Edgar Allan Poe - Contos
O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842
continuando...
« Antes de irmos mais longe, consideremos o suposto teatro do crime, no bosque da barreira do Roule. Este bosque, muito denso, é verdade, é vizinho próximo de uma via pública. No seu interior, dizem-nos, há três ou quatro grandes pedras, formando uma espécie de cadeira, com espaldar e assento. Sobre a pedra superior, foi descoberta uma saia branca; na segunda, um xaile de seda. Encontrou-se igualmente uma sombrinha, um par de luvas e um lenço. O lenço tinha um nome: Marie Roget. Fragmentos de um vestido apareceram presos aos espinhos das moitas circundantes. A terra estava espezinhada, os arbustos partidos, havia ali todos os sinais de uma luta violenta.
« A despeito do júbilo com que a imprensa saudou a descoberta deste
bosque, e da unanimidade com que se supôs ser ele o verdadeiro teatro do crime,
é preciso admitir que há mais de uma boa razão para duvidar disto. Se o
verdadeiro teatro do crime tivesse sido, como insinua o Commercial, as
proximidades da Rua Pavée-Saint-André, os autores, que suporemos ainda em
Paris, ficariam naturalmente assustados pela atenção pública, tão vivamente
dirigida no bom sentido, e qualquer espírito de mediano discernimento teria
imediatamente sentido a necessidade de fazer qualquer coisa suscetível de
desviar essa atenção. Assim, tendo o bosque da barreira do Roule atraído já uma
vez as suspeitas gerais, a ideia de nele colocar os objetos em questão pode ter
sido naturalmente inspirada. Não há provas reais, diga o Soleil o que disser, de
que os objetos encontrados tenham lá estado mais de um pequeno número de
dias, ao passo que é mais do que presumível que não poderiam ter lá estado, sem
serem descobertos, durante os vinte dias decorridos entre o domingo fatal e a
tarde em que toram encontrados pelos rapazinhos. Estavam completamente
estragados pela ação da chuva — diz o Soleil, tirando esta opinião de outros
jornais que falaram antes dele — e colados uns aos outros pela umidade. Em
redor, a erva crescera, chegando até a cobri-los parcialmente. A seda da
sombrinha era sólida, mas as varetas estavam fechadas, e a parte superior, onde o
tecido era reforçado, roída e apodrecida pela umidade, rasgou-se logo que foi
aberta. No que respeita à erva, que cresceu em redor e cobriu parcialmente os
objetos, é evidente que o fato só pode ter sido comprovado segundo os dizeres
dos dois garotos, pois esses dois garotos pegaram nos objetos e levaram-nos para
casa antes que fossem vistos por qualquer outra pessoa. Mas a erva cresce,
particularmente numa temperatura quente e úmida, como a observada na data
do crime, cerca de cinco a sete centímetros por dia. Uma sombrinha caída num
terreno com ervas pode, no espaço de uma semana, ficar completamente
coberta. E quanto a essa umidade, em que o redator do Soleil insiste tão
teimosamente, ao ponto de utilizar a palavra pelo menos duas vezes no curto
parágrafo citado, ignorará verdadeiramente a sua natureza? Será necessário
ensinar-lhe que se trata de uma das numerosas espécies de fungos cuja
característica mais ordinária é crescer e morrer num espaço de vinte e quatro
horas?
« Vemos assim, ao primeiro olhar, que tudo quanto foi tão pomposamente
alegado para apoiar a ideia de que os objetos permaneceram no local durante
pelo menos três ou quatro semanas, tem valor absolutamente nulo, como prova
seja do que for. Por outro lado, é demasiado difícil acreditar que esses objetos
tenham podido permanecer no bosque em questão durante mais de uma semana,
durante um intervalo mais longo que de um domingo ao outro. Os que conhecem
um pouco os arredores de Paris sabem da extrema dificuldade que há em
encontrar um retiro, a não ser a grande distância dos arrabaldes. Um recanto
inexplorado, ou até raramente visitado, nesses bosques e matagais, é coisa
impensável. Um verdadeiro amante da natureza, condenado pelo seu dever à
poeira e ao calor desta grande metrópole, pode tentar, até durante os dias de
trabalho, satisfazer a sua sede de solidão nesses cenários de beleza natural e
campestre que nos rodeiam. Antes que tenha podido dar dois passos, sentirá o
encanto nascente desfeito pela voz ou a aparição de qualquer patife ou de um
bando de pândegos ociosos. Procurará o silêncio nas sombras mais espessas, mas
sempre em vão. É precisamente nesses recantos que abundam os crápulas, são
esses os templos mais profanados. Com o coração inundado de desgosto, o
passeante regressará a Paris, como para uma cloaca de impureza menos
grosseira e, consequentemente, menos odiosa. Mas, se os arredores da cidade são
assim infestados durante os dias de semana, são-no muito mais ainda ao
domingo. É sobretudo então que, libertado das amarras do trabalho ou privado
das ocasiões mais favoráveis ao crime, o malandro da cidade se espalha pelos
arredores, não por amor da natureza campestre, que despreza, mas para escapar
aos incômodos e às convenções sociais. Não são o ar fresco e as verdes árvores o
que deseja, mas a absoluta liberdade do campo. Aí, no albergue à beira da
estrada ou na sombra dos bosques, exclusivamente observado pelos seus dignos
companheiros, entrega-se aos excessos furiosos de uma falsa alegria, filha da
liberdade e do álcool. Nada digo que não salte aos olhos de um observador
imparcial, quando afirmo que a permanência de quaisquer objetes durante um
período superior a uma semana sem serem vistos, em qualquer bosque dos
arredores de Paris, seria coisa digna de ser considerada quase como um milagre.« Não nos faltam, todavia, motivos para pensar que esses objetes foram lá colocados para desviar as atenções do verdadeiro teatro do crime. Em primeiro lugar, permita-me que lhe faça notar a data desta descoberta. Compare-a com data do quinto dos meus extratos, na revista que eu próprio passei aos jornais. Verificará que a descoberta foi feita quase logo após as cartas urgentes enviadas ao jornal da tarde. Essas cartas, ainda que variadas e provindo aparentemente de fontes diversas, tendem todas para o mesmo fim: o de chamar a atenção para um bando de malfeitores que teriam sido os autores do crime, e para os arredores da barreira do Roule, como teatro do feito. Ora, o que pode surpreender-nos, não é, naturalmente, que os objetes tenham sido encontrados pelos garotos, depois de as cartas terem surgido e depois de a atenção pública ter sido dirigida para esse lado; mas poder-se-ia supor com lógica que, se os objetes não foram encontrados mais cedo, foi porque ainda não se encontravam no bosque, porque foram colocados ali numa data posterior — a mesma, ou pouco anterior à das cartas... pelos próprios culpados e autores dessas cartas.
« O bosque era um bosque singular... excessivamente singular. De uma rara
espessura. No interior das suas muralhas naturais, havia três pedras
extraordinárias, formando uma cadeira com espaldar e assento. E esse bosque,
onde a natureza imitava tão bem a arte, situava-se a escassas centenas de metros
da casa da senhora Deluc, cujos filhos tinham o costume de percorrer os bosques
circundantes. Seria temerário apostar — mil contra um — que não se passava
um dia sem que pelo menos um dos garotos fosse esconder-se nessa sala de
verdura e sentar-se nesse trono natural? Os que hesitarem em apostar ou nunca
foram crianças ou esqueceram a natureza infantil. Repito, é demasiado difícil
compreender que esses objetes possam ter permanecido no bosque mais de um
ou dois dias sem terem sido descobertos; há assim boas razões para supor, a
despeito da dogmática ignorância do Soleil, que foram colocados, numa data
bastante tardia, no local onde os encontraram.
« Para que se acredite, porém, que as coisas se passaram realmente assim, há ainda outras razões, mais fortes do que as já apresentadas. Deixe-me agora chamar a sua atenção para a disposição por de mais artificial dos objetos. Sobre a pedra superior encontrava-se uma saia branca; sobre a segunda pedra, um xale de seda; espalhados em redor, uma sombrinha, luvas e um lenço de bolso marcado com o nome de Marie. É justamente uma disposição como deve tê-la imaginado um espírito pouco subtil, com o objetivo de montar uma encenação natural. Mas não se trata de modo algum de uma disposição natural. Preferiria ver todas as coisas caídas por terra, e espezinhadas. No estreito espaço do bosque, seria quase impossível que a saia e o xale mantivessem a sua posição sobre as pedras, expostos às sacudidelas resultantes de uma luta entre várias pessoas. Havia, diz-se, sinais de luta, a terra estava espezinhada, os arbustos partidos, mas a saia e o xale foram encontrados muito bem arrumados em cima das pedras. Os fragmentos de roupas, encontrados presos aos arbustos, tinham cerca de oito centímetros de largura por dezesseis de comprimento. Um deles era um pedaço da bainha... Davam a impressão de liras arrancadas... Aqui, sem o notar, o Soleil utilizou uma frase excessivamente suspeita. Os fragmentos, tal como nos foram descritos, dão a impressão de liras arrancadas, mas propositadamente, à mão. E acidente dos mais raros, que possa ser inteiramente arrancado um pedaço de tecido, como os que são descritos, pela ação de um só espinho. Pela própria natureza do tecido, um espinho ou um prego que nele se prenda rasga-o retangularmente... abre-o com duas fendas longitudinais, em ângulo reto e encontrando-se no ponto onde o espinho entrou. Mas é quase impossível compreender que a tira tenha sido completamente arrancada. Nunca vi tal coisa, e o meu amigo também não. Para arrancar um pedaço a um tecido, são necessárias, em quase todos os casos, duas forças distintas, agindo em sentidos diferentes. Se o tecido apresenta dois bordos, se, por exemplo, se trata de um lenço, e caso se deseje arrancar-lhe uma tira, então bastará uma única força. Mas, no caso vertente, trata-se de um vestido que só apresenta um bordo. Quanto a arrancar um pedaço do meio, que não apresenta qualquer bordo, seria um milagre vários espinhos conseguirem fazê-lo, agindo um em duas direções diferentes, e o outro numa só direção. E isto supondo ainda que o bordo não tem bainha. Se a tem, a coisa torna-se quase impossível. Vimos que grandes e numerosos obstáculos impedem que os pedaços tenham sido arrancados pela simples ação de espinhos. No entanto, somos convidados a acreditar que não só um, mas vários pedaços, foram arrancados deste modo. E um desses pedaços era a bainha da saia! Outro era uma parte da saia, mas não da bainha, isto é: tinha sido arrancado completamente pela ação dos espinhos, de uma parte que não oferecia qualquer bordo! Eis, afirmo, coisas em que é perdoável não acreditar; no entanto, tomadas coletivamente, constituem um motivo menos plausível de suspeita do que esta única circunstância tão surpreendente, a saber: que os objetos tenham podido ser deixados no bosque por assassinos que tomaram a precaução de fazer desaparecer o cadáver. Todavia, não captou bem o meu pensamento, se ficou com a ideia de que a minha intenção é negar que o bosque foi o teatro do atentado. Que lá tenha acontecido qualquer coisa de grave, é possível; mais verossimilmente, uma desgraça, em casa da senhora Deluc. Mas, em suma, é um ponto de importância secundária. Prometemos descobrir os assassinos, e não o local do crime. Todos os argumentos que aleguei, apesar da minúcia com que o fiz, tinham como único objetivo provar-lhe, antes de mais nada, a estupidez das asserções tão positivas e tão impetuosas do Soleil, em seguida, e principalmente, levá-lo, por uma via natural, a uma outra dúvida... examinar se o crime foi ou não obra de um bando.
« Para que se acredite, porém, que as coisas se passaram realmente assim, há ainda outras razões, mais fortes do que as já apresentadas. Deixe-me agora chamar a sua atenção para a disposição por de mais artificial dos objetos. Sobre a pedra superior encontrava-se uma saia branca; sobre a segunda pedra, um xale de seda; espalhados em redor, uma sombrinha, luvas e um lenço de bolso marcado com o nome de Marie. É justamente uma disposição como deve tê-la imaginado um espírito pouco subtil, com o objetivo de montar uma encenação natural. Mas não se trata de modo algum de uma disposição natural. Preferiria ver todas as coisas caídas por terra, e espezinhadas. No estreito espaço do bosque, seria quase impossível que a saia e o xale mantivessem a sua posição sobre as pedras, expostos às sacudidelas resultantes de uma luta entre várias pessoas. Havia, diz-se, sinais de luta, a terra estava espezinhada, os arbustos partidos, mas a saia e o xale foram encontrados muito bem arrumados em cima das pedras. Os fragmentos de roupas, encontrados presos aos arbustos, tinham cerca de oito centímetros de largura por dezesseis de comprimento. Um deles era um pedaço da bainha... Davam a impressão de liras arrancadas... Aqui, sem o notar, o Soleil utilizou uma frase excessivamente suspeita. Os fragmentos, tal como nos foram descritos, dão a impressão de liras arrancadas, mas propositadamente, à mão. E acidente dos mais raros, que possa ser inteiramente arrancado um pedaço de tecido, como os que são descritos, pela ação de um só espinho. Pela própria natureza do tecido, um espinho ou um prego que nele se prenda rasga-o retangularmente... abre-o com duas fendas longitudinais, em ângulo reto e encontrando-se no ponto onde o espinho entrou. Mas é quase impossível compreender que a tira tenha sido completamente arrancada. Nunca vi tal coisa, e o meu amigo também não. Para arrancar um pedaço a um tecido, são necessárias, em quase todos os casos, duas forças distintas, agindo em sentidos diferentes. Se o tecido apresenta dois bordos, se, por exemplo, se trata de um lenço, e caso se deseje arrancar-lhe uma tira, então bastará uma única força. Mas, no caso vertente, trata-se de um vestido que só apresenta um bordo. Quanto a arrancar um pedaço do meio, que não apresenta qualquer bordo, seria um milagre vários espinhos conseguirem fazê-lo, agindo um em duas direções diferentes, e o outro numa só direção. E isto supondo ainda que o bordo não tem bainha. Se a tem, a coisa torna-se quase impossível. Vimos que grandes e numerosos obstáculos impedem que os pedaços tenham sido arrancados pela simples ação de espinhos. No entanto, somos convidados a acreditar que não só um, mas vários pedaços, foram arrancados deste modo. E um desses pedaços era a bainha da saia! Outro era uma parte da saia, mas não da bainha, isto é: tinha sido arrancado completamente pela ação dos espinhos, de uma parte que não oferecia qualquer bordo! Eis, afirmo, coisas em que é perdoável não acreditar; no entanto, tomadas coletivamente, constituem um motivo menos plausível de suspeita do que esta única circunstância tão surpreendente, a saber: que os objetos tenham podido ser deixados no bosque por assassinos que tomaram a precaução de fazer desaparecer o cadáver. Todavia, não captou bem o meu pensamento, se ficou com a ideia de que a minha intenção é negar que o bosque foi o teatro do atentado. Que lá tenha acontecido qualquer coisa de grave, é possível; mais verossimilmente, uma desgraça, em casa da senhora Deluc. Mas, em suma, é um ponto de importância secundária. Prometemos descobrir os assassinos, e não o local do crime. Todos os argumentos que aleguei, apesar da minúcia com que o fiz, tinham como único objetivo provar-lhe, antes de mais nada, a estupidez das asserções tão positivas e tão impetuosas do Soleil, em seguida, e principalmente, levá-lo, por uma via natural, a uma outra dúvida... examinar se o crime foi ou não obra de um bando.
« Atacarei esta questão com uma simples alusão aos revoltantes
pormenores dados pelo cirurgião interrogado na altura do inquérito. Bastar-me-á
dizer que, publicadas as conclusões do cirurgião, relativamente ao número de
assaltantes, foram estas justamente ridicularizadas — eram falsas e
absolutamente destituídas de base — por todos os anatomistas honestos de Paris.
Não digo que a coisa não possa ter, materialmente, acontecido como ele diz; mas
não vejo razões suficientes para as suas conclusões; não as haveria suficientes,
porém, para uma outra?
« Reflitamos agora sobre os sinais de luta, e perguntemos o que se pretende provar com esses sinais. A presença de um bando? Mas não provarão antes a ausência de um bando? Que espécie de luta, que luta suficientemente violenta e prolongada para deixar sinais em todos os sentidos, se pode imaginar entre uma débil jovem indefesa e o suposto bando de patifes? Um par de rudes braços segurando-a silenciosamente, e seria o fim dela. A vítima ficaria absolutamente passiva e à mercê dos assaltantes. Observará aqui que os nossos argumentos contra o bosque, considerado teatro do atentado, só se lhe aplicam como teatro de um atentado cometido por mais de um indivíduo. Se supusermos um único homem disposto à violação, então, e só então, poderemos compreender uma luta suficientemente violenta e prolongada para marcas tão visíveis.
« Reflitamos agora sobre os sinais de luta, e perguntemos o que se pretende provar com esses sinais. A presença de um bando? Mas não provarão antes a ausência de um bando? Que espécie de luta, que luta suficientemente violenta e prolongada para deixar sinais em todos os sentidos, se pode imaginar entre uma débil jovem indefesa e o suposto bando de patifes? Um par de rudes braços segurando-a silenciosamente, e seria o fim dela. A vítima ficaria absolutamente passiva e à mercê dos assaltantes. Observará aqui que os nossos argumentos contra o bosque, considerado teatro do atentado, só se lhe aplicam como teatro de um atentado cometido por mais de um indivíduo. Se supusermos um único homem disposto à violação, então, e só então, poderemos compreender uma luta suficientemente violenta e prolongada para marcas tão visíveis.
« Outra coisa ainda... Já fiz notar as suspeitas sugeridas pelo fato de os
objetos em questão terem podido permanecer no bosque onde foram
encontrados. Parece quase impossível que estas provas de crime tenham lá sido
deixadas acidentalmente. Houve suficiente presença de espírito (isto supõe-se)
para levar o cadáver e, no entanto, uma prova mais concludente do que o próprio
cadáver — cujas feições teriam sido rapidamente alteradas pela decomposição
— fica imprudentemente abandonada no local do crime. Faço alusão ao lenço de
bolso, onde está gravado o nome da defunta. Se foi esquecimento acidental, não
terá sido por um bando. Só o podemos explicar da parte de um indivíduo isolado.
Vejamos. Foi um indivíduo quem cometeu o crime. Ei-lo sozinho com o espectro
da defunta. Está assustado pelo que jaz imóvel, à sua frente. Passado o furor da
paixão, há agora no seu coração amplo espaço para o natural horror pelo ato
cometido. Não sente de modo algum esse género de segurança que inspira a
presença de vários. Está sozinho com a morta. Treme, está assustado. No entanto,
é preciso esconder o cadáver algures. Leva-o para o rio, mas deixa atrás de si os
outros traços do crime; pois é-lhe difícil, para não dizer impossível, levar tudo de
uma só vez, e terá sempre tempo de voltar e ir buscar o que falta. Mas, no seu
laborioso caminho até ao rio, os receios aumentam. Os ruídos da vida rodeiam
no. Uma dúzia de vezes ouve, ou julga ouvir, os passos de alguém a espiá-lo. As
próprias luzes da cidade assustam-no. Finalmente, no entanto, após longas e
frequentes pausas cheias de angústia, alcança a margem do rio e desembaraça
se do seu sinistro fardo, servindo-se talvez de um barco. Agora, porém, que
tesouro deste mundo, que ameaça de castigo, teriam o poder de obrigar esse
assassino solitário a voltar, pela mesma fatigante e perigosa rota, ao terrível
bosque cheio de arrepiantes recordações? Não regressa, deixa que as
consequências sigam o seu curso. Mesmo que quisesse voltar, não poderia! A sua
única ideia é fugir imediatamente. Volta para sempre as costas àqueles bosques,
cheio de medo, e foge como se fosse perseguido pela ira do céu.
« Mas se supusermos um bando de indivíduos?... O número ter-lhes-ia
inspirado audácia, se, na verdade, a audácia pode alguma vez ter faltado no
coração de um patife, e é só de patifes que se supõe um bando composto. O
número, dizia eu. tê-los-ia preservado desse terror irracional que, segundo a
minha teoria, paralisou o indivíduo isolado. Admitamos, se quiser, a possibilidade
de um esquecimento num em dois ou em três desses indivíduos; o quarto
repararia a negligência. Nada teriam deixado ficar para trás, pois o seu número
permitir-lhes-ia levar tudo de uma vez. Não teriam necessidade de voltar.
« Examine agora a circunstância de que, nas vestes superiores do cadáver,
uma tira, com cerca de trinta centímetros de largura, tinha sido rasgada de baixo
para ama, desde a orla até à cintura, mas não completamente arrancada. Fora
enrolada três vezes em torno da cintura e presa atrás por um sólido nó. Isto foi
feito com o objetivo evidente de proporcionar uma pega para transportar o
corpo. Ora, um grupo de homens teria necessidade de recorrer a tal expediente?
Os membros do próprio cadáver constituiriam pegas não só suficientes, mas
muito mais cômodas. É pois a invenção de um só homem, o que nos leva ao
fato seguinte: Entre o bosque e o rio, descobriu-se que os arbustos tinham sido
abatidos, e a terra conservava o rastro de um pesado fardo que fora arrastado!
Mas um grupo de homens não se teria dado ao trabalho de abater um arbusto
para arrastar um cadáver, sendo-lhes mais fácil levantá-lo e fazê-lo passar por
cima. Teria um grupo de homens arrastado o cadáver, a menos que para deixar
marcas evidentes desse ato?
continua na página 488...
__________________
Leia também:
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
__________________
Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
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