e sulfurosa, cuja origem não pude inicialmente determinar, fui capaz de ver a extensão e o aspecto da prisão.
     Quanto ao tamanho eu me equivocara redondamente. O perímetro completo de suas paredes não excedia os vinte e cinco metros. Por alguns minutos, o fato ocasionou-me um mundo de vãs preocupações; vãs, de fato — pois o que podia ser menos importante, nas terríveis circunstâncias em que me encontrava, do que as meras dimensões de meu calabouço? Mas minha alma assumiu um descontrolado interesse em banalidades e concentrei-me diligentemente em esclarecer o erro que havia cometido ao fazer minhas medições. A verdade enfim se me afigurou. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinquenta e dois passos até o momento da queda: eu devia ali estar a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, eu praticamente completara o perímetro da cripta. E então adormeci — e, ao acordar, devo ter refeito meus passos —, pressupondo assim o perímetro como tendo quase o dobro do que de fato tinha. Minha confusão mental impediu-me de observar que iniciei o percurso tendo a parede à esquerda, e que o terminei com a parede à minha direita.
     Eu havia sido iludido, também, com respeito à forma do cárcere. Tateando meu caminho, topara com diversos ângulos, e assim inferi uma ideia de grande irregularidade; tão poderoso é o efeito da escuridão absoluta ao despertarmos da letargia ou do sono! Os ângulos nada mais eram que umas poucas depressões ligeiras, ou nichos, a intervalos variáveis. O formato geral da prisão era quadrado. O que eu tomara por alvenaria parecia agora ser ferro, ou algum outro metal, em imensas placas, cujas suturas ou junções ocasionavam a depressão. A superfície inteira do recinto de metal estava grosseiramente pintada com todas essas lucubrações hediondas e repulsivas às quais a sepulcral superstição dos monges havia dado origem. Figuras diabólicas em posturas ameaçadoras, com formas esqueléticas e outras imagens de fato ainda mais assustadoras, espalhavam-se e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos das monstruosidades eram suficientemente distintos, mas que as cores pareciam esmaecidas e borradas, como que por efeito da umidade da atmosfera. Eu agora notava também o chão, que era de pedra. No centro esbeiçava-se o poço circular de cujas mandíbulas eu escapara; mas era o único no calabouço.

continua página 49...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: William Wilson (c)

Edgar Allan Poe - Contos


William Wilson 

Que dizer dela? que dizer da austera consciência, 
Esse espectro em meu caminho? 
Chamberlain, Pharronida
continuando...

     Ocupava-me dessa vida com sucesso havia dois anos quando chegou à universidade um jovem nobre parvenu, Glendinning — tão rico, diziam os rumores, quanto Herodes Ático —, sua fortuna, também, facilmente conquistada. Não tardou para que eu percebesse a fraqueza de seu intelecto e é claro que o marquei como um alvo apropriado para minhas habilidades. Eu o atraía frequentemente à mesa de jogo e permitia, com a usual perícia do jogador, que ganhasse somas consideráveis, de modo a enredá-lo com mais eficácia na armadilha. Finalmente, meu plano estando amadurecido, reunimo-nos (sendo minha plena intenção de que esse encontro fosse final e decisivo) no aposento de um colega (o sr. Preston), igualmente íntimo de ambos, mas que, justiça lhe seja feita, não tinha a mais remota desconfiança de meu intento. Para contribuir com o disfarce, eu providenciara a presença de um grupo com cerca de oito ou dez outros alunos e fui solicitamente cuidadoso para que o surgimento das cartas parecesse acidental e originado na proposta daquele próprio a quem visava ludibriar. Para ser breve acerca de um tópico vil, nada da degradada arte foi omitido, algo tão costumeiro em ocasiões similares que só pode constituir motivo de admiração ainda haver aqueles tão aparvalhados a ponto de dela caírem vítimas. 
     Havíamos prosseguido nisso até altas horas da noite quando enfim consegui efetuar a manobra de fazer de Glendinning meu único adversário. O jogo, também, era meu écarté favorito. Os demais presentes, interessados na magnitude de nossa jogatina, haviam abandonado seus próprios carteados, e ajeitaram-se em torno como espectadores. O parvenu, que fora induzido por meio de meus ardis na primeira parte da noite a beber pesadamente, agora embaralhava, dava as cartas ou jogava de uma maneira nervosa e precipitada que sua embriaguez, assim pensei, poderia explicar em parte, mas não inteiramente. Em um período muito curto de tempo tornara-se meu devedor por vultosa soma, quando, após virar um longo trago de porto, fez precisamente o que eu viera friamente antecipando — propôs dobrar nossas já extravagantes apostas. Com uma bem fingida afetação de relutância, e somente depois que minhas repetidas recusas persuadiram-no a proferir algumas palavras furiosas que emprestaram uma aparência de pique6 a minha aquiescência, finalmente cedi. O resultado, claro, apenas provou quão irremediavelmente a presa caíra em minha armadilha; em menos de uma hora ele havia quadruplicado sua dívida. Já havia algum tempo que seu semblante vinha perdendo o ruborizado matiz advindo do vinho; mas agora, para meu assombro, percebi que atingira uma palidez verdadeiramente assustadora. Digo para meu assombro. Minhas ansiosas sondagens haviam-me levado a crer que Glendinning era incomensuravelmente rico; e os montantes que até então perdera, embora em si vastos, não poderiam, assim supunha eu, perturbá-lo muito seriamente, menos ainda deixá-lo tão violentamente agitado daquele modo. Que estivesse subjugado pela quantidade de vinho que acabara de tomar foi a ideia que mais prontamente me veio; e, antes com vistas à preservação de meu próprio caráter aos olhos de meus colegas do que por qualquer outro motivo menos interesseiro, eu estava prestes a insistir, peremptoriamente, na interrupção do jogo, quando algumas coisas ditas à minha volta entre o grupo e uma exclamação evidenciando completo desespero da parte de Glendinning levaram-me a compreender que eu efetuara sua total ruína sob circunstâncias que, tornando-o objeto da piedade geral, deveriam tê-lo protegido dos ofícios maléficos até de um demônio.
     No que agora devia ter constituído minha conduta é difícil dizer. A condição lastimável de minha vítima fizera descer uma atmosfera de sombrio constrangimento sobre todos os presentes; e, por alguns momentos, um profundo silêncio se manteve, durante os quais não pude deixar de sentir meu rosto queimando com os inúmeros olhares intensos de desprezo ou reprovação lançados sobre mim pelos menos depravados do grupo. Admitirei ainda que um intolerável peso de angústia foi por breve instante tirado de meu peito pela súbita e extraordinária interrupção que se seguiu. As amplas e pesadas portas duplas do aposento foram subitamente abertas, por completo, com uma impetuosidade vigorosa e violenta que apagou, como que por encanto, todas as velas do quarto. A luz, no momento em que elas se extinguiam, possibilitaram-me perceber apenas que um estranho havia entrado, mais ou menos da minha própria altura, e cuidadosamente encapotado em um manto. A escuridão, entretanto, agora era total; e podíamos apenas sentir sua presença ali em nosso meio. Antes que qualquer um de nós conseguisse se recuperar da extrema perplexidade em que aquela grosseria nos lançara a todos, escutamos a voz do intruso.

“Senhores”, disse, num baixo, distinto e inesquecível sussurro que me fez tremer até a medula, “abstenho-me de pedir quaisquer desculpas por meu comportamento, pois, desse modo me comportando, não estou senão cumprindo um dever. Os senhores encontram-se, sem sombra de dúvida, desinformados sobre o verdadeiro caráter da pessoa que ganhou no écarté esta noite uma enorme soma de dinheiro de Lord Glendinning. Vou desse modo lhes propor um método diligente e conclusivo de obter essa informação absolutamente indispensável. Por favor examinem, com vagar, o forro interno do punho de sua manga esquerda, e os diversos pequenos pacotes que podem ser encontrados nos bolsos razoavelmente espaçosos de seu roupão bordado.”

     Enquanto falava, tão profundo foi o silêncio que se poderia ter escutado a queda de um alfinete no soalho. Ao terminar, partiu na mesma hora, e tão abruptamente quanto entrara. Poderei — conseguirei descrever minhas sensações? — deverei dizer que senti todos os horrores da danação? Asseguro que tive pouco tempo para refletir. Inúmeras mãos agarraram me brutalmente ali mesmo e as luzes tornaram imediatamente a ser acesas. Fui revistado. No forro de minha manga encontraram-se todas as cartas essenciais do écarté e, nos bolsos de meu roupão, uma série de baralhos, idênticos aos usados em nossas noitadas, com a única exceção de que os meus eram dessa espécie tecnicamente chamada de arrondies¹; as honras sendo ligeiramente convexas no alto e embaixo, as cartas menores, ligeiramente convexas nas laterais. Com esse arranjo, a vítima que corta, como de costume, no sentido longitudinal do baralho, invariavelmente descobrirá que dá uma honra ao seu adversário; ao passo que o jogador trapaceiro, cortando na largura, com o mesmo grau de certeza nada dará ao seu oponente que possa contar para o triunfo no jogo.

[1] No original arrondées: forma inexistente, refere-se sem dúvida a arrondi (masculino singular), ou cartas arrondies, “arredondadas” (aqui e nos demais casos, a tradução optou por simplesmente corrigir os ocasionais erros de grafia e acentuação cometidos por Edgar Allan Poe em determinadas palavras estrangeiras). E, adiante, “honras”: as quatro ou cinco cartas mais altas em jogos como uíste e seus derivados (como o próprio écarté e também o bridge, por exemplo).

     Qualquer explosão de indignação com a descoberta teria me afetado menos do que o desprezo silencioso ou a sarcástica compostura com que ela foi recebida.

“Senhor Wilson”, disse nosso anfitrião, curvando-se para remover de sob seus pés um manto sumamente luxuoso de peles raras, “senhor Wilson, isto é de sua propriedade.” (Fazia frio; e ao deixar meu quarto, eu jogara um manto por cima de meu robe de chambre, tirando-o ao chegar ao local da jogatina.) “Presumo que será supérfluo procurar aqui (relanceando as dobras do traje com um sorriso amargo) por qualquer evidência adicional de sua destreza. Com efeito, já tivemos o suficiente. O senhor compreenderá a necessidade, espero, de deixar Oxford — de todo modo, de deixar meus aposentos imediatamente.”

     Humilhado, rebaixado à desonra como então fiquei, é provável que tivesse reagido a essas palavras exasperantes com violência pessoal imediata, não fosse minha atenção naquele momento ser atraída para um fato da natureza mais surpreendente. O manto que eu agora vestia era de uma rara qualidade de pele; quão rara, e quão extravagantemente cara, não ousarei dizer. Seu feitio, também, era de minha própria invenção fantasiosa; pois eu era fastidioso a um grau absurdo de afetação em matérias dessa natureza frívola. Quando, desse modo, o sr. Preston estendeu-me o que havia recolhido do chão, e ao me aproximar das portas duplas do aposento, foi com um assombro beirando o terror que percebi meu próprio manto já dobrado em meu braço (onde eu sem dúvida sem me dar conta o havia pendurado) e que aquele que me fora oferecido não era senão sua exata contrapartida em todas e mais minuciosas particularidades possíveis. A singular criatura que tão funestamente me desmascarara havia permanecido encapotada, lembro-me, em um manto; e nenhum outro membro de nosso grupo usava um, com exceção de mim mesmo. Conservando alguma presença de espírito, aceitei o que me fora entregue por Preston; coloquei-o, despercebido, sobre o meu; deixei o apartamento com uma expressão determinada de desafio; e, na manhã seguinte, antes do alvorecer do dia, iniciei uma apressada viagem de Oxford para o continente, numa perfeita agonia de horror e vergonha.
     Fugi em vão. Meu destino maligno perseguiu-me como que em exultação e provou, de fato, que o exercício de seu misterioso domínio ainda estava apenas por começar. Mal pus os pés em Paris, obtive nova evidência do detestável interesse assumido por esse Wilson em meus assuntos. Anos se passaram sem que eu conhecesse alívio. Patife! — em Roma, quão inoportunamente, e contudo, com que diligência mais fantasmagórica, ele se interpôs entre mim e minha ambição! Em Viena, também — em Berlim — e em Moscou! Onde, na verdade, não tinha eu uma razão amarga para amaldiçoá-lo do fundo do coração? De sua inescrutável tirania enfim fugi, tomado de pânico, como que da peste; e para os próprios confins da terra eu fugi em vão.
     E novamente, e novamente, em secreta comunhão com meu próprio espírito, fazia eu as perguntas “Quem é ele? — de onde veio — e quais são seus objetivos?”. Porém nenhuma resposta era encontrada. E agora eu examinava, com escrutínio minucioso, as formas, os métodos, as características principais de sua vigilância impertinente. Mas mesmo aí havia muito pouco sobre o que basear uma conjectura. Era com efeito notável que em nenhuma das múltiplas ocasiões em que recentemente cruzara meu caminho ele não o tivesse feito senão para frustrar planos ou estorvar ações que, se levados a um termo, poderiam ter resultado em amarga injúria. Que pobre justificativa, na realidade, para uma autoridade tão arrogantemente presumida! Que pobre reparação para direitos naturais de autogoverno tão tenazmente, tão insultuosamente negados!
     Fora-me também forçoso notar que meu algoz, por um período muito longo (ao mesmo tempo que escrupulosamente, e com destreza sobrenatural, prosseguia em seu capricho de trajar-se de forma idêntica à minha), agira de tal maneira, na execução de sua variada interferência com minha vontade, que eu jamais visse, em momento algum, as feições de seu rosto. Fosse quem fosse Wilson, isso, ao menos, era a mais extrema das afetações, ou das tolices. Seria possível ele supor, por um instante, que em meu admoestador de Eton — no destruidor de minha honra em Oxford — naquele que frustrara minha ambição em Roma, minha vingança em Paris, meu amor apaixonado em Nápoles, ou no que ele falsamente chamou de minha avareza no Egito — que nele, meu arqui-inimigo e gênio do mal, eu pudesse deixar de reconhecer o William Wilson de meus dias escolares — o homônimo, o companheiro, o rival — o odiado e temido rival na instituição do dr. Bransby? Impossível! — Mas que me seja permitido passar rapidamente à derradeira cena memorável do drama.
     Até esse momento eu sucumbira letargicamente a seu arrogante domínio. O sentimento de profunda reverência com que habitualmente encarava o caráter elevado, a sabedoria majestosa, a aparente onipresença e onipotência de Wilson, combinado a um outro de semelhante terror que determinados outros traços em sua natureza e pressuposições me inspiravam, havia até ali agido de modo a imprimir em mim uma ideia de minha própria fraqueza e desamparo e a sugerir uma submissão implícita, ainda que amargamente relutante, à arbitrariedade de sua vontade. Mas, por essa época, eu me entregara completamente ao vinho; e a influência exasperante da bebida sobre meu temperamento hereditário tornou-me cada vez mais intolerante ao controle. Comecei a resmungar — a hesitar — a resistir. E seria apenas a fantasia que me induzia a acreditar que, com o aumento de minha firmeza, a de meu algoz conheceu diminuição proporcional? Fosse como fosse, comecei assim a sentir a inspiração de uma esperança ardente, e acabei por nutrir secretamente em meus pensamentos uma austera e desesperada resolução de não mais me submeter àquele jugo.
     Foi em Roma, durante o Carnaval de 18—, que compareci a uma mascarada no palacete do duque napolitano Di Broglio. Eu me entregara mais livremente do que o habitual aos excessos do vinho; e agora a atmosfera sufocante dos ambientes abarrotados irritava-me além do suportável. Também a dificuldade de abrir caminho entre a confusão de gente contribuía em larga medida para a perturbação de meu temperamento; pois eu procurava ansiosamente (que me seja permitido não revelar o indigno motivo) a jovem, alegre e linda esposa do velho e tolo Di Broglio. Com confiança mais do que inescrupulosa ela me fizera comunicar previamente o segredo dos trajes com que estaria fantasiada, e agora, após avistar sua pessoa, eu tentava apressadamente abrir caminho até sua presença. — Nesse momento senti o toque leve de uma mão pousando em meu ombro, e aquele inesquecível, grave e execrável sussurro em meu ouvido.
     Num absoluto frenesi de ira, virei-me na mesma hora para aquele que desse modo me interrompera e agarrei-o violentamente pelo colarinho. Estava vestido, como era de esperar, com uma fantasia em tudo similar à minha; trajava uma capa espanhola de veludo azul, cingida em torno da cintura por um cinto escarlate sustentando uma rapieira. Uma máscara de sede negra cobria inteiramente seu rosto.

“Canalha!”, exclamei, numa voz rouca de fúria, e cada sílaba pronunciada parecia renovar o ardor de minha cólera, “canalha! impostor! vilão amaldiçoado! não irás — não irás me caçar até a morte! Segue-me, ou provarás minha lâmina aqui mesmo!” — e abri caminho do salão de baile até uma pequena antecâmara anexa — arrastando-o irresistivelmente comigo conforme o fazia.
   
     Ao entrar, empurrei-o furiosamente para longe de mim. Ele cambaleou contra a parede, enquanto eu fechava a porta com uma imprecação e lhe ordenava que desembainhasse sua arma. Ele hesitou por um instante; depois, com um ligeiro suspiro, puxou a espada em silêncio e se pôs em guarda.
     O duelo foi breve deveras. Eu estava desvairado com todo tipo de agitação selvagem e senti em um único braço a energia e o poder de uma multidão. Em poucos segundos empurrei-o à pura força contra os lambris e desse modo, tendo-o à minha mercê, cravei a espada com brutal ferocidade, repetidamente, por todo o seu peito.
     Nesse instante alguém tentou abrir a porta. Apressei-me a impedir qualquer intromissão e depois imediatamente voltei ao meu antagonista moribundo. Mas que linguagem humana pode retratar adequadamente aquele espanto, aquele horror que se apossaram de mim diante do espetáculo que então se apresentou aos meus olhos? O breve momento em que desviei a atenção havia sido suficiente para produzir, aparentemente, uma mudança palpável no canto superior ou mais distante do quarto. Um grande espelho — assim de início me pareceu, em minha confusão — agora se via onde antes nada disso era perceptível; e, quando caminhei em sua direção tomado por extremos de terror, minha própria imagem, mas com as feições pálidas e salpicadas de sangue, avançou para ir ao meu encontro com um andar débil e vacilante.
     Assim me parecia, afirmei, mas não. Era meu antagonista — era Wilson, que então se punha de pé diante de mim, sofrendo as agonias da morte. Sua máscara e a capa jaziam onde ele as jogara, sobre o piso. Não havia sequer um fio em todo o seu traje — sequer uma linha em todos os marcados e singulares contornos de seu rosto que não fossem, mesmo na mais absoluta identidade, os meus próprios!
     Era Wilson; porém não mais falava num sussurro, e eu poderia ter imaginado que era eu mesmo quem falava quando disse:

Venceste, e me rendo. E contudo, daqui por diante também estás morto — morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim existias — e, em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua própria, quão absolutamente assassinaste a ti mesmo.” 

continua página 41...
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William Wilson (a) / William Wilson (b) / William Wilson (c) / O Poço e o Pêndulo (a) /                 
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.