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sábado, 26 de setembro de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O gato preto

Edgar Allan Poe - Contos


O gato preto

Para a narrativa sumamente extravagante e contudo sumamente trivial em que tomo da pena, não espero nem peço crédito. De fato, louco seria eu de esperar tal coisa, num episódio em que até meus próprios sentidos rejeitam o que testemunharam. Contudo, não estou louco — e, decerto, tampouco estou sonhando. Mas amanhã morrerei e hoje quero desafogar minha alma. Meu propósito imediato é expor diante do mundo, de modo direto, sucinto e sem comentários, uma série de simples eventos domésticos. Por suas consequências, esses eventos me aterrorizaram — torturaram — destruíram. Contudo, não farei uma tentativa de explicá-los. Para mim, pouco representaram além do Horror — para muitos, parecerão menos terríveis do que barrocos. Num futuro próximo, talvez, algum intelecto haverá de surgir para reduzir minha fantasmagoria ao lugar comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico e muito menos excitável do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias por mim detalhadas com assombro, nada mais do que uma ordinária sucessão de causas e efeitos perfeitamente naturais.
     
     Desde a infância sempre me fiz notar pela docilidade e humanidade de meu temperamento. Minha ternura de coração era de fato tão evidente que me tornava objeto de troça de meus companheiros. Tinha particular afeição por animais e fui mimado por meus pais com uma grande variedade de bichos de estimação. Com eles passava a maior parte do tempo e nunca me sentia tão feliz como nas ocasiões em que os alimentava e acariciava. Essa peculiaridade de caráter acompanhou-me ao crescer e, mais tarde, quando me tornei um homem, dela extraía uma das minhas principais fontes de prazer. Para aqueles que acalentaram afeição por um cão fiel e esperto, dificilmente preciso me dar o trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que disso pode advir. Há qualquer coisa no amor altruísta e abnegado de uma criatura bruta que cala fundo no coração de quem muitas vezes já teve ocasião de experimentar a amizade mesquinha e a fidelidade impalpável do mero Homem.
     Casei-me cedo, e tive a felicidade de encontrar em minha esposa uma disposição não incompatível com a minha própria. Observando meu apreço pelos animais domésticos, ela não perdia a oportunidade de obter os tipos mais agradáveis. Tivemos pássaros, peixes dourados, um ótimo cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
     Este último era um animal notavelmente grande e belo, todo negro, e esperto em um grau espantoso. Falando de sua inteligência, minha esposa, que no fundo não era pouco imbuída de superstição, fazia frequente alusão à antiga crença popular que via em todos os gatos pretos bruxas disfarçadas. Não que em algum momento falasse a sério nesse sentido — e não toco no assunto por nenhum outro motivo além de acontecer, bem agora, de me vir à memória. 
     Pluto — esse o nome do gato — foi meu bicho e companheiro favorito. Somente eu o alimentava, e ele me seguia pela casa aonde quer que eu fosse. Era mesmo com dificuldade que conseguia impedi-lo de seguir-me pelas ruas.
     Nossa amizade durou, desse modo, por vários anos, durante os quais meu temperamento geral e caráter — por obra do Demônio da Intemperança — experimentaram (coro em confessar) uma radical alteração para pior. Tornei-me, a cada dia, mais taciturno, mais irritável, mais sem consideração pelos sentimentos alheios. Permitia-me o uso de uma linguagem destemperada com minha mulher. Por im, cheguei até a ameaçá-la de violência ísica. Meus bichos, é claro, também sofreram com minha mudança de disposição. Eu não só os negligenciava, como também os maltratava. Por Pluto, entretanto, ainda mostrava suficiente consideração para me abster de infligir-lhe maus-tratos, como fazia com os coelhos, o macaco ou mesmo o cão, quando, por acidente, ou talvez por afeto, entravam em meu caminho. Mas a doença ganhou corpo em mim — pois que doença se compara ao Álcool? — e no fim até mesmo Pluto, que a essa altura estava ficando velho e, consequentemente, um tanto malcriado — até mesmo Pluto começou a experimentar os efeitos de meu temperamento irascível.
     Certa noite, voltando para casa, muito embriagado, de uma de minhas tavernas pela cidade, julguei que o gato evitava minha presença. Agarrei-o; nisso, em seu medo de minha violência, ele me infligiu um leve ferimento na mão com os dentes. A fúria de um demônio apossou-se instantaneamente de mim. Eu não mais me reconhecia. Minha alma original pareceu, na mesma hora, levantar voo de meu corpo; e uma malevolência mais do que diabólica, inflamada a gim, convulsionou cada fibra de meu corpo. Tirei do bolso do colete um pequeno canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e deliberadamente arranquei um de seus olhos da órbita! Coro, enrubesço, estremeço conforme descrevo a abominável atrocidade.
     Quando a razão me voltou pela manhã — após ter dissipado no sono os vapores do desregramento noturno — experimentei um sentimento que era parte horror, parte remorso pelo crime do qual era culpado; mas foi, quando muito, um sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu intocada. Voltei a mergulhar em excessos e não tardei a afogar na bebida qualquer lembrança do ato.
     Entrementes, o gato lentamente se recuperou. A órbita do olho perdido apresentava, é verdade, uma aparência assustadora, mas ele não parecia sentir mais dor alguma. Andava pela casa como de costume, mas, como era de esperar, fugindo aterrorizado à minha aproximação. Restava-me su iciente de minha antiga afeição para que no início icasse magoado com esse evidente repúdio de parte de uma criatura que outrora tanto me amara. Mas esse sentimento em breve deu lugar à irritação. E então sobreveio, como que para minha ruína final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE. Desse espírito a filosofia não se ocupa. Contudo, não tenho tanta convicção sobre a existência de minha alma quanto tenho de que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano — uma das indivisíveis e primordiais faculdades, ou sentimentos, que orientam o caráter do Homem. Quem nunca se pegou, uma centena de vezes, cometendo algum ato vil ou tolo sem nenhum outro motivo além de saber que não deveria? Não mostramos uma perpétua inclinação, malgrado todo o nosso bom-senso, a violar essa coisa que chamamos Lei, meramente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, como disse, veio para minha ruína final. Foi esse inescrutável anseio da alma de atormentar a si mesma — de violentar sua própria natureza — de cometer o mal em nome do mal simplesmente — que me impeliu a continuar e finalmente consumar o agravo que já infligira à inofensiva criatura. Certa manhã, a sangue frio, passei um laço em torno de seu pescoço e o enforquei no galho de uma árvore; — enforquei-o com as lágrimas brotando de meus olhos, e com o remorso mais amargo no coração; — enforquei-o porque sabia que me amara, e porque sentia que não me dera o menor motivo para ressentimento; — enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado — um pecado mortal que poria minha alma imortal em perigo a ponto de deixá-la — se tal coisa era possível — fora de alcance até da misericórdia infinita do Deus Mais Misericordioso e Mais Terrível.
     Na noite do dia em que perpetrei essa cruel infâmia, fui despertado do sono pelos gritos de fogo. As cortinas de minha cama estavam em chamas. A casa toda ardia. Foi com grande dificuldade que minha esposa, uma criada e eu próprio conseguimos escapar da conflagração. A destruição foi completa. Todas minhas posses terrenas foram consumidas e entreguei-me dali em diante ao desespero.
     Não cedo à fraqueza de tentar estabelecer uma sequência de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade. Mas estou descrevendo uma cadeia de eventos — e não desejo deixar de fora nem sequer um possível elo. Certo dia após o incêndio iz uma visita às ruínas. As paredes, com exceção de uma só, haviam desabado. Essa exceção consistia de uma parede divisória interna, não muito grossa, mais ou menos no meio da casa, contra a qual ficava recostada a cabeceira de minha cama. O reboco havia, em grande parte, resistido à ação do fogo — ocorrência que atribuí ao fato de ter sido recentemente aplicado. Em torno dessa parede uma compacta multidão havia se reunido e muitas pessoas pareciam examinar uma área particular dela com atenção extremamente minuciosa e intensa. As palavras “estranho!”, “singular!” e outras expressões similares atiçaram minha curiosidade. Acerquei-me e vi, como que gravado em bas relief sobre a superfície branca, a figura de um gigantesco gato. A imagem se estampava com uma precisão realmente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.
     Quando contemplei a aparição — pois como menos que isso eu dificilmente podia encará-la — minha admiração e meu terror foram extremos. Até que enfim a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei, fora enforcado em um jardim adjacente à casa. Ao alarme de incêndio, esse jardim fora imediatamente tomado pela multidão — e alguém ali devia ter cortado a forca e jogado o animal por uma janela aberta dentro do meu quarto. Isso provavelmente fora feito com o intuito de me despertar de meu sono. A queda de outras paredes comprimira a vítima de minha crueldade na massa da alvenaria recém-aplicada; a cal do reboco, sob a ação do fogo, combinara-se ao amoníaco da carcaça para executar o esboço tal como eu o via.
     Embora desse modo procurasse eu prontamente prestar contas a minha razão, quando não, na medida do possível, a minha consciência, pelo fato alarmante que acabo de descrever, isso tampouco deixou de causar uma profunda impressão em minha imaginação. Por meses não consegui me libertar da imagem fantasmagórica do gato; e, durante esse período, voltou-me ao espírito um sentimento vago que parecia, mas não era, remorso. Cheguei a ponto de lamentar a perda do animal, e de procurar, nas sórdidas tavernas que agora me habituara a frequentar, outro bichano do mesmo tipo, e de aparência algo similar, com o qual suprir seu lugar.
     Certa noite, enquanto eu me sentava, meio entorpecido, num antro dos mais infames, minha atenção foi subitamente atraída por um objeto negro, repousando sobre a tampa de um imenso tonel de gim, ou rum, que constituía a principal peça de mobília do ambiente. Eu estivera a olhar fixamente para a tampa desse tonel por alguns minutos, e o que agora causava minha surpresa era o fato de não ter percebido antes o objeto que estava sobre ele. Aproximei-me e o toquei com a mão. Era um gato preto — muito grande — tão grande quanto Pluto, e muito parecido com ele em todos os aspectos, exceto um. Pluto não tinha um único pelo branco em todo o seu corpo; mas esse gato exibia uma mancha branca enorme, embora indefinida, a lhe cobrir toda a região do peito.
     No momento em que o toquei, ele se levantou de imediato, ronronou audivelmente, esfregou-se em minha mão e pareceu deliciado com a atenção concedida. Aquela, então, era exatamente a criatura que eu estava procurando. Ofereci-me na mesma hora para adquiri-lo junto ao dono; mas o homem afirmou que não lhe pertencia — que nada sabia do bicho — nunca o vira antes.
     Continuei com minhas carícias e quando me preparava para voltar para casa o animal evidenciou disposição de me acompanhar. Permiti que o fizesse; parando ocasionalmente e dando-lhe tapinhas carinhosos conforme andava. Quando cheguei em casa, ficou à vontade na mesma hora e imediatamente conquistou a predileção de minha mulher.
     De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém — não sei dizer como nem por que — sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus-tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente — muito gradualmente — comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.
     O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a descoberta, na manhã subsequente à noite em que o levei para casa, de que, como Pluto, ele também fora privado de um olho. Essa circunstância, entretanto, apenas o fez crescer em afeição perante minha esposa, que, como já disse, possuía, em elevado grau, essa humanidade de sentimentos que outrora havia sido meu traço característico, e a origem de muitos de meus prazeres mais singelos e puros.
     Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim pareceu aumentar. Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender. Sempre que me sentava, acomodava-se sob minha poltrona, ou pulava sobre meus joelhos, cobrindo-me com suas detestáveis carícias. Se eu me levantava para andar, metia-se entre meus pés e desse modo quase me derrubava, ou, cravando suas garras longas e afiadas em minha roupa, trepava, desse modo, até meu peito. Em momentos como esse, embora desejasse com todas as forças matá-lo de um só golpe, eu era contudo impedido de o fazer, em parte pela lembrança de meu antigo crime, mas principalmente — que eu o confesse logo de uma vez — por absoluto pavor da criatura.
     Esse pavor não era exatamente o pavor de um mal ísico — e contudo me faltariam palavras para de ini-lo de outro modo. Tenho quase vergonha de confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso, tenho quase vergonha de confessar — que o terror e o horror que esse animal me infundia haviam sido aumentados por uma das mais simples quimeras que seria possível conceber. Minha esposa chamara minha atenção, em mais de uma ocasião, para o caráter da mancha de pelo branco, da qual falei, e que constituía a única diferença visível entre o estranho animal e o outro que eu matara. O leitor haverá de recordar que essa mancha, embora grande, havia se mostrado originalmente muito indefinida; porém, mediante vagarosas gradações — gradações quase imperceptíveis, e que por longo tempo minha Razão lutou por rejeitar como fruto da imaginação —, assumira, finalmente, uma rigorosa precisão de contornos. Era agora a representação de um objeto que tremo em nomear — e por isso, acima de tudo, nutria ódio, e pavor, e teria me livrado do monstro caso ousasse — era agora, afirmo, a imagem de uma coisa hedionda — de uma coisa macabra — do PATÍBULO! — ah, pesaroso e terrível maquinismo de Horror e de Crime — de Agonia e de Morte!
     E agora eu estava de fato desgraçado para além da desgraça da mera Humanidade. E uma criatura bruta — cujo semelhante eu matara desprezivelmente — uma criatura bruta engendrara para mim — para mim, um homem, feito à imagem do Deus Altíssimo — tamanho e insuportável suplício! Ai de mim! nem de dia, nem de noite, conhecer a bênção do Descanso! Durante o dia, a criatura não me deixava mais um momento sozinho; e, à noite, eu acordava, de hora em hora, com pesadelos de indizível medo, para dar com o hálito quente da coisa sobre meu rosto, e seu vasto peso — a encarnação de um Súcubo que eu era impotente para repelir — oprimindo eternamente meu coração.
     Sob a pressão de tormentos como esses, o tênue resquício do que havia de bondade em mim cedeu. Pensamentos malignos tornaram-se meus únicos companheiros — os pensamentos mais negros e malignos. Meu temperamento habitualmente taciturno evoluiu num ódio por todas as coisas e por toda a espécie humana; ao passo que das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de uma fúria à qual eu agora cegamente me abandonava minha resignada esposa, ai de mim!, era a mais habitual e a mais paciente das vítimas.
     Certo dia ela me acompanhava, em algum serviço doméstico, ao porão da velha casa que nossa pobreza nos compelia a ocupar. O gato me seguiu pelos íngremes degraus e, quase me fazendo cair de frente, exasperou-me ao ponto da loucura. Erguendo um machado, e esquecendo, em minha ira, o pavor infantil que até então detivera minha mão, dirigi um golpe contra o animal que, sem dúvida, teria se provado instantaneamente fatal caso houvesse descido como eu desejara. Mas o golpe foi interrompido pela mão de minha esposa. Instigado por essa interferência numa fúria mais do que demoníaca, libertei meu braço e enterrei o machado em seu cérebro. Ela tombou morta imediatamente, sem um gemido.
     Executado o assassinato hediondo, procedi incontinente, e com total determinação, à tarefa de ocultar o corpo. Eu sabia que não poderia removê-lo da casa, de dia ou de noite, sem o risco de ser observado pelos vizinhos. Inúmeros planos passaram por minha mente. A certa altura, pensei em cortar o cadáver em pequenos pedaços e destruí-los no fogo. Em outro momento, resolvi cavar um buraco para enterrá-lo no chão do porão. Depois, considerei a possibilidade de jogá-lo no poço do quintal — ou de fazer um embrulho e encaixotá-lo, como se fosse uma mercadoria, tomando as usuais providências, de modo que um carregador viesse levá-lo da casa. Finalmente, ocorreu-me um expediente que julguei muito melhor do que todos esses. Decidi emparedá-lo no porão — como ouvira dizer que os monges da Idade Média faziam com suas vítimas.
     Para um tal propósito o porão se prestava bem. Suas paredes eram construídas sem firmeza, e haviam recentemente recebido uma camada grosseira de reboco, que a umidade do ambiente impedira de endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência, causada por uma falsa chaminé, ou lareira, que fora preenchida, de modo a se parecer com o restante do porão. Não tive dúvida de que seria capaz de remover facilmente os tijolos nesse lugar, inserir o cadáver e reconstruir a parede como antes, de modo que olho algum detectasse algo suspeito.
     E nesse cálculo não me equivoquei. Utilizando um pé de cabra, desloquei rapidamente os tijolos e, após escorar o corpo cuidadosamente contra a parede interna, mantive-o nessa posição, enquanto, com pouca dificuldade, refazia toda a estrutura como se mostrava originalmente. Tendo buscado argamassa, areia e crina, com todas as precauções possíveis, preparei um reboco que fosse indistinguível do antigo, e com ele procedi muito diligentemente à obra da nova alvenaria. Após terminar, observei satisfeito o trabalho bem-feito. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido perturbada. Recolhi o entulho no chão com cuidado mais do que minucioso. Olhei em torno em triunfo e disse comigo mesmo — “Aí está, pronto, meu trabalho não foi em vão”.
     Meu passo seguinte foi procurar pelo causador de tamanha desgraça; pois eu havia, en im, chegado à irme determinação de matá-lo. Tivesse eu sido capaz de encontrá-lo naquele momento, não resta dúvida sobre qual teria sido seu destino; mas ao que parecia a criatura astuciosa se alarmara com a violência de minha fúria precedente e evitava aparecer em meu presente estado de espírito. É impossível descrever, ou imaginar, a profunda, jubilosa, sensação de alívio que o sumiço do detestado animal ocasionou em meu peito. Ele não apareceu durante a noite — e assim, por uma noite, ao menos, desde que fora trazido à casa, dormi um sono profundo e tranquilo; sim senhor, dormi, mesmo com o fardo do assassinato em minha alma!
     O segundo e o terceiro dia se passaram, e ainda nem sinal de meu algoz. Eu voltava a respirar como um homem livre. O monstro, aterrorizado, fugira do lugar para sempre! Eu não o veria nunca mais! Minha felicidade era suprema! A culpa por meu ato tenebroso pouco me perturbava. Umas poucas perguntas haviam sido feitas, mas foram respondidas prontamente. Até mesmo uma busca fora empreendida — mas é claro que nada se descobrira. Eu contemplava minha futura felicidade como assegurada.
    No quarto dia após o crime, uma equipe policial veio, um tanto inesperadamente, ter à minha porta, e procedeu mais uma vez a uma rigorosa investigação da casa. Confiante, entretanto, na inescrutabilidade de meu esconderijo, mostrei grande desembaraço. Os policiais instaram que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram um único vão ou recesso por examinar. Finalmente, pela terceira ou quarta vez, desceram ao porão. Não tremi um músculo sequer. Meu coração batia tão calmamente como o de alguém no sono da inocência. Andei pelo porão de ponta a ponta. Cruzei os braços sobre o peito e perambulei para cá e para lá, tranquilo. Os policiais se deram totalmente por satisfeitos e se prepararam para ir embora. A exultação em meu coração era forte demais para ser reprimida. Eu ardia por dizer nem que fosse uma palavra, a título de triunfo, e tornar duplamente garantida sua certeza de minha inocência.
     “Senhores”, disse eu, enfim, quando os homens subiam pela escada, “alegra-me ter-lhes aplacado as suspeitas. Desejo saúde a todos, e lhes apresento mais uma vez meus respeitos. A propósito, senhores, esta — esta é uma casa muito bem construída.” (Em meu incontrolável desejo de dizer o que quer que fosse com naturalidade, eu mal fazia ideia do que falava.) — “Devo dizer, uma casa excelentemente bem construída. Estas paredes — já vão, senhores? — estas paredes são obra sólida”; e nisso, no pleno frenesi de minha bravata, bati fortemente, com a bengala que levava na mão, exatamente naquela parte da alvenaria atrás da qual jazia o cadáver de minha amantíssima esposa.
     Mas queira Deus me proteger e livrar das presas do Príncipe das Trevas! Nem bem a reverberação de minhas batidas mergulhou no silêncio, fui atendido por uma voz vinda da tumba! — por um gemido, inicialmente abafado e fraco, como de uma criança a soluçar, e depois se dilatando rapidamente em um grito longo, elevado e contínuo, inteiramente anômalo e inumano — um uivo — um guincho lamurioso, metade horror e metade triunfo, tal como só poderia ter brotado do inferno num esforço combinado das gargantas dos condenados em sua agonia e dos demônios que exultam na danação.
     De meus próprios pensamentos é tolice falar. Desfalecendo, cambaleei para a parede oposta. Por um instante, os policiais na escada permaneceram imóveis, num paroxismo de terror e perplexidade. No instante seguinte, uma dúzia de braços vigorosos avançava contra a parede. Ela veio toda abaixo. O cadáver, já grandemente decomposto e coberto de crostas de sangue, surgiu ereto ante os olhos dos presentes. Em sua cabeça, com a boca vermelha escancarada e um olho solitário de fogo, estava a hedionda criatura cuja astúcia me levara ao assassinato, e cuja voz delatora me condenara à corda do carrasco. Eu emparedara o monstro dentro da tumba!

continua página 83...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: Manuscrito encontrado numa garrafa (b)

Edgar Allan Poe - Contos


Manuscrito encontrado numa garrafa 

Aquele a quem não resta senão um momento de vida 
Nada mais tem a esconder. 
Quinault, Atys
continuando...

     Um sentimento para o qual não tenho nome apossou-se de minha alma — uma sensação que não admitirá quaisquer análises, para a qual as lições do tempo passado são inadequadas, e de cuja compreensão receio nem sequer o próprio futuro detém alguma chave. Para uma mente constituída como a minha, esta última consideração é uma desgraça. Jamais — sei que jamais — me darei por satisfeito com respeito à natureza de minhas impressões. E contudo, não é de admirar que essas impressões sejam indefinidas, uma vez que se originam de fontes tão completamente inéditas. Uma nova percepção — uma nova entidade passou a integrar minha alma.

*** 

     Já é decorrido um longo tempo desde que pisei pela primeira vez nos deques deste terrível navio, e os raios de meu destino estão, creio, convergindo em um foco. Homens incompreensíveis! Absortos em meditações de um tipo que me é vedado intuir, passam por mim sem me notar. Esconder-me foi uma completa tolice de minha parte, pois essa gente não me enxerga. Agora mesmo passei diretamente diante dos olhos do imediato; isso foi pouco depois de haver me aventurado pela cabine particular do próprio capitão, apropriando-me ali dos materiais com que ora escrevo, e tenho escrito. Continuarei a retomar esse diário de tempos em tempos. É verdade que provavelmente não encontrarei oportunidade de transmiti-lo ao mundo, mas não pretendo abrir mão de tentar. No último momento, tratarei de encerrar o manuscrito numa garrafa, e vou lançá-la ao mar.

***

     Ocorreu um incidente que me proporcionou novo ensejo para reflexão. São tais coisas o incontrolado acaso em operação? Aventurei-me pelo convés e larguei-me, sem atrair qualquer atenção, entre uma pilha de cabos de enfrechates e velas usadas, no fundo do escaler. Enquanto cismava na singularidade de meu destino, aplicava pinceladas distraídas com uma brocha alcatroada às beiradas de um cutelo cuidadosamente dobrado sobre um barril perto de mim. Essa vela está agora envergada no alto do navio e as irrefletidas pinceladas da brocha formaram a palavra DESCOBERTA.
     Tenho feito muitas observações ultimamente sobre a estrutura da embarcação. Embora bem armada, ela não é, creio eu, uma belonave. Seu cordame, feitio e aparelhamento geral constituem todos uma negativa a suposições nesse sentido. O que ela não é eu o posso perceber facilmente; o que ela é receio ser impossível dizer. Não sei como isso se dá, mas ao escrutinizar seu estranho modelo e singular disposição de vergas, seu tamanho imenso e velame prodigioso, sua proa austeramente simples e popa antiquada, ocasionalmente cruza minha mente a sensação de coisas familiares, e sempre vem misturada a essas sombras indistintas da memória uma inexplicável lembrança de antigas narrativas estrangeiras e de eras perdidas no tempo.

***

     Tenho estado a observar o arcabouço do navio. É construído de um material que desconheço. Há qualquer coisa de peculiar no caráter da madeira que a meu ver parece torná-la extremamente imprópria para o uso a que foi destinada. Re iro-me a sua extrema porosidade, considerada independentemente da condição carcomida que advém de navegar por esses mares, e à parte a podridão que seria de esperar da idade. Parecerá talvez uma observação até certo ponto curiosa, mas esse madeirame apresentaria todas as características do carvalho espanhol, pudesse o carvalho espanhol ser dilatado por quaisquer meios não naturais.
     Lendo o período acima, um curioso apotegma de um curtido navegador holandês me volta subitamente à memória. “É tão certo”, costumava ele dizer quando alguma dúvida era lançada sobre seu apego à verdade, “tão certo quanto existe um oceano onde o próprio navio cresce em tamanho como o corpo vivente de um marujo.”

***

     Há mais ou menos uma hora, tomei coragem e fui me enfiar entre um grupo da tripulação. Não prestaram a menor atenção em mim e, embora eu ficasse bem no meio deles todos, pareciam completamente alheios à minha presença. Como aquele primeiro que vi no porão, ostentavam todos as marcas encanecidas de uma velhice provecta. Seus joelhos tremiam de enfermidade; seus ombros vergavam acentuadamente de decrepitude; suas peles enrugadas repercutiam com o vento; suas vozes eram baixas, trêmulas e alquebradas; seus olhos luziam com a reuma dos anos; e seus cabelos grisalhos desgrenhavam-se terrivelmente na tempestade. Em torno deles, por toda parte no convés, jaziam espalhados instrumentos matemáticos da construção mais antiquada e obsoleta.

***

     Mencionei, faz algum tempo, o envergamento de um cutelo. Desse período em diante, o navio, com vento à popa arrasada, prosseguiu em seu terrível curso rumo sul, com cada farrapo de pano enfunado sobre ele, desde suas pegas até os mais baixos botalós de cutelo, e mergulhando a todo momento os lais das vergas de seus joanetes no mais apavorante inferno líquido que a mente humana jamais pôde conceber. Acabo de deixar o convés, onde me é impossível continuar de pé, embora a tripulação pareça experimentar pouco inconveniente. A mim parece um milagre dos milagres que nosso maciço volume não tenha sido tragado de uma vez para todo o sempre. Estamos decerto condenados a continuar lutuando no limiar da eternidade, sem nunca dar esse derradeiro mergulho no abismo. De vagalhões mil vezes mais estupendos do que qualquer um que algum dia já vi afastamo-nos deslizando com o desembaraço da célere gaivota; e as águas colossais erguem suas cabeças acima de nós como demônios das profundezas, mas como demônios restritos a simplesmente ameaçar, e proibidos de destruir. Sou levado a atribuir essas evasões frequentes à única causa natural capaz de explicar tal efeito. Devo supor que o navio esteja sob a influência de alguma forte corrente oceânica, ou de uma impetuosa contracorrente de fundo.

***

     Vi o capitão frente a frente, e em sua própria cabine — porém, como esperado, ele não prestou a menor atenção em mim. Embora em sua aparência não haja, para o observador casual, nada capaz de indicar alguém acima ou abaixo do comum dos homens, ainda assim um sentimento de irreprimível reverência e assombro mesclou-se à sensação de portento com que o contemplei. Em compleição, é quase de minha própria estatura; ou seja, cerca de um metro e setenta. Tem o corpo bem constituído e compacto, nem robusto, nem eminentemente o contrário. Mas é a singularidade da expressão dominante em seu rosto — a intensa, prodigiosa, cativante evidência de idade provecta, tão absoluta, tão extrema, que anima em meu espírito uma sensação — um sentimento inexprimível. Sua testa, embora pouco enrugada, parece ostentar sobre si a marca de uma miríade de anos. Seus cabelos cinza são registros do passado, e seus olhos ainda mais cinzentos são sibilas do futuro. O chão da cabine estava forrado de estranhos in-fólios encadernados com dobradiças de ferro, instrumentos científicos desfeitos, mapas arcaicos e obsoletos. Sua cabeça estava curvada entre as mãos, e ele perscrutava, com um olhar febril, inquieto, um papel que julguei ser uma carta de comissão, e que, em todo caso, exibia a assinatura de um monarca. Resmungava malcriadamente consigo mesmo — assim como fazia o primeiro marujo que vi no porão — algumas palavras em uma língua estrangeira; e embora o homem estivesse a um palmo de mim, sua voz parecia chegar aos meus ouvidos da distância de uma milha.

***

     O navio e tudo que nele vai estão imbuídos do espírito de uma era ancestral. A tripulação se move de um lado para o outro como os fantasmas de séculos sepultados; seus olhos transmitem impaciência e inquietação; e quando suas silhuetas cruzam meu caminho ao clarão fantástico das lanternas de combate, sinto algo que nunca senti antes, ainda que tenha sido um negociante de antiguidades por toda a minha vida, e me deixado embeber pelas sombras de colunas caídas em Balbec, Tadmor, Persépolis, até minha própria alma ter se tornado uma ruína.

***

     Quando olho em torno de mim, sinto vergonha de minhas antigas apreensões. Se tremi ante a tempestade que até o momento nos acompanhou, o que devo sentir senão o mais puro terror diante de um confronto bélico entre o vento e o oceano, do qual palavras como tornado e simum transmitem apenas uma ideia limitada e imprecisa? Tudo na vizinhança imediata do navio é o negror da noite eterna e um caos de águas sem espumas; mas a cerca de uma légua de ambos os lados de nós podem ser vistos, indistintamente e a intervalos, estupendos baluartes de gelo, assomando imponentes contra o céu desolado, e parecendo as muralhas do universo.

***

     Como imaginei, o navio mostra estar em uma corrente — se essa denominação pode apropriadamente ser conferida a um luxo oceânico que, uivando e guinchando nas imediações do gelo branco, segue trovejando na direção sul com velocidade semelhante à violenta precipitação de uma catarata.

***

     Conceber o horror de minhas sensações é, presumo, completamente impossível; contudo, uma curiosidade de penetrar nos mistérios dessas plagas espantosas predomina até mesmo sobre meu desespero, e me trará resignação perante o aspecto sumamente hediondo da morte. É evidente que singramos velozmente rumo a uma empolgante compreensão — algum segredo fadado a jamais ser partilhado, cujo conhecimento acarreta destruição. Talvez essa corrente nos leve ao próprio polo austral. É forçoso confessar que uma suposição aparentemente tão ousada conta com toda probabilidade a seu favor.

***

     A tripulação anda de um lado a outro pelo convés com passadas trêmulas; mas observa-se em seus semblantes antes uma expressão de ansiedade esperançosa do que a apatia do desespero.
     Nesse ínterim, o vento segue soprando de popa e, por carregarmos essa infinidade de velas, o navio às vezes se eleva, de casco e tudo, acima do oceano! Oh, horror sobre horror! — o gelo se abre subitamente à direita, e à esquerda, e rodopiamos vertiginosamente, em imensos círculos concêntricos, girando e girando pelas bordas de um gigantesco anfiteatro cujas paredes no alto se perdem nas trevas e na distância. Mas pouco tempo ainda me resta para refletir sobre meu destino! Os círculos rapidamente ficam cada vez menores — mergulhamos desvairadamente nas garras da voragem — e em meio aos rugidos, aos clamores, aos estrondos do oceano e da tempestade, o navio estremece — ai, Deus! e —— desce!

Nota: O “Manuscrito encontrado numa garrafa” foi originalmente publicado em 1831 [1833]; e não foi senão depois de muitos anos que tomei conhecimento das cartas de Mercator, em que o oceano é representado como correndo, por quatro bocas, para dentro do Abismo Polar (ao norte), de modo a ser engolido pelas entranhas da Terra; o próprio polo é representado por um rochedo negro, assomando a prodigiosa altura. 

continua página 72...
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Manuscrito encontrado numa garrafa (a) / Manuscrito encontrado numa garrafa (b) / O gato preto /                  
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: Manuscrito encontrado numa garrafa (a)

Edgar Allan Poe - Contos


Manuscrito encontrado numa garrafa 

Aquele a quem não resta senão um momento de vida 
Nada mais tem a esconder. 
Quinault, Atys


     De meu país e de minha família pouco tenho a dizer. Maus costumes e o passar dos anos afastaram-me de um e distanciaram-me da outra. A riqueza herdada proporcionou-me uma educação acima da média e uma disposição de espírito contemplativa permitiu-me sistematizar os tesouros que um estudo precoce muito diligentemente armazenou. Mais do que quaisquer outras, as obras dos moralistas alemães ocasionaram-me grande deleite; não devido a uma mal-avisada admiração de sua eloquente loucura, mas pela facilidade com que meus hábitos de rígido pensamento capacitaram-me a detectar suas falsidades. Muitas vezes fui censurado pela aridez de meu intelecto; uma deficiência de imaginação já me foi imputada como um crime; e o pirronismo de minhas opiniões trouxe-me notoriedade em toda e qualquer circunstância. Na verdade, receio que um forte apetite pela filosofia física tenha impregnado minha mente com um equívoco muito comum de nossos tempos — refiro-me ao fato de relacionar os acontecimentos, até mesmo o menos suscetível de tal relação, aos princípios dessa ciência. Consideradas todas as coisas, não existe pessoa menos inclinada do que eu a se afastar da austera jurisdição da verdade pelos ignes fatui da superstição. Julguei apropriado postular tudo isso de antemão ou de outro modo a incrível história que tenho para contar seria considerada antes a demência de uma imaginação desabrida do que a experiência positiva de uma mente para a qual as quimeras da fantasia têm constituído letra morta e nulidade.
     Após muitos anos passados em viagens pelo estrangeiro, parti no ano de 18— do porto de Batávia, na rica e populosa ilha de Java, com destino ao arquipélago das ilhas da Sonda. Fui na condição de passageiro — não tendo nenhum outro incentivo que não uma espécie de inquietude excitável que me perseguia como um demônio.
     Nossa embarcação era um lindo navio de cerca de quatrocentas toneladas, feito com cavilhas de cobre e construído em Bombaim com teca de Malabar. Ia carregado de algodão em rama e óleo, das ilhas Laquedivas. Levávamos a bordo também fibra de coco, jagra, manteiga ghee, cocos e algumas caixas de ópio. A estiva fora malfeita e a embarcação consequentemente tendia a adernar.
     Pusemo-nos a caminho com uma mera brisa e durante muitos dias permanecemos ao largo da costa oriental de Java sem qualquer outro incidente para fazer esquecer a monotonia de nosso curso além do ocasional encontro com alguma das pequenas embarcações do arquipélago para o qual rumávamos.
     Certo dia, ao anoitecer, apoiando-me no balaústre de popa, observei uma nuvem deveras singular e isolada a noroeste. O que havia de notável, além de sua cor, era o fato de ser a primeira que avistávamos desde a partida de Batávia. Observei-a atentamente até o sol se pôr, quando ela se esparramou inteira de repente no sentido leste–oeste, cingindo o horizonte com uma estreita faixa vaporosa e assumindo a aparência de uma longa linha de praia baixa. Minha atenção foi pouco depois atraída pelo aspecto vermelho e crepuscular da lua e pelo peculiar caráter do oceano. Este último passava por rápida mudança, e a água parecia de uma transparência acima do normal. Embora pudesse enxergar nitidamente o fundo, ao içar o prumo descobri que o navio se encontrava a uma profundidade de quinze braças. O ar agora tornava-se intoleravelmente quente e carregado de exalações espiraladas semelhantes às que sobem do ferro aquecido. Quando a noite chegou, todo sopro de ar desapareceu, e uma calmaria mais completa é impossível de se conceber. A chama de uma vela ardia sobre a popa sem o menor movimento perceptível, e um longo io de cabelo, seguro entre o indicador e o polegar, pairava sem que fosse possível detectar qualquer vibração. Entretanto, conforme a irmou o capitão, ele não conseguia perceber nenhum indício de perigo e, como éramos levados na direção da costa, ordenou o ferrar dos panos e que a âncora fosse lançada. Nenhum quarto de vigia foi determinado, e a tripulação, consistindo principalmente de malaios, largou-se deliberadamente pelo convés. Desci — não sem um pressentimento muito forte de algum infortúnio. Na verdade, todas as aparências me autorizavam a recear um simum. Relatei meus temores ao capitão; mas ele não prestou a menor atenção no que eu disse e deixou-me sem se dignar a me conceder resposta. Meu desconforto, entretanto, impediu-me de pegar no sono, e por volta da meia-noite subi para o convés. Ao pisar no último degrau da escada de tombadilho, sobressaltei-me com um zumbido alto como o que é ocasionado pela rápida rotação de uma roda de moinho e, antes que fosse capaz de averiguar seu significado, percebi que o centro do navio vibrava. No instante seguinte, um vasto manto espumante fez a embarcação adernar acentuadamente e, rugindo sobre nós por toda a sua extensão, varreu todos os conveses de proa a popa.
     A fúria extrema da borrasca se provou, em grande medida, ser a salvação do navio. Embora completamente cheio d'água, como, além disso, seus mastros haviam caído pela amurada, ele, após um minuto, ergueu-se pesadamente do oceano e, oscilando um pouco sob a imensa pressão da tempestade, finalmente se endireitou.
     Mediante que milagre escapei do im é impossível dizer. Atordoado pelo choque da água, dei comigo mesmo, ao me recobrar, en iado entre o cadaste e a roda do leme. Com grande dificuldade me pus de pé e, olhando em torno, a cabeça girando, fui inicialmente tomado pela ideia de que nos encontrávamos em meio à rebentação de rochedos; tão terrível, além da imaginação mais desbragada, era o turbilhão oceânico montanhoso e espumante que nos engolfara. Após algum tempo, escutei a voz de um velho sueco que subira a bordo no momento em que deixávamos o porto. Saudei-o com todas as forças e não tardou para que se dirigisse à popa, cambaleante. Logo descobrimos ser os únicos sobreviventes do navio. Todos sobre o convés, com exceção de nós mesmos, foram varridos para o mar; o capitão e os imediatos deviam ter perecido enquanto dormiam, pois as cabines haviam sido inundadas. Sem auxílio, não podíamos esperar fazer muita coisa pela segurança da embarcação e nossos esforços icaram inicialmente paralisados com a expectativa momentânea de ir a pique. Nosso cabo da âncora havia, é claro, se partido como barbante de embrulho ao primeiro sopro do furacão, ou de outro modo teríamos sucumbido instantaneamente. Singrávamos o oceano com velocidade assombrosa e a água abria visíveis brechas por toda parte. A estrutura à popa estava extremamente dani icada e, em quase todos os aspectos, havíamos sofrido consideráveis avarias; mas para nossa suprema alegria demos com as bombas desobstruídas e vimos que nosso lastro não saíra demasiado do lugar. O pior da fúria da borrasca já amainara e entendíamos haver pouco perigo na violência do vento; mas antecipávamos sua total cessação com desalento; acreditando piamente que em nossa condição avariada pereceríamos inevitavelmente nas tremendas vagas da ressaca que se seguiria. Mas essa bem fundada apreensão não pareceu de modo algum perto de se veri icar. Durante cinco dias e cinco noites — nos quais nosso único meio de subsistência foi uma pequena quantidade de jagra, resgatada a grande custo do castelo de proa —, nossa precária nau deslizou a uma velocidade que desa ia o cálculo, sob uma rápida sucessão de súbitas ventanias, que, embora não se igualando em violência à rajada inicial do simum, foram ainda assim mais terríveis do que qualquer outra tempestade por mim presenciada. Nosso curso ao longo dos quatro primeiros dias foi, com variações desprezíveis, sudeste a um quarto de sul; e devemos ter descido pela costa da Nova Holanda. No quinto dia o frio tornou-se extremo, embora o vento houvesse passado a soprar um ponto mais para o norte. O sol despontou com um brilho amarelo fraco e subiu muitos poucos graus acima do horizonte — sem emitir nenhuma luz determinada. Não havia nuvens à vista, e contudo o vento ganhava cada vez mais força, soprando em furiosas rajadas irregulares, intermitentes. Perto do meio-dia, o mais próximo disso que podíamos supor, nossa atenção foi mais uma vez atraída pelo surgimento do sol. Ele não emitia luz alguma propriamente dita, mas um fulgor baço e sem reflexo, como se todos os seus raios estivessem polarizados. Pouco antes de afundar no mar túrgido, seu clarão central subitamente se extinguiu, como que apagado às pressas por algum poder inexplicável. E não passava de um aro esmaecido com o lustro da prata ao afundar no oceano insondável.
     Esperamos em vão pela chegada do sexto dia — dia que para mim ainda não chegou — e que para o sueco jamais chegará. Daí em diante fomos envolvidos por trevas negras como breu, a ponto de não conseguirmos enxergar um objeto a vinte passos¹ da embarcação. Seguimos mergulhados em uma noite eterna que não era abrandada nem pelo fosfórico brilho marinho a que estamos habituados nos trópicos. Observamos também que, embora a tempestade continuasse a se enfurecer com violência implacável, não mais nos deparávamos com a usual aparência de rebentação, ou espuma, que até então nos havia acompanhado. Tudo em torno era horror, e trevas espessas, e um negro e opressivo deserto de ébano. O terror supersticioso insinuou-se gradativamente no espírito do velho sueco, e minha própria alma permanecia envolta em silenciosa estupefação. Deixamos de lado todo o cuidado com o navio, como coisa mais do que inútil, e, prendendo-nos o melhor possível ao toco remanescente do mastro da mezena, contemplamos amargamente a imensidade oceânica. Não tínhamos meio algum de calcular o tempo, tampouco podíamos conjecturar de algum modo nossa localização. Tínhamos, entretanto, plena consciência de ter ido mais longe na direção sul do que quaisquer navegadores precedentes, e icamos grandemente admirados de não colidir com os usuais obstáculos de gelo. Nesse meio-tempo, cada momento ameaçava ser nosso último — cada monstruoso vagalhão precipitando-se para nos emborcar. As ondas ultrapassavam qualquer coisa que eu imaginava possível e o fato de não submergirmos imediatamente era um milagre. Meu companheiro falou da leveza de nossa carga e lembrou-me das excelentes qualidades do navio; mas eu não conseguia deixar de sentir a completa inutilidade de qualquer esperança e preparei-me sombriamente para a morte que a meu ver nada podia protelar em mais de uma hora, à medida que, a cada nó avançado pelo navio, a descomunal elevação dos mares negros tornava-se mais desoladoramente apavorante. Ora o ar nos faltava, ao cavalgar vagas que ascendiam para além do albatroz — ora éramos acometidos pela vertigem, com a velocidade de nossa descida em algum inferno líquido onde o ar ficava cada vez mais estagnado e onde som algum perturbava o sono do Kraken.

[1] Paces, unidade de comprimento; cerca de quinze metros, neste caso.


     Estávamos no fundo de um desses abismos quando um breve grito de meu companheiro rasgou angustiadamente a noite. “Ali! ali!”, berrou estridente em meus ouvidos, “Deus Todo-Poderoso! ali! ali!” Enquanto ele falava, tomei consciência de uma luminescência vermelha, embaciada e lúgubre que vertia pelas paredes da vasta garganta onde nos achávamos e lançava um brilho intermitente sobre nosso convés. Voltando meus olhos para o alto, contemplei um espetáculo que gelou o sangue em minhas veias. A uma terrível altura, diretamente acima de nós, e bem na beirada do declive escarpado, pairava um navio gigantesco, de talvez quatro mil toneladas. Embora empinando no cume de uma onda com mais de cinquenta vezes sua própria altura, seu tamanho aparente ainda assim excedia o de qualquer navio de linha ou embarcação da Companhia das Índias Orientais existente. Seu imenso casco era de um negro profundo e fuliginoso não atenuado por nenhum desses costumeiros entalhes de um navio. Uma única fileira de canhões de bronze se projetava de suas portinholas abertas, desferindo das superfícies polidas o fogo de inumeráveis lanternas de combate que oscilavam de um lado para outro entre o cordame. Mas o que mais nos encheu de horror e assombro foi que velejava a todo pano na plena fúria daquele mar sobrenatural e daquele furacão desgovernado. No momento em que o avistamos, inicialmente, a curvatura de seu beque era a única parte visível, conforme o navio ascendia vagarosamente do abismo escuro e tenebroso atrás de si. Por um momento de intenso terror ele ficou imóvel sobre o vertiginoso pináculo, como que a contemplar a própria sublimidade, então estremeceu, oscilou — e precipitou-se.
     Nesse instante, não sei que súbito autocontrole se apossou de meu espírito. Cambaleando em direção à popa o máximo que pude, aguardei sem medo o desastre prestes a se abater. Nossa própria embarcação havia enfim cessado de lutar e mergulhava a vante no oceano. O choque da massa despencando atingiu-a, consequentemente, na parte de sua estrutura que já se encontrava sob a água e o resultado inevitável foi me lançar, com violência irresistível, sobre o cordame da outra nau.
     Conforme eu caía, o navio deu uma guinada e virou de bordo; e à confusão que se seguiu atribuo o fato de ter escapado à atenção da tripulação. Não me foi difícil chegar sem ser percebido à escotilha principal, que estava parcialmente aberta, e logo encontrar uma oportunidade de me esgueirar em segredo para dentro do porão. Por que fiz tal coisa não sei dizer ao certo. Uma sensação indefinida de assombro, que a um primeiro exame dos navegadores a bordo se apossou de meu espírito, foi talvez o motivo de minha ocultação. Não me senti inclinado a confiar minha pessoa a uma raça de gente que oferecia, ao olhar superficial que eu lhes lançara, tantos aspectos de vaga novidade, dúvida e apreensão. Desse modo julguei por bem conceber um esconderijo no porão. Para isso, removi uma pequena parte das anteparas, de modo a proporcionar para mim um refúgio conveniente em meio ao imenso cavername do navio.
     Mal completara minha obra quando o som de passos no porão forçou-me a dela lançar mão. Um homem passou próximo de meu esconderijo com um andar débil e vacilante. Não pude ver seu rosto, mas tive oportunidade de observar sua aparência geral. Nela se evidenciava idade avançada e uma condição enfermiça. Seus joelhos bambeavam sob o fardo dos anos, e todo o seu ser estremecia em suportá-lo. Murmurava consigo mesmo, em um tom baixo e alquebrado, palavras de uma língua que não pude compreender, e tateou até um canto entre uma pilha de instrumentos de aparência singular e velhas cartas de navegação deterioradas. Seus modos eram uma mistura desconcertante de malcriação da segunda infância e da solene dignidade de um Deus. Até que finalmente subiu para o convés e não mais o vi.

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continua página 64...
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Manuscrito encontrado numa garrafa (a) / Manuscrito encontrado numa garrafa (b) /                 
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Poço e o Pêndulo (b)

Edgar Allan Poe - Contos


O Poço e o Pêndulo 

Aqui por muito tempo os impiedosos torturadores nutriram 
o insaciável furor da turba pelo sangue dos inocentes. 
Agora que a pátria está a salvo, e o antro fúnebre foi destruído, 
onde antes havia morte surgem vida e bem-estar.
(Quadra composta para os portões de um mercado a ser erguido 
no local onde ficava o Clube dos Jacobinos, em Paris.)
continuando...

     Tudo isso enxerguei indistintamente e com grande esforço — pois minha situação pessoal se alterara grandemente durante o sono. Eu agora jazia deitado de costas, e com o corpo inteiro, em algum tipo de estrutura de madeira pouco elevada. Prendia-me fortemente a isso uma longa correia parecida com uma sobrecilha. Ela passava em muitas voltas pelos meus membros e meu corpo, deixando em liberdade apenas minha cabeça, e meu braço esquerdo, numa extensão tal que eu pudesse, por meio de enorme esforço, servir-me da comida em um prato de cerâmica que jazia ao meu lado no chão. Vi, para meu horror, que a jarra fora retirada. Digo para meu horror — pois a mim me consumia uma sede intolerável. Sede que aparentemente era parte do plano de meus algozes estimular — pois a comida no prato era uma carne de tempero pungente.
     Olhando para cima, perscrutei o teto de minha prisão. Ficava a cerca de dez ou doze metros de altura, e era construído bem à feição das paredes. Em um de seus painéis uma figura muito singular captou minha completa atenção. Era a figura pintada do Tempo como é normalmente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava o que, a um olhar casual, supus ser a imagem pintada de um imenso pêndulo, tal como se veem em relógios antigos. Havia alguma coisa, entretanto, na aparência dessa máquina que me levou a olhar para ela mais atentamente. Enquanto eu a fitava diretamente (pois sua posição era imediatamente acima de onde me encontrava), julguei vê-la se movimentar. Um instante depois minha imaginação foi confirmada. Seu vaivém foi breve, e, é claro, vagaroso. Fiquei olhando por alguns minutos para aquilo, em certa medida com medo, porém antes admirado. Cansando-me enfim de observar seu moroso movimento, desviei os olhos para os outros objetos na cela.
     Um ligeiro ruído chamou minha atenção e, olhando para baixo, vi inúmeros ratos enormes passando pelo chão. Haviam saído do poço, que eu mal podia enxergar à minha direita. Mesmo então, enquanto os observava, eles subiam aos bandos, apressados, com olhos famintos, atiçados pelo cheiro da carne. Desse momento em diante foi-me exigido tremendo esforço e concentração para espantá-los.
     Isso talvez tenha se dado meia hora antes, ou quem sabe uma hora (pois me era impossível manter uma percepção senão imperfeita do tempo), que eu me pegasse dirigindo o olhar outra vez para o alto. O que vi nesse momento ocasionou-me confusão e assombro. O vaivém do pêndulo aumentara em cerca de um metro de extensão. Como consequência natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que mais me perturbou foi a ideia de que havia perceptivelmente descido. Eu observava agora — com que horror é desnecessário dizer — que sua extremidade inferior era formada por um crescente de aço cintilante, com cerca de trinta centímetros de extensão de um corno a outro; os cornos curvados para o alto, e a parte de baixo evidentemente tão afiada quanto uma navalha de barbeiro. Como uma navalha igualmente, parecia maciça e pesada, a ilando-se a partir do gume em uma sólida e larga estrutura acima. O instrumento era afixado a uma pesada barra de bronze e a peça toda sibilava em suas oscilações através do ar.
     Não havia mais como duvidar da sina para mim preparada pela engenhosidade em tortura dos monges. Minha descoberta do poço chegara ao conhecimento dos inquisidores — o poço, cujos horrores haviam sido destinados a um herege ousado como eu —, o poço, emblemático do inferno, e disseminado de boca em boca como a Ultima Thule de todas suas punições. O mergulho nesse poço, eu o evitara apenas pelo mais casual dos acidentes, e tinha consciência de que a surpresa, ou uma armadilha de tormento, compunha importante elemento de todo o grotesco dessas mortes no calabouço. Tendo-me furtado à queda, não fazia parte dos planos do demônio empurrar-me para o abismo; e assim (por não haver alternativa) uma aniquilação diferente e mais branda me aguardava. Mais branda! Quase sorri em minha agonia ao pensamento de aplicar dessa forma um tal termo.
     De que adianta contar sobre as horas intermináveis de horror mais do que mortal, durante as quais fiquei a enumerar as sibilantes oscilações do aço! Polegada por polegada — linha por linha — com um avanço descendente apreciável apenas a intervalos que se davam como eras — descendo, descendo! Dias se passaram — podia ter acontecido de muitos dias terem se passado — até se deslocar tão próximo de mim que me abanava com seu acre hálito. O odor do aço afiado invadiu-me as narinas. Orei — enfastiei os céus de tanto orar por uma descida mais rápida. A fúria da loucura se apossou progressivamente de mim e lutei para forçar o corpo contra o vaivém da temível cimitarra. E então fiquei subitamente calmo, e aguardei sorrindo a morte cintilante, como uma criança diante de algum raro bibelô.
     Houve mais um outro intervalo de total insensibilidade; foi breve; pois, ao voltar de novo à vida, mais nenhuma descida perceptível do pêndulo se fazia notar. Mas podia acontecer de ter sido longo — pois eu sabia haver demônios observando meu desfalecimento, e que poderiam se comprazer em deter as oscilações. Ao recobrar os sentidos, também, senti-me deveras — ah, indizivelmente — esgotado e fraco, como que a voltar de longa inanição. Mesmo em meio às agonias desse período, a natureza humana clamava por alimento. Com doloroso esforço, estendi o braço esquerdo o mais longe que minhas correias permitiam, e me apossei da pequena sobra que os ratos haviam me deixado. Ao enfiar a porção entre meus lábios, invadiu-me a mente um pensamento incipiente de alegria — de esperança. E contudo, o que queria eu com a esperança? Foi, como disse, um pensamento incipiente — o homem tem tantos desses que jamais são completados. Senti que era de alegria — de esperança; mas senti também que havia perecido já ao se formar. Em vão lutei por completá-lo — por recuperá-lo. O sofrimento prolongado quase aniquilara todas as minhas faculdades comuns de pensamento. Eu era um imbecil — um idiota.
     A oscilação do pêndulo se dava em ângulo reto com o comprimento de meu corpo. Vi que o crescente estava destinado a cruzar a região do coração. Iria desfiar a sarja de meu robe — iria voltar e repetir a operação — outra vez — e outra vez. Não obstante o vaivém terrivelmente extenso (cerca de dez metros ou mais) e o vigor sibilante de sua descida, suficiente para cindir as próprias paredes de ferro, ainda assim o esfiapar de minha roupa seria tudo que, por vários minutos, ele realizaria. E, ao me sobrevir esse pensamento, hesitei. Não ousava ir além dessa reflexão. Demorei-me nele com uma atenção obstinada — como se, ao fazê-lo, pudesse manter aí a descida do aço. Forcei-me a ponderar sobre o som do crescente quando passasse através do pano — sobre a peculiar sensação de estremecimento que a fricção de tecido produz nos nervos. E ponderei sobre toda essa frivolidade até ficar com os nervos à flor da pele.
     Descendo — descendo lenta e regularmente. Extraí um prazer maníaco de contrastar seu movimento para baixo com sua velocidade lateral. Para a direita — para a esquerda — por toda parte — guinchando como um espírito maldito! em meu íntimo, com o passo furtivo do tigre! E alternadamente ria e gemia, conforme uma ou outra ideia ganhava a predominância.
     Descendo — resolutamente, descendo inexoravelmente! Ele vibrava a um palmo de meu peito! Lutei violentamente — furiosamente — para liberar meu braço esquerdo. Estava livre apenas do cotovelo à mão. Eu conseguia esticá-la, pegando do prato ao meu lado e levando-a à boca, com grande esforço, mas nada além disso. Pudesse eu ter rompido as amarras acima do cotovelo, teria agarrado e tentado deter o pêndulo. Poderia perfeitamente ter tentado deter uma avalanche!
     Descendo — ainda incessantemente — ainda descendo, implacavelmente! Eu ofegava e me contorcia a cada vibração. Encolhia convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos acompanhavam esses ciclos para os lados ou para cima com a avidez do mais absurdo desespero; cerravam-se espasmodicamente ao vê-lo descer, embora a morte teria sido um alívio, ah, quão inefável! Mesmo assim, eu estremecia em cada nervo de pensar quão insignificante bastava ser a descida do maquinário para precipitar aquele machado afiado e cintilante contra meu peito. Era a esperança que impelia os nervos a tremer — o corpo a encolher. Era a esperança — a esperança que triunfa na tortura — que sussurra para o condenado à morte até mesmo nos calabouços da Inquisição.
     Percebi que mais dez ou doze oscilações trariam a lâmina a um contato efetivo com meu robe — e ao observar isso de repente baixou sobre meu espírito toda a tranquilidade lúcida, serena, do desespero. Pela primeira vez em muitas horas — ou talvez dias — eu pensava. Agora me ocorria que a amarra, ou sobrecilha, que me cingia era a única coisa. Eu não estava preso por nenhuma outra atadura. O primeiro golpe transversal daquela navalha em meia-lua contra qualquer parte da cinta a soltaria de tal modo que talvez eu pudesse livrá-la de meu corpo com o uso da mão esquerda. Mas quão terrível, nesse caso, a proximidade da lâmina! O resultado do mais leve esforço, quão mortal! Seria plausível, além do mais, que os subordinados do torturador não tivessem previsto e se precavido contra essa possibilidade? Haveria alguma probabilidade de que a faixa cruzasse meu peito no trajeto do pêndulo? Receando ver minha débil e, ao que tudo indicava, derradeira esperança frustrada, ergui ao máximo a cabeça para obter uma visão desobstruída de meu tórax. A sobrecilha envolvia estreitamente meus membros e meu corpo em todas as direções — exceto no caminho do crescente aniquilador.
     Mal deixara cair a cabeça para trás em sua posição original, quando lampejou em minha mente o que não posso descrever melhor do que a metade informe daquela ideia de libertação à qual aludi previamente, e da qual apenas uma metade flutuava incertamente por meu cérebro quando eu levava a comida aos meus lábios em fogo. O pensamento todo agora se me apresentava — fraco, no limiar da insanidade, no limiar da materialidade — mas ainda assim completo. Procedi de pronto a tentar sua execução, com a energia nervosa do desespero.
     Havia horas que a proximidade imediata da estrutura baixa de madeira na qual eu jazia literalmente enxameava de ratos. Selvagens, ousados, famintos — seus olhos vermelhos brilhando em minha direção como se só esperassem a imobilidade de minha parte para tornar-me sua presa. “Com que alimento”, pensei eu, “acostumaram-se eles no poço?”
     Haviam devorado, a despeito de todos os meus esforços para impedi-los, tudo, exceto um pequeno resto do que continha o prato. Eu me habituara a um movimento de sobe e desce, um abano de mão, na imediação do prato; e, com o tempo, a uniformidade inconsciente do movimento privou-o de seu efeito. Em sua voracidade, as criaturas daninhas frequentemente cravavam suas presas afiadas em meus dedos. Com as partículas da vianda gordurosa e condimentada que ainda restavam, esfreguei exaustivamente a correia em todos os pontos que fui capaz de alcançar; então, removendo a mão do piso, permaneci imóvel, quase sem respirar.
     No início, os animais famintos ficaram sobressaltados e atemorizados com a mudança — com a cessação de movimento. Recuaram alarmados; muitos buscaram o poço. Mas isso durou apenas um instante. Eu não contara em vão com sua voracidade. Observando que continuava imóvel, um ou dois mais audaciosos saltaram sobre o estrado e farejaram a sobrecilha. Isso pareceu a deixa para um tropel generalizado. Vieram correndo do poço em novos bandos. Agarraram-se à madeira — correram sobre ela e pularam às centenas em cima de mim. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbou nem um pouco. Evitando seus golpes, ocupavam-se com a amarra besuntada. Pululando — enxameando sobre mim em amontoados cada vez maiores. Contorcendo-se por minha garganta; seus lábios frios tocando os meus; eu quase sufocava com suas hordas fervilhantes; um asco para o qual o mundo não tem nome intumesceu meu peito e enregelou, com uma pesada viscosidade, meu coração. Contudo, mais um minuto e eu sentia que a luta chegaria ao fim. Percebi claramente o afrouxamento da amarra. Sabia que em mais de um ponto ela já devia estar partida. Com resolução mais do que humana permaneci imóvel.
     Eu não havia errado em meus cálculos — eu não havia suportado aquilo em vão. Finalmente, senti que estava livre. A sobrecilha pendeu em tiras de meu corpo. Mas os golpes do pêndulo já se precipitavam sobre meu peito. O instrumento atravessara a sarja do robe. Cortara até a camisa de linho que eu vestia por baixo. Duas vezes mais oscilou, e uma aguda sensação de dor espicaçou cada nervo. Mas o momento da fuga chegara. Ao abanar a mão, meus libertadores fugiram em tumulto. Com um movimento confiante — cauteloso, lateral, contido e vagaroso — deslizei do abraço da correia e para fora do alcance da cimitarra. Naquele momento, ao menos, eu estava livre.
     Livre! — e nas garras da Inquisição! Nem bem deixei a madeira em meu leito de horror e passei ao piso de pedra da prisão, o movimento da máquina infernal cessou, e fiquei assistindo, conforme se recolhia, por alguma força invisível, para dentro do teto. Foi uma lição que aprendi em desespero. Cada movimento meu era sem dúvida observado. Livre! — eu apenas escapara da morte em uma forma de agonia para ser confiado a uma outra qualquer pior que a morte. Com esse pensamento passeei os olhos nervosamente em torno pelas barreiras de ferro que me cercavam. Alguma coisa incomum — alguma mudança que, de início, não pude perceber distintamente —, isso era óbvio, havia ocorrido no ambiente. Por diversos minutos absorto em um transe trêmulo entreguei-me a conjecturas vãs e desconexas. No transcorrer desse período tomei consciência, pela primeira vez, da origem da luz sulfúrea que alumiava a cela. Ela provinha de uma fissura, com cerca de um dedo de largura, que se estendia por todo o perímetro da prisão na base das paredes, que desse modo pareciam, e de fato estavam, completamente separadas do piso. Tentei, mas certamente em vão, olhar através da abertura.
     Quando me levantava após a tentativa, o mistério da alteração na câmara veio-me subitamente à compreensão. Eu observara que, embora os contornos das figuras nas paredes fossem suficientemente nítidos, as cores contudo pareciam borradas e indefinidas. Mas essas cores haviam assumido agora, e assumiam progressivamente, a cada momento, um brilho assustador e mais intenso, que emprestava às imagens espectrais e diabólicas um aspecto que teria talvez abalado nervos até mais firmes que os meus. Olhos demoníacos, de vivacidade selvagem e macabra, fuzilavam-- me de mil direções, quando nenhum havia sido visível antes, e cintilavam com o fantasmático fulgor de um fogo que eu era incapaz de forçar minha imaginação a interpretar como ilusão.
     Ilusão! — No momento em que respirei penetrou em minhas narinas o vapor do ferro aquecido! Um odor asfixiante tomou conta da prisão! Uma incandescência mais profunda ardia a cada momento naqueles olhos que se arregalavam para minhas agonias! Um matiz mais rico de escarlate se difundia pelos horrores de sangue ali retratados. Eu ofegava! Tentava respirar! Não restava dúvida quanto ao que tramavam meus carrascos — ah! os mais implacáveis! ah! os mais demoníacos dos homens! Recuei do metal incandescente em direção ao centro da cela. Em meio aos pensamentos da iminente destruição pelo fogo, a ideia do frescor do poço invadiu minha alma como um bálsamo. Aproximei-me rapidamente de sua beirada mortal. Lancei o olhar para suas profundezas. O fulgor do teto inflamado iluminava seus recessos mais ocultos. E contudo, em um momento de desvario, meu espírito se recusou a compreender o significado do que vi. Após um instante enfim aquilo se impôs — aquilo abriu caminho à força até minha alma — aquilo ficou marcado a ferro e fogo em minha razão trêmula. Ah! quem dera eu tivesse voz para falar! — ah! horror! — ah! qualquer outro horror que não aquilo! Com um uivo, fugi da beirada, e enterrei o rosto nas mãos — chorando amargamente.
     O calor aumentou rápido, e mais uma vez ergui o rosto, tremendo como que num acesso de febre. Uma segunda mudança se efetuara na cela — e agora a mudança era obviamente na forma. Como antes, foi em vão que de início empenhei-me em avaliar ou compreender o que estava ocorrendo. Mas a dúvida não persistiu por muito tempo. A vingança dos inquisidores fora precipitada por minha dupla fuga, e pusera um basta ao meu flerte com o Rei dos Terrores¹. O recinto, antes, era quadrado. Agora eu via que dois de seus ângulos de ferro estavam agudos — os outros dois, consequentemente, obtusos. A assustadora diferença aumentava rapidamente com uma reverberação grave, um som de gemido. Em um instante o ambiente alterara seu formato para o de um losango. Mas a mudança não parou por aí — eu não esperava nem tampouco desejava que o fizesse. Eu teria sido capaz de estreitar as paredes vermelhas junto ao peito como se fossem as vestes da paz eterna. “Morte”, eu disse, “qualquer morte exceto o poço!” Tolo! como podia eu ignorar que era para dentro do poço que o ferro em brasa visava me impelir? Seria eu capaz de resistir a sua incandescência? ou, mesmo que pudesse, como conseguiria resistir a sua pressão? E então, cada vez mais achatado se tornava o losango, com uma rapidez que não me deixava mais tempo algum para a contemplação. Seu centro e, é claro, sua maior largura, debruçavam-se na beira da bocarra escancarada. Recuei — mas as paredes se fechando me empurravam para a frente, era inútil resistir. Até que por im, para o meu corpo queimado e contraído, já não havia mais do que uma polegada onde pisar no sólido chão da prisão. Desisti de lutar, mas a agonia de minha alma buscou desafogo em um agudo, prolongado e derradeiro grito de desespero. Senti que cambaleava sobre a borda — desviei os olhos…

[1] King of Terrors: a Morte (em inglês, death é masculino).


     De repente o burburinho dissonante de vozes humanas! De repente o sopro estridente de inúmeras cornetas! De repente o rangido áspero como de mil trovões! As paredes ardentes recuaram! Um braço se esticou para agarrar o meu quando eu tombava, desfalecendo, dentro do abismo. Era o do general Lasalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição caíra nas mãos de seus inimigos

Fim
continua página 59...
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Manuscrito encontrado numa garrafa (a) /                 
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.