quinta-feira, 4 de junho de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Mistério de Marie Roget (c)

 Edgar Allan Poe - Contos


O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842  

continuando...

     Foi pouco depois do cair da noite, nesse mesmo dia, que a senhora Deluc, assim como o filho mais velho, ouviu gritos de mulher nas proximidades do albergue. Os gritos foram violentos, mas não duraram muito tempo. A senhora Deluc reconheceu não só o xale encontrado entre as moitas, mas também o vestido que cobria o cadáver. Um condutor de ónibus, Valence, declarou então igualmente que tinha visto Marie Roget atravessar o rio, na companhia de um homem novo e moreno. Ele, Valence, conhecia Marie e não podia, portanto, ter se enganado quanto à sua identidade. Os objetos encontrados no bosque foram reconhecidos pela família de Marie.
     Esta amálgama de depoimentos e de informações que assim recolhi nos jornais, a pedido de Dupin, compreendia ainda um ponto, mas um ponto de capital importância. Parece que, imediatamente após a descoberta dos objetos acima citados, foi encontrado, na vizinhança do local onde se julgava então ter sido cometido o crime, o corpo inanimado ou quase inanimado de Saint Eustache, o noivo de Marie. Junto dele havia um frasco vazio, ostentando uma etiqueta onde se lia: « Láudano.» O seu hálito cheirava a veneno. Morreu sem pronunciar uma palavra. Num dos seus bolsos foi encontrada uma carta falando do seu amor por Marie e da sua intenção de suicidar-se.

— Creio não ter necessidade de dizer-lhe — afirmou Dupin, ao acabar de ler as minhas notas — que estamos em presença de um caso muito mais complicado do que o da Rua Morgue, do qual difere num ponto muito importante. É um exemplo de crime cruel, mas vulgar. Nele nada encontramos de particularmente estranho. Observe, peço-lhe, que foi exatamente por essa razão que o mistério pareceu simples, ainda que seja justamente a mesma razão que deveria tê-lo feito considerar como mais difícil de resolver. Por isso se julgou ao princípio supérfluo oferecer uma recompensa. Os homens de G... eram suficientemente fortes para compreender como e porquê uma tal atrocidade podia ser cometida. Não lhes era difícil imaginar um modo... vários modos... e um motivo... vários motivos. E como não era impossível que um desses numerosos modos e motivos fosse o único real, consideraram como demonstrado que o real devia ser um deles. Mas a facilidade com que conceberam estas diversas ideias, e até o caráter plausível de que cada uma delas se revestia, deveriam ter sido tomados como indícios da dificuldade e não da facilidade para a explicação do enigma. Já lhe fiz notar que é só através do que sobressai do plano ordinário das coisas que a razão deve encontrar a via na sua procura da verdade, e que, em casos como este, o importante não é perguntar: Quais são os fatos que se apresentam? mas sim: Quais são os factos que se apresentam e que nunca se apresentaram antes? Nas investigações efetuadas em casa da senhora L’Espanaye, os agentes de G... foram desencorajados por essa mesma estranheza que teria sido, para uma inteligência bem formada, o mais seguro presságio de êxito; e essa mesma inteligência seria mergulhada no desespero pelo caráter vulgar de todos os factos que se oferecem a exame no caso da jovem perfumista, que por enquanto nada revelaram de positivo, a não ser a presunção dos funcionários da Prefeitura.

« No caso da senhora L’Espanaye e da filha, não tivemos, logo a partir do começo da nossa investigação, a mais pequena dúvida de que fora cometido um crime. A ideia de suicídio estava imediatamente excluída. No caso presente, podemos igualmente excluir qualquer ideia de suicídio. O corpo encontrado na barreira do Roule foi pescado em circunstâncias tais que não nos permitem qualquer hesitação sobre este importante ponto. Mas insinuou-se que o corpo encontrado não é o de Marie Roget, cujo assassino ou assassinos não foram ainda encontrados. Ora, é oferecida uma recompensa pela descoberta desses assassinos e são eles o único objeto do nosso contrato com o prefeito. Tanto você como eu conhecemos esse cavalheiro. Não devemos fiar-nos demasiado nele. Ou seja, se, tomando o corpo encontrado como ponto de partida e seguindo a pista de um assassino, viermos a descobrir que esse corpo não é o de Marie, ou se, tomando como ponto de partida Marie ainda viva, acabarmos por encontrá-la não assassinada, teremos trabalhado em vão, pois é com o senhor G... que temos de entender-nos. Logo, para nosso próprio bem e para o bem da justiça, é indispensável que o nosso primeiro passo seja a verificação de que o corpo encontrado é realmente o de Marie Roget.
« Os argumentos de L'Étoile encontraram crédito junto do público, e o próprio jornal está convencido da sua importância, como se deduz do modo como inicia um dos artigos sobre o assunto em questão: Alguns dos jornais da manhã falam do concludente artigo de L’Étoile no seu número de segunda-feira. A mim, o artigo só me parece concludente no que respeita ao zelo do redator. Não devemos esquecer que, regra geral, o objetivo dos nossos jornais é criar uma sensação, provocar excitação, mais do que servir a causa da verdade. Este último objetivo só é perseguido quando parece coincidir com o primeiro. Jornal que se ponha de acordo com a opinião vulgar, por bem fundada que seja essa opinião, não encontra crédito entre as massas. A generalidade do povo só considera profundo aquele que emite contradições que briguem com a opinião geral. Na lógica, como na literatura, é o epigrama o gênero mais imediatamente e mais universalmente aceite. Em ambos os casos, é o género mais baixo na escala do mérito.

« Quero dizer que foi o caráter mesclado de epigrama e de melodrama, dessa ideia sugerida por L’Étoile, de que Marie Roget continua viva, e que, mais do que um verdadeiro caráter plausível, lhe garantiu um acolhimento favorável entre o público. Examinemos os pontos principais da argumentação desse jornal e atentemos bem na incoerência de que ela se reveste logo de início.

« O jornalista visa, antes de mais nada, provar-nos, através da brevidade do período transcorrido entre a desaparição de Marie e a descoberta do corpo flutuante, que esse corpo não pode ser o de Marie. Reduzir esse intervalo à mais pequena dimensão possível torna-se imediatamente um ponto capital para o argumentador. Na prossecução deste objetivo, lança-se de cabeça na pura suposição. É loucura — diz ele — supor que o crime, se crime houve, possa ter sido cometido com suficiente rapidez para permitir aos assassinos lançar o corpo ao rio antes da meia-noite. Perguntamos imediatamente, e muito naturalmente, porquê. Por que motivo é loucura supor que o crime foi cometido cinco minutos depois de a jovem ter saído de casa da mãe? Por que motivo é loucura supor que o crime foi cometido a um momento qualquer do dia? Cometem-se assassínios a todas as horas. Mas, ainda que o crime tenha tido lugar a qualquer momento entre as nove da manhã de domingo e a meia-noite menos um quarto, haveria sempre tempo suficiente para lançar o corpo ao rio antes da meia-noite. Esta suposição reduz-se, pois, ao seguinte: o crime não foi cometido no domingo, e, se permitirmos a L'Étoile que suponha isto, então teremos de conceder-lhe todas as liberdades possíveis. Pode imaginar-se que o parágrafo começando por: É loucura pensar que o crime, etc., ainda que impresso sob esta forma por L'Étoile, foi realmente concebido no cérebro do redator sob esta outra forma: É loucura supor que o crime, se crime houve, possa ter sido cometido com suficiente rapidez para permitir aos assassinos lançar o corpo ao rio antes da meia-noite. É uma loucura, dizemos nós, supor isto, e ao mesmo tempo supor (como nós quereríamos supor) que o corpo só tenha sido lançado à água passada a meia noite. Opinião relativamente mal deduzida, mas que mesmo assim não é tão irracional como a que foi impressa.

« Se eu tivesse simplesmente por objetivo — continuou Dupin — refutar esta passagem da argumentação do L'Étoile, poderia perfeitamente deixar as coisas como estão. Não é, porém, com L'Étoile que temos de entender-nos, mas com a verdade. A frase em questão, no caso atual, só tem um sentido e esse sentido estabeleci-o claramente. Mas é essencial que penetremos nas palavras para procurar uma ideia que essas palavras dão a entender, sem a exprimirem positivamente. O objetivo do jornalista era afirmar ser improvável, fosse qual fosse a hora do crime, no domingo, que os assassinos se tenham arriscado a levar o corpo para o rio antes da meia-noite. É precisamente aqui que reside a suposição de que me queixo. Supõe-se que o crime foi cometido num tal local e em tais circunstâncias que se tornou obrigatório transportar o corpo até ao rio. Ora, o assassínio pode perfeitamente ter sido cometido na margem do rio, ou no próprio rio. Assim, o lançamento do corpo à água, processo a que houve já quem recorresse a qualquer hora do dia ou da noite, ter-se-ia apresentado o modo de ação mais imediato, mais à mão. Compreenda que não estou a sugerir coisa alguma que me pareça mais provável ou que esteja mais de acordo com a minha própria opinião. Até este momento, não tenho em vista os próprios elementos da causa. Desejo apenas pô-lo em guarda contra o tom geral das sugestões de L’Étoile e chamar a sua atenção para o caráter de ideia preconcebida que se manifesta imediatamente.

« Tendo assim prescrevido um limite acomodado às suas ideias já feitas, tendo suposto que, se o corpo fosse o de Marie, só poderia ter permanecido na água durante muito pouco tempo, o jornal diz o seguinte:

«A experiência mostra que os corpos de afogados, ou lançados à água imediatamente após uma morte violenta, necessitam de um período que vai de seis a dez dias para que uma decomposição suficiente os faça voltar à superfície. Um cadáver sobre o qual se dispara um tiro de canhão, e que se eleva antes que a imersão tenha durado menos de cinco ou seis dias, volta a mergulhar se abandonado a si mesmo.

« Estas asserções foram tacitamente aceites por todos os jornais de Paris, com exceção do Moniteur. Este último esforça-se por combater a parte do parágrafo que se refere exclusivamente aos corpos de afogados, citando cinco ou seis casos de corpos de pessoas notoriamente afogadas que foram encontrados a flutuar após um lapso de tempo inferior ao fixado pelo L’Étoile. Mas há qualquer coisa de demasiado antifilosófico nesta tentativa que o Moniteur faz para refutar a afirmação geral de L'Étoile, militando contra essa afirmação com a citação de casos particulares. Mesmo que fosse possível alegar cinquenta casos, em vez de cinco, de cadáveres encontrados à superfície das águas ao cabo de dois ou três dias, esses cinquenta exemplos poderiam legitimamente ser considerados puras exceções à regra de L’Étoile, até que a própria regra fosse refutada. Admitida esta regra — e o Moniteur não a nega, insiste apenas nas exceções — a argumentação de L'Étoile conserva toda a sua força, pois esta argumentação não pretende implicar mais do que uma questão de probabilidade relativamente a um corpo poder ou não elevar-se até à superfície em menos de três dias, e essa probabilidade será a favor de L'Étoile até que os exemplos, tão puerilmente alegados, sejam em número suficiente para constituir uma regra contrária.

« O meu amigo compreendeu já que toda a argumentação deste gênero deve ser dirigida contra a própria regra e, com este objetivo, devemos fazer a análise racional dessa regra. Ora, o corpo humano não é, em geral, nem muito mais leve, nem muito mais pesado do que a água do Sena. Isto é: o peso específico do corpo humano, na sua condição natural, é aproximadamente igual ao volume de água doce que se desloca no rio. Os corpos dos indivíduos gordos e carnudos, com ossos pequenos, e geralmente os das mulheres, são mais leves do que os de indivíduos magros, de ossos grandes, geralmente os dos homens. E o peso específico da água de um rio é de algum modo influenciado pelo fluxo do mar. Mas, abstraindo-nos da maré, pode-se afirmar que poucos corpos humanos se submergirão, mesmo em água doce, espontaneamente, pela sua própria natureza. Quase todos, caindo num rio, poderão flutuar, se estabelecerem um equilíbrio conveniente entre o peso específico da água e o seu próprio peso, isto é: deixarem-se submergir completamente, à exceção do menor número de partes possível. A melhor posição para aquele que não sabe nadar é a vertical — tal como o homem que caminha em terra - com a cabeça completamente deitada para trás e submersa, deixando apenas a boca e as narinas acima do nível da água. Nessas condições poderemos todos flutuar sem dificuldades e sem esforço. É evidente, todavia, que o peso do corpo e do volume de água deslocado ficam então exatamente contrabalançados, e que um nada bastará para dar a preponderância a um ou ao outro. Um braço erguido acima da água, por exemplo, e consequentemente sem o apoio líquido, é um peso adicional suficiente para fazer mergulhar toda a cabeça, ao passo que o socorro acidental de um pedaço de madeira nos permitirá erguê-la suficientemente para olhar em torno. Ora, nos esforços de uma pessoa que não tenha a prática da natação, os braços erguem-se invariavelmente para o ar, e há do mesmo modo a teimosia de conservar a cabeça na sua posição normal, a vertical. O resultado é a imersão da boca e das narinas e, em consequência dos esforços para respirar debaixo de água, a introdução de líquido nos pulmões. O estômago absorve também uma grande quantidade de água, e todo o corpo se torna mais pesado, devido à diferença de peso entre o ar que anteriormente distendia essas cavidades e o líquido que agora as enche. Esta diferença basta, regra geral, para fazer mergulhar o corpo. Mas não é assim nos casos de pessoas que tenham ossos pequenos e uma quantidade anormal de matéria flácida ou adiposa. Essas flutuam, mesmo depois de se terem afogado.

continua na página 467...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

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