sexta-feira, 15 de maio de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Mistério de Marie Roget (a)

Edgar Allan Poe - Contos


O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842  


      Poucas pessoas haverá, mesmo entre os mais calmos pensadores, que não tenham sido alguma vez invadidas por uma vaga mas marcante semicrença no sobrenatural, em face de certas coincidências de um caráter aparentemente tão maravilhoso que o espírito se sente incapaz de admiti-las como puras coincidências. Tais sentimentos (pois as semicrenças de que falo nunca têm a perfeita energia do pensamento), tais sentimentos, repete-se, só muito dificilmente podem ser reprimidos, a menos que se recorra à ciência da sorte ou, segundo a denominação técnica, ao cálculo das probabilidades. Ora, este cálculo é, na sua essência, apenas matemático, e temos assim a anomalia de a ciência mais rigorosamente exata aplicada à sombra e à espiritualidade do que há de mais impalpável no mundo da especulação.
     Os extraordinários pormenores que me convidaram a publicar constituem, como se verá, quanto à sucessão das épocas, o primeiro ramo de uma série de coincidências quase inimagináveis de que todos os leitores encontrarão o ramo secundário ou final no assassínio recente de Mary Cecilia Rogers, em Nova Iorque.
     Quando, num artigo intitulado Os Crimes da Rua Morgue, me apliquei, há cerca de um ano, a descrever alguns dos traços mais salientes do caráter espiritual do meu amigo C. Auguste Dupin, não me ocorreu a ideia de que teria algumas vezes de voltar ao mesmo assunto. Apenas tinha o objetivo de descrever esse caráter, o que era perfeitamente conseguido através da estranha série de circunstâncias feitas para trazer à luz a idiossincrasia de Dupin. Teria podido acrescentar outros exemplos, mas com isso não teria provado qualquer coisa mais. Todavia, acontecimentos recentes, na sua surpreendente evolução, despertaram bruscamente na minha memória alguns outros pormenores, que guardarão assim, presumo, um certo ar de confissão arrancada. Depois de saber tudo o que só muito recentemente me foi contado, seria verdadeiramente estranho que guardasse silêncio sobre o que ouvi e vi há já muito tempo.
     Após a conclusão da tragédia ligada à morte da senhora L’Espanaye e da sua filha, o cavaleiro Dupin expulsou o caso do seu espírito e recaiu nos velhos hábitos de sombrio devaneio. Muito inclinado, desde sempre, para a abstração, o seu caráter não tardou em impeli-lo uma vez mais nesse sentido, e, continuando a ocupar o nosso apartamento no bairro Saint-Germain, abandonámos aos ventos toda e qualquer preocupação quanto ao futuro, e embalámo-nos tranquilamente no presente, bordando com os nossos sonhos a trama fastidiosa do mundo circundante.
     Estes sonhos, contudo, não decorreram sem interrupções. Adivinha-se facilmente que o papel desempenhado pelo meu amigo no drama da Rua Morgue deixou uma certa impressão no espírito da Polícia parisiense. Entre os seus agentes, o nome de Dupin tinha-se tornado uma palavra familiar. Nunca tendo sido explicado ao prefeito, nem a qualquer outro indivíduo, com exceção de mim próprio, o caráter simples das induções através das quais desvendara o mistério, não é de estranhar que o caso tenha sido considerado quase milagre, ou que as faculdades analíticas de Dupin lhe tenham valido a aura maravilhosa da intuição. A sua franqueza tê-lo-ia sem dúvida levado a desenganar todos os que persistissem em tal erro, mas a indolência foi o motivo por que um assunto que para ele deixara havia muito de ter interesse não fosse novamente agitado. Aconteceu assim que Dupin se tornou o foco para o qual se voltavam os olhos da Polícia, e em mais de uma ocasião a Prefeitura envidou esforços no sentido de conseguir o concurso dos seus talentos. Um desses casos mais notáveis foi o do assassínio de uma jovem chamada Marie Roget.
     Este acontecimento ocorreu cerca de dois anos depois do horror da Rua Morgue. Marie, cujos nomes de batismo e de família atrairão sem dúvida a atenção pela semelhança que apresentam com os de uma jovem e infortunada vendedora de charutos, era a única filha da viúva Estelle Roget. O pai morrera durante a infância da jovem e, desde essa data até dezoito meses antes do assassínio que constitui o tema do nosso relato, mãe e filha sempre tinham vivido juntas na Rua Pavée-Saint-André, onde a senhora Roget governava uma pensão burguesa, com a ajuda de Marie. E as coisas correram assim até que a jovem fez 22 anos, quando a sua grande beleza atraiu as atenções de um negociante de perfumes que ocupava uma das lojas do rés do chão do Palais Royal, e cuja clientela era principalmente constituída pelos aventureiros que infestam as vizinhanças. O senhor Le Blanc apercebeu-se imediatamente das vantagens que poderia tirar da presença da bela Marie no seu estabelecimento de perfumaria, e as suas propostas foram vivamente aceites pela jovem, ainda que tenham despertado na senhora Roget qualquer coisa mais do que hesitação.
     As esperanças do negociante realizaram-se, e os encantos da bela caixeira não tardaram em pôr em voga os seus salões. Ocupava o lugar havia cerca de um ano quando os seus admiradores foram lançados na desolação pela sua brusca desaparição da loja. O senhor Le Blanc confessou-se incapaz de dar contas desta ausência, e a senhora Roget ficou louca de inquietação e terror. Os jornais apoderaram-se imediatamente do assunto e a Polícia preparava-se para levar a cabo uma investigação a fundo quando, uma bela manhã, uma semana mais tarde, Marie, de perfeita saúde, mas com um ar ligeiramente entristecido, reapareceu, como de costume, atrás do balcão da perfumaria. Todas as investigações, exceto as que se revestiam de um caráter privado, foram imediatamente interrompidas. O senhor Le Blanc continuava, como anteriormente, a nada saber. Marie e a mãe respondiam, a quem as interrogava, que tinham passado a última semana em casa de um parente, no campo. O caso caiu assim num esquecimento geral, pois a jovem, com o objetivo de subtrair-se à impertinência da curiosidade, abandonou de vez a perfumaria e foi refugiar-se em casa da mãe, na Rua Pavée-Saint-André. 
     Havia cerca de seis meses que regressara a casa, quando os seus amigos foram alarmados por uma súbita e nova desaparição. Passaram-se três dias sem que se ouvisse falar a respeito da jovem. Ao quarto dia, o seu corpo foi descoberto flutuando no Sena, perto da margem que faz face ao bairro da Rua Saint-André, num local não muito distante dos arredores pouco frequentados da barreira do Roule.
     A atrocidade do crime (pois foi imediatamente evidente que de crime se tratava), a juventude e a beleza da vítima, e, ainda por cima, a sua notoriedade anterior — tudo contribuía para suscitar uma intensa excitação nos espíritos dos sensíveis parisienses. Não me recordo de um caso semelhante que tenha causado um efeito tão vivo e tão geral. Durante algumas semanas, até as graves questões políticas da altura foram substituídas nas discussões por este único e absorvente tema; e todas as forças da Polícia parisiense foram lançadas na investigação na máxima força.
     Quando o cadáver foi descoberto, ninguém supôs que o assassino pudesse escapar por muito tempo às pesquisas imediatamente ordenadas. Só ao cabo de uma semana se julgou necessário oferecer uma recompensa, e até essa recompensa se limitou, na altura, à soma de mil francos. Todavia, a investigação continuava com vigor, embora sem discernimento, e numerosos indivíduos foram interrogados, mas sem resultado. Entretanto, a ausência total de fio condutor neste mistério mais não fazia do que aumentar a excitação popular. Ao fim do décimo dia, considerou-se oportuno duplicar a soma inicialmente proposta, e pouco a pouco, tendo decorrido a segunda semana sem que se chegasse a qualquer conclusão, e porque a má opinião que Paris sempre formou a respeito da Polícia se houvesse manifestado em vários motins de alguma gravidade, o prefeito resolveu oferecer a soma de vinte mil francos « pela denúncia do assassino» , ou, se várias pessoas estivessem implicadas no caso, « pela denúncia dos assassinos» . Na proclamação que anunciava esta recompensa, era prometida plena amnistia a todo o implicado que depusesse espontaneamente contra o seu cúmplice, e à declaração oficial, onde quer que fosse afixada, juntava-se um cartaz privado, emanado de uma comissão de cidadãos, que oferecia dez mil francos, além da soma proposta pela Prefeitura. A recompensa inteira ascendia assim a trinta mil francos, o que pode ser considerado uma soma extraordinária, tendo em conta a humilde condição da pequena e a frequência com que, nas grandes cidades, se registam atrocidades no género.
     A partir de então já ninguém duvidou de que o mistério seria rapidamente descoberto. Mas ainda que, num ou dois casos, tenham sido efetuadas prisões que aparentemente poderiam permitir um esclarecimento, nada se descobriu que incriminasse as pessoas suspeitas, as quais foram imediatamente postas em liberdade. Por estranho que isso possa parecer, três semanas tinham já passado sobre a descoberta do cadáver, três semanas decorridas sem que fosse lançada a mais débil réstia de luz sobre o assunto, e nem o mais fraco rumor a respeito dos acontecimentos que tão violentamente agitavam a opinião pública tinha ainda chegado aos nossos ouvidos. Dupin e eu, dedicados a pesquisas que absorviam toda a nossa atenção havia mais de um mês, não puséramos, nem um nem o outro, o pé na rua, não recebêramos qualquer visita e mal tínhamos lançado um olhar aos principais artigos políticos de um dos jornais quotidianos. A primeira notícia sobre o crime foi-nos levada por G... em pessoa. Foi procurar-nos a 13 de julho de 18..., ao começo da tarde, e ficou conosco até bastante tarde. Estava vivamente mortificado pelo insucesso dos seus esforços para descobrir os assassinos. A sua reputação, dizia, com um ar essencialmente parisiense, estava em jogo, a sua própria honra comprometia-se no caso. Os olhos do público, de resto, estavam cravados nele, e não havia verdadeiramente sacrifício que não estivesse disposto a fazer para conseguir o esclarecimento do mistério. Terminou o seu discurso, razoavelmente divertido, com um cumprimento relativo àquilo a que quis chamar o facto de Dupin, e fez-lhe uma proposta direta, certamente muito generosa, mas cujo valor não me assiste o direito de revelar aqui, além do que não tem qualquer relação com o objeto do meu relato.
     O meu amigo rejeitou o cumprimento o melhor que pôde, mas aceitou imediatamente a oferta, ainda que as suas vantagens fossem absolutamente condicionais. Estabelecido este ponto, o prefeito lançou-se imediatamente numa explicação das suas próprias ideias, intercalando-lhe longos comentários sobre os depoimentos, os quais não possuíamos. Discorria longamente e até, sem dúvida, doutamente, quando eu arrisquei uma observação sobre a noite que avançava, convidando ao sono. Dupin, firmemente sentado no seu cadeirão habitual, era a encarnação da respeitosa atenção. Conservara os óculos durante toda a entrevista e, lançando de vez em quando um olhar ao seu rosto protegido pelas lentes verdes, tinha-me convencido de que, embora silencioso, o seu sono não fora menos profundo durante as sete ou oito últimas e pesadas horas que precederam a partida do prefeito.
     Na manhã seguinte, obtive, na Prefeitura, um relatório completo de todos os depoimentos obtidos até então, e, nas redações de diversos jornais, um exemplar de cada um dos números em que, desde o primeiro ao último momento, aparecera qualquer documento com interesse relativo ao triste caso. Desembaraçada do que podia positivamente considerar-se falsidade, esta massa de informações reduzia-se ao seguinte:

Marie Roget saíra de casa da mãe, na Rua Pavée-Saint-André, no domingo 22 de junho de 18..., por volta das nove da manhã. Ao sair dera parte ao senhor Jacques Saint-Eustache, e só a ele, da sua intenção de passar o dia em casa de uma tia, que vivia na Rua Drômes. A Rua Drômes é uma passagem curta e estreita, mas muito populosa, não muito longe da margem do rio, e situada a uma distância de duas milhas, em linha reta, da pensão da senhora Roget. Saint Eustache era o pretendente confessado de Marie, e vivia na pensão, onde tomava igualmente as suas refeições. Deveria ir buscar a noiva ao fim da tarde para acompanhá-la a casa. Mas, da parte da tarde, começara a chover copiosamente e, supondo que a jovem passaria a noite em casa da tia (como já fizera em circunstâncias semelhantes), Saint-Eustache não julgara necessário manter a sua promessa. Já noite cerrada, a senhora Roget (que era velha e doente), expressara o receio de « não voltar a ver Marie» , mas na altura ninguém tinha dado muita atenção a estas palavras.

     Na segunda-feira, verificou-se que a jovem não fora a casa da tia, e quando o dia passou sem que dela houvesse notícias, organizou-se então uma tardia busca em diversos pontos da cidade e dos arredores. Todavia, só no quarto dia sobre a desaparição se soube qualquer coisa de importante a seu respeito. Nesse dia (quarta-feira, 25 de junho), um tal senhor Beauvais, que com um amigo procurava vestígios de Marie perto da barreira do Roule, na margem do Sena oposta à Rua Pavée-Saint-André, foi informado de que um corpo acabava de ser trazido para terra por uns pescadores, os quais o haviam encontrado a flutuar no rio. Ao ver o corpo, Beauvais declarou, após alguma hesitação, tratar se do da jovem da perfumaria. O amigo reconheceu-o mais prontamente.
     O rosto estava coberto de sangue negro, em parte jorrado da boca. Não havia escuma, como acontece nos casos de pessoas simplesmente afogadas, nem descoloração no tecido celular. O pescoço apresentava contusões e marcas de dedos. Os braços, rígidos, estavam dobrados sobre o peito. A mão direita crispada, a esquerda meio aberta. O pulso esquerdo apresentava duas escoriações circulares, aparentemente causadas por cordas, ou por uma corda a que tivesse sido dada mais de uma volta. Uma parte do pulso direito estava também muito arranhado, assim como as costas, em toda a sua extensão, mas particularmente nas omoplatas. Para levar o corpo para a margem, os pescadores tinham-no amarrado com uma corda, mas não fora essa a causa das escoriações em questão. A carne do pescoço estava muito inchada. Não havia golpes aparentes, nem marcas que parecessem resultado de pancadas. Descobriu-se um pedaço de fio de tal modo apertado em torno do pescoço que se tornava difícil distingui-lo: estava completamente cravado na carne, e preso com um nó debaixo da orelha esquerda. Só isso teria bastado para causar a morte. O relatório dos médicos garantia firmemente a virtude da defunta. Tinha sido vencida, diziam, pela força bruta. O cadáver de Marie, ao ser encontrado, apresentava-se em condições tais que não podia deixar de haver, da parte dos seus amigos, certa dificuldade em reconhecê-la.
     O vestuário apresentava-se rasgado e em grande desordem. Da roupa exterior fora rasgada, de baixo para cima, uma tira com cerca de trinta centímetros de largura, da orla da saia até à cintura. Esta tira, que não chegara a ser arrancada, fora enrolada três vezes em torno da cintura e presa nas costas por um nó muito sólido. A peça de roupa imediatamente por baixo do vestido era de musselina fina; desta peça fora arrancada, mas muito regularmente e com grande nitidez, uma tira com a largura de quarenta centímetros, que foi encontrada em torno do pescoço, mas colocada de modo a ficar muito larga, presa por um nó apertado. Por cima desta tira de musselina e do pedaço de fio, estavam amarradas as tiras de um chapéu. O nó que prendia estas tiras não era como os que geralmente fazem as mulheres, mas um nó corrediço, à maneira dos marinheiros.

continua na página 455...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

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