quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Coisas muito problemáticas - [a]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas



     Quanto às conferências de Edhin Krokowski, produzira-se, no decorrer dos anos, uma modificação surpreendente. Suas pesquisas dedicadas à análise das almas e à vida dos sonhos sempre haviam revelado um caráter subterrâneo, catacumbal. Recentemente, porém, numa transição suave que o público mal percebera, acabavam de tomar o rumo para o mágico, inteiramente misterioso. As palestras que o médico, trajando sobrecasaca e sandálias, postado atrás de uma mesinha coberta, fazia de duas em duas semanas, na sala de refeições, como a atração principal da casa e o orgulho do prospecto, essas palestras, apresentadas numa voz arrastada e com sotaque estrangeiro ao auditório que as escutava imóvel, já não se ocupavam dos disfarces da atividade erótica e da reconversão da doença no afeto tornado consciente. Tratavam a essa altura dos profundos segredos do hipnotismo e do sonambulismo, dos fenômenos da telepatia, do sonho revelador e da deuteroscopia, bem como dos milagres da histeria. Enquanto o Dr. Krokowski comentava tudo isso, ampliavam-se os horizontes filosóficos de tal maneira que de repente os olhos dos ouvintes vislumbravam enigmas tais como o da relação entre a matéria e a esfera psíquica, ou ainda o próprio enigma da vida, que parecia mais acessível por sendas dúbias, mórbidas, do que pelo caminho da saúde...
     Mencionamos esses fatos por achar que é nosso dever refutar as afirmações de espíritos levianos, segundo as quais o assistente recorrera às coisas ocultas apenas para salvar as conferências do perigo de uma irremediável monotonia, isto é, para fins puramente emocionais. Assim diziam as más línguas, que não faltam em parte alguma. É verdade que, durante as conferências de segunda-feira, os cavalheiros coçavam mais apressadamente do que nunca as orelhas para ouvir melhor, e a Srª. Levi parecia-se ainda mais do que antes com aquela figura de cera com mecanismo interior. Mas esses efeitos eram tão legítimos quanto o desenvolvimento por que passara o espírito do sábio, que podia defender não somente a lógica mas até a necessidade do caminho intelectual por ele transposto. Sempre haviam sido o seu campo de estudos aquelas regiões vastas e obscuras da alma humana, que são designadas pelo nome de inconsciente, se bem que fosse mais acertado falar de um “superconsciente”, já que dessas esferas procede às vezes, de um modo fantástico, um conhecimento que ultrapassa grandemente o saber consciente do indivíduo, e sugere a ideia da existência de relações ou laços entre as tenebrosas zonas interiores da psique individual e uma alma universal, perfeitamente consciente. A região do inconsciente, “oculta” no sentido próprio da palavra, imediatamente se mostra oculta também no sentido mais limitado e constitui uma fonte da qual emanam os fenômenos que assim chamamos por falta de outro termo melhor. Isso não é tudo. Quem considera o sintoma orgânico da doença o produto de afetos relegados da vida consciente da alma e transformados em histeria reconhece um poder criador das forças psíquicas, exercido sobre a matéria – esse poder que se deve qualificar de segunda fonte dos fenômenos mágicos. Quem pensa assim é um idealista do patológico, para não dizer um idealista patológico, e há de encontrar-se no ponto de partida de raciocínios que rapidamente alcançarão o problema do ser em si, quer dizer, o problema das relações existentes entre o espírito e a matéria. O materialista, filho de uma filosofia da força bruta, jamais renunciará a declarar que o espiritual é o produto fosforescente do material. O idealista, porém, partindo do princípio da histeria criadora, divergirá, e dentro em breve estará decidido a resolver num sentido totalmente oposto a dúvida acerca da primazia. Em suma, trata se aqui nada mais nada menos que da velha controvérsia sobre a questão de saber o que existiu antes, se o ovo ou a galinha; controvérsia que conduz a uma embrulhada completa precisamente pelo duplo lato de não se poder imaginar ovo que não haja sido posto por uma galinha nem galinha que não tenha saído de um ovo hipotético.
     Eram, pois, esses os assuntos que nos últimos tempos o Dr. Krokowski explanava nas suas conferências. Alcançara-os por caminhos orgânicos, legítimos, lógicos – não cessamos de insistir nisso, e nos parece até supérfluo acrescentar que já começara a comentá-los muito antes de Ellen Brand entrar em cena. Com a sua chegada, porém, as coisas passaram à fase empírica e experimental.
     Quem era Ellen Brand? Estávamos ao ponto de nos esquecer que os nossos leitores o ignoram, ao passo que para nós o seu nome é naturalmente familiar. Quem era ela? À primeira vista, quase ninguém. Uma coisinha querida de dezenove anos, com cabelos louros como trigo; chamavam-na Elly; era dinamarquesa, mas nem sequer natural de Copenhague, senão de Odense, na ilha de Fiônia, onde o pai se dedicava ao comércio de manteiga. Ela mesma tivera durante alguns anos um emprego como funcionária da sucursal provincial de um banco da capital, onde trabalhara, sentada numa banqueta giratória, diante de livros volumosos, com uma manga protetora no braço. No curso dessa atividade teve sintomas de elevação de temperatura. O caso não era grave. No fundo tratava-se apenas de suspeitas. Mas Elly era frágil, bastante frágil e evidentemente anêmica, embora tão gentil que dava à gente vontade de lhe pôr a mão nos cabelos louros, o que o conselheiro fazia regularmente, quando falava com ela na sala de refeições. Um frescor nórdico parecia envolvê-la, tinha uma castidade cristalina, uma atmosfera entre infantil e virginal, muito atraente, tal como o olhar franco, puro, dos seus olhos azuis, de criança, e como a sua voz branda, aguda, fininha. Falava um alemão levemente estropiado, com certos errinhos típicos de pronúncia. Nas feições não havia nada de particular. O queixo era muito curto. Tinha o seu lugar à mesa da Kleefeld, que a protegia como uma mãe.
     Em torno da donzela Elly Brand, essa amável ciclistazinha e bancária dinamarquesa, havia, no entanto, coisas que ninguém teria imaginado à primeira ou segunda vista da sua pessoa transparente, mas que poucas semanas após a sua chegada a essas alturas começaram a revelar-se. Coube ao Dr. Krokowski patentear a plenitude do mistério.
     Certas diversões coletivas, durante a reunião noturna, deram ao sábio os primeiros motivos de perplexidade. Os pensionistas faziam jogos de adivinhações. Também procuravam encontrar objetos escondidos, guiando-se por sons de piano que se tornavam mais fortes, à medida que a pessoa se aproximava do esconderijo, e mais fracos quando ela se desviava do caminho. A seguir, passaram a exigir a execução correta de determinadas ações complexas de quem esperava atrás da porta, enquanto os outros deliberavam; combinava-se, por exemplo, que essa pessoa deveria trocar os anéis de dois outros participantes do jogo, ou convidar alguém a dançar, mediante três reverências, ou retirar certo livro da biblioteca, para entregá-lo a Fulano ou Sicrano, etc. Convém observar que jogos desse tipo não eram habitualmente praticados entre os pensionistas do Berghof. Não foi possível averiguar de quem partira a ideia. Certamente não fora de Elly. Mas foi somente depois da sua chegada que esse jogo entrou em moda.
     Os que tomavam parte nele – eram quase todos velhos conhecidos nossos, e também Hans Castorp achava-se no meio do grupo – mostravam-se ora mais ora menos hábeis nas suas tentativas, ou fracassavam por completo. A aptidão de Elly Brand, porém, manifestou-se como extraordinária, sensacional e mesmo chocante. A segurança infalível com que a moça encontrara quaisquer esconderijos apenas lhe valera aplausos e risadas cheias de admiração. Mas quando começou a executar ações mais complicadas, os espectadores ficaram boquiabertos. Realizava ela tudo quanto lhe houvessem imposto secretamente; realizava-o, logo que voltava ao recinto, com um leve sorriso, sem a menor hesitação e também sem nenhuma música que a guiasse. Ia à sala de refeições para buscar uma pitada de sal; espargia-a sobre a cabeça do Promotor Paravant; em seguida, tomava-o pela mão e levava-o ao piano, onde tocava com o dedo indicador dele as primeiras notas de uma canção infantil; feito isso, reconduzia-o até o seu lugar, cumprimentava-o com uma mesura, aproximava um tamborete e sentava-se, por fim, a seus pés – exatamente assim como, depois de muita deliberação, fora combinado em segredo.
     Claro, ela tinha escutado!
     Elly ruborizou-se. Como que aliviados ao vê-la confundida, todos se puseram a censurá-la em coro, quando afirmava que não escutara. Não, não! Que não pensassem isso! Palavra de honra que não escutara lá fora, atrás da porta!
     Não escutara lá fora atrás da porta? 

– Não! – respondeu ela, desculpando-se, e acrescentou que era ali mesmo, dentro da sala que escutava. Quando entrava, não podia evitar fazê-lo.

     Dentro da sala? Não podia evitá-lo?
     Alguém lhe sussurrava aos ouvidos – soprava-lhe o que devia fazer, falava baixinho, mas com muita precisão e nitidez.
     Isso era uma confissão, evidentemente. Elly tinha, sob certos aspectos, consciência de ter cometido uma falta; fizera trapaça. Deveria ter dito que não se prestava a um jogo dessa espécie, já que alguém lhe sussurrava tudo aos ouvidos. Uma competição perde todo o seu sentido humano quando um dos participantes dispõe de vantagens sobrenaturais. Do ponto de vista desportivo, Elly estava subitamente desqualificada, mas de uma forma que causava arrepios a muitos que souberam do fato. Várias vozes, simultaneamente, clamaram pela presença do Dr. Krokowski. Saíram correndo para buscá-lo, e ele veio, atarracado, esboçando um sorriso enérgico. Ficara logo a par do assunto, e todo o seu ser inspirava alegre confiança. Ofegando, os mensageiros lhe haviam comunicado que uma coisa de crassa anormalidade acabava de acontecer, que surgira uma criatura onisciente, uma donzela que ouvia vozes. – Não digam! E daí? Calma, meus amigos! Vamos ver. – O assistente achava-se no seu próprio terreno, um terreno perigoso, alagadiço, instável para todos os outros, mas onde ele se movimentava com simpática segurança. Fez perguntas. Pediu que lhe contassem a história. – Não digam! Ora vejam! – E, como todos gostavam de fazer, pôs a mão na cabeça da pequena. Explicou que havia muitos motivos para atenção e nenhum para espanto. Cravou os olhos castanhos, exóticos, nos olhos azuis, claros, de Ellen Brand. Ao mesmo tempo descia a mão suavemente da cabeça, pelo ombro, até o braço. A jovem devolveu o olhar com uma expressão mais e mais piedosa, fitando-o por baixo, enquanto a cabeça se inclinava para a espádua e o peito. Quando os olhos da moça começaram a velar-se, o sábio levantou a mão, displicentemente, diante do rosto dela, e declarou que tudo ia muito bem. Mandou que o grupo excitado fosse repousar, com exceção de Elly Brand, com a qual tencionava “charlar” alguns instantes.
     “Charlar!” Já se sabia o que isso significava. Ninguém se sentia à vontade ao ouvir essa palavra, uma palavra peculiar ao jovial camarada Krokowski. Todos tinham a impressão de que uma mão fria lhes tocava o fundo do coração, também Hans Castorp, quando, com grande atraso, se instalou na sua excelente espreguiçadeira. Lembrou-se de como o solo lhe oscilara sob os pés, quando vira as proezas anormais de Elly e ouvira-a dar, toda ruborizada, a explicação do fato. Também recordou o leve mal-estar, a angústia física, o como que enjoo que o acometera nesse instante. Nunca havia assistido a um terremoto, mas estava convencido de que tal fenômeno devia produzir sensações análogas de inconfundível pavor, abstraindo-se a curiosidade que as faculdades fatais de Ellen Brand lhe inspiravam além disso; uma curiosidade que encerrava em si a sensação da sua própria inutilidade, num sentido superior, isto é, a consciência da inacessibilidade espiritual do domínio que ela procurava alcançar, e por conseguinte a dúvida de saber se ela era apenas ociosa ou também pecaminosa; o que, entretanto, não a impedia de permanecer o que era, quer dizer, curiosidade. No curso da sua vida, Hans Castorp, como todo mundo, tinha ouvido isto ou aquilo acerca de coisas de natureza ou “sobrenatureza” oculta. Já se mencionou aquela tia vidente, cuja lenda melancólica lhe fora transmitida. Mas não sentira tão próximo da sua própria pessoa esse mundo que, teórica e desinteressadamente, jamais deixara de reconhecer. Nunca fizera experiências particulares nesse terreno, e sua aversão contra tais experiências, oposição de gosto, antipatia estética, reação do orgulho humano – se é que podemos empregar termos tão elevados com referência ao nosso insignificante herói –, tudo isso igualava quase a viva curiosidade que elas lhe despertavam. Hans Castorp pressentia, pressentia com absoluta nitidez, que essas experiências, fosse qual fosse o rumo que tomassem, não poderiam levar a um fim não insípido, não incompreensível, não desprovido de dignidade humana. Assim ardia por fazê-la. Percebia que “ociosa ou pecaminosa”, essa alternativa já de per si bastante triste, não constituía em realidade nenhuma alternativa, mas era uma mesma coisa, e que a inutilidade espiritual não era senão a forma de expressar, fora da moral, o caráter proibido da experiência. O princípio do placet experiri, porém, que lhe inculcara certa pessoa que indubitavelmente desaprovaria com a maior veemência tentativas dessa espécie, continuava arraigado em Hans Castorp. Aos poucos coincidia a sua ética com a sua curiosidade, o que, na verdade, sempre fizera; com essa mesma curiosidade irrestrita, própria de um viajeiro ávido de formação, que, ao saborear o mistério da personalidade, talvez já se achasse próxima do domínio que agora se lhe deparava, e a qual revelava uma espécie de espírito militar, por não se esquivar da esfera vedada, desde que esta se oferecia a ela. Em consequência disso resolveu Hans Castorp permanecer no seu posto e não se afastar, quando surgissem novas aventuras relacionadas com Ellen Brand.
     O Dr. Krokowski proibira estritamente que continuassem, por parte dos leigos, quaisquer experimentos com as faculdades ocultas da Srta. Brand. Requisitara a garota para a ciência; tinha sessões com ela no calabouço analítico; hipnotizava-a, segundo se dizia, e esforçava-se por lhe desenvolver e disciplinar as possibilidades latentes e por investigar-lhe os antecedentes psíquicos. Hermine Kleefeld, a amiga maternal e a protetora de Elly, fazia, aliás, o mesmo e inteirava-se, sob sigilo, de uma porção de coisas, que logo ia espalhando, sob o mesmo sigilo, por toda a casa, inclusive o gabinete do porteiro. Soube ela, por exemplo, que aquele ou aquilo que sussurrava à pequena as respostas certas por ocasião dos jogos, se chamava Holger; era o jovem Holger, um espectro muito familiar a ela, um ser etéreo do outro mundo, e uma espécie de guardião fantasma de Ellen. Era então este quem lhe revelara aquela história da pitada de sal e do dedo indicador do Promotor Paravant? Sim, com os lábios de sombra acariciando-lhe a orelha, a ponto de ela sentir cócegas e se ver forçada a sorrir, o fantasma lhe segredara tudo. “Deve ter sido muito agradável na escola, quando Holger soprava as lições que você não tinha preparado, não é?” A essa pergunta, Ellen não dera resposta, segundo contava a Kleefeld. Mais tarde explicara que Holger talvez não tivesse o direito de fazer isso. Não lhe cabia intrometer-se em assuntos tão sérios. Além disso, era possível que ele mesmo não soubesse as lições.
     Manifestou-se em seguida que Ellen, desde criança, embora com grandes intervalos, tivera aparições, tanto visíveis como invisíveis. Que significava aquilo, aparições invisíveis? Por exemplo, o seguinte: quando tinha dezesseis anos, achava-se certo dia, em plena tarde, sozinha diante da mesa redonda na sala de estar da casa paterna, ocupada em fazer um trabalho manual. A seus pés, perto dela, estava deitada no tapete uma cadela dinamarquesa do pai, de nome Freia. A mesa estava coberta por uma toalha de muitas cores, espécie de xale turco, daquele tipo que as mulheres velhas usavam dobrado triangularmente. O xale estava estendido em diagonal sobre a superfície da mesa, com as pontas pendentes das bordas. E, de repente, Ellen viu como a ponta à sua frente se enrolava devagar; alguém enrolava-a calma, cuidadosa, regularmente, até quase o centro da mesa, de maneira que o rolo formado era bastante comprido. Enquanto isso acontecia, Freia, num violento sobressalto, soergueu-se bruscamente, com as patas dianteiras muito tesas e o pelo eriçado. A seguir precipitou-se uivando, para o quarto vizinho, onde se escondeu debaixo do sofá. Durante um ano inteiro foi impossível induzi-la a entrar novamente na sala de estar. 

– Foi Holger quem enrolou o xale? – perguntou a Srta. Kleefeld. A pequena Brand não sabia. – E que pensou você quando aquilo se deu? – Ora, como era completamente impossível pensar o que quer que fosse a esse respeito, Elly não pensara nada em particular. – Informou seus pais do acontecido? – Não. Era estranho. Ainda que nada houvesse que pensar acerca dessa ocorrência, tinha Elly a sensação de que era conveniente, nesse caso como em outros semelhantes, calar-se e guardar tudo em pudico e rigoroso segredo. – Sofreu muito com isso? – Não, muito não. Afinal de contas, uma toalha que se enrola não era para fazer a gente sofrer. Mas houvera outras coisas mais difíceis de suportar. Por exemplo:

     Fazia um ano, também no lar paterno em Odense, saíra ela de manhã cedo, muito animada, do seu quarto situado no rés-do-chão. Estava a ponto de atravessar o vestíbulo, a fim de subir a escada e encaminhar-se para a sala de jantar, para preparar o café, como de costume, antes da entrada dos pais. Já alcançara quase o patamar, onde a escada dava uma volta, quando viu nele, junto à beira, diante do primeiro degrau, sua irmã mais velha, Sophie, que era casada e morava nos Estados Unidos. Viu-a realmente, em carne e osso. Sophie trajava um vestido branco e – coisa singular! – uma coroa de nenúfares úmidos. Tinha as mãos postas perto dos ombros e acenava com a cabeça para Elly. Esta, como que petrificada, perguntou, entre alegre e atônita: – Mas como, Sophie? Tu aqui? – E Sophie novamente fez que sim. Em seguida sumiu; tornou-se transparente; depois de pouco tempo era visível somente assim como se percebe a flutuação do ar quente, e por fim não se viu mais nada, de maneira que Ellen pôde passar livremente. Mais tarde, porém, ficou sabendo que àquela mesma hora a mana Sophie morrera de endocardite em Nova Jersey. 

– Bem – opinou Hans Castorp, quando a Kleefeld lhe contara a história –, isso tinha um sentido e parecia plausível. A aparição aqui, o óbito lá... Inegavelmente havia entre as duas coisas algum nexo que se devia reconhecer. E ele consentiu em tomar parte num passatempo social de natureza espírita, uma tentativa de fazer um copo trepidar, que alguns impacientes haviam resolvido realizar com Ellen Brand, contornando a proibição ciumenta do Dr. Krokowski.
     
     Só algumas poucas pessoas foram admitidas à sessão que teria lugar no quarto de Hermine Kleefeld; além da anfitriã, de Hans Castorp e da pequena Brand, havia ainda as senhoras Stöhr e Levi, bem como o Sr. Albin, o tcheco Wenzel e o Dr. Ting-Fu. À noite, às dez em ponto, reuniram-se discretamente e examinaram, falando baixinho, os preparos feitos por Hermine e que eram os seguintes: numa mesa redonda de tamanho médio, sem toalha, colocada no centro do aposento, encontrava-se uma taça de vinho, virada, com o pé para cima, e em torno dela, nas bordas, estavam espalhadas, a intervalos convenientes, umas vinte e cinco chapinhas de osso, normalmente usadas como fichas de jogo, e nas quais haviam sido desenhadas a tinta as letras do alfabeto. Antes de mais nada, a Kleefeld serviu chá, o que foi acolhido com agrado, uma vez que as senhoras Stöhr e Levi, não obstante a inocência infantil da empresa projetada, já se queixavam de ter palpitações e as extremidades frias. Depois de ingerir a bebida quente, sentaram-se em redor da mesinha. Sob uma luz rosada – para criar uma atmosfera apropriada, a anfitriã apagara a luz do teto e deixara acesa somente a lampadazinha de cabeceira, envolta por um abajur –, todos encostaram um dedo da mão direita levemente ao pé da taça. Assim prescrevia o método. Aguardaram então o momento em que o copo se pusesse a trepidar.
     Isso podia produzir-se facilmente, pois a superfície da mesa era lisa, e o bordo do copo, bem polido; a pressão exercida pelos dedos trêmulos, por mais leve que fosse o contacto, seria naturalmente irregular, mais vertical aqui, mais lateral ali, o que bastaria, com o tempo, para determinar o copo a abandonar a sua posição central. Na periferia do seu campo de ação, a taça iria ao encontro de letras, e se aquelas com que se encontrasse compusessem palavras com algum sentido, isso representaria um fenômeno intimamente complexo até a impureza, um conglomerado de elementos conscientes, semiconscientes, inconscientes, um produto em que se mesclavam a ajuda ativa de alguns, instigada pelo desejo – quer se dessem ou não conta de que o tinham – e o consentimento secreto de extratos não-iluminados da alma coletiva, uma colaboração subterrânea, visando resultados aparentemente estranhos, para os quais contribuiriam em grau maior ou menor as esferas obscuras de cada um, sobretudo as da graciosa garota Elly. Todos sabiam disso de antemão, e Hans Castorp, segundo o seu costume, chegou até a comentar o fato, enquanto estavam sentados, esperando, com os dedos trêmulos. E, com efeito, as extremidades frias e as palpitações das senhoras, bem como a alegria constrangida dos homens, tinham o seu motivo dada a circunstância de todos saberem disso e de ninguém ignorar que se haviam reunido no seio da noite para um brinquedo impuro com a natureza de cada um, para uma experiência, entre tímida e curiosa, com partes ignotas do seu eu, aguardando aquelas ilusões ou semi-realidades que chamamos de mágicas. Era quase só para dar uma certa forma ao assunto e, por conseguinte, por mera convenção, que se admitia que espíritos de defuntos se serviriam do copo para dirigir-se ao grupo. O Sr. Albin ofereceu-se para ser o interlocutor e para interpelar os fantasmas que porventura se manifestassem, porque já participara em outras ocasiões de sessões espíritas.

continua pág 436...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [c]Coisas muito problemáticas - [a]
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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