sábado, 21 de março de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro¹

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842

      Há já alguns anos, liguei-me intimamente com um tal William Legrand. Pertencia a uma antiga família protestante e, em tempos, fora rico. Mas uma série de desgraças reduziram-no à miséria. Para evitar a humilhação dos seus desastres financeiros, deixou Nova Orleães, a cidade dos seus antepassados, e montou a sua casa na ilha de Sullivan, perto de Charleston, na Carolina do Sul.
     Esta ilha é das mais singulares, composta apenas de areia e mar e com cerca de três milhas de comprimento. De largura tem somente um quarto de milha.
     Está separada do continente por uma enseada que mal se vê, por onde a água se filtra através de uma massa de juncos e de lodo, ponto de reunião das galinhas d’água. A vegetação, como se poderá supor, é pobre, ou por assim dizer, rasteira.
     Não se encontram ali árvores de grande porte. Na extremidade ocidental, à direita, onde se erguem o forte de Moultrie e algumas miseráveis construções de madeira, habitadas durante o verão por pessoas que fogem das poeiras e das febres de Charleston, encontra-se, na verdade, a palmeira anã. Mas toda a ilha, com exceção deste ponto ocidental e de um espaço triste e esbranquiçado, que bordeja o mar, está coberta de espessas moitas de mirto odorífero, tão apreciado pelos horticultores ingleses.
     O arbusto cresce ali a uma altura de quinze ou vinte pés; forma um mato quase impenetrável, perfumando a atmosfera.
     No mais recôndito dessa mata, não longe da extremidade oriental da ilha, isto é, da mais afastada, Legrand construíra ele mesmo uma cabanazinha onde morava, quando pela primeira vez, e por acaso, o conheci. Este conhecimento transformou-se bem depressa em amizade, porque havia certamente, nesse recluso algo que despertava o interesse e a estima. Vi que ele recebera uma educação sólida, felizmente mantida pelas faculdades espirituais pouco comuns, mas que estava imbuído de misantropia e sujeito a penosas alternativas de entusiasmo e melancolia. Se bem que tivesse em casa muitos livros, lia-os raramente. As suas principais distrações consistiam em caçar, pescar ou passear ao acaso pela praia e através do mirto, à procura de marisco e de amostras entomológicas — a sua coleção teria podido causar inveja ao próprio Swammerdann. Nas suas excursões, acompanhava-o quase sempre um velho negro chamado Júpiter, que tinha sido libertado antes do revés da família, mas que não pôde nunca decidir-se, nem por ameaças nem por promessas, a deixar o seu massa Will; ele considerava como direito seu o de o seguir por toda a parte. É provável que os pais de Legrand, pensando que este estivesse um pouco desequilibrado, tivessem apoiado Júpiter na sua obstinação, com o fim de pôr uma espécie de guarda e de vigilante junto do fugitivo.
     Na latitude da ilha de Sullivan, os Invernos são raramente rigorosos e é um acontecimento quando, no declínio do ano, a fogueira se torna indispensável. Entretanto, em meados de outubro de 18..., houve um dia de frio intenso. Mesmo ao pôr do Sol, abri um caminho através da mata para a cabana do meu amigo, que não conseguia ver há já algumas semanas. Morava eu então em Charleston, a uma distância de nove milhas da ilha, e as facilidades para ir e voltar eram bem menores do que hoje. Ao chegar à cabana bati conforme o meu costume, e, como não recebesse resposta, procurei a chave onde sabia que estava escondida, abri a porta e entrei. Um belo lume crepitava na lareira. Era uma surpresa e certamente uma das mais agradáveis.
     Despi o casaco, arrastei uma poltrona para perto das achas incandescentes, e esperei pacientemente a chegada dos meus hospedeiros.
     Eles chegaram pouco depois do anoitecer e fizeram-me um acolhimento muitíssimo cordial. Júpiter ria-se escancarando a boca, enquanto trabalhava e preparava algumas galinhas d’água para a ceia.
     Legrand estava numa das suas « crises» de entusiasmo. Que outro nome lhe poderia dar? Porque tinha encontrado um bivalve de uma espécie desconhecida, e, ainda melhor, conseguira apanhar, com o auxílio de Júpiter, um escaravelho que julgava ser completamente novo e sobre o qual desejava ouvir a minha opinião no dia seguinte, de manhã. 

— E por que não esta noite? — perguntei-lhe esfregando as mãos diante do lume, e enviando em pensamento ao diabo toda a família dos escaravelhos. 
— Ah! Se eu soubesse que estava aqui! — disse-me Legrand. — Mas há tanto tempo que o não via! E como poderia eu adivinhar que me visitaria justamente esta noite? Ao voltar a casa encontrei o tenente G..., do forte, e impensadamente emprestei-lhe o escaravelho, de forma que será impossível que o veja antes de amanhã de manhã. Fique aqui esta noite, e enviarei Júpiter de madrugada para o trazer. É a coisa mais encantadora da criação. 
— O quê, a madrugada? 
— Oh!, não, que diabo! O escaravelho. É de uma cor de ouro brilhante, da grossura mais ou menos de uma noz, com duas manchas de um negro azeviche numa extremidade das costas, e uma terceira um pouco mais alongada, na outra. As antenas são de um estranho... 
— Não há absolutamente nada de estanho nele, massa Will, aposto consigo — interrompeu Júpiter. — O escaravelho é um escaravelho de ouro, e ouro maciço, de uma extremidade à outra, por dentro e por toda a parte, exceto as asas; nunca vi, na minha vida, um escaravelho que pesasse metade. 
— Pois bem, admitamos que tens razão, Júpiter — replicou Legrand um pouco mais depressa, segundo me pareceu, do que exigia a situação. — É razão para deixares queimar as galinhas? A cor do inseto — e virou-se para mim — bastaria na verdade para tornar verosímil a ideia de Júpiter. Nunca vi um brilho metálico mais intenso do que o dos seus élitros; mas não poderá apreciá-lo senão amanhã de manhã. Enquanto espera, tentarei dar-lhe uma ideia da sua forma. 

     Prosseguindo a conversa, sentou-se a uma mesinha na qual havia uma caneta e tinta, mas papel não. Procurou numa gaveta, mas não encontrou. 

— Não faz mal — disse por fim — isto bastará.

     E tirou da algibeira do colete qualquer coisa que me deu a impressão de um pedaço de velho pergaminho muitíssimo sujo, e traçou por cima dele um desenho com a pena. Entretanto, eu arranjava lugar ao pé do lume, porque continuava a ter muito frio. Quando acabou o desenho, passou-o sem se levantar. No momento em que o recebi das suas mãos ouviu-se um forte rosnar seguido de um arranhar à porta. Júpiter abriu, e um enorme terra-nova, que pertencia a Legrand, precipitou-se no quarto, pôs as patas nos meus ombros e encheu-me de festas, porque eu o tinha tratado muito bem nas outras visitas anteriores.
     Quando ele acabou, por fim com os saltos, olhei para o papel e, para dizer a verdade, fiquei um bocadinho intrigado com o desenho do meu amigo. 

— Sim! — disse-lhe depois de o ter contemplado alguns minutos. — É um estranho escaravelho, confesso. É novo para mim. Nunca vi coisa semelhante, a não ser um crânio ou uma caveira, ao qual se assemelha mais do que a nenhuma outra coisa que eu tenha examinado. 
— Uma caveira! — repetiu Legrand. — Ah!, sim, compreendo, há uma semelhança com isso no papel. As duas manchas pretas superiores são os olhos, e a mais comprida, que está mais abaixo, representa a boca, não é assim? Além disso a forma em geral é oval... 
— É talvez isso — disse — mas receio, Legrand, que não seja muito artista. Esperarei até que veja o próprio animal para fazer uma ideia do seu aspecto. 
— Muitíssimo bem! Não sei como isso aconteceu — respondeu um pouco amuado. — Eu desenho bastante bem, ou pelo menos deveria fazê-lo, porque tive bons mestres e gabo-me de não ser completamente idiota. 
— Nesse caso, meu amigo, este desenho é uma brincadeira? Isto é um crânio perfeito, segundo todas as ideias recebidas relativas a esta parte da osteologia, e o seu escaravelho seria o mais estranho de todos os do mundo se se assemelhasse a este. Poderíamos estabelecer acerca dele algumas suposições surpreendentes. Presumo que chamará ao seu inseto scarabaeus caput hominis, ou qualquer coisa parecida. Há nos livros de História Natural muitos nomes desse género. Mas onde estão as antenas de que falava? 
— As antenas! — respondeu Legrand que se exaltava inexplicavelmente. — Deve ver asi antenas, estou certo disso. Desenhei-as tão claramente como são no original, e presumo que isso é o suficiente. 
— Admitamos que as tivesse feito. No entanto, é verdade que as não vejo.

     Estendi-lhe o papel, sem fazer nenhuma observação, não querendo pressioná-lo mais, mas estava tão espantado pela reviravolta que o caso tinha dado, o seu mau humor intrigava-me, e quanto ao esboço do inseto, não tinha de certeza antenas visíveis, e o conjunto, sem equívocos, parecia-se com a imagem vulgar de uma caveira. Ele pegou de novo no papel com um modo desabrido e esteve quase a amarrotá-lo, sem dúvida para o deitar no lume, quando o seu olhar incidiu, por acaso, no desenho e toda a sua atenção pareceu estar presa nele. Durante alguns minutos, sem se mexer do lugar, continuou a examinar cuidadosamente o desenho.
     Passado um bocado, levantou-se, tirou uma vela da mesa e foi sentar-se em cima de um baú, na outra extremidade do quarto. Ali, recomeçou a examinar curiosamente o papel, virando-o em todos os sentidos. Contudo, não disse coisa alguma, e a sua conduta causou-me um espanto extraordinário, mas julguei prudente não exasperar com qualquer comentário o seu mau humor crescente. Tirou, por fim, da algibeira do casaco, uma carteira, guardou lá cuidadosamente o papel e colocou tudo numa secretária que fechou à chave. Ficou daí em diante com um aspeto mais calmo e o seu primeiro entusiasmo desapareceu totalmente. Tinha um ar mais de concentrado do que de amuado. A medida que decorria a noite, absorvia-se cada vez mais no seu sonho e nenhuma das minhas graças o conseguiu distrair. Primeiro, tivera a intenção de passar a noite na cabana, como já tinha feito mais de uma vez, mas, ao ver o humor do meu hospedeiro, julguei mais conveniente despedir-me. Ele não fez esforço algum para me reter, mas quando saí apertou-me a mão com uma cordialidade ainda mais viva do que de costume.
     Cerca de um mês depois desta aventura — e durante este intervalo, não ouvira mais falar de Legrand — recebi em Charleston uma visita do seu criado Júpiter. Nunca vira o bom velho negro tão completamente abatido e receei que tivesse acontecido ao meu amigo qualquer desgraça. 

— Pois bem, Jup, diz-me o que há de novo. Como está o teu patrão? 
— Ora essa! Para dizer a verdade, massa, não está tão bem como eu desejava. 
— Não está bem! Estou na verdade aflito por saber isso. Mas de que se queixa? 
— Ah! Esse é o mal! Nunca se queixa, mas apesar disso está muito doente. 
— Muito doente, Júpiter? Eh!, por que me não disseste logo? Está de cama? 
— Não, não está de cama. Não está bem em parte alguma e é justamente o que me aflige. Tenho o meu espírito inquieto a respeito do pobre massa Will. 
— Júpiter, gostava bem de compreender alguma coisa de tudo que me contaste. Dizes que o teu patrão está doente. Não te disse do que é que sofria? 
— Oh!, massa, é em vão que cansa a cabeça. Massa diz que não tem absolutamente nada; mas então por que é que ele anda de um lado para o outro, muito pensativo, a olhar para o chão, de cabeça baixa, de ombros descaídos e pálido como um ganso? E por que é que faz sempre e sempre algarismos? 
— Faz o quê, Júpiter? 
— Faz algarismos e sinais, numa ardósia — os sinais mais estranhos, como nunca vi. Começo a ter medo, apesar de tudo. É preciso que eu tenha o olhar posto nele, somente nele. Um dia destes, fugiu antes de amanhecer e andou por fora todo o santo dia. Cortara propositadamente um bom pau para lhe dar um corretivo, com os diabos!, quando ele voltasse; mas sou tão estúpido que não tive coragem; tinha um aspeto tão infeliz! 
— Ah!, creio que fizeste bem em ser indulgente para o pobre rapaz. Não é preciso chicoteá-lo, Júpiter, não está em estado de o suportar. Mas não podes fazer uma ideia do que provocou esta doença, ou por outra, esta modificação na sua conduta? Aconteceu-lhe alguma coisa triste desde que nos vimos? 
— Não, massa, não lhe aconteceu nada triste desde então, mas antes disso, sim, e tenho medo disso. Foi no próprio dia em que esteve lá. 
— Como? O que queres dizer? 
Massa, quero falar do escaravelho, eis tudo. 
— De quê? 
— Do escaravelho... Estou certo que massa Will foi mordido em qualquer lado da cabeça pelo escaravelho de ouro. 
— E que razão tens, Júpiter, para fazer semelhante suposição? 
— Tem bastantes pinças para isso, massa, e uma boca também. Nunca vi um escaravelho tão endiabrado: apanha e morde tudo o que se aproxima dele. Massa Will apanhou-o primeiro, mas depressa o soltou, asseguro-lhe; foi então, sem dúvida, que foi mordido. O aspecto desse escaravelho e a boca dele nunca me agradaram. Por isso não quis apanhá-lo com os meus dedos. Peguei num pedaço de papel e embrulhei-o, com um pedacinho de papel na boca — eis como procedi. 
— E tu pensas, portanto, que o teu patrão foi realmente mordido pelo escaravelho e que esta mordedura o deixou doente? 
— Não penso absolutamente nada; sei-o! Por que é que ele sonha sempre com ouro, senão por que foi mordido pelo escaravelho de ouro? Já ouvi falar desses escaravelhos de ouro. 
— Mas como sabes que ele sonha com ouro? 
— Como sei? Porque fala dele, mesmo quando dorme. É assim que sei. 
— Com efeito, Júpiter, talvez tenhas razão. Mas a que feliz circunstância devo hoje a honra da tua visita? 
— Que quer dizer, massa? 
— Trazes-me uma mensagem do teu patrão? 
— Não, massa, trago-lhe aqui uma carta. 

     E Júpiter estendeu-me um papel no qual li:

     Meu caro,
     Por que não o vejo há já tanto tempo? Espero que não seja tão acriançado para amuar com uma brusquidão da minha parte. Não, duvido muito disso.
     Desde que o vi, tive um motivo de grande inquietação. Tenho uma coisa para lhe dizer, mas dificilmente saberei fazê-lo. Poderei mesmo dizer-lhe?
     Não tenho estado completamente bem há já alguns dias e o pobre velho Júpiter aborrece-me insuportavelmente com todas as suas atenções.
     Acredita? Ele tinha preparado um dia destes um grande pau com o fim de me castigar, por lhe ter fugido e ter passado o dia só, no meio das colinas, no continente. Creio, realmente, que o meu mau parecer me livrou da pancada.
     Não aumentei nada à minha coleção desde que nos vimos. Volte com o Júpiter se não tiver alguma coisa importante para fazer. “Venha, venha.” Desejo vê-lo esta noite por causa de um assunto grave. Garanto-lhe que é da mais alta importância.
     O seu muito dedicado,
                                          William Legrand.

continua na página 415...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

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