Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto
Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB
SEGUNDA PARTE
24
Calpúrnia vestia o seu avental mais engomado. Carregava uma bandeja com torta charlotte. Ficou de costas para a porta e empurrou-a de leve. Eu admirava a facilidade e a graça com que ela carregava pesadas bandejas de coisas delicadas. Tia Alexandra também devia admirar, porque tinha deixado Calpúrnia servir as convidadas.
Estávamos no final de agosto. No dia seguinte, Dill ia embora para Meridian, então foi com Jem ao riacho Barker. Jem
tinha descoberto, com um misto de irritação e espanto, que ninguém tinha se preocupado em ensinar Dill a nadar, coisa que ele
considerava tão fundamental quanto andar. Os dois passaram duas tardes no riacho; disseram que iam nadar nus, por isso eu
não podia ir, então dividi meu tempo solitário entre Calpúrnia e a srta. Maudie.
Nesse dia, tia Alexandra e suas missionárias tinham espalhado o espírito da boa ação pela casa toda. Da cozinha, podia
ouvir a sra. Grace Merriweather na sala fazendo um relatório sobre a vida miserável dos mrunas, pelo que pude entender.
Colocavam as mulheres em cabanas quando chegava a hora delas, fosse lá o que isso fosse; não tinham nenhuma noção de
família — eu sabia que isso ia deixar a tia perturbada; quando faziam treze anos, as crianças eram submetidas a provas
terríveis; viviam cheios de lombrigas e parasitas, mastigavam casca de árvore, que cuspiam num pote comunitário,
embebedando-se com essa substância.
Imediatamente depois de ouvirem isso, as senhoras fizeram uma pausa para tomar refresco.
Eu não sabia se ia até a sala ou não. Tia Alexandra me disse para entrar e tomar refresco com elas; não era necessário que
eu acompanhasse a parte séria do encontro, disse que ia me entediar. Eu estava com meu vestido rosa de usar aos domingos,
sapatos e anágua e concluí que, se derramasse alguma coisa no vestido, Calpúrnia ia ter de lavar, secar e passar para o dia
seguinte. Ela estava cheia de trabalho nesse dia. Resolvi não entrar.
— Quer que eu ajude, Cal? — perguntei, querendo ser útil.
Calpúrnia parou na porta da sala.
— Fique aí, quieta como um ratinho no canto. Quando eu voltar, você me ajuda a encher as bandejas — ela respondeu.
O murmúrio suave das vozes femininas aumentou quando ela abriu a porta da sala.
— Nossa, Alexandra, nunca vi uma charlote assim… Que beleza… Nunca consigo uma crosta assim… E quem pensou em
fazer essas tortinhas de amora… Calpúrnia?… Quem diria… Você já soube que a mulher do reverendo está… Não, bem, ela
está, e o outro ainda nem sabe andar…
Elas se calaram e concluí que estavam todas servidas. Calpúrnia voltou e colocou na bandeja o pesado bule de prata que
tinha sido da minha mãe.
— Esse bule de café é uma preciosidade, não fazem mais bules assim — murmurou ela.
— Posso levar para a sala?
— Se tiver cuidado e não derramar. Coloque na ponta da mesa, ao lado da srta. Alexandra. Perto das xícaras e tal. Ela
serve.
Tentei empurrar com o traseiro, como Calpúrnia tinha feito, mas a porta nem se mexeu. Sorrindo, ela a segurou aberta para
mim.
— Cuidado, o bule está cheio. Não olhe para ele, assim não derrama.
Minha missão foi bem-sucedida: tia Alexandra abriu um sorriso radiante.
— Fique conosco, Jean Louise — disse ela. O convite fazia parte da campanha para me transformar numa dama.
Era costume que a anfitriã dos círculos missionários convidasse as vizinhas para tomar refrescos, fossem elas batistas ou
presbiterianas, o que explicava a presença da srta. Rachel (solene como um juiz), da srta. Maudie e da srta. Stephanie
Crawford. Nervosa, eu me sentei ao lado da srta. Maudie e fiquei me perguntando por que as senhoras punham chapéu para ir
do outro lado da rua. Grupos de senhoras sempre me causavam uma vaga apreensão e o firme desejo de estar em outro lugar, o
que tia Alexandra chamava de ser “mimada”.
As senhoras usavam lindos vestidos estampados em tons pastéis, a maioria estava com a cara cheia de pó de arroz, mas
sem ruge, e o único batom na sala era Tangee Natural. O esmalte Cutex Natural brilhava nas unhas, as mais jovens, porém,
usavam rosa. Estavam deliciosamente perfumadas. Sentei quieta, controlei as mãos segurando com força os braços da cadeira
e esperei que alguém falasse comigo.
A ponte móvel de ouro da srta. Maudie reluziu:
— Você está muito bem-vestida, srta. Jean Louise. Onde estão suas calças? — perguntou.
— Por baixo do vestido.
Eu não quis fazer graça, mas as senhoras riram. Corei quando percebi meu erro, mas a srta. Maudie me olhava séria. Ela
nunca ria dos meus comentários, a não ser que eu quisesse ser engraçada.
No silêncio repentino que se seguiu, a srta. Stephanie perguntou, do outro lado da sala:
— O que vai ser quando crescer, Jean Louise? Advogada?
— Não, ainda não pensei nisso… — respondi, grata porque a srta. Stephanie tinha mudado de assunto. Comecei a pensar
rapidamente na minha vocação. Enfermeira? Aviadora? — Bem…
— Ora, pensei que quisesse ser advogada, já até começou a ir ao tribunal.
As senhoras riram outra vez.
— Essa Stephanie é uma peça — disse alguém, e ela se animou a continuar.
— Não quer ser advogada quando crescer?
A srta. Maudie colocou a mão sobre a minha e eu respondi, baixinho:
— Não, só quero ser uma dama.
A srta. Stephanie me olhou desconfiada, concluiu que eu não estava sendo impertinente e contentou-se em dizer:
— Bem, não vai muito longe se não passar a usar vestidos com mais frequência.
A srta. Maudie apertou a minha mão e eu não disse nada. O calor da mão dela bastou.
A sra. Grace Merriweather estava sentada à minha esquerda e achei que seria educado falar com ela. O sr. Merriweather,
um fiel metodista sob coação, não via nenhum problema em cantar: “Ó Sublime Graça, como é doce o som que salvou um
miserável como eu…” Mas todo mundo em Maycomb sabia que a sra. Merriweather tinha feito ele largar a bebida,
transformando-o em um cidadão razoavelmente útil. Ela era, sem dúvida, a senhora mais devota de Maycomb. Procurei um
assunto que fosse do interesse dela.
— O que as senhoras discutiram esta tarde? — perguntei.
— Ah, filha, falamos nos pobres mrunas — ela respondeu e ficou quieta. Algumas perguntas mais seriam necessárias.
Os grandes olhos castanhos da sra. Merriweather sempre se enchiam de lágrimas quando ela pensava nos oprimidos.
— Imagine o que é viver naquela selva sem ninguém a não ser J. Grimes Everett. Nenhum branco tem coragem de se
aproximar deles, só o abençoado J. Grimes Everett.
A sra. Merriweather usava a voz como se fosse um órgão, reforçando o tom de cada palavra:
— A pobreza… a escuridão… a imoralidade… Apenas J. Grimes Everett sabe o que é isso. Sabe, quando a igreja me
ofereceu aquela viagem para o acampamento, J. Grimes Everett me disse…
— Ele estava lá, senhora? Pensei que… — perguntei.
— Ele estava em casa, de licença. Mas ele me disse: “Sra. Merriweather, a senhora não faz ideia, não imagina a luta que
estamos travando lá.” Foi o que ele me disse.
— Sim, senhora.
— Eu então disse a ele: “Sr. Everett, o senhor tem todo o apoio das senhoras da Igreja Episcopal Metodista de Maycomb
no Alabama.” Foi o que eu disse a ele. Então ali mesmo, naquele momento, jurei a mim mesma que, quando voltasse para casa,
eu ia dar um curso sobre mrunas e levar a mensagem de J. Grimes Everett a Maycomb. É o que estou fazendo.
— Sim, senhora.
Quando a sra. Merriweather balançava a cabeça, seus cachos negros se agitavam.
— Jean Louise, você é uma menina de sorte. Mora num lar cristão, com pessoas cristãs, numa cidade cristã. Lá na terra de
J. Grimes Everett, só existe pecado e sordidez.
— Sim, senhora.
— Pecado e sordidez… O que disse, Gertrude? — A sra. Merriweather voltou-se para a senhora que estava sentada ao seu
lado. — Ah, sim, essa história… Eu sempre digo: perdoe e esqueça, perdoe e esqueça. O que a igreja devia fazer era ajudá-la
a levar uma vida cristã, pelo bem daquelas crianças daqui em diante. Alguns dos homens deviam ir lá e dizer àquele pregador
para encorajá-la.
— Desculpe, sra. Merriweather — interrompi —, estão falando de Mayella Ewell?
— May… o quê? Não, filha. Estou falando na mulher daquele preto, a mulher de Tom, Tom…
— Tom Robinson, senhora.
A sra. Merriweather virou-se novamente para a senhora ao lado.
— Tem uma coisa na qual eu acredito de verdade, Gertrude — ela continuou —, mas algumas pessoas discordam de mim.
Se eles souberem que nós os perdoamos, que nós esquecemos, tudo isso estaria terminado.
— Ah… Sra. Merriweather — interrompi mais uma vez —, o que estaria terminado?
De novo, ela se virou para mim. A sra. Merriweather era um desses adultos sem filhos que acham que precisam mudar o
tom de voz quando falam com uma criança.
— Nada, Jean Louise — ela respondeu, lentamente. — As cozinheiras e os trabalhadores do campo só estão insatisfeitos,
mas já estão se acalmando… Depois do julgamento, eles passaram o dia reclamando.
A sra. Merriweather se voltou para a sra. Farrow:
— Gertrude, vou lhe dizer que a coisa mais desagradável que existe é um preto de cara amarrada. Penduram o beiço até
aqui. Uma pessoa dessas na sua cozinha acaba com o seu dia. Sabe o que eu disse para a minha Sophy, Gertrude? Eu disse:
“Sophy, você hoje não está sendo uma boa cristã. Jesus Cristo não andava por aí resmungando e reclamando.” E quer saber?
Foi bom para ela. Parou de olhar para o chão e disse: “É mesmo, sra. Merriweather, Jesus nunca ficava resmungando.”
Garanto, Gertrude, não devemos perder a oportunidade de dar testemunho do Senhor.
Lembrei do pequeno órgão antigo na capela em Finch’s Landing. Quando eu era bem pequena, se tivesse me comportado
durante o dia, Atticus me deixava pisar nos pedais enquanto ele tirava a melodia com um dos dedos. A última nota ficava no ar
enquanto houvesse ar para sustentá-la. A sra. Merriweather parecia ter perdido o ar e estava se recuperando enquanto a sra.
Farrow se preparava para falar.
A sra. Farrow era uma mulher bonita, de olhos claros e pés finos. Tinha feito um permanente havia pouco tempo e os
cabelos eram uma massa de cachos cinzentos. Era a segunda senhora mais devota de Maycomb. Tinha o estranho costume de
começar cada frase com um leve som sibilante.
— Ssss Grace — ela começou —, é como eu disse outro dia ao irmão Hutson: “Sss irmão Hutson, acho que estamos
travando uma batalha perdida, uma batalha perdida. Sss eles não querem saber de nada. Podemos tentar educá-los até ficarmos
roxos, podemos tentar fazer deles cristãos até não aguentarmos mais. Mesmo assim, nenhuma mulher pode se sentir segura
quando se deita à noite.” E ele me disse: “Sra. Farrow, não sei onde vamos parar.” Sss eu disse a ele que ele tinha toda razão.
A sra. Merriweather concordou, séria. A voz dela ressoou acima do tilintar das xícaras de café e do ruído bovino das
senhoras mastigando iguarias.
— Gertrude, vou lhe dizer uma coisa: nesta cidade há pessoas boas, mas que se afastaram do bom caminho. Boas, mas
desgarradas. Gente que acha que está fazendo a coisa certa é o que eu quero dizer. Longe de mim dizer quem são, mas há
pouco tempo algumas dessas pessoas acharam que estavam fazendo o bem, mas só o que fizeram foi inflamá-los. Mais nada.
Pode ser que na hora parecesse que era certo, não sei, não conheço bem a questão, mas agora eles estão mal-humorados…
insatisfeitos… Sabe, se a minha Sophy ficasse daquele jeito mais um dia que fosse, eu a mandava embora. Jamais vai entrar
naquela cabeça oca que só fico com ela porque estamos passando por uma crise e ela precisa do dinheiro que ganha por
semana.
— Mas a comida dela não é nada má, não é?
Quem perguntou foi a srta. Maudie. Duas linhas duras apareceram nos cantos de sua boca. Até então, ela estava sentada em
silêncio ao meu lado, com a xícara de café equilibrada no joelho. Eu já tinha perdido o fio da conversa fazia tempo, quando
elas pararam de falar na esposa de Tom Robinson, e estava distraída pensando em Finch’s Landing e no rio. Tia Alexandra
tinha entendido tudo ao contrário: a parte séria da reunião era de gelar o sangue, enquanto a parte social era deprimente.
— Maudie, tenho certeza de que não entendi o que você quis dizer — disse a sra. Merriweather.
— Eu tenho certeza de que entendeu — disse a srta. Maudie, ríspida.
E calou-se. Quando se zangava, a srta. Maudie era de uma concisão gélida. Tinha se irritado profundamente com alguma
coisa e seus olhos cinzentos ficaram frios como a voz. A sra. Merriweatter ruborizou, olhou para mim e desviou o olhar. Eu
não conseguia ver a sra. Farrow.
Tia Alexandra levantou-se rapidamente da mesa e tratou de servir mais refrescos, começando uma conversa com a sra.
Merriweather e a sra. Gates. Quando elas estavam bem entretidas, acompanhadas da sra. Perkins, tia Alexandra se afastou e
dirigiu um olhar de pura gratidão para a srta. Maudie. Fiquei refletindo sobre o mundo das mulheres. A srta. Maudie e tia
Alexandra nunca foram muito amigas, mas eis que a tia estava agradecendo a ela em silêncio por alguma coisa. Pelo que, eu
não sabia. Fiquei satisfeita de ver que tia Alexandra era capaz de demonstrar gratidão. Não tinha jeito, em breve eu teria de
entrar naquele mundo em cuja superfície senhoras perfumadas faziam gestos lentos, se abanavam delicadamente e bebiam água
fresca.
Mas eu ficava mais à vontade no mundo do meu pai. Gente como o sr. Heck Tate não escondia armadilhas atrás de
perguntas ingênuas para ridicularizar as pessoas; nem mesmo Jem conseguia ser muito crítico, a menos que você dissesse
alguma coisa realmente idiota. As senhoras pareciam ter horror dos homens, como se não estivessem dispostas a dar-lhes sua
sincera aprovação. Mas eu gostava dos homens. Por mais que xingassem, bebessem, jogassem e mascassem fumo, por menos
agradáveis que fossem, havia algo neles de que eu gostava por instinto… Eles não eram…
— Hipócritas, sra. Perkins, hipócritas de nascença — estava dizendo a sra. Merriweather. — Pelo menos, aqui no Sul não
cometemos esse pecado. As pessoas lá no Norte os libertaram, mas não se sentam na mesma mesa com eles. Pelo menos, não
temos o descaramento de dizer que são iguais a nós, mas é para ficarem longe da gente. Aqui, só queremos que eles vivam a
vida deles e nós vivemos a nossa. Acho que aquela mulher, a sra. Roosevelt perdeu a cabeça… Só pode ter perdido a cabeça
para ir até Birmingham e querer sentar-se no meio deles. Se eu fosse o prefeito de Birmingham, eu…
Bom, nenhuma de nós era o prefeito de Birmingham, mas eu gostaria de ser o governador do Alabama por um dia: eu ia
libertar Tom Robinson tão rápido que a Sociedade Missionária não teria nem tempo de se assustar. Outro dia, Calpúrnia
estava comentando com a cozinheira da srta. Rachel que Tom estava passando por maus bocados na cadeia e continuou
falando quando entrei na cozinha. Disse que Atticus não podia fazer nada para melhorar a situação dele e que, quando foi
levado para a prisão, Tom disse a Atticus: “Adeus, sr. Finch, o senhor não pode fazer mais nada, então não adianta tentar.”
Calpúrnia disse que Atticus tinha contado que no dia em que levaram Tom para a prisão ele perdeu as esperanças. Atticus
tentou explicar as coisas para ele e pediu para Tom não se desesperar, pois estava fazendo tudo o que podia para libertá-lo. A
cozinheira da srta. Rachel perguntou a Calpúrnia por que Atticus não tinha dito que ele ia ser libertado, sem grandes
explicações, pois isso seria um grande consolo para Tom. Calpúrnia então respondeu: “Você não conhece a lei. A primeira
coisa que a gente aprende quando trabalha na casa de um advogado é que não dá para ter certeza de nada. O sr. Finch não
podia dizer isso se não tinha certeza.”
A porta da frente bateu e ouvi os passos de Atticus no corredor. Automaticamente, pensei que horas seriam. Não estava
nem perto da hora de ele voltar para casa e geralmente nos dias de reunião da Sociedade Missionária ele ficava na cidade até
tarde.
Ele apareceu na porta da sala, de chapéu na mão e com o rosto pálido.
— Desculpem, senhoras — disse. — Continuem a reunião, não quero atrapalhar. Alexandra, pode vir à cozinha um
instante? Vou precisar da Calpúrnia por um tempo.
Em vez de passar pela sala, ele foi pelo corredor dos fundos e entrou pela porta de trás da cozinha. Tia Alexandra e eu
fomos até lá. A porta da sala de jantar se abriu outra vez e a srta. Maudie entrou. Calpúrnia estava se levantando da cadeira.
— Cal — disse Atticus —, quero que você vá comigo à casa de Helen Robinson...
— O que houve? — perguntou tia Alexandra, assustada com a expressão no rosto do meu pai.
— Tom morreu.
Tia Alexandra colocou as mãos sobre a boca.
— Foi morto a tiros — disse Atticus. — Ele estava correndo na hora da ginástica no presídio quando, de repente, saiu
correndo em disparada até a cerca e começou a escalá-la, bem na frente deles…
— Eles não tentaram impedir? Não deram um aviso? — a voz de tia Alexandra vacilou.
— Ah, sim, os guardas mandaram que ele parasse. Primeiro deram tiros para o alto, depois atiraram para matar. Acertaram
Tom quando ele estava quase saltando da cerca. Disseram que se ele tivesse os dois braços sadios, teria conseguido pular a
cerca, de tão rápido que foi. No corpo dele havia dezessete buracos de bala. Não precisavam ter atirado tanto. Cal, quero que
você venha comigo e me ajude a contar a Helen.
— Sim, senhor — ela murmurou, tentando desfazer o laço do avental. A srta. Maudie a ajudou.
— Isso foi a gota d’água, Atticus — disse tia Alexandra.
— Depende da perspectiva — ele disse. — O que é um negro a mais ou a menos no meio de duzentos? Para eles, aquele
não era Tom, era um fugitivo.
Atticus encostou-se na geladeira, tirou os óculos e coçou os olhos.
— Tínhamos uma boa chance. Eu disse a ele o que achava, mas na verdade não podia garantir que tínhamos mais do que
uma boa chance. Acho que Tom estava cansado da sorte dos brancos e preferiu tentar a própria sorte. Está pronta, Cal?
— Sim, sr. Finch.
— Então, vamos.
Tia Alexandra sentou-se na cadeira onde Cal estava antes e colocou as mãos no rosto. Ficou parada, tão quieta que pensei
que fosse desmaiar. A srta. Maudie respirava como se tivesse acabado de subir uma escada, enquanto na sala as senhoras
conversavam animadas.
Pensei que tia Alexandra estivesse chorando, mas, quando ela tirou as mãos do rosto, vi que não. Parecia exausta. Então
disse com a voz inexpressiva:
— Não posso dizer que aprovo tudo o que ele faz, Maudie, mas ele é meu irmão e só quero saber quando é que isso vai
acabar. — Sua voz se elevou: — Ele está destroçado. Não demonstra, mas está. Eu o vi quando… O que mais querem dele,
Maudie? O quê?
— Quem, Alexandra? — perguntou a srta. Maudie.
— Essa cidade. Estão mais do que dispostos a deixar que ele faça o que eles não têm coragem de fazer… porque poderiam
perder dinheiro. Não se importam se ele destrói a própria saúde fazendo o que eles não têm coragem, eles…
— Fique quieta, elas podem ouvir — disse a srta. Maudie. — Já pensou da seguinte forma, Alexandra? Maycomb pode
não se dar conta, mas nós estamos prestando a ele a maior homenagem que se pode fazer a um homem: confiamos nele para
fazer o que é certo. É simples assim.
— Quem? — tia Alexandra nunca soube que tinha repetido as palavras do sobrinho de doze anos.
— Os poucos moradores desta cidade que acham que justiça não é só para os brancos, os poucos que acreditam que um
julgamento justo é um direito de todos, não apenas nosso. As poucas pessoas que, ao verem um negro, têm a humildade de
pensar: “Aquele poderia ser eu, não fosse a bondade do Senhor.” — A velha rispidez da srta. Maudie estava de volta. Ela
continuou: — As poucas pessoas nessa cidade que têm berço. É a elas que me refiro.
Se eu estivesse prestando mais atenção, poderia ter algo mais a acrescentar à definição de berço de Jem, mas estava
tremendo e não conseguia parar. Eu conhecia a penitenciária agrícola de Enfield, Atticus tinha me mostrado o pátio de
ginástica. Era do tamanho de um campo de futebol.
— Pare de tremer — mandou a srta. Maudie, e eu parei. — Vamos voltar para a sala, Alexandra, já as deixamos sozinhas
tempo demais.
Tia Alexandra se levantou e alisou as dobras da saia nos quadris. Pegou o lenço no cinto e assoou o nariz. Deu uma alisada
nos cabelos e perguntou:
— Dá para perceber alguma coisa?
— Não, nada. Já se recompôs, Jean Louise? — perguntou a srta. Maudie.
— Sim, senhora.
— Então, vamos nos juntar às senhoras — ela disse, séria.
Quando ela abriu a porta da sala, o vozerio aumentou. Tia Alexandra foi na minha frente e empinou a cabeça ao passar
pela porta.
— Ah, sra. Perkins, aceita mais uma xícara de café? Vou buscar.
— Calpúrnia precisou sair um instante, Grace. Deixe-me servir mais tortinhas de morango — disse a srta. Maudie. —
Você soube o que meu primo fez outro dia, aquele que gosta de pescaria?
E assim continuaram, a roda de senhoras sorridentes em volta da mesa de jantar, servindo-se de mais um pouco de café,
degustando delícias como se a única coisa a lastimar fosse o pequeno problema doméstico da ausência temporária de
Calpúrnia.
O leve burburinho voltou:
— Isso mesmo, sra. Perkins, J. Grimes Everett é um santo mártir, ele… Queriam se casar então os dois fugiam… Para o
salão de beleza todo sábado à tarde… Assim que o sol se põe. Ele dorme com… as galinhas, um caixote cheio de galinhas
doentes, Fred diz que foi aí que tudo começou, Fred diz…
Tia Alexandra olhou para mim do outro lado da sala e sorriu. Olhou para uma bandeja de biscoitos na mesa e fez um sinal
com a cabeça. Peguei a bandeja com cuidado e fui até a sra. Merriweather. Usando do máximo de gentileza, perguntei se ela
estava servida. Afinal, se tia Alexandra conseguia ser uma dama numa hora daquelas, eu também conseguia.
continua página 159...
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês
TO KILL A MOCKINGBIRD
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.
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