sábado, 23 de maio de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Mistério de Marie Roget (b)

 Edgar Allan Poe - Contos


O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842  


     Depois de identificado, o corpo não foi, como é habitual, transportado para a morgue (tendo-se esta formalidade tornado supérflua), mas enterrado à pressa não muito longe do ponto da margem onde fora encontrado. Graças aos esforços de Beauvais, o caso foi cuidadosamente abafado, tanto quanto foi possível; e assim se passaram alguns dias antes que dele resultasse qualquer emoção pública. Finalmente, no entanto, um hebdomadário pegou no assunto; o cadáver foi exumado e ordenou-se novo inquérito, do qual nada resultou que não tivesse já sido observado. Todavia, as roupas foram então apresentadas à mãe e aos amigos da defunta, que as reconheceram perfeitamente como sendo as que a jovem vestia ao sair de casa.
     Entretanto, a excitação pública crescia de hora para hora. Vários indivíduos fortim presos e novamente postos em liberdade. Saint-Eustache, em particular, pareceu suspeito, e não soube a princípio esclarecer com lucidez os passos que dera no domingo em cuja manhã Marie saíra de casa. Mais tarde, no entanto, apresentou ao senhor G... as provas que explicavam de uma maneira satisfatória o uso que fizera de cada hora do dia em questão. Como o tempo passava sem levar a qualquer descoberta, mil rumores contraditórios foram postos em circulação, e os jornalistas puderam dar rédea às suas inspirações. De entre todas estas hipóteses, uma atraiu particularmente as atenções: a que admitia que Marie Roget estava viva e que o cadáver encontrado no Sena era o de qualquer outra infeliz. Parece-me útil submeter ao leitor algumas das passagens relativas a esta insinuação. Estas passagens são tiradas textualmente do L’Étoile, jornal geralmente dirigido com grande habilidade.

   A menina Roget saiu de casa de sua mãe na manhã de domingo, 22 de junho, com a intenção expressa de ir visitar uma tia, ou qualquer outra parente, residente na Rua Drômes. A partir desse instante, não é possível encontrar alguém que a tenha visto. Dela não há o mais pequeno rasto, a mais pequena notícia...
   Ninguém se apresentou declarando tê-la visto nesse dia, depois de ela ter atravessado o umbral da casa materna...
   Ora, se não temos qualquer prova indicando que Marie Roget era ainda deste mundo a partir das nove horas da manhã de domingo 22 de junho, temos, contudo, a certeza de que até esse momento estava viva. Quarta-feira, ao meio-dia, foi descoberto um corpo de mulher flutuando no rio, perto da barreira do Roule. Mesmo supondo que Marie Roget tenha sido lançada à água três horas após o instante em que saiu de casa da mãe, isto dar-nos-ia três dias decorridos sobre o momento da sua partida — três dias exatos. Mas é absurdo imaginar que o crime, se Marie foi vítima de um crime, possa ter sido consumado com suficiente rapidez para permitir aos assassinos lançar o corpo ao rio antes do meio da noite. Os que perpetram crimes tão horríveis preferem as trevas à luz do dia...
   Assim, vemos que, se o corpo encontrado no rio fosse o de Marie Roget, não poderia ter estado na água mais de dois dias e meio, no máximo três dias. A experiência mostra que os corpos afogados, ou lançados à água imediatamente após uma morte violenta, necessitam de um período que vai de seis a dez dias para que uma decomposição suficiente os faça voltar à superfície. Um cadáver sobre o qual se dispara um tiro de canhão, e que se eleva antes que a imersão tenha durado pelo menos cinco ou seis dias, volta a mergulhar se abandonado a si mesmo. Perguntamos agora: que terá podido, no caso presente, alterar o curso habitual da natureza?...
   Se o corpo, em estado de decomposição, tivesse sido conservado na margem até à noite de terça-feira, encontrar-se-iam nessa mesma margem alguns vestígios dos assassinos. É também muito duvidoso que o corpo tenha podido voltar tão depressa à superfície, mesmo admitindo que tenha sido lançado à água dois dias após a sua morte. Por fim, é excessivamente improvável que os malfeitores, depois de terem cometido um crime tal como o que se lhes atribui, lançassem o corpo à água sem um peso para o lastrar, quando seria tão fácil tomar essa precaução.

     O redator do jornal esforça-se em seguida por demonstrar que o corpo deve ter ficado na água não apenas três dias, mas pelo menos cinco vezes três dias, uma vez que estava de tal modo decomposto que Beauvais teve dificuldade em reconhecê-lo. Este último ponto, todavia, era completamente falso. Continuo a citação:

   Quais são pois os factos em que o senhor Beauvais se apoia para dizer que não duvida de que o corpo seja o de Marie Roget? Rasgou a manga do vestido e encontrou, segundo diz, marcas que provam a identidade. O público supôs de um modo geral que tais marcas deviam consistir numa espécie de cicatriz. O senhor Beauvais passou a mão pelo braço, e encontrou pelos — facto que nos parece menos estranho que se possa imaginar, e que é tão pouco concludente como encontrar um braço dentro de uma manga. O senhor Beauvais não voltou a casa nessa noite, mas mandou recado à senhora Roget, às sete da tarde de quarta-feira, para lhe dizer que o inquérito respeitante à filha seguia o seu curso. Mesmo admitindo que a senhora Roget, devido à idade e à dor, estava incapaz de dirigir-se ao local (o que, na verdade, é conceder demasiado) alguém teria decerto considerado útil ir até lá e seguir a investigação, se na verdade se pensasse tratar-se realmente do corpo de Marie. Mas ninguém foi. Nada se disse nem nada se ouviu dizer a respeito do assunto na Rua Pavée-Saint-André, que tivesse chegado aos ouvidos dos locatários da casa. O senhor Saint-Eustache, o apaixonado e o futuro marido de Marie, alojado em casa da mãe da jovem, afirma só ter ouvido falar da descoberta do corpo da sua noiva na manhã seguinte, quando o próprio senhor Beauvais entrou no seu quarto para lhe comunicar. Que uma notícia tão importante como esta tenha sido recebida tão tranquilamente, é coisa que nos assombra.

     O jornal esforça-se assim por sugerir uma certa apatia entre os parentes e amigos de Marie, apatia que seria absurda supondo que esses mesmos parentes e amigos julgassem verdadeiramente que o corpo encontrado era o da jovem. O L’Étoile procura, em suma, insinuar que Marie, com a conivência dos amigos, se ausentou da cidade por razões relacionadas com a sua virtude, e que esses mesmos amigos, tendo encontrado no Sena um corpo semelhante ao da jovem, haviam aproveitado a ocasião para espalhar a notícia da sua morte. Mas o L’Étoile precipitou-se. Provou-se claramente que a alegada apatia de modo algum correspondia à verdade. A velha senhora estava excessivamente fraca, e tão agitada, que lhe seria impossível ocupar-se fosse do que fosse; Saint Eustache, longe de receber a notícia com frieza, ficou louco de dor e deu tais mostras de desespero que o senhor Beauvais julgou aconselhável encarregar um dos seus amigos e parentes de vigiá-lo e impedi-lo de assistir ao exame que se seguiria à exumação. Além disso, ainda que o L’Étoile afirme que o corpo foi reenterrado a expensas do Estado, que uma vantajosa oferta de sepultura particular foi absolutamente recusada pela família, e que nenhum membro da família assistiu à cerimónia; ainda que o L’Étoile, dizia eu, afirme tudo isso, a fim de corroborar a impressão que deseja causar, todas estas afirmações foram vitoriosamente refutadas. Num dos números seguintes do mesmo jornal, faz-se um esforço para lançar as suspeitas sobre o próprio Beauvais. O redator diz o seguinte:

   Acaba de verificar-se uma alteração no caso. Contam-nos que em certa ocasião, quando uma tal senhora B. estava em casa da senhora Roget, o senhor Beauvais, que saía, disse-lhe que havia de aparecer ali um polícia, recomendando-lhe que nada lhe dissesse até que ele estivesse de volta, e que lhe deixasse o encargo de resolver o assunto...
   Na presente situação, parece que o senhor Beauvais tem todo o segredo do assunto fechado na cabeça. É impossível avançar um passo sem o senhor Beauvais. Para onde quer que nos voltemos, é ele que se nos depara...
   Por uma razão qualquer, decidiu que ninguém, exceto ele, poderia ocupar-se do inquérito e, a dar crédito às recriminações dos parentes, pô-los de parte de um modo bastante estranho. Pareceu muito obstinado com a ideia de impedir os parentes de ver o cadáver.

     O fato que se segue terá emprestado alguma verossimilhança às suspeitas lançadas sobre Beauvais. Alguém que o fora visitar no seu escritório, alguns dias antes do desaparecimento da jovem e durante uma ausência do mesmo Beauvais, observara uma rosa espetada no orifício da fechadura e a palavra Marie escrita numa ardósia colocada ao alcance da mão.
     A impressão geral, pelo menos tanto quanto nos foi possível deduzir dos jornais, era a de que Marie fora vítima de um bando de miseráveis furiosos, que a transportara para a margem, tendo-a aí maltratado e assassinado. No entanto, um jornal de vasta projeção, o Commercial, combatia vivamente esta ideia popular. Extraio uma ou duas passagens das suas colunas:

   Estamos convencidos de que a investigação seguiu até agora uma falsa pista, pelo menos na medida em que foi dirigida para a barreira do Roule. É impossível que uma jovem, conhecida, como era o caso de Marie, de vários milhares de pessoas, tenha podido percorrer um extenso trajeto sem encontrar alguém a quem o seu rosto fosse familiar. E quem a tivesse visto ter-se-ia recordado, pois Marie inspirava simpatia a todos os que a conheciam. Saiu de casa numa altura em que as ruas estão sempre cheias de gente...
   É impossível que tenha chegado até à barreira do Roule ou até à Rua Drômes sem ter sido reconhecida por uma dúzia de pessoas. Nenhum depoimento afirma, todavia, que alguém a tenha visto senão à porta de casa da mãe, e não há sequer provas de que tenha realmente chegado a sair, excetuando o testemunho referente à intenção manifestada por ela. Um pedaço do seu vestido foi rasgado, apertado em torno do corpo e preso com um nó: o corpo pode ter sido assim transportado, como um fardo. Se o crime tivesse sido cometido na barreira do Roule, não teria sido necessário tomar tais disposições. O facto de o corpo ter sido encontrado a flutuar perto da barreira não constitui prova quanto ao local onde foi lançado à água...
   Um pedaço de uma das saias da infeliz jovem, com sessenta centímetros de comprimento e trinta de largura, tinha sido arrancado, amarrado em torno do pescoço e preso atrás com um nó, provavelmente para a impedir de gritar. Isto foi feito por indivíduos que nem sequer tinham um lenço de bolso.

     Um ou dois dias antes de o prefeito nos visitar, a Polícia obtivera uma informação bastante importante que parecia destruir a argumentação do Commercial, pelo menos na sua parte principal. Dois garotos, filhos de um tal senhor Deluc, vagabundeando pelos bosques, perto da barreira do Roule, tinham se embrenhado por acaso num denso grupo de moitas, onde se encontravam três ou quatro grandes pedras formando uma espécie de cadeira, com costas e assento. Sobre a pedra superior jazia uma saia branca; na segunda havia um xale de seda. Foi ainda encontrada uma sombrinha, luvas e um lenço de bolso. O lenço ostentava o nome « Marie Roget» . Nos espinhos das moitas circundantes encontraram-se pedaços de roupas. O solo estava espezinhado, havia ramos quebrados; verificavam-se todos os sinais de uma luta. Entre as moitas e o rio, verificou-se que os arbustos tinham sido partidos e que a terra conservava o rastro de um pesado fardo que fora arrastado.
     Um hebdomadário, Le Soleil, fazia sobre estas descobertas os seguintes comentários, que não passavam do eco dos sentimentos de toda a imprensa parisiense:

   Os objetos estiveram no local, segundo toda a evidência, durante pelo menos três ou quatro semanas; estavam completamente estragados pela ação da chuva, e colados uns aos outros pela humidade. Em redor, a erva havia crescido, chegando até a cobri-los parcialmente. A seda da sombrinha era sólida, mas as varetas estavam fechadas, e a parte superior, onde o tecido era reforçado, roída e apodrecida pela humidade, rasgou-se logo que foi aberta (...) Os fragmentos de tecido presos aos arbustos tinham cerca de oito centímetros de largura por dezasseis de comprimento. Um deles era um pedaço da bainha do vestido, que tinha sido remendada, outro um pedaço da saia, mas não da bainha. Davam a impressão de tiras arrancadas e estavam suspensas de moitas espinhosas, a cerca de trinta centímetros do solo (...) Não é pois impossível duvidar de que foi finalmente descoberto o teatro do abominável crime.

     Imediatamente após esta descoberta, apareceu um novo testemunho. A senhora Deluc contou que tinha um albergue à beira da estrada, não longe da margem do rio oposta à barreira do Roule. Os arredores são solitários... muito solitários. É ali, ao domingo, o ponto de encontro habitual dos elementos suspeitos da cidade, que atravessam o rio em canoa. Por volta das três horas, na tarde do domingo em questão, uma jovem havia chegado ao albergue, acompanhada por um homem moreno. Tinham lá ficado ambos durante algum tempo. Depois de saírem, dirigiram-se aos densos bosques das imediações. A atenção da senhora Deluc fora despertada pela indumentária da jovem, devido à sua semelhança com a de uma das suas parentes já falecida, principalmente o xale. Logo após a partida do casal, apareceu um bando de desavergonhados, que fizeram uma balbúrdia indescritível, comeram, beberam e saíram sem pagar, seguindo o mesmo caminho que o homem e a jovem, e regressaram ao albergue ao fim da tarde, passando o rio a toda a pressa.

continua na página61...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

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