David Hume
Seção XI
DA PROVIDÊNCIA PARTICULAR E DO ESTADO FUTURO[1]
PARTE DOIS
Portanto, as hipóteses religiosas apenas devem ser consideradas como um método particular explicativo dos fenômenos visíveis do universo; mas ninguém que raciocine corretamente jamais ousará fazer inferências, partindo de um só fato, e alterar ou agregar em qualquer aspecto os fenômenos. Se pensais que as aparências das coisas provam tais causas, então vos é permitido tirar uma inferência acerca da existência destas causas. Em tais assuntos complicados e sublimes, cada um deveria tomar a liberdade de fazer conjeturas e argumentações. Mas aqui deveis deter-vos. Se retrocedeis e, partindo das causas que haveis inferido, concluirdes que algum fato existe ou existirá no curso da natureza e que pode servir para mostrar mais pormenorizadamente atributos particulares, devo advertir-vos que vos haveis afastado do método de raciocínio ligado ao presente tema e haveis certamente acrescentado aos atributos da causa alguma coisa a mais do que aparece no efeito; de outro modo não tereis jamais podid o acrescentar qualquer coisa ao efeito para fazê-lo mais digno de sua causa, a menos que vos faltasse toda retidão e bom senso.
Onde está, pois, o aspecto odioso desta doutrina que ensino em minha escola, ou
melhor dizendo, que examino em meus jardins? Ou então, encontrais em toda esta questão
algo dizendo respeito, em qualquer grau, à segurança da boa moral ou à paz e à ordem social?
Eu nego a providência, dizeis, e nego que um governo supremo do mundo orienta o
curso dos eventos punindo com desonra e desespero aos pecadores e recompensando os
virtuosos com a honra e o êxito em todos os seus empreendimentos. Mas, certamente, não
nego o próprio curso dos eventos, que está aberto à investigação e ao exame de todos.
Reconheço que, na ordem atual das coisas, a virtude é acompanhada de maior paz de espírito
que o vício e encontra uma recepção mais favorável pela sociedade. Tenho consciência de
que, segundo a experiência passada da humanidade, a amizade é a principal alegria da vida
humana e a moderação, a única fonte de tranquilidade e felicidade. Não hesito jamais entre
uma existência virtuosa e uma existência viciada, mas tenho consciência de que, para um
espírito bem-intencionado, todas as vantagens estão do primeiro lado. Que podeis dizer a
mais, admitindo todas as vossas suposições e raciocínios? Dizei-me, certamente, que esta
disposição das coisas procede da inteligência e do desígnio. Mas, mesmo conhecendo sua
origem, a disposição em si, da qual depende nossa felicidade ou infelicidade, isto é, nosso
comportamento na vida, permanece a mesma. Tenho sempre a possibilidade, como também
vós, de regular minha conduta a partir de minha experiência dos eventos passados. E se vós
afirmásseis que se se admite a realidade de uma providência divina e de uma justiça
distributiva suprema no universo, dever-se-ia esperar alguma recompensa mais particular do
bem e a punição do mal, além do curso ordinário dos eventos; encontro aqui a mesma falácia
que eu tinha antes tentado captar. Persistis em imaginar que, se aceitarmos essa existência
divina, pela qual combateis tão arduamente, podeis seguramente inferir suas consequências e
acrescentar algo à ordem experimentada da natureza, arguindo a partir dos atributos que
designais aos vossos deuses. Não pareceis recordar-vos que todos os vossos raciocínios
acerca deste tema somente podem ser tirados passando dos efeitos às causas, e que todo
argumento deduzido das causas aos efeitos deve ser necessariamente um grosseiro sofisma,
visto que vos é impossível conhecer algo da causa, salvo o que haveis precedentemente, não
por inferência, descoberto inteiramente no efeito.
Mas o que deve pensar um filósofo acerca dos que raciocinam vãmente, os quais, em
lugar de considerarem o aspecto atual das coisas como o único objeto de sua contemplação
invertem todo o curso da natureza, fazendo desta vida mera passagem para outra existência;
um pórtico que conduz a um edifício maior e consideravelmente diferente; um prólogo que
apenas serve para introduzir a comédia e dar-lhe maior graça e dignidade? De onde, pensais,
que estes filósofos podem derivar sua ideia dos deuses? Certamente, de sua própria invenção
e de sua imaginação. Pois, se derivassem a ideia dos fenômenos presentes, ela não revelaria
algo adicional, mas deveria estar exata mente adaptada a eles. Admitimos de bom grado que a
divindade possivelmente seja dotada de atributos que jamais vimos em exercício; que é
governada por princípios de ação que não podemos descobrir se são realizados. Mas trata-se
ainda de pura possibilidade e hipótese. Não podemos racionalmente inferir que ela possui
atributos ou princípios de ação, a não ser quando os temos visto em exercício e realizados.
Há sinais de uma justiça distributiva no mundo? Se contestais afirmativamente,
concluo que já que a justiça se exerce aqui, aqui ela é realizada. Se replicais negativamente,
concluo então que não tendes nenhuma razão para atribuir justiça, no sentido em que a
entendemos, aos deuses. Se tomais uma posição intermediária entre a afirmativa e a negativa,
dizendo que a justiça dos deuses no momento se exerce em parte, mas não em toda a sua
extensão, respondo que não tendes nenhuma razão para conceder-lhe uma extensão
particular, mas apenas até onde a vedes, no presente, exercer-se no presente.
Assim, ó atenienses! restrinjo a discussão a um breve debate com meus adversários. O
curso da natureza está aberto tanto à minha contemplação como à deles. A série de eventos
experimentais é o grande critério pelo qual todos nós regulamos nossa conduta. Não podemos
recorrer a nenhuma outra coisa, nem no campo de batalha nem no senado. Não se deveria
jamais ouvir falar de outra coisa na escola ou em nossas reflexões solitárias. Em vão, nosso
entendimento limitado poderia romper estas barreiras muito estreitas para nossa imaginação
caprichosa. Ao argumentar a partir do curso da natureza e ao inferir uma causa particular
inteligente, que no princípio pôs ordem no mundo e ainda a conserva, aceitamos um princípio
que é ao mesmo tempo incerto e inútil. É incerto, porque o tema está inteiramente fora do
alcance da experiência humana. É inútil, porque nosso conhecimento desta causa é
inteiramente derivado do curso da natureza e, por conseguinte, não podemos jamais, segundo
as regras do raciocínio correto, remontar da causa para uma nova inferência ou fazer adições
ao curso ordinário experimentado da natureza, para estabelecermos novos princípios de
conduta e de comportamento.
Observo — disse eu, vendo que ele havia terminado sua arenga — que não desprezais o
artifício dos demagogos da Antiguidade, e como haveis querido fazer-me representar o povo,
vos insinuastes em meu favor, aceitando os princípios pelos quais, vós o sabeis, tenho sempre
expressado uma particular inclinação. Mas, se aceitais fazer da experiência — como penso,
certamente, deveis fazê-lo — o único critério de nosso juízo acerca desta, e de todas as
questões de fato, não duvido que seja possível, a partir exatamente desta mesma experiência,
refutar este raciocínio que haveis posto na boca de Epicuro.[8] Se haveis visto, por exemplo,
um edifício terminado pela metade, rodeado de um amontoado de tijolos, de pedras e de
argamassa e de todos os instrumentos de alvenaria, não podereis inferir do efeito que se trata
de uma obra devida a um plano e a uma invenção? E não podereis, a partir desta causa
inferida, voltar a inferir novas adições ao efeito e concluireis que o edifício estará logo
terminado e receberá todos os melhoramentos adicionais que a arte poderá conferir-lhe? Se
haveis visto à beira-mar a marca de um pé humano, concluireis que um homem passou por
este caminho e que ele também tinha deixado as marcas de seu outro pé, embora elas tenham
sido apagadas pelo movimento da areia ou pela inundação da água. Por que recusais então
admitir o mesmo método de raciocínio em relação à ordem da natureza? Considerais o mundo
e a vida presentes unicamente como um edifício imperfeito, do qual podeis inferir uma
inteligência superior, e arguindo a partir desta inteligência superior que não pode deixar nada
imperfeito por que não podeis inferir um esquema ou plano mais acabado, que receberá sua
conclusão em algum ponto distante do espaço e do tempo? Não são estes métodos de
raciocínio exatamente similares? E sob que pretexto podeis, ao mesmo tempo, aceitar um e
rejeitar o outro?
A infinita diferença dos temas — respondeu ele — é fundamento suficiente para esta
diferença em minhas conclusões.[9] Nas obras que foram inventadas e fabricadas pelo homem,
é lícito passar do efeito à causa e, voltando da causa, formar novas inferências concernentes
ao efeito, averiguando as alterações que provavelmente tem sofrido ou que ainda pode sofrer.
Mas qual é o fundamento deste modo de raciocinar? Evidentemente este: o homem é um ser
que conhecemos pela experiência: seus motivos e seus desígnios nos são familiares; seus
projetos e suas inclinações têm certa conexão e certa coerência, segundo as leis que a
natureza tem estabelecido para governo de uma tal criatura. Portanto, quando vemos que uma
obra procede da habilidade e do trabalho humano, e como por outro lado conhecemos a
natureza deste ser animado, podemos tirar cem inferências acerca do que se pode esperar
dele; estas inferências estarão todas fundadas na observação e na experiência. Mas se
conhecêssemos o homem apenas por uma única obra que examinamos, ser-nos-ia impossível
arguir desta maneira, pois nosso conhecimento de todas as qualidades que lhe atribuímos é,
neste caso, derivado desta produção; é impossível que estas qualidades possam levar a
qualquer coisa a mais, ou que elas sejam a base de uma nova inferência. A marca de um pé na
areia pode apenas provar, quando se considera separadamente, que havia uma figura
semelhante a ela, graças à qual ela foi produzida; mas a marca de um pé humano evidencia
igualmente, partindo de nossa outra experiência, que havia provavelmente outro pé que
também deixou sua impressão, embora tivesse sido apagada pelo tempo ou por outros
acidentes. Aqui subimos do efeito para a causa; depois descemos da causa, inferimos
modificações no efeito; mas não continuamos aqui na mesma cadeia simples de raciocínio.
Compreendemos neste caso cem outras experiências e observações sobre a forma usual e os
membros desta espécie de ser animado; sem as quais este método de argumentar deveria
considerar-se falaz e sofístico.
O caso é diferente para os nossos raciocínios acerca das obras da natureza. Apenas
conhecemos Deus por suas produções; é um Ser único no universo, que não é compreendido
sob nenhuma espécie ou gênero, de cujos atributos ou qualidades experimentados podemos,
por analogia, inferir em Deus um atributo ou uma qualidade. Como o universo manifesta
sabedoria e bondade, podemos inferir sabedoria e bondade. Como ele mostra um grau
particular destas perfeições, inferimos um grau particular delas precisamente adaptadas aos
efeitos que examinamos. Mas não estamos jamais autorizados a inferir ou supor, por
quaisquer regras do raciocínio correto, outros atributos ou outros graus do mesmo atributo.
Ora, sem uma tal liberdade em nossas suposições, é-nos impossível argumentar a partir da
causa e inferir qualquer modificação no efeito além disto que caiu imediatamente sob nossa
observação. Um bem maior produzido por este Ser deve provar ainda um grau mais alto de
bondade; uma distribuição mais imparcial de recompensas e castigos deve proceder de uma
maior relação à justiça e à equidade. Toda suposta adição às obras da natureza acrescenta-se
aos atributos do Autor da natureza; e por conseguinte, como não está em nada apoiada por
uma razão ou um argumento, não se pode jamais admiti-la , senão como pura conjetura e
hipótese.[10]
A principal fonte de equívocos neste assunto e da ilimitada liberdade de conjeturar que
toleramos decorre do fato de que tacitamente nos colocamos no lugar do Ser Supremo e
concluímos que em todas as ocasiões observará a mesma conduta que nós mesmos, em sua
situação, teríamos aceito como razoável e conveniente. Mas, além de que o curso ordinário da
natureza pode convencer-nos de que quase tudo se regula por princípios e máximas muito
diferentes das nossas, além disto, digo eu, deve parecer evidentemente contrário a todas as
regras da analogia raciocinar a partir das intenções e projetos humanos para os de um Ser tão
diferente e tão superior a um grau tão alto.
Na natureza humana há certa experimentada coerência de desígnios e de inclinações, de
modo que, quando um fato nos permitiu descobrir uma intenção de um homem, pode ser
frequentemente razoável, a partir desta experiência, inferir uma outra e tirar uma longa cadeia
de conclusões sobre sua conduta passada ou futura. Mas este método de raciocínio não pode
jamais intervir em relação a um Ser tão longínquo e tão incompreensível, que tem muito
menos analogia com um outro ser do universo que o sol com uma vela de cera, e que apenas
se manifesta por alguns traços pálidos ou vestígios, além dos quais não temos nenhuma
autoridade para designar-lhe qualquer atributo ou qualquer perfeição. O que imaginamos ser
uma perfeição superior pode ser realmente um defeito. Ou, se é no ponto mais alto uma
perfeição, atribuindo-a ao Ser Supremo, em caso de não se ter realizado completamente em
suas obras, parece mais adulação e panegírico do que raciocínio correto e sã filosofia.
Portanto, toda filosofia do mundo e toda religião, que nada é senão uma espécie de filosofia,
não serão jamais capazes de nos levar além do curso ordinário da experiência ou de nos dar
regras de conduta e de ação diferentes das que nos fornecem as reflexões sobre a vida diária.
Nenhum novo fato jamais pode ser inferido a partir da hipótese religiosa; nenhum evento
pode ser previsto ou predito; nenhuma recompensa nem nenhum castigo podem ser esperados
ou temidos, além do que já se conhece pela prática e pela observação. De modo que minha
apologia de Epicuro parecerá ainda sólida e satisfatória e que os interesses políticos da
sociedade não estão de nenhum modo ligados às discussões filosóficas a propósito da
metafísica e religião.
Há ainda uma circunstância, repliquei, que, parece-me, haveis omitido. Embora pudesse
admitir vossas premissas, devo refutar vossa conclusão. Concluístes que as doutrinas e os
raciocínios religiosos não podem ter influência sobre a vida porque não devem tê-la; não
considerais jamais que os homens não raciocinam da mesma maneira que vós, mas que tiram
muitas consequências da crença na existência de Deus e supõem que a divindade imporá
castigos ao vício e concederá recompensas à virtude, além daquilo que parece no curso
ordinário da natureza. Não importa se seu raciocínio é justo ou não. Sua in fluência sobre a
vida e sobre a conduta deve ser a mesma. E aqueles que tratam de livrá-los de tais
preconceitos podem ser, pelo que eu saiba, bons raciocinadores, mas não posso considerá-los
bons cidadãos e políticos, pois eles livram os homens disto que freia suas paixões e tornam
mais fácil e mais segura, em certo modo, a transgressão das leis da sociedade.
Afinal, posso talvez concordar com vossa conclusão geral em favor da liberdade, ainda
que sob premissas diferentes daquelas em que tentastes fundamentá-la. Penso que o Estado
deve tolerar todos os princípios filosóficos, já que não há nenhum caso em que o governo
tenha sofrido em seus interesses políticos devido a esta indulgência. Não há entusiasmo entre
os filósofos; suas doutrinas não seduzem bastante o povo; qualquer obstáculo que se oponha
aos seus raciocínios é de perigosas consequências às ciências e mesmo ao Estado, abrindo
caminho às perseguições e à opressão em assuntos que interessam e tocam mais
profundamente à generalidade dos homens.
Mas, em relação — continuei — ao vosso tema principal, ocorre-me um problema11 que
vos proporei sem muito empenho, a fim de evitar raciocínios de natureza muito sutil e
complicada. Numa palavra: tenho dúvidas de que uma causa se torne apenas conhecida por
seu efeito — o que haveis admitido ao longo deste diálogo — ou que sua natureza, sendo tão
singular e particular, tenha correspondência ou semelhança com qualquer outra causa ou
objeto que haja caído sob nossa observação. Pois, apenas quando duas espécies de objetos se
mostram constantemente ligadas, podemos inferir uma partindo da outra, mas se se
apresentasse um efeito completamente singular que não pudesse ser incluído em nenhuma das
espécies conhecidas, não vejo como poderíamos formular qualquer conjetura ou inferência
absolutamente referente a sua causa. Se a experiência, a observação e a analogia são,
certamente, os únicos guias que podemos razoavelmente seguir em inferências desta
natureza, tanto o efeito como a causa devem ter uma semelhança com outros efeitos e outras
causas, observados em vários outros casos conjuntados uns com os outros. Deixo à vossa
reflexão pessoal o cuidado de buscar as consequências deste princípio. Destacarei apenas que,
tendo os adversários de Epicuro sempre considerado o universo como um efeito bastante
singular e incomparável, provando assim a existência de Deus, causa não menos singular e
não menos incomparável, segundo estas suposições vossos raciocínios parecem, pelo menos,
merecer nossa atenção. Há, admito, alguma dificuldade para compreender como podemos
sempre voltar da causa ao efeito e como, raciocinando a partir da idéia que fazemos da
anterior, podemos inferir uma modificação ou uma adição na última.
continua página 101...
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Ensaio sobre o entendimento humano: Seção XI (b)
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Notas:
[8] Tendo percebido que o suposto Epicuro havia terminado seu longo discurso, Hume
interfere em nome do ilustre auditório ateniense e apresenta uma objeção, que basicamente
consiste em utilizar o raciocínio por analogia para averiguar a possível semelhança entre as
obras humanas e a obra atribuída ao Ser Supremo. [N. do T.]
[9] O amigo cético de Hume refuta a possibilidade do raciocínio por analogia, pelo menos
neste caso, tendo em vista a “infinita diferença” dos objetos, pois o que é evidente para as
obras e atos humanos não o é em relação às obras de Deus. Ao contrário de um homem que
pode ser circunscrito e explicitado pelo gênero Homem, Deus é um “Ser único no universo,
que não é compreendido sob nenhuma espécie ou género’, e é conhecido apenas por suas
obras. Evidencia-se, assim, que se trata da inferência de um caso particular e único, para
justificar um efeito particular e único. Tal situação não permite, como no caso do homem e
seu artesanato, maior “liberdade em nossas suposições”, já que a inferência nem é apoiada
por experiências anteriores e nem pode ser comparada com outras experiências. [N. do T.]
[10] Em geral, creio que se pode estabelecer como princípio que, se uma causa somente é
conhecida pelos seus efeitos particulares, deve ser impossível inferir novos efeitos a partir
dessa causa, visto que as qualidades necessárias para produzir estes novos efeitos
conjuntamente com os anteriores devem ser diferentes, ou superiores, ou de operação mais
exteosa que aqueles que simplesmente produziram o efeito, que é a única origem de nosso
suposto conhecimento da causa. Portanto, jamais teremos razão para supor a existência destas
qualidades. Afirmar que os novos efeitos procedem simplesmente de uma continuação da
mesma energia que já é conhecida pelos primeiros efeitos não removerá a dificuldade.
Porque, embora aceitando que o caso seja assim (o que raramente pode ser suposto), a própria
continuação e realização de uma energia semelhante (pois é impossível que ela seja
totalmente a mesma), afirmo que esta realização de uma energia semelhante, em diferentes
periodos de espaço e de tempo, é uma suposição mui arbitrária, e que não pode conservar
traços dos efeitos dos quais se derivou originalmente nosso conhecimento da causa. Se
concordamos que a causa inferida deve ser rigorosamente proporcional, como deveria sê-lo,
ao efeito conhecido, é impossível que possa possuir qualidades pelas quais podem inferir-se
novos ou diferentes efeitos (Hume).
[11] Convém observar que isto que Hume denomina desinteressadamente de um
“problema” representa de fato a dificuldade mais séria de todo o diálogo. E que Hume duvida
que uma causa, sendo tão singular e particular, possa ser conhecida unicamente pela inspeção
de seu efeito, que é igualmente singular e particular. A sua dúvida é um corolário direto e
óbvio do que ficou dito anteriormente a propósito dos raciocínios a priori e experimental. O
primeiro tipo de raciocínio importa em admitir que qualquer coisa concebível pode ser a
causa de qualquer coisa. Enquanto o segundo tipo considera que apenas os eventos
relacionados por conjunção constante, dos quais tivemos experiência direta, ou são análogos
a outros eventos experienciados, oferecem base suficiente e necessária para se levantar a
inferência de um pela presença do outro. Ora, as ultimas condições não são preenchidas
quando se trata do raciocínio modelado pelo “argumento do desígnio’, pois supomos o
universo, um efeito singular e incomparável, ser a prova de Deus, uma causa não menos
singular e incomparável, vimos que a inferência causal se baseia em uma “espécie de
objetos”, ou seja, na conjunção repetida de múltiplos casos que são exatamente similares, ou
que apresentam certo grau de analogia com os seus atributos. Portanto, quando deparamos
com algo que não pertence a “nenhuma espécie”, não podemos através da experiência e da
observação inferir algo que o ultrapasse; e, por causa de sua singularidade, não podemos
igualmente averiguá-lo mediante o raciocínio por analogia. [N. do T.]
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