Edgar Allan Poe - Contos
O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842
continuando...
« O cadáver, que suporemos no fundo do rio, aí permanecerá até que, de uma maneira ou de outra, o seu peso específico se tome novamente inferior ao volume da água deslocada. Este efeito é provocado pela decomposição, ou por qualquer outro agente. A decomposição tem como resultado a geração de gases que distendem os tecidos celulares e dão aos cadáveres esse aspecto inchado que é tão horrível de ver. Quando esta distensão chega ao ponto em que o volume do corpo é sensivelmente aumentado sem um acréscimo correspondente de matéria sólida ou de peso, o respetivo peso específico torna-se inferior ao da água deslocada e esse corpo surge imediatamente à superfície.
« A decomposição, porém, pode ser modificada por incontáveis
circunstâncias, apressada ou retardada por numerosos agentes — pelo calor ou
pelo frio da estação, por exemplo; pela impregnação mineral ou a pureza da
água; pela sua maior ou menor profundidade; pela corrente ou a estagnação mais
ou menos marcadas; e também pelo estado original do corpo, segundo este
estivesse já infetado ou puro de doença antes da morte. É assim evidente que não
podemos fixar com exatidão a data em que o corpo deverá elevar-se em
consequência da decomposição. Em determinadas condições, a emersão pode
verificar-se ao cabo de uma hora; noutras, porém, talvez nunca chegue a
verificar-se. Há infusões químicas que podem preservar indefinidamente da
corrupção todo o sistema animal, como o bicloreto de mercúrio, por exemplo.
Mas, além de decomposição, pode haver — e há geralmente — uma formação
de gases no estômago (devido à fermentação acética da matéria vegetal, ou
devido a outros fenómenos verificados em diferentes cavidades), suficiente para
criar uma distensão capaz de trazer o corpo à superfície. O efeito produzido pelo
tiro de canhão é um efeito de simples vibração. Pode libertar o corpo dos limos
ou do lodo que o prendam, permitindo-lhe assim elevar-se, depois de outros
agentes já o terem preparado para isso ou, então, pode vencer a aderência de
quaisquer partes putrefactas do sistema celular, e facilitar a distensão das
cavidades sob a influência do gás.
« Tendo assim à nossa frente toda a filosofia do tema, podemos verificar as
asserções de L'Étoile. A experiência mostra, diz este jornal, que os corpos de
afogados ou de lançados à água imediatamente após uma morte violenta,
necessitam de um período que vai de seis a dez dias para que uma decomposição
suficiente os faça voltar à superfície. Um cadáver sobre o qual se dispara um tiro
de canhão, e que se eleva antes que a imersão tenha durado pelo menos cinco ou
seis dias, volta a mergulhar se abandonado a si mesmo.« Todo o parágrafo nos aparece agora como uma teia de inconsequências e
de incoerências. A experiência nem sempre mostra que os corpos de afogados
tenham necessidade de cinco ou seis dias para que uma decomposição suficiente
os faça voltar à superfície. A ciência e a experiência reunidas provam que a
altura dessa emersão é e deve ser necessariamente indeterminada. Além disso,
caso um corpo seja trazido à superfície por um tiro de canhão, não voltará a
mergulhar, mesmo se abandonado a si mesmo, sempre que a decomposição tenha
atingido o grau necessário para permitir a libertação dos gases engendrados. Mas
desejo chamar a sua atenção para a distinção feita entre os corpos de afogados e
os corpos de pessoas lançadas à água imediatamente após uma morte violenta.
Ainda que o redator admita esta diferença, coloca os dois casos na mesma
categoria. Já demonstrei como o corpo de um homem que se afoga adquire um
peso específico mais considerável do que o volume de água deslocada, e provei
que não se submergiria sozinho, sem o movimento que faz de erguer os braços
acima da cabeça, e sem as tentativas de respirar debaixo de água que permitem
ao líquido invadir o lugar do ar nos pulmões. Mas estes movimentos e estas
tentativas não se registarão no caso de um corpo lançado à água imediatamente
após uma morte violenta. Assim, neste último caso, a regra geral é que o corpo
não deve submergir-se... fato que L’Étoile, evidentemente, ignora. Quando a
decomposição chega a um ponto muito adiantado, quando a carne já deixou
completamente os ossos, então, mas só então, vemos o corpo mergulhar e
afundar-se.
« E que pensaremos agora do raciocínio segundo o qual o cadáver encontrado não pode ser o de Marie Roget, por ter sido encontrado após um lapso de tempo de apenas três dias? Se se afogou, pode não ter-se afundado, por ser uma mulher; se se afundou, pode ter reaparecido ao cabo de vinte e quatro horas, ou até menos. Mas ninguém supõe que a jovem se afogou e, tendo sido morta antes de ser lançada à água, teria flutuado e poderia ter sido encontrado a qualquer momento posterior.
«Mas — diz L’Étoile — se o corpo ficou m margem em estado de deterioração até à noite de terça-feira, devem ter sido encontrados nessa mesma margem alguns indícios dos assassinos.
« Neste ponto é difícil captar imediatamente a intenção do redator. Tenta prevenir o que imagina poder ser uma objeção à sua teoria, a saber: que o corpo, tendo permanecido dois dias na margem, deve ter sofrido uma decomposição rápida... mais rápida do que se estivesse mergulhado na água. Supõe que, se fosse esse o caso, o corpo poderia ter voltado à superfície na quarta-feira, e pensa que só nessas circunstâncias teria podido reaparecer. Apressa-se pois a provar que o corpo não pode ter permanecido na margem, pois, nesse caso, ter-se-iam encontrado quaisquer rastros dos assassinos. Presumo que esta consequência o fará sorrir. Não consegue sem dúvida compreender de que modo uma estada mais ou menos prolongada do corpo na margem teria multiplicado os rastros dos assassinos. E eu também não.
« O jornal continua: Por fim, é excessivamente improvável que os malfeitores, depois de cometerem um crime tal como o que se lhes atribui, tenham lançado o corpo à água sem um peso para o lastrar, quando seria tão fácil tomar esta precaução.
« Observe aqui a risível confusão de ideias! Ninguém, nem sequer L’Étoile, contesta que foi cometido um crime no corpo encontrado. Os sinais de violência são demasiado evidentes. O objetivo do nosso argumentador é apenas provar que esse corpo não é o de Marie. Deseja provar que Marie não foi assassinada, mas não afirma que o cadáver encontrado não seja o de uma pessoa assassinada. No entanto, a sua observação só nos prova este último ponto. Há um corpo a que nenhum peso foi amarrado. Assassinos, ao lançá-lo à água, não teriam deixado de fazê-lo. Logo, não foi lançado à água por assassinos. Eis tudo o que está provado, se alguma coisa pode está-lo. A questão da identidade não é sequer abordada, e L'Étoile esforça-se por contradizer agora o que afirmava há pouco. Estamos perfeitamente convencidos — escreve — que o cadáver encontrado é o de uma mulher assassinada.
« E não é este o único ponto, ainda nesta parte do tema, em que o nosso argumentador, sem dar por isso, age contra si mesmo. O seu objetivo evidente, já o disse, é reduzir o mais possível o intervalo de tempo compreendido entre o desaparecimento de Marie e a descoberta do corpo. No entanto, vemo-lo insistir no facto de ninguém ter visto a jovem a partir do momento em que ela saiu de casa da mãe. Não temos, afirma o jornal, qualquer depoimento provando que Marie Roget fosse ainda deste mundo a partir das nove horas de domingo, 22 de junho.
« E que pensaremos agora do raciocínio segundo o qual o cadáver encontrado não pode ser o de Marie Roget, por ter sido encontrado após um lapso de tempo de apenas três dias? Se se afogou, pode não ter-se afundado, por ser uma mulher; se se afundou, pode ter reaparecido ao cabo de vinte e quatro horas, ou até menos. Mas ninguém supõe que a jovem se afogou e, tendo sido morta antes de ser lançada à água, teria flutuado e poderia ter sido encontrado a qualquer momento posterior.
«Mas — diz L’Étoile — se o corpo ficou m margem em estado de deterioração até à noite de terça-feira, devem ter sido encontrados nessa mesma margem alguns indícios dos assassinos.
« Neste ponto é difícil captar imediatamente a intenção do redator. Tenta prevenir o que imagina poder ser uma objeção à sua teoria, a saber: que o corpo, tendo permanecido dois dias na margem, deve ter sofrido uma decomposição rápida... mais rápida do que se estivesse mergulhado na água. Supõe que, se fosse esse o caso, o corpo poderia ter voltado à superfície na quarta-feira, e pensa que só nessas circunstâncias teria podido reaparecer. Apressa-se pois a provar que o corpo não pode ter permanecido na margem, pois, nesse caso, ter-se-iam encontrado quaisquer rastros dos assassinos. Presumo que esta consequência o fará sorrir. Não consegue sem dúvida compreender de que modo uma estada mais ou menos prolongada do corpo na margem teria multiplicado os rastros dos assassinos. E eu também não.
« O jornal continua: Por fim, é excessivamente improvável que os malfeitores, depois de cometerem um crime tal como o que se lhes atribui, tenham lançado o corpo à água sem um peso para o lastrar, quando seria tão fácil tomar esta precaução.
« Observe aqui a risível confusão de ideias! Ninguém, nem sequer L’Étoile, contesta que foi cometido um crime no corpo encontrado. Os sinais de violência são demasiado evidentes. O objetivo do nosso argumentador é apenas provar que esse corpo não é o de Marie. Deseja provar que Marie não foi assassinada, mas não afirma que o cadáver encontrado não seja o de uma pessoa assassinada. No entanto, a sua observação só nos prova este último ponto. Há um corpo a que nenhum peso foi amarrado. Assassinos, ao lançá-lo à água, não teriam deixado de fazê-lo. Logo, não foi lançado à água por assassinos. Eis tudo o que está provado, se alguma coisa pode está-lo. A questão da identidade não é sequer abordada, e L'Étoile esforça-se por contradizer agora o que afirmava há pouco. Estamos perfeitamente convencidos — escreve — que o cadáver encontrado é o de uma mulher assassinada.
« E não é este o único ponto, ainda nesta parte do tema, em que o nosso argumentador, sem dar por isso, age contra si mesmo. O seu objetivo evidente, já o disse, é reduzir o mais possível o intervalo de tempo compreendido entre o desaparecimento de Marie e a descoberta do corpo. No entanto, vemo-lo insistir no facto de ninguém ter visto a jovem a partir do momento em que ela saiu de casa da mãe. Não temos, afirma o jornal, qualquer depoimento provando que Marie Roget fosse ainda deste mundo a partir das nove horas de domingo, 22 de junho.
« Como o seu raciocínio enferma, é evidente, de opinião formada, teria
feito melhor em abandonar este aspecto da questão, uma vez que tivesse sido
encontrado alguém que houvesse visto Marie na terça ou na quarta-feira, o
intervalo em questão ficaria consideravelmente reduzido, e, segundo a maneira
de pensar do redator, seria outro tanto reduzida a probabilidade de o corpo
encontrado poder ser o da caixeira. E, todavia, divertido observar que L'Étoile
insiste neste ponto com a firme convicção de estar a reforçar a sua
argumentação geral.
« Examinemos agora, uma vez mais, a parte da argumentação que se refere à identificação do corpo por Beauvais. Relativamente aos pelos no braço, L'Étoile manifesta evidente má fé. O senhor Beauvais, não sendo idiota, nunca teria, para constatar a identidade de um corpo, argumentado ter esse corpo pelos num braço. Não há braços sem pelos. A generalidade das frases de L’Étoile é uma simples perversão das palavras da testemunha. Beauvais deve necessariamente ter falado de qualquer particularidade desses pelos; particularidade de cor, de quantidade, de comprimento ou de localização.
« O jornal diz: Os pés eram pequenos. Há milhares de pés pequenos. A liga não é uma prova, como não o são os sapatos, pois as ligas e os sapatos vendem-se aos montes. O mesmo se pode dizer quanto às flores do chapéu. Um facto sobre o qual Beauvais insiste fortemente é que o gancho da liga foi recuado para a tornar mais estreita. Isto nada prova, pois quase todas as mulheres compram ligas que depois arranjam em casa, de preferência a experimentá-las na loja.
« Aqui, é difícil supor o argumentador no seu juízo perfeito. Se o senhor Beauvais, quando procurava o corpo de Marie, descobriu um cadáver semelhante, nas proporções gerais e no aspecto, à jovem desaparecida, pode legitimamente ter suposto terminada a sua busca, pondo até de parte a questão da indumentária. Se, além do aspecto, das proporções gerais e do contorno, encontrou num braço desse cadáver uma aparência pilosa já observada no braço de Marie viva, a sua opinião pode ter sido reforçada, e deve tê-lo sido em razão da particularidade ou do caráter insólito dessa marca pilosa. Se os pés de Marie eram pequenos, e os pés do cadáver encontrado são igualmente pequenos, a probabilidade de que o cadáver seja o de Marie aumenta, numa proporção não apenas aritmética, mas ainda geométrica, acumulativa. Acrescente a tudo isto sapatos iguais aos que a jovem calçava no dia do desaparecimento, e, se bem que os sapatos se vendam aos montes, sentirá a probabilidade aumentar ao ponto de enraizar a certeza. Aquilo que, por si só, não seria um sinal de identidade, torna-se pela sua posição corroborativa, a mais segura das provas. Conceda-nos, finalmente, as flores do chapéu, iguais às que usava a jovem desaparecida, e nada mais podemos desejar. Uma só dessas flores, e nada mais temos a desejar... Mas que diríamos se tivéssemos, duas, ou três, ou até mais? Cada unidade sucessiva é um testemunho múltiplo, uma prova não acrescentada à prova precedente, mas multiplicada por cem ou por mil. Descobrimos agora na defunta ligas iguais às que usava a pessoa viva: na verdade, é quase loucura continuar a procurar. Mas acontece que essas ligas foram apertadas por meio de uma deslocação do gancho, tal como Marie tinha feito às suas, pouco antes de sair de casa. Continuar a duvidar é demência ou hipocrisia. O que L’Étoile diz em relação a esta operação, que, no seu entender, é uma coisa vulgaríssima, só prova a teimosia em laborar no erro. A natureza elástica de uma liga basta para demonstrar o caráter excecional da, alteração. O que é feito para ajustar-se bem só deve ter necessidade de aperfeiçoamentos em casos muito raros. Deve ter sido devido a um acidente, no sentido mais estrito da palavra, que as ligas de Marie tiveram necessidade de ser apertadas. Sozinhas, bastariam para estabelecer a identidade. Mas o importante não é que o cadáver tenha as ligas da jovem desaparecida, ou os seus sapatos, ou o seu chapéu, ou as flores do chapéu, ou os mesmos pés, o mesmo aspecto e iguais proporções gerais. O importante é que tenha cada uma destas coisas e as tenha a todas coletivamente. Se se provou que o redator de L’Étoile, nestas circunstâncias, concebeu realmente uma dúvida, então não há, para o seu caso, a mínima necessidade de uma comissão de lunático inquirendo. Julgou dar provas de sagacidade ao fazer-se eco das tagarelices dos homens de lei, que, na maioria, se contentam, eles próprios, em fazer-se eco dos preceitos retilíneos dos tribunais criminais. Far-lhe-ei notar, de passagem, que muito do que um tribunal se recusa a admitir como prova é, para a inteligência, o que há de melhor em matéria de provas. Ora, guiando-se pelos princípios gerais nesta matéria, pelos princípios reconhecidos e inscritos nos livros, o tribunal tem repugnância em desviar-se para razões particulares. E esta teimosa dedicação aos princípios, juntamente com o rigoroso desdém pela exceção contraditória, é o modo de conseguir, a longo prazo, o máximo de verdade que é permitido esperar; a prática é, pois, em conjunto, filosófica, mas não é menos certo que engendra grandes erros em determinados casos.
« Quanto às insinuações dirigidas contra Beauvais, basta um sopro para dissipá-las. O meu amigo já penetrou o verdadeiro caráter deste cavalheiro. É um funcionário, com um espírito muito inclinado para o romanesco e com pouco discernimento. Todo o homem assim constituído será facilmente levado, num caso de emoção real, a conduzir-se de modo a tornar-se suspeito aos olhos de pessoas demasiado subtis ou suscetíveis à desconfiança. O senhor Beauvais, como resulta das suas notas, teve algumas entrevistas pessoais com o diretor de L’Étoile, a quem chocou ao exprimir a opinião de que, não obstante a sua teoria, o cadáver era positivamente o de Marie. O senhor Beauvais insiste — diz o jornal — em afirmar que o corpo é o de Marie, mas não é capaz de acrescentar qualquer circunstância às que já comentámos, para conseguir que outros partilhem desta crença. Ora, sem voltar a este ponto, o de lhe ter sido impossível, para conseguir que outros partilhem desta crença, apresentar qualquer prova mais forte do que as já conhecidas, observemos o seguinte: c fácil conceber um homem perfeitamente convicto, num caso deste género, e todavia, incapaz de apresentar uma só razão que convença uma segunda pessoa. Nada é mais vago do que as impressões relativas à identidade de uma pessoa. Todo o homem reconhece o seu vizinho, e no entanto são poucos os casos em que uma pessoa vulgar seja capaz de dar uma razão para esse reconhecimento. O redator de L’Étoile não tem, pois, o direito de sentir-se chocado pela convicção não raciocinada do senhor Beauvais.
« As circunstâncias suspeitas de que se rodeou quadram bem melhor com a minha hipótese de um caráter oficioso, tateante e romanesco, do que com a insinuação do jornalista relativa à sua culpabilidade. Adotando a interpretação mais caridosa, não temos qualquer dificuldade em explicar a rosa no orifício da fechadura, nem a palavra Marie escrita na ardósia, nem o facto de ter afastado os parentes masculinos e tão-pouco a sua oposição a deixá-los ver o corpo, menos ainda a recomendação feita à senhora B. de não falar com o polícia antes de ele regressar, nem, por fim, essa aparente resolução de não permitir que mais ninguém se ocupe do inquérito. Parece-me incontestável que Beauvais era um dos adoradores de Marie; que ela se fez coqueta com ele; e que ele aspirava a dar a entender que gozava da sua confiança e da sua intimidade completas. Nada mais direi sobre este ponto, e como a evidência refuta completamente a asserção de L’Étoile em relação à apatia de que acusa a mãe e os restantes parentes, apatia que é irreconciliável com a suposição de estarem convencidos de que o corpo encontrado é, na verdade, o da jovem perfumista, procederemos a partir de agora como se a questão da identidade estivesse estabelecida a nosso contento.
— E que pensa — perguntei então — das opiniões do Commercial?
— Que, pela sua natureza, são muito mais dignas de crédito do que qualquer das outras emitidas sobre o assunto. As deduções das premissas são filosóficas e subtis: mas essas premissas, em pelo menos dois pontos, baseiam-se numa observação imperfeita. O Commercial pretende dar a entender que Marie foi apanhada por um bando de patifes, não longe da porta da casa da mãe. É impossível que uma jovem conhecida por vários milhares de pessoas, como era o caso de Marie, tenha podido percorra um extenso trajeto sem encontrar alguém a quem o seu rosto fosse familiar... É a ideia de um homem residindo há muito em Paris, de um homem público, cujas idas e vindas foram quase sempre limitadas às proximidades das administrações públicas. Sabe que ele raramente se afasta uma dúzia de quarteirões do seu próprio gabinete sem ser reconhecido e abordado. E, medindo a extensão do conhecimento que tem dos outros, e o que os outros têm dele, compara a sua notoriedade com a da perfumista, não encontra grande diferença entre as duas, e chega imediatamente à conclusão de que ela devia, nas suas deslocações, estar tão exposta a ser reconhecida quanto ele nas que faz. Esta conclusão só seria legítima se as deslocações dela tivessem a mesma natureza invariável e metódica, e fossem confinadas à mesma região que as dele. Ele vai e vem, a intervalos regulares, numa periferia limitada, repleta de indivíduos cujas ocupações, análogas às suas, os levam naturalmente a interessarem-se por ele e a observar a sua pessoa. Mas as deslocações de Marie podem, de um modo geral, considerar-se de uma natureza errante. No caso particular que nos ocupa, deve considerar-se como muito provável que seguiu uma linha o mais possível afastada dos seus caminhos habituais. O paralelo que supusemos existir no espírito do Commercial só seria sustentável no caso de indivíduos atravessando toda a cidade. Mas também nesse caso, tendo em conta que as relações pessoais são iguais, serão também semelhantes as probabilidades de que encontre um número equivalente de conhecimentos. Pelo meu lado, mantenho que é não só possível, mas infinitamente provável, que Marie tenha seguido, a não importa que hora, por qualquer dos numerosos caminhos que conduzem da sua residência à da tia, sem encontrar um único indivíduo que conhecesse ou de quem fosse conhecida. Para julgar bem esta questão, para julgá-la à sua verdadeira luz, é preciso pensar na imensa desproporção que existe entre os conhecimentos pessoais do indivíduo mais popular de Paris e a população inteira da cidade.
Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
« Examinemos agora, uma vez mais, a parte da argumentação que se refere à identificação do corpo por Beauvais. Relativamente aos pelos no braço, L'Étoile manifesta evidente má fé. O senhor Beauvais, não sendo idiota, nunca teria, para constatar a identidade de um corpo, argumentado ter esse corpo pelos num braço. Não há braços sem pelos. A generalidade das frases de L’Étoile é uma simples perversão das palavras da testemunha. Beauvais deve necessariamente ter falado de qualquer particularidade desses pelos; particularidade de cor, de quantidade, de comprimento ou de localização.
« O jornal diz: Os pés eram pequenos. Há milhares de pés pequenos. A liga não é uma prova, como não o são os sapatos, pois as ligas e os sapatos vendem-se aos montes. O mesmo se pode dizer quanto às flores do chapéu. Um facto sobre o qual Beauvais insiste fortemente é que o gancho da liga foi recuado para a tornar mais estreita. Isto nada prova, pois quase todas as mulheres compram ligas que depois arranjam em casa, de preferência a experimentá-las na loja.
« Aqui, é difícil supor o argumentador no seu juízo perfeito. Se o senhor Beauvais, quando procurava o corpo de Marie, descobriu um cadáver semelhante, nas proporções gerais e no aspecto, à jovem desaparecida, pode legitimamente ter suposto terminada a sua busca, pondo até de parte a questão da indumentária. Se, além do aspecto, das proporções gerais e do contorno, encontrou num braço desse cadáver uma aparência pilosa já observada no braço de Marie viva, a sua opinião pode ter sido reforçada, e deve tê-lo sido em razão da particularidade ou do caráter insólito dessa marca pilosa. Se os pés de Marie eram pequenos, e os pés do cadáver encontrado são igualmente pequenos, a probabilidade de que o cadáver seja o de Marie aumenta, numa proporção não apenas aritmética, mas ainda geométrica, acumulativa. Acrescente a tudo isto sapatos iguais aos que a jovem calçava no dia do desaparecimento, e, se bem que os sapatos se vendam aos montes, sentirá a probabilidade aumentar ao ponto de enraizar a certeza. Aquilo que, por si só, não seria um sinal de identidade, torna-se pela sua posição corroborativa, a mais segura das provas. Conceda-nos, finalmente, as flores do chapéu, iguais às que usava a jovem desaparecida, e nada mais podemos desejar. Uma só dessas flores, e nada mais temos a desejar... Mas que diríamos se tivéssemos, duas, ou três, ou até mais? Cada unidade sucessiva é um testemunho múltiplo, uma prova não acrescentada à prova precedente, mas multiplicada por cem ou por mil. Descobrimos agora na defunta ligas iguais às que usava a pessoa viva: na verdade, é quase loucura continuar a procurar. Mas acontece que essas ligas foram apertadas por meio de uma deslocação do gancho, tal como Marie tinha feito às suas, pouco antes de sair de casa. Continuar a duvidar é demência ou hipocrisia. O que L’Étoile diz em relação a esta operação, que, no seu entender, é uma coisa vulgaríssima, só prova a teimosia em laborar no erro. A natureza elástica de uma liga basta para demonstrar o caráter excecional da, alteração. O que é feito para ajustar-se bem só deve ter necessidade de aperfeiçoamentos em casos muito raros. Deve ter sido devido a um acidente, no sentido mais estrito da palavra, que as ligas de Marie tiveram necessidade de ser apertadas. Sozinhas, bastariam para estabelecer a identidade. Mas o importante não é que o cadáver tenha as ligas da jovem desaparecida, ou os seus sapatos, ou o seu chapéu, ou as flores do chapéu, ou os mesmos pés, o mesmo aspecto e iguais proporções gerais. O importante é que tenha cada uma destas coisas e as tenha a todas coletivamente. Se se provou que o redator de L’Étoile, nestas circunstâncias, concebeu realmente uma dúvida, então não há, para o seu caso, a mínima necessidade de uma comissão de lunático inquirendo. Julgou dar provas de sagacidade ao fazer-se eco das tagarelices dos homens de lei, que, na maioria, se contentam, eles próprios, em fazer-se eco dos preceitos retilíneos dos tribunais criminais. Far-lhe-ei notar, de passagem, que muito do que um tribunal se recusa a admitir como prova é, para a inteligência, o que há de melhor em matéria de provas. Ora, guiando-se pelos princípios gerais nesta matéria, pelos princípios reconhecidos e inscritos nos livros, o tribunal tem repugnância em desviar-se para razões particulares. E esta teimosa dedicação aos princípios, juntamente com o rigoroso desdém pela exceção contraditória, é o modo de conseguir, a longo prazo, o máximo de verdade que é permitido esperar; a prática é, pois, em conjunto, filosófica, mas não é menos certo que engendra grandes erros em determinados casos.
« Quanto às insinuações dirigidas contra Beauvais, basta um sopro para dissipá-las. O meu amigo já penetrou o verdadeiro caráter deste cavalheiro. É um funcionário, com um espírito muito inclinado para o romanesco e com pouco discernimento. Todo o homem assim constituído será facilmente levado, num caso de emoção real, a conduzir-se de modo a tornar-se suspeito aos olhos de pessoas demasiado subtis ou suscetíveis à desconfiança. O senhor Beauvais, como resulta das suas notas, teve algumas entrevistas pessoais com o diretor de L’Étoile, a quem chocou ao exprimir a opinião de que, não obstante a sua teoria, o cadáver era positivamente o de Marie. O senhor Beauvais insiste — diz o jornal — em afirmar que o corpo é o de Marie, mas não é capaz de acrescentar qualquer circunstância às que já comentámos, para conseguir que outros partilhem desta crença. Ora, sem voltar a este ponto, o de lhe ter sido impossível, para conseguir que outros partilhem desta crença, apresentar qualquer prova mais forte do que as já conhecidas, observemos o seguinte: c fácil conceber um homem perfeitamente convicto, num caso deste género, e todavia, incapaz de apresentar uma só razão que convença uma segunda pessoa. Nada é mais vago do que as impressões relativas à identidade de uma pessoa. Todo o homem reconhece o seu vizinho, e no entanto são poucos os casos em que uma pessoa vulgar seja capaz de dar uma razão para esse reconhecimento. O redator de L’Étoile não tem, pois, o direito de sentir-se chocado pela convicção não raciocinada do senhor Beauvais.
« As circunstâncias suspeitas de que se rodeou quadram bem melhor com a minha hipótese de um caráter oficioso, tateante e romanesco, do que com a insinuação do jornalista relativa à sua culpabilidade. Adotando a interpretação mais caridosa, não temos qualquer dificuldade em explicar a rosa no orifício da fechadura, nem a palavra Marie escrita na ardósia, nem o facto de ter afastado os parentes masculinos e tão-pouco a sua oposição a deixá-los ver o corpo, menos ainda a recomendação feita à senhora B. de não falar com o polícia antes de ele regressar, nem, por fim, essa aparente resolução de não permitir que mais ninguém se ocupe do inquérito. Parece-me incontestável que Beauvais era um dos adoradores de Marie; que ela se fez coqueta com ele; e que ele aspirava a dar a entender que gozava da sua confiança e da sua intimidade completas. Nada mais direi sobre este ponto, e como a evidência refuta completamente a asserção de L’Étoile em relação à apatia de que acusa a mãe e os restantes parentes, apatia que é irreconciliável com a suposição de estarem convencidos de que o corpo encontrado é, na verdade, o da jovem perfumista, procederemos a partir de agora como se a questão da identidade estivesse estabelecida a nosso contento.
— E que pensa — perguntei então — das opiniões do Commercial?
— Que, pela sua natureza, são muito mais dignas de crédito do que qualquer das outras emitidas sobre o assunto. As deduções das premissas são filosóficas e subtis: mas essas premissas, em pelo menos dois pontos, baseiam-se numa observação imperfeita. O Commercial pretende dar a entender que Marie foi apanhada por um bando de patifes, não longe da porta da casa da mãe. É impossível que uma jovem conhecida por vários milhares de pessoas, como era o caso de Marie, tenha podido percorra um extenso trajeto sem encontrar alguém a quem o seu rosto fosse familiar... É a ideia de um homem residindo há muito em Paris, de um homem público, cujas idas e vindas foram quase sempre limitadas às proximidades das administrações públicas. Sabe que ele raramente se afasta uma dúzia de quarteirões do seu próprio gabinete sem ser reconhecido e abordado. E, medindo a extensão do conhecimento que tem dos outros, e o que os outros têm dele, compara a sua notoriedade com a da perfumista, não encontra grande diferença entre as duas, e chega imediatamente à conclusão de que ela devia, nas suas deslocações, estar tão exposta a ser reconhecida quanto ele nas que faz. Esta conclusão só seria legítima se as deslocações dela tivessem a mesma natureza invariável e metódica, e fossem confinadas à mesma região que as dele. Ele vai e vem, a intervalos regulares, numa periferia limitada, repleta de indivíduos cujas ocupações, análogas às suas, os levam naturalmente a interessarem-se por ele e a observar a sua pessoa. Mas as deslocações de Marie podem, de um modo geral, considerar-se de uma natureza errante. No caso particular que nos ocupa, deve considerar-se como muito provável que seguiu uma linha o mais possível afastada dos seus caminhos habituais. O paralelo que supusemos existir no espírito do Commercial só seria sustentável no caso de indivíduos atravessando toda a cidade. Mas também nesse caso, tendo em conta que as relações pessoais são iguais, serão também semelhantes as probabilidades de que encontre um número equivalente de conhecimentos. Pelo meu lado, mantenho que é não só possível, mas infinitamente provável, que Marie tenha seguido, a não importa que hora, por qualquer dos numerosos caminhos que conduzem da sua residência à da tia, sem encontrar um único indivíduo que conhecesse ou de quem fosse conhecida. Para julgar bem esta questão, para julgá-la à sua verdadeira luz, é preciso pensar na imensa desproporção que existe entre os conhecimentos pessoais do indivíduo mais popular de Paris e a população inteira da cidade.
continua na página 474...
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Leia também:
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
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