volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Segundo
Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.
continuando...
Logo que a princesa de Caprarola partiu, Odette bem que desejaria ter dito simplesmente a
verdade. Mas a mentira imediata era não o produto de seus cálculos, mas a revelação de seus
temores, de seus desejos. Ela negava não o que seria hábil negar, mas o que desejaria fosse
inexistente, mesmo que o interlocutor viesse a saber uma hora depois que de fato se tratava
disso. Pouco depois readquiria a sua segurança e até a ir ao encontro das perguntas, dizendo,
para não parecer que alheia chegava:
- Mas como! A Sra. Verdurin? Conheci-a enormemente. Como receava a reação de
humildade, feito uma grande dama que conta que pegam uma afetação.
- Faz algum tempo, fala-se muito nos Verdurin - dizia a senhora no bonde.
Odette, com um desdenhoso sorriso de duquesa, respondia:
- Se ouve sim; parece-me de fato que se fala muito neles de tempos em tempos; claro que -há dessa gente nova chegando à sociedade sem pensar em tempos, e ela era uma das mais
novas.
- A princesa de Caprarola jantou conosco, ela mesmo - replicou a Sra. de Souvré.
- Ah! - respondeu Odette, acentuando casa de Verdurin com seu sorriso. - Isto não me
espanta. É sempre pela princesa que essas coisas principiam; e depois vai uma outra, a condessa
Capraroli por exemplo. -
Dizendo isto, Odette demonstrava um profundo desdém por essas duas grandes damas
que tinham o hábito de inaugurar os salões recém abertos. No seu tom, sentia-se que isso queria
dizer que tanto ela, Odette, como a Sra. de Souvré não se deixariam levar por uma coisa dessas.
Depois da confissão feita pela Sra. Verdurin acerca da inteligência da princesa de Caprarola, o
segundo sinal de que os Verdurin tinham consciência de seu futuro destino era que (sem o ter
formalmente pedido, é claro) desejavam que viesse jantar em sua casa em traje de gala; o Sr.
Verdurin poderia ser saudado sem constrangimento pela recepção; pois aquele que estava "em
apuros" seu sobrinho estava agora em alta esfera.
Entre os que subiram para o meu vagão em Graincourt, estava Saniette, que antigamente
fora expulso da casa dos Verdurin por seu primo Forcheville, porém retornara. Seus defeitos, do
ponto de vista mundano, eram outrora apesar das qualidades superiores, do mesmo tipo dos de
Cottard: timidez, desejo de agradar, e foram poupados para consegui-lo. Mas se a vida, fazendo
com que Cottard parecesse frio, de aparências de Trino seu desdém, de gravidade, que se
acentuavam enquanto dizia suas proezas, diante dos alunos complacentes; e não em casa dos
Verdurin (onde, pela sugestão que exercem revestidos minutos antigos, quando novamente nos
achamos num ambiente sobrenatural), permanecera um pouco o mesmo; ao menos em sua
clínica, no serviço do hospital, na Academia de Medicina, cavara um verdadeiro abismo entre o
Cottard atual e o antigo. Esses mesmos defeitos, ao contrário, eram exagerados em Saniette, à
medida que este procurava corrigi-los. Viam que era enfadonho muitas vezes, que não o
escutavam, em vez de ir devagar como Cottard o teria feito, e forçar a atenção com sua
autoridade; não somente procurava, com ar brincalhão, fazer-se perdoar de autoridade
excessivamente sério de sua conversa, mas também apressava ao tom de locução, cortava,
empregava abreviações para parecer menos longo, mais familiar com as coisas de que falava, e
apenas conseguia, fazendo-as ininteligíveis, parecer interminável. Sua segurança não era como a
de Cottard, que gelava seus doentes, os quais respondiam às pessoas que elogiavam a sua
amenidade nos salões:
- Não é mais o mesmo homem quando nos recebe em seu consultório, nós em plena luz, e
ele na contraluz, o olhar penetrante. -
A segurança de Saniette não se impunha, sentia-se que ocultava demasiada timidez, que
bastaria um nada para pô-la em fuga. Saniette, a quem os amigos sempre diziam que desconfiava
muito de si mesmo, e que de fato via pessoas (a quem julgava, com razão, bastante inferiores)
obterem facilmente o sucesso que lhe era recusado, já não começava uma história sem sorrir do
engraçado da mesma, com receio de que um ar de seriedade não valorizasse bastante a sua
mercadoria. Às vezes, dando crédito à comicidade que ele próprio parecia achar no que ia dizer,
faziam-lhe o favor de um silêncio geral. Mas a narrativa fracassava inteiramente. Um conviva
dotado de bom coração deslizava por vezes a Saniette o estímulo privado, quase secreto, de um
sorriso de aprovação, fazendo-o chegar furtivamente até ele, sem chamar atenção, como se
deslizasse um bilhete. Mas ninguém ia ao ponto de assumir a responsabilidade, a arriscar a
adesão pública de uma boa risada. Muito tempo depois de finda e liqüidada a história, Saniette,
desolado, ficava sorrindo sozinho consigo mesmo, como se ainda desfrutasse nela, e para si
próprio, o deleite que fingia achar bastante e que os demais não haviam sentido. Quanto ao
escultor Ski, assim chamado por causa da dificuldade que sentiam de pronunciar o seu nome
polonês, e porque ele próprio afetava, desde que vivia numa certa sociedade, não querer ser
confundido com parentes em muito boa posição social, mas um tanto aborrecidos e muito
numerosos, tinha, aos quarenta e cinco anos e bastante feio, uma espécie de criancice, de
fantasia sonhadora que conservara por ter sido, até os dez anos, o mais arrebatador menino
prodígio do mundo, coqueluche de todas as damas. A Sra. Verdurin afirmava que ele era mais
artista que Elstir. Aliás, Ski não possuía com aquele senão semelhanças meramente externas.
Bastaram para que Elstir, que certa vez se encontrara com Ski, sentisse por ele a profunda
repulsa que nos inspiram, mais ainda que as criaturas inteiramente opostas a nós, aqueles que se
nos assemelham para pior, nos quais se ostenta o que possuímos de menos bom, os defeitos de
que nos curamos, lembrando-nos de modo deplorável o que poderíamos ter parecido a certas
pessoas antes que nos tornássemos o que somos. Mas a Sra. Verdurin achava que Ski tinha mais
temperamento que Elstir porque não havia nenhuma arte para a qual ele não tivesse facilidade, e
estava convencida de que ele poderia erguer essa facilidade até o talento, caso fosse menos
preguiçoso. E, para a Patroa, essa preguiça parecia um dom a mais, sendo o contrário do
trabalho, que ela julgava o quinhão das criaturas sem gênio. Ski pintava tudo o que quisesse
sobre botões de punho ou bandeiras de portas. Cantava com voz de compositor, tocava de
ouvido, dando no piano a impressão de orquestra, menos por seu virtuosismo do que pelos seus
falsos baixos, que significavam a impotência dos dedos, para indicar que ali havia um pistão, que
aliás imitava com a boca. Procurando as palavras ao falar, para fazer crer numa impressão
curiosa, da mesma forma que retardava um acorde vibrado em seguida, dizendo:
"Ping", para fazer sentir os cobres, passava por ser maravilhosamente inteligente, mas suas ideias na verdade se resumiam em duas ou três grandemente limitadas. Aborrecido com sua reputação de fantasioso; metera na cabeça mostrar que era uma pessoa prática, positiva, de onde lhe provinha uma afetação triunfante de falsa precisão, de falso bom senso, agravados por sua falta de memória e pelas informações sempre inexatas. Seus movimentos de cabeça, de pescoço, de pernas teriam sido graciosos se ele ainda tivesse nove anos, cachos louros, uma grande gola de rendas e botinhas de couro vermelho. Tendo os dois chegado à estação de Graincourt antes da hora, como Cottard e Brichot, tinham ido dar uma volta, deixando Brichot na sala de espera. Quando Cottard quisera retornar, Ski respondera:
- Nada de pressa. Hoje não é o trem local que passa, é o departamental. -
Encantado por ver o efeito que essa nuança de precisão produzia em Cottard,
acrescentou, falando de si mesmo:
- Sim, porque Ski ama as artes, modela o barro, julgam que ele não é prático. Ninguém
conhece a linha melhor que eu. -
Não obstante, tinham voltado para a gare, quando de repente, percebendo a fumacinha do
trenzinho que chegava, Cottard, dando um berro, gritara:
- Não temos mais que correr desabaladamente. -
Com efeito, tinham chegado justo a tempo, pois a diferença entre o trem local e o trem
departamental só existira na cabeça de Ski.
- Mas será que a princesa não está no trem? - perguntou Brichot com voz vibrante. Suas
enormes lunetas, resplendentes como os refletores que os laringologistas prendem à testa para
iluminar a garganta dos pacientes, pareciam ter emprestado sua vida aos olhos do professor e,
talvez devido ao esforço que este fazia para acomodar sua visão a elas, pareciam, ainda que nos
mais insignificantes momentos, olhar por si mesmas com uma atenção contínua e uma
extraordinária fixidez. A doença, aliás, tirando aos poucos a vista a Brichot, revelara-lhe as
belezas deste sentido, como tantas vezes é necessário que nos decidamos a separar-nos de um
objeto, dá-lo de presente por exemplo, para que o contemplemos, lastimemos, admiremos.
- Não, não, a princesa foi acompanhar até Maineville alguns convidados que tomavam o
trem para Paris. Nem mesmo seria impossível que a Sra. Verdurin, que tinha o que fazer em
Saint-Mars, estivesse com ela! Assim, viajaria conosco e trilharíamos juntos o caminho, seria
agradável. Trataremos de abrir o olho em Maineville, e bem! Ah! Não tem importância, pode-se
dizer que quase perdemos a carruagem.
Quando vi o trem, fiquei siderado. É o que se chama chegar no momento psicológico.
Imaginem se tivéssemos perdido o trem. A Sra. Verdurin, vendo que os carros chegavam sem
nós: tableau! - acrescentou o doutor, que ainda não se refizera do susto.
- Eis uma aventura nada vulgar. Então, Brichot, que diz da nossa escapadela? - indagou o
doutor com certo orgulho.
- Palavra de honra - respondeu Brichot; de fato, se você não tivesse achado o trem, teria
sido, como diria o finado Villemain, um profundo golpe para o bando! -
Mas eu, distraído desde os primeiros instantes por essa gente a quem não conhecia,
lembrei-me de súbito do que Cottard me havia dito no salão de dança do pequeno cassino, e,
como se um elo invisível pudesse reatar um órgão e as imagens da lembrança, a de Albertine,
apoiando seus seios contra os de Andrée, causava-me uma dor terrível ao coração. Esse mal não
durou muito; a ideia de eventuais relações entre Albertine e outras mulheres já não me parecia
possível desde a antevéspera, quando as provocações que minha amiga fizera a Saint-Loup
haviam excitado em mim um novo ciúme que fizera esquecer o primeiro. Eu tinha a ingenuidade
das criaturas que julgam que um gosto obrigatoriamente exclui o outro. Em Arembouville, como o
trem estivesse superlotado, entrou no nosso compartimento um granjeiro de macacão azul, que só
possuía uma passagem de terceira. O doutor, achando que não se poderia deixar viajar a
princesa em tal companhia, chamou um empregado, exibiu seu cartão de médico de uma grande
companhia de estrada de ferro, e forçou o chefe da estação a mandar descer o granjeiro. Esta
cena magoou tanto o bom coração e alarmou de tal modo a timidez de Saniette que, desde que a
viu começar, temendo já, devido à quantidade de camponeses que se achavam na plataforma,
que assumisse as proporções de uma insurreição popular, fingiu estar com dor de barriga e, para
que não pudessem acusá-lo de ter sua parte de responsabilidade no ato de violência do doutor,
enfiou pelo corredor pretextando encontrar o que Cottard denominava os waters. Não os achando,
pôs-se a olhar a paisagem de outra extremidade do "tortinho".
- Se são estas as suas estreias na casa da Sra. Verdurin, senhor - disse-me Brichot, que
fazia questão de mostrar seus talentos a um "novato" -, verá que não existe ambiente onde melhor
se sinta a "doçura de viver", como dizia um dos inventores do diletantismo, do que-me-importismo,
de muitas palavras em "ismo" que estão na moda entre nossas snobinettes; quero referir-me ao
senhor príncipe de Talleyrand. -
Pois, quando falava desses grandes senhores do passado, achava espirituoso e "cor da
época" fazer preceder seu título de príncipe, e dizia "senhor duque de La Rochefoucauld", "senhor
cardeal de Retz", aos quais também chamava, de quando em vez: "Esse strugo for lifer de Gondi",
"esse boulangista de Marcillac". E nunca deixava de chamar Montesquieu, com um sorriso,
quando falava dele: "O senhor presidente Secondat de Montesquieu." Um mundano de espírito
ficaria agastado com esse pedantismo que cheirava a escola. Mas, nas maneiras perfeitas de um
mundano ao falar de um príncipe, existe igualmente um pedantismo que trai uma outra casta,
aquela em que se faz preceder o nome de Guilherme de "o imperador" e no qual se fala na
terceira pessoa a uma Alteza.
- Ah, esse - prosseguiu Brichot, falando do "senhor príncipe de Talleyrand" -, é preciso
saudá-lo de chapéu na mão. É um antepassado.
- É um meio encantador - disse-me Cottard; - o senhor encontrará um pouco de tudo, pois
a Sra. Verdurin não é exclusivista: sábios ilustres como Brichot, gente da alta nobreza, como, por
exemplo, a princesa Sherbatoff, uma grande dama russa, amiga da grã-duquesa Eudoxie, e que
só a visita mesmo às horas em que ninguém mais é recebido. -
De fato, a grã-duquesa Eudoxie, embora não se incomodasse que a princesa Sherbatoff,
que desde muito tempo não era mais recebida por ninguém, fosse à sua casa quando pudesse
haver visitas, deixava-a vir somente bem cedinho, quando não tinha junto dela nenhum dos
amigos aos quais teria sido tão desagradável encontrar a princesa, como constrangedor seria
para esta. Como fazia três anos que, logo após ter deixado, feito uma manicure, a grã-duquesa, a
Sra. Sherbatoff partia para a casa da Sra. Verdurin, que recém acabava de acordar, e não mais a
largava, pode-se dizer que a fidelidade da princesa ultrapassava infinitamente até a de Brichot,
entretanto tão assíduo a essas quartas-feiras, onde tinha o prazer de julgar-se, em Paris, uma
espécie de Chateaubriand na Abbaye-aux-Bois, e onde, no campo, experimentava a ilusão de
tornar-se o equivalente do que podia ser, na casa da Sra. du Châtelet, aquele a quem sempre
chamava (com malícia e satisfação de letrado): "o Sr. de Voltaire". Sua falta de relações permitira
à princesa Sherbatoff mostrar aos Verdurin, desde alguns anos, uma fidelidade que fazia dela
mais que uma "fiel" comum, a fiel típica, o ideal que a Sra. Verdurin por muito tempo julgara
inacessível e que agora, na idade crítica, achava por fim encarnada nessa nova recruta feminina.
Por mais que os ciúmes torturassem a Patroa, não havia exemplo de que os mais assíduos de
seus fiéis não a tivessem "largado" alguma vez. Os mais caseiros se deixavam tentar por uma
viagem; os mais castos tinham tido uma aventura; os mais robustos podiam apanhar uma gripe;
os mais ociosos estar ocupados durante as vinte e quatro horas; os mais indiferentes ir fechar os
olhos da mãe agonizante. E era debalde que a Sra. Verdurin lhes dizia então, como a imperatriz
romana, que ela era o único general a quem sua legião deveria obedecer, ou, como o Cristo ou o
Kaiser, que aquele que amava o pai e a mãe tanto quanto a ela própria, e não estava pronto para
deixá-los e segui-la, não era digno dela, que, em vez de se exaurir no leito ou se deixar enganar
por uma prostituta, fariam melhor em permanecer junto dela, remédio único e única volúpia.
Porém, o destino, que às vezes se compraz em embelezar o fim das existências muito
prolongadas, fizera com que a Sra. Verdurin encontrasse a princesa Sherbatoff. Brigada com a
família, exilada de seu país, conhecendo apenas a baronesa Putbus e a grã-duquesa Eudoxie, a
cujas residências, como não tivesse vontade de encontrar as amigas da primeira, e visto que a
segunda não desejava que suas amigas encontrassem a princesa, ela só comparecia às horas
matinais, quando a Sra. Verdurin ainda estava dormindo, não se recordando de ter ficado de
cama uma única vez desde os doze anos, quando tivera rubéola, tendo respondido no dia 31 de
dezembro à Sra. Verdurin, que, inquieta por estar sozinha, lhe perguntara se não podia ficar, para
dormir de improviso, apesar da passagem do ano:
- Mas o que é que poderia me impedir de ficar, seja qual for o dia? Além disso, nesse dia a
gente fica em família, e vocês são a minha família -, vivendo numa pensão e mudando de pensão
quando os Verdurin se mudavam, seguindo-os em seus veraneios, a princesa realizara tão
admiravelmente, para a Sra. Verdurin, o verso de Vigny: Toi seuie me parus ce qu'on cherche
toujours.["Só tu me apareceste o que se busca sempre." (N. do T)]; que a presidenta do pequeno
círculo, desejosa de assegurar-se uma "fiel" até a morte, pedira-lhe que a que morresse por último
se fizesse enterrar ao lado da outra.
Diante de estranhos entre os quais é preciso incluir sempre aquele a quem mais mentimos,
porque é aquele por quem nos seria mais penoso ser desprezado: nós mesmos; a princesa
Sherbatoff tinha o cuidado de representar suas três únicas amizades com a grã-duquesa, com os
Verdurin e com a baronesa Putbus como as únicas, não devido a cataclismos independentes de
sua vontade que as tivessem feito emergir em meio à destruição de tudo o mais, mas que uma
livre escolha as fizera eleger de preferência a quaisquer outras, e às quais um certo gosto pela
Sra. Verdurin. Eles conhecem todo mundo. E depois, pelo menos, não são grã-finos de meia
tigela. Têm peso. Em geral, avalia-se que a Sra. Verdurin tem uma fortuna de trinta e cinco
milhões. Diabo! Trinta e cinco milhões já é alguma coisa! Assim, não é das que lambem a colher.
- O senhor me falava da duquesa de Guermantes. Vou lhe dizer a diferença: a Sra.
Verdurin é uma grande dama; a duquesa de Guermantes provavelmente é uma simplória.
Percebe bem a nuança, não é? Em todo caso, que os Guermantes compareçam ou não à casa da
Sra. Verdurin, ela recebe, o que vale mais, os d'Sherbatoff, os d'Forcheville, e tutti quanti, pessoas
da mais alta classe, toda a nobreza da França e de Navarra, a quem o senhor me verá falar de
igual para igual. Aliás, esse gênero de pessoas de bom grado procura os príncipes da ciência
acrescentava com um sorriso de amor-próprio beato, levado a seus lábios pela satisfação
orgulhosa, não porque a expressão, outrora aplicada aos Potain, aos Charcot, se aplicasse a ele
agora, mas porque enfim sabia empregar como convinha todas as que o uso autoriza e que,
depois de as ter estudado por muito tempo, ele dominava a fundo. Assim, após me haver citado a
princesa Sherbatoff entre as pessoas que a Sra. Verdurin recebia, Cottard acrescentou, piscando
o olho:
- Vê o tipo da casa, compreende o que quero dizer? -
Com isso, queria significar o que existe de mais grã-fino. Ora, receber uma dama russa
que só conhecia a grã-duquesa Eudoxie era pouco. Porém, mesmo que a princesa Sherbatoff não
a conhecesse, nem por isso diminuiria a opinião de Cottard quanto à suprema elegância do salão
Verdurin e à sua alegria de ser recebido ali. O esplendor de que nos parecem revestidas as
pessoas que frequentamos não é mais intrínseco do que o dessas personagens de teatro, para
cujo vestuário é inútil que um diretor gaste centenas de milhares de francos na compra de roupas
autênticas e de joias verdadeiras que não produzirão efeito algum, quando um grande decorador
dará uma impressão de luxo mil vezes mais suntuoso, ao dirigir um raio fictício sobre um gibão de
pano grosseiro, semeado de tampinhas de vidro e sobre um manto de papel. Certo homem terá
passado a sua vida no meio dos graúdos da terra, que para ele não eram mais que fastidiosos
parentes, ou relações aborrecidas, porque um hábito, contraído desde o berço, os despojara a
seus olhos de todo prestígio. Mas, em compensação, basta que esse prestígio venha, por algum
acaso, acrescentar-se às pessoas mais obscuras, para que incontáveis Cottards tenham vivido
ofuscados por mulheres tituladas, cujo salão imaginavam ser o centro de elegâncias
aristocráticas, e que nem ao menos eram o que representavam a Sra. de Villeparisis e suas
amigas (grandes damas decaídas que a aristocracia que fora educada com elas não mais
frequentava); não, essas, cuja amizade foi o orgulho de tantas pessoas, se essa gente publicasse
suas Memórias e desse o nome de tais mulheres e das que elas recebiam, ninguém, tanto a Sra.
de Cambremer como a Sra. de Guermantes, poderia identificá-las. Mas que importa! Um Cottard,
assim, tem sua baronesa ou sua marquesa, que, para ele, é "a baronesa" ou "a marquesa", como,
em Marivaux, a baronesa de quem nunca se diz o nome e da qual não se tem a mínima ideia de
que alguma vez tivesse tido um. Cottard tanto mais julga encontrar aí resumida a aristocracia a
qual ignora essa dama como, quanto mais duvidosos são os títulos, mais as coroas ocupam lugar
nas taças, na prataria, no papel de cartas, nas malas. Numerosos Cottards, que acreditaram
passar suas vidas no coração do faubourg Saint-Germain, tiveram talvez sua imaginação mais
encantada de sonhos feudais do que os que efetivamente viveram entre príncipes, da mesma
forma que, para o pequeno comerciante que aos domingos vai por vezes visitar edifícios "dos
velhos tempos", é às vezes naqueles em que todas as pedras são da nossa época, e cujas
abóbadas foram pintadas de azul e semeadas de estrelas de ouro pelos discípulos de Viollet-le
Duc, que mais tem a sensação de Idade Média.
- A princesa estará em Maineville. Viajará conosco. Mas não o apresentarei a ela de
imediato. Será preferível que a Sra. Verdurin o faça. A menos que eu encontre uma oportunidade.
Pode estar certo de que então a agarrarei pelos cabelos.
- De que estavam falando? - perguntou Saniette, que fingia ter ido tomar um pouco de ar.
- Eu citava a este cavalheiro - disse Brichot - uma frase que o senhor conhece bem,
daquele que, na minha opinião, é o primeiro dos fins de século (do século XVIII, bem entendido), o
supracitado Charles-Maurice, abade de Périgord. Começara prometendo tornar-se um bom
jornalista. Mas desencaminhou-se, quero dizer, fez-se ministro! A vida tem dessas desgraças.
Político aliás pouco escrupuloso, que, com desdéns de grão-senhor de raça, não se constrangia
em trabalhar em suas horas pelo rei da Prússia, é o caso de se dizer, e morreu na pele de um
centro-esquerda.
Em Saint-Pierre-des-lfs subiu uma jovem esplêndida que, infelizmente, não fazia parte do
pequeno grupo. Eu não podia desviar os olhos de sua carne de magnólia, de seus olhos pretos,
da alta e admirável construção de suas formas. Passado um instante, ela quis abrir uma janela,
pois fazia calor no compartimento, e, não desejando pedir licença a todos, como só eu não
estivesse de capa, disse-me com voz rápida, fresca e risonha:
- Não lhe incomoda o ar, cavalheiro? -
Desejaria dizer-lhe:
- Venha conosco à casa dos Verdurin ou: - Diga-me seu nome e seu endereço. - Respondi: - Não, o ar não me incomoda, senhorita. -
E em seguida, sem se mover do lugar:
- O fumo não incomoda seus amigos? e acendeu um cigarro. Na terceira estação, ela
desceu de um salto. No dia seguinte, perguntei a Albertine quem poderia ser. Pois,
estupidamente, julgando que só se pode amar a uma coisa, enciumado com a atitude de Albertine
a respeito de Robert, sentia-me seguro quanto às mulheres. Albertine me disse, creio que
sinceramente, que não sabia.
- Gostaria tanto de tornar a vê-la! - exclamei.
- Sossegue, a gente se encontra sempre de novo - observou Albertine.
ontinua na página 129...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Logo que a princesa de Caprarola partiu)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7
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