Manuscrito encontrado numa garrafa
Aquele a quem não resta senão um momento de vida
Nada mais tem a esconder.
Quinault, Atys
continuando...
Um sentimento para o qual não tenho nome apossou-se de minha alma — uma sensação que não admitirá quaisquer análises, para a qual as lições do tempo passado são inadequadas, e de cuja compreensão receio nem sequer o próprio futuro detém alguma chave. Para uma mente constituída como a minha, esta última consideração é uma desgraça. Jamais — sei que jamais — me darei por satisfeito com respeito à natureza de minhas impressões. E contudo, não é de admirar que essas impressões sejam indefinidas, uma vez que se originam de fontes tão completamente inéditas. Uma nova percepção — uma nova entidade passou a integrar minha alma.
***
Já é decorrido um longo tempo desde que pisei pela primeira vez nos deques deste terrível navio, e os raios de meu destino estão, creio, convergindo em um foco. Homens incompreensíveis! Absortos em meditações de um tipo que me é vedado intuir, passam por mim sem me notar. Esconder-me foi uma completa tolice de minha parte, pois essa gente não me enxerga. Agora mesmo passei diretamente diante dos olhos do imediato; isso foi pouco depois de haver me aventurado pela cabine particular do próprio capitão, apropriando-me ali dos materiais com que ora escrevo, e tenho escrito. Continuarei a retomar esse diário de tempos em tempos. É verdade que provavelmente não encontrarei oportunidade de transmiti-lo ao mundo, mas não pretendo abrir mão de tentar. No último momento, tratarei de encerrar o manuscrito numa garrafa, e vou lançá-la ao mar.
***
Ocorreu um incidente que me proporcionou novo ensejo para reflexão. São tais coisas o incontrolado acaso em operação? Aventurei-me pelo convés e larguei-me, sem atrair qualquer atenção, entre uma pilha de cabos de enfrechates e velas usadas, no fundo do escaler. Enquanto cismava na singularidade de meu destino, aplicava pinceladas distraídas com uma brocha alcatroada às beiradas de um cutelo cuidadosamente dobrado sobre um barril perto de mim. Essa vela está agora envergada no alto do navio e as irrefletidas pinceladas da brocha formaram a palavra DESCOBERTA.
Tenho feito muitas observações ultimamente sobre a estrutura da
embarcação. Embora bem armada, ela não é, creio eu, uma belonave. Seu
cordame, feitio e aparelhamento geral constituem todos uma negativa a
suposições nesse sentido. O que ela não é eu o posso perceber facilmente;
o que ela é receio ser impossível dizer. Não sei como isso se dá, mas ao
escrutinizar seu estranho modelo e singular disposição de vergas, seu
tamanho imenso e velame prodigioso, sua proa austeramente simples e
popa antiquada, ocasionalmente cruza minha mente a sensação de coisas
familiares, e sempre vem misturada a essas sombras indistintas da
memória uma inexplicável lembrança de antigas narrativas estrangeiras e
de eras perdidas no tempo.
***
Tenho estado a observar o arcabouço do navio. É construído de um material que desconheço. Há qualquer coisa de peculiar no caráter da madeira que a meu ver parece torná-la extremamente imprópria para o uso a que foi destinada. Re iro-me a sua extrema porosidade, considerada independentemente da condição carcomida que advém de navegar por esses mares, e à parte a podridão que seria de esperar da idade. Parecerá talvez uma observação até certo ponto curiosa, mas esse madeirame apresentaria todas as características do carvalho espanhol, pudesse o carvalho espanhol ser dilatado por quaisquer meios não naturais.
Lendo o período acima, um curioso apotegma de um curtido navegador holandês me volta subitamente à memória. “É tão certo”, costumava ele dizer quando alguma dúvida era lançada sobre seu apego à verdade, “tão certo quanto existe um oceano onde o próprio navio cresce em tamanho como o corpo vivente de um marujo.”
***
Há mais ou menos uma hora, tomei coragem e fui me enfiar entre um grupo da tripulação. Não prestaram a menor atenção em mim e, embora eu ficasse bem no meio deles todos, pareciam completamente alheios à minha presença. Como aquele primeiro que vi no porão, ostentavam todos as marcas encanecidas de uma velhice provecta. Seus joelhos tremiam de enfermidade; seus ombros vergavam acentuadamente de decrepitude; suas peles enrugadas repercutiam com o vento; suas vozes eram baixas, trêmulas e alquebradas; seus olhos luziam com a reuma dos anos; e seus cabelos grisalhos desgrenhavam-se terrivelmente na tempestade. Em torno deles, por toda parte no convés, jaziam espalhados instrumentos matemáticos da construção mais antiquada e obsoleta.
***
Mencionei, faz algum tempo, o envergamento de um cutelo. Desse período em diante, o navio, com vento à popa arrasada, prosseguiu em seu terrível curso rumo sul, com cada farrapo de pano enfunado sobre ele, desde suas pegas até os mais baixos botalós de cutelo, e mergulhando a todo momento os lais das vergas de seus joanetes no mais apavorante inferno líquido que a mente humana jamais pôde conceber. Acabo de deixar o convés, onde me é impossível continuar de pé, embora a tripulação pareça experimentar pouco inconveniente. A mim parece um milagre dos milagres que nosso maciço volume não tenha sido tragado de uma vez para todo o sempre. Estamos decerto condenados a continuar lutuando no limiar da eternidade, sem nunca dar esse derradeiro mergulho no abismo. De vagalhões mil vezes mais estupendos do que qualquer um que algum dia já vi afastamo-nos deslizando com o desembaraço da célere gaivota; e as águas colossais erguem suas cabeças acima de nós como demônios das profundezas, mas como demônios restritos a simplesmente ameaçar, e proibidos de destruir. Sou levado a atribuir essas evasões frequentes à única causa natural capaz de explicar tal efeito. Devo supor que o navio esteja sob a influência de alguma forte corrente oceânica, ou de uma impetuosa contracorrente de fundo.
***
Vi o capitão frente a frente, e em sua própria cabine — porém, como esperado, ele não prestou a menor atenção em mim. Embora em sua aparência não haja, para o observador casual, nada capaz de indicar alguém acima ou abaixo do comum dos homens, ainda assim um sentimento de irreprimível reverência e assombro mesclou-se à sensação de portento com que o contemplei. Em compleição, é quase de minha própria estatura; ou seja, cerca de um metro e setenta. Tem o corpo bem constituído e compacto, nem robusto, nem eminentemente o contrário. Mas é a singularidade da expressão dominante em seu rosto — a intensa, prodigiosa, cativante evidência de idade provecta, tão absoluta, tão extrema, que anima em meu espírito uma sensação — um sentimento inexprimível. Sua testa, embora pouco enrugada, parece ostentar sobre si a marca de uma miríade de anos. Seus cabelos cinza são registros do passado, e seus olhos ainda mais cinzentos são sibilas do futuro. O chão da cabine estava forrado de estranhos in-fólios encadernados com dobradiças de ferro, instrumentos científicos desfeitos, mapas arcaicos e obsoletos. Sua cabeça estava curvada entre as mãos, e ele perscrutava, com um olhar febril, inquieto, um papel que julguei ser uma carta de comissão, e que, em todo caso, exibia a assinatura de um monarca. Resmungava malcriadamente consigo mesmo — assim como fazia o primeiro marujo que vi no porão — algumas palavras em uma língua estrangeira; e embora o homem estivesse a um palmo de mim, sua voz parecia chegar aos meus ouvidos da distância de uma milha.
***
O navio e tudo que nele vai estão imbuídos do espírito de uma era ancestral. A tripulação se move de um lado para o outro como os fantasmas de séculos sepultados; seus olhos transmitem impaciência e inquietação; e quando suas silhuetas cruzam meu caminho ao clarão fantástico das lanternas de combate, sinto algo que nunca senti antes, ainda que tenha sido um negociante de antiguidades por toda a minha vida, e me deixado embeber pelas sombras de colunas caídas em Balbec, Tadmor, Persépolis, até minha própria alma ter se tornado uma ruína.
***
Quando olho em torno de mim, sinto vergonha de minhas antigas apreensões. Se tremi ante a tempestade que até o momento nos acompanhou, o que devo sentir senão o mais puro terror diante de um confronto bélico entre o vento e o oceano, do qual palavras como tornado e simum transmitem apenas uma ideia limitada e imprecisa? Tudo na vizinhança imediata do navio é o negror da noite eterna e um caos de águas sem espumas; mas a cerca de uma légua de ambos os lados de nós podem ser vistos, indistintamente e a intervalos, estupendos baluartes de gelo, assomando imponentes contra o céu desolado, e parecendo as muralhas do universo.
***
Como imaginei, o navio mostra estar em uma corrente — se essa denominação pode apropriadamente ser conferida a um luxo oceânico que, uivando e guinchando nas imediações do gelo branco, segue trovejando na direção sul com velocidade semelhante à violenta precipitação de uma catarata.
***
Conceber o horror de minhas sensações é, presumo, completamente impossível; contudo, uma curiosidade de penetrar nos mistérios dessas plagas espantosas predomina até mesmo sobre meu desespero, e me trará resignação perante o aspecto sumamente hediondo da morte. É evidente que singramos velozmente rumo a uma empolgante compreensão — algum segredo fadado a jamais ser partilhado, cujo conhecimento acarreta destruição. Talvez essa corrente nos leve ao próprio polo austral. É forçoso confessar que uma suposição aparentemente tão ousada conta com toda probabilidade a seu favor.
***
A tripulação anda de um lado a outro pelo convés com passadas trêmulas; mas observa-se em seus semblantes antes uma expressão de ansiedade esperançosa do que a apatia do desespero.
Nesse ínterim, o vento segue soprando de popa e, por carregarmos essa
infinidade de velas, o navio às vezes se eleva, de casco e tudo, acima do
oceano! Oh, horror sobre horror! — o gelo se abre subitamente à direita, e
à esquerda, e rodopiamos vertiginosamente, em imensos círculos
concêntricos, girando e girando pelas bordas de um gigantesco anfiteatro
cujas paredes no alto se perdem nas trevas e na distância. Mas pouco
tempo ainda me resta para refletir sobre meu destino! Os círculos
rapidamente ficam cada vez menores — mergulhamos desvairadamente
nas garras da voragem — e em meio aos rugidos, aos clamores, aos
estrondos do oceano e da tempestade, o navio estremece — ai, Deus! e
—— desce!
Nota: O “Manuscrito encontrado numa garrafa” foi originalmente
publicado em 1831 [1833]; e não foi senão depois de muitos anos que
tomei conhecimento das cartas de Mercator, em que o oceano é
representado como correndo, por quatro bocas, para dentro do Abismo
Polar (ao norte), de modo a ser engolido pelas entranhas da Terra; o
próprio polo é representado por um rochedo negro, assomando a
prodigiosa altura.
Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
continua página 72...
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Leia também:
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
Uma Descida ao Maelstrom (01) / A Ilha da Fada / A Máscara da Morte Vermelha / A Quinta de Arnheim (1) /
O Mistério de Marie Roget (e) / O Mistério de Marie Roget (f) / O Mistério de Marie Roget (g) / Leonizando /
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.