Moby Dick
Herman Melville48 - A Primeira Descida
continuando...
Enquanto isso, Stubb, o segundo imediato, não traía tais contemplativas
solicitudes. As baleias podiam ter feito uma das suas sondagens regulares, e não
um mergulho temporário de mero susto; e, se tal fosse o caso, Stubb, como
sempre nessas ocasiões, ao que parecia, estava resolvido a consolar a languidez do
intervalo com seu cachimbo. Tirou o cachimbo da fita do chapéu, onde sempre o
levava enviesado como uma pena. Encheu-o e apertou o tabaco com seu polegar;
mas mal havia acendido o fósforo na lixa da palma de sua mão, quando
Tashtego, seu arpoador, cujos olhos se haviam fixado a barlavento como duas
estrelas, saiu subitamente como um relâmpago de sua postura ereta para seu
assento, gritando num súbito frenesi arrebatado: “Abaixem-se, abaixem-se todos e
avancem! – Elas estão aí!”.
Para um homem da terra, nenhuma baleia, nem mesmo um sinal de arenque,
teria sido visível naquele momento; nada senão uma pequena porção agitada de
água branca esverdeada, e pequenas bolhas de vapor flutuando por de sobre, e
soprando difusamente a sotavento, como o confuso deslizar das vagas brancas
que se quebram. O ar em volta vibrou e estremeceu de repente, como sobre
placas de aço intensamente aquecidas. Debaixo dessa ondulação e agitação
atmosférica, e parcialmente por debaixo de uma fina camada de água, também
as baleias nadavam. Vistas antes de qualquer outra indicação, as bolhas de vapor
que sopravam pareciam estafetas e batedores voadores isolados.
Todos os quatro botes agora tenazmente perseguiam aquele ponto de ar e água
turbulentos. Mas o ponto deixou-os inteiramente para trás; corria para a frente
como uma massa confusa de bolhas num riacho veloz descendo da colina.
“Força, força, meus rapazes!”, disse Starbuck, num sussurro muito leve, mas
intensamente concentrado; enquanto seus olhos fixos, mirando bem à frente da
proa, quase pareciam duas agulhas visíveis em duas bússolas de bitáculas
infalíveis. Não disse muita coisa aos seus homens, e nem tampouco seus homens
lhe disseram algo. O silêncio do bote era apenas quebrado, às vezes, por seus
sussurros característicos, ora severos a dar ordens, ora moderados a suplicar.
Como era diferente do enfático e pequeno King-Post. “Gritem e digam alguma
coisa, meus camaradas. Berrem e remem, meus trovões! Empurrem-me,
empurrem-me para cima de seus dorsos negros, rapazes; façam isso por mim e
lhes darei toda a minha plantação de Martha’s Vineyard, rapazes, junto com a
minha esposa e filhos, rapazes. Vamos – vamos! Ó, meu Deus! Vou ficar completa
e descaradamente louco. Vejam! Vejam aquela água branca!” E, gritando dessa
maneira, tirou seu chapéu da cabeça e pisou nele várias vezes; depois o pegou e o
atirou bem longe no mar; e por fim começou a se empinar e saltar na popa do
bote, como um potro enlouquecido na pradaria.
“Vejam aquele camarada”, disse filosófica e lentamente Stubb, que, com seu
pequeno cachimbo apagado, mecanicamente preso entre os dentes, estava atrás
deles, a uma pequena distância – “Tem rompantes – Flask tem rompantes.
Acessos? Sim, esta é a palavra – tem rompantes. Com alegria, alegria, meus
bravos. É pudim no jantar, vocês sabem; – a palavra é alegria. Força, crianças
força, meus bebês – força, todos. Mas por que diabos estão correndo tanto?
Devagar, devagar e sempre, meus homens. Só façam força, e continuem fazendo
força – é só isso. Dobrem essa espinha, e mordam suas facas – é só, só. Calma
por que não se acalmam, repito, e arrebentem com seus fígados e pulmões!”
Mas o que o misterioso Ahab disse à sua tripulação amarelo-tigrina – tais
palavras é melhor omiti-las aqui; pois você vive sob a luz abençoada da terra
evangélica. Somente os infiéis tubarões dos mares bravios podem dar ouvidos a
tais palavras, quando, com o cenho de um tornado e olhos injetados de vermelho
assassino e a boca espumando, Ahab lançou-se sobre a sua presa.
Enquanto isso todos os botes afastavam. As repetidas alusões específicas de
Flask “àquela baleia”, como chamava o monstro fictício que dizia estar
castigando a popa do seu bote com a sua cauda – essas alusões eram às vezes tão
vivas e tão reais, que faziam com que um ou outro dos seus homens lançasse um
olhar apavorado por sobre os ombros. Mas isso era contra as regras; pois os
remadores devem esquecer os olhos e cravar um espeto no pescoço; diz-se até
que, nesses momentos críticos, não devem ter órgãos senão os ouvidos, nem
membros senão os braços.
Era uma visão repleta de puro espanto e terror! As vastas ondulações do mar
onipotente; o rugido agitado, oco que faziam ao passar ao longo das oito bordas
dos botes, feito bolas de madeira gigantescas num campo de grama sem limites;
a breve agonia suspensa do bote, ao tocar por um momento a lâmina das ondas
mais afiadas, que pareciam ameaçar cortá-lo em dois pedaços; o mergulho súbito
e profundo nos precipícios e ocos das águas; as incitações e estímulos incisivos
para chegar ao topo da colina oposta; o deslizar precipitado como de um trenó,
do outro lado; – tudo isso, com os gritos dos vigias e dos arpoadores, e os gemidos
dos remadores, e com a espantosa visão do Pequod de marfim que seguia os
botes com as velas desfraldadas, como uma galinha selvagem atrás da gritaria de
sua cria; – tudo isso era excitante. Nem o recruta inexperiente, que marcha do
seio da esposa para o fervor da primeira batalha; nem o fantasma do morto
quando encontra o primeiro fantasma desconhecido no outro mundo; – nada
disso pode provocar mais estranhas nem mais entranhadas emoções do que as do
homem que se vê remando pela primeira vez no círculo encantado e tumultuado
da caça ao cachalote.
A água branca e dançante da caça tornava-se agora cada vez mais visível,
devido à escuridão crescente que as sombras das nuvens negras lançavam sobre o
mar. Os jatos de vapor já não se misturavam, mas apareciam em toda parte, à
direita e à esquerda; as baleias pareciam estar separando seus rastros. Os botes se
afastavam cada vez mais; Starbuck perseguia três baleias que corriam direto para
sotavento. Nossa vela agora estava içada, e, como o vento ainda aumentava,
corríamos junto; o bote deslizava tão loucamente pela água, que mal se podia
manobrar os remos de sotavento com a velocidade necessária para evitar que
fossem arrancados das toleteiras. Logo nos encontramos em meio a um denso véu de neblina; não se via nem
bote, nem navio.
“Avancem, homens”, sussurrou Starbuck, puxando ainda mais para a popa a
escota da vela; “ainda temos tempo para matar um peixe antes da tempestade.
Veja mais água branca ali! – Mais perto! Continuem!”
Logo em seguida dois gritos sucessivos vindos de ambos os lados indicaram
que os outros botes haviam sido rápidos; porém mal foram ouvidos, e Starbuck
disse com um sussurro que estalou como um relâmpago: “Levante!”, e Queequeg,
com seu arpão na mão, ficou de pé.
Embora nenhum dos remadores pudesse ver de frente o perigo mortal que se
encontrava logo adiante, pela fisionomia tensa e pelo olhar fixo do imediato na
popa do bote, todos sabiam que o momento crítico havia chegado; também
escutaram um ruído enorme que parecia de cinquenta elefantes chafurdando na
lama. Enquanto isso o bote continuava a atravessar a neblina, com as ondas a se
agitar e silvar à nossa volta, como serpentes furiosas de cabeças levantadas.
“Ali está a corcova. Ali, ali! Dá-lhe!”, sussurrou Starbuck.
Um som breve e apressado partiu do bote; era a seta de ferro de Queequeg.
Então, fundindo-se numa mesma comoção veio um ataque invisível da popa,
enquanto a proa parecia bater num rochedo; a vela fechou-se e caiu; um jato de
vapor escaldante ergueu-se ali perto; alguma coisa debaixo de nós rolou e se virou
como um terremoto. Toda a tripulação ficou um pouco sufocada quando foi
temerariamente jogada no branco do creme coalhado da tormenta. Tormenta,
baleia, e arpão se haviam mesclado; e a baleia, meramente arranhada pelo ferro,
escapava.
Ainda que completamente alagado, o bote estava quase intacto. Boiando à sua
volta, recolhemos os remos e, jogando-os transversalmente na amurada,
retomamos os nossos lugares. Ali nos sentamos com os nossos joelhos no mar, a
água cobrindo cada viga e tábua, tanto que para os nossos olhos baixos e
contemplativos a embarcação parada parecia um bote de coral brotado até nós do
fundo do mar.
O vento aumentou até tornar-se um uivo; as ondas arrojavam todas juntas seus
broquéis; toda a tormenta rugia, bifurcava e estalava à nossa volta como um
incêndio branco na pradaria, no qual, sem nos consumir, ardíamos; imortais nas
próprias mandíbulas da morte! Em vão gritávamos para os outros botes; chamar
os botes naquela tormenta era o mesmo que gritar às brasas pela chaminé de
uma fornalha em chamas. Nesse ínterim, as rajadas de vento, o nevoeiro e a
neblina se tornaram mais escuros com as sombras da noite; não se via nem sinal
do navio. O mar encapelado frustrava todas as nossas tentativas de baldear a água
do bote. Os remos eram inúteis como propulsores, desempenhando agora apenas
a função de salva-vidas. Assim, cortando as amarras do barril à prova d’água onde
estavam os fósforos, Starbuck, após várias tentativas, conseguiu acender a
lamparina; então, pendurando-a numa haste, entregou-a a Queequeg como porta
estandarte dessa desamparada esperança. Ali, pois, ele ficou sentado, mantendo
erguida aquela vela estúpida em meio ao todo-poderoso desamparo. Ali, pois, ele
ficou sentado, signo e símbolo de um homem sem fé, em vão mantendo erguida
a esperança em pleno desespero.
Molhados, encharcados e tremendo de frio, desesperando de navio ou bote,
erguemos os olhos quando surgiu a aurora. A neblina ainda espalhada sobre o
mar, a lamparina vazia jazia estilhaçada no fundo do bote. De repente, Queequeg
pôs-se de pé e colocou a mão em concha sobre os ouvidos. Nós todos ouvimos um
rangido fraquinho, como de cordas e vergas, até então abafado pela tempestade.
O som ficou cada vez mais próximo; a neblina densa dispersou-se turvamente
dividida por uma forma imensa e vaga. Aterrorizados, pulamos todos no mar,
enquanto o navio finalmente surgiu às nossas vistas, aproximando-se a uma
distância não muito superior ao seu comprimento.
Flutuando sobre as ondas vimos o bote abandonado, que por um instante se
agitava e debatia sob a proa do navio como uma astilha embaixo de uma
catarata; e então o casco imenso passou por sobre ele, e não foi mais visto até
reaparecer espojando-se do lado da popa. De novo nadamos até ele, fomos
atirados contra ele pelas águas, e, por fim, fomos recolhidos a bordo sãos e salvos.
Antes de a tormenta se aproximar, os outros botes tinham desistido do peixe e
voltado a tempo ao navio. O navio nos havia dado por perdidos, mas ainda
navegava por ali para ver se encontrava por acaso algum sinal da nossa destruição– um remo ou a haste de uma lança.
Continua na página 220...
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.
E você com o quê se identifica?
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