quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Moby Dick: 48 - A Primeira Descida(b)

Moby Dick

Herman Melville

48 - A Primeira Descida

continuando...

     Enquanto isso, Stubb, o segundo imediato, não traía tais contemplativas solicitudes. As baleias podiam ter feito uma das suas sondagens regulares, e não um mergulho temporário de mero susto; e, se tal fosse o caso, Stubb, como sempre nessas ocasiões, ao que parecia, estava resolvido a consolar a languidez do intervalo com seu cachimbo. Tirou o cachimbo da fita do chapéu, onde sempre o levava enviesado como uma pena. Encheu-o e apertou o tabaco com seu polegar; mas mal havia acendido o fósforo na lixa da palma de sua mão, quando Tashtego, seu arpoador, cujos olhos se haviam fixado a barlavento como duas estrelas, saiu subitamente como um relâmpago de sua postura ereta para seu assento, gritando num súbito frenesi arrebatado: “Abaixem-se, abaixem-se todos e avancem! – Elas estão aí!”.
     Para um homem da terra, nenhuma baleia, nem mesmo um sinal de arenque, teria sido visível naquele momento; nada senão uma pequena porção agitada de água branca esverdeada, e pequenas bolhas de vapor flutuando por de sobre, e soprando difusamente a sotavento, como o confuso deslizar das vagas brancas que se quebram. O ar em volta vibrou e estremeceu de repente, como sobre placas de aço intensamente aquecidas. Debaixo dessa ondulação e agitação atmosférica, e parcialmente por debaixo de uma fina camada de água, também as baleias nadavam. Vistas antes de qualquer outra indicação, as bolhas de vapor que sopravam pareciam estafetas e batedores voadores isolados.
     Todos os quatro botes agora tenazmente perseguiam aquele ponto de ar e água turbulentos. Mas o ponto deixou-os inteiramente para trás; corria para a frente como uma massa confusa de bolhas num riacho veloz descendo da colina.

“Força, força, meus rapazes!”, disse Starbuck, num sussurro muito leve, mas intensamente concentrado; enquanto seus olhos fixos, mirando bem à frente da proa, quase pareciam duas agulhas visíveis em duas bússolas de bitáculas infalíveis. Não disse muita coisa aos seus homens, e nem tampouco seus homens lhe disseram algo. O silêncio do bote era apenas quebrado, às vezes, por seus sussurros característicos, ora severos a dar ordens, ora moderados a suplicar.

     Como era diferente do enfático e pequeno King-Post. “Gritem e digam alguma coisa, meus camaradas. Berrem e remem, meus trovões! Empurrem-me, empurrem-me para cima de seus dorsos negros, rapazes; façam isso por mim e lhes darei toda a minha plantação de Martha’s Vineyard, rapazes, junto com a minha esposa e filhos, rapazes. Vamos – vamos! Ó, meu Deus! Vou ficar completa e descaradamente louco. Vejam! Vejam aquela água branca!” E, gritando dessa maneira, tirou seu chapéu da cabeça e pisou nele várias vezes; depois o pegou e o atirou bem longe no mar; e por fim começou a se empinar e saltar na popa do bote, como um potro enlouquecido na pradaria.

“Vejam aquele camarada”, disse filosófica e lentamente Stubb, que, com seu pequeno cachimbo apagado, mecanicamente preso entre os dentes, estava atrás deles, a uma pequena distância – “Tem rompantes – Flask tem rompantes. Acessos? Sim, esta é a palavra – tem rompantes. Com alegria, alegria, meus bravos. É pudim no jantar, vocês sabem; – a palavra é alegria. Força, crianças força, meus bebês – força, todos. Mas por que diabos estão correndo tanto? Devagar, devagar e sempre, meus homens. Só façam força, e continuem fazendo força – é só isso. Dobrem essa espinha, e mordam suas facas – é só, só. Calma por que não se acalmam, repito, e arrebentem com seus fígados e pulmões!” Mas o que o misterioso Ahab disse à sua tripulação amarelo-tigrina – tais palavras é melhor omiti-las aqui; pois você vive sob a luz abençoada da terra evangélica. Somente os infiéis tubarões dos mares bravios podem dar ouvidos a tais palavras, quando, com o cenho de um tornado e olhos injetados de vermelho assassino e a boca espumando, Ahab lançou-se sobre a sua presa.

     Enquanto isso todos os botes afastavam. As repetidas alusões específicas de Flask “àquela baleia”, como chamava o monstro fictício que dizia estar castigando a popa do seu bote com a sua cauda – essas alusões eram às vezes tão vivas e tão reais, que faziam com que um ou outro dos seus homens lançasse um olhar apavorado por sobre os ombros. Mas isso era contra as regras; pois os remadores devem esquecer os olhos e cravar um espeto no pescoço; diz-se até que, nesses momentos críticos, não devem ter órgãos senão os ouvidos, nem membros senão os braços.
     Era uma visão repleta de puro espanto e terror! As vastas ondulações do mar onipotente; o rugido agitado, oco que faziam ao passar ao longo das oito bordas dos botes, feito bolas de madeira gigantescas num campo de grama sem limites; a breve agonia suspensa do bote, ao tocar por um momento a lâmina das ondas mais afiadas, que pareciam ameaçar cortá-lo em dois pedaços; o mergulho súbito e profundo nos precipícios e ocos das águas; as incitações e estímulos incisivos para chegar ao topo da colina oposta; o deslizar precipitado como de um trenó, do outro lado; – tudo isso, com os gritos dos vigias e dos arpoadores, e os gemidos dos remadores, e com a espantosa visão do Pequod de marfim que seguia os botes com as velas desfraldadas, como uma galinha selvagem atrás da gritaria de sua cria; – tudo isso era excitante. Nem o recruta inexperiente, que marcha do seio da esposa para o fervor da primeira batalha; nem o fantasma do morto quando encontra o primeiro fantasma desconhecido no outro mundo; – nada disso pode provocar mais estranhas nem mais entranhadas emoções do que as do homem que se vê remando pela primeira vez no círculo encantado e tumultuado da caça ao cachalote.
     A água branca e dançante da caça tornava-se agora cada vez mais visível, devido à escuridão crescente que as sombras das nuvens negras lançavam sobre o mar. Os jatos de vapor já não se misturavam, mas apareciam em toda parte, à direita e à esquerda; as baleias pareciam estar separando seus rastros. Os botes se afastavam cada vez mais; Starbuck perseguia três baleias que corriam direto para sotavento. Nossa vela agora estava içada, e, como o vento ainda aumentava, corríamos junto; o bote deslizava tão loucamente pela água, que mal se podia manobrar os remos de sotavento com a velocidade necessária para evitar que fossem arrancados das toleteiras.
     Logo nos encontramos em meio a um denso véu de neblina; não se via nem bote, nem navio.

“Avancem, homens”, sussurrou Starbuck, puxando ainda mais para a popa a escota da vela; “ainda temos tempo para matar um peixe antes da tempestade. Veja mais água branca ali! – Mais perto! Continuem!”

     Logo em seguida dois gritos sucessivos vindos de ambos os lados indicaram que os outros botes haviam sido rápidos; porém mal foram ouvidos, e Starbuck disse com um sussurro que estalou como um relâmpago: “Levante!”, e Queequeg, com seu arpão na mão, ficou de pé.
     Embora nenhum dos remadores pudesse ver de frente o perigo mortal que se encontrava logo adiante, pela fisionomia tensa e pelo olhar fixo do imediato na popa do bote, todos sabiam que o momento crítico havia chegado; também escutaram um ruído enorme que parecia de cinquenta elefantes chafurdando na lama. Enquanto isso o bote continuava a atravessar a neblina, com as ondas a se agitar e silvar à nossa volta, como serpentes furiosas de cabeças levantadas.

“Ali está a corcova. Ali, ali! Dá-lhe!”, sussurrou Starbuck.

     Um som breve e apressado partiu do bote; era a seta de ferro de Queequeg. Então, fundindo-se numa mesma comoção veio um ataque invisível da popa, enquanto a proa parecia bater num rochedo; a vela fechou-se e caiu; um jato de vapor escaldante ergueu-se ali perto; alguma coisa debaixo de nós rolou e se virou como um terremoto. Toda a tripulação ficou um pouco sufocada quando foi temerariamente jogada no branco do creme coalhado da tormenta. Tormenta, baleia, e arpão se haviam mesclado; e a baleia, meramente arranhada pelo ferro, escapava.
     Ainda que completamente alagado, o bote estava quase intacto. Boiando à sua volta, recolhemos os remos e, jogando-os transversalmente na amurada, retomamos os nossos lugares. Ali nos sentamos com os nossos joelhos no mar, a água cobrindo cada viga e tábua, tanto que para os nossos olhos baixos e contemplativos a embarcação parada parecia um bote de coral brotado até nós do fundo do mar.
     O vento aumentou até tornar-se um uivo; as ondas arrojavam todas juntas seus broquéis; toda a tormenta rugia, bifurcava e estalava à nossa volta como um incêndio branco na pradaria, no qual, sem nos consumir, ardíamos; imortais nas próprias mandíbulas da morte! Em vão gritávamos para os outros botes; chamar os botes naquela tormenta era o mesmo que gritar às brasas pela chaminé de uma fornalha em chamas. Nesse ínterim, as rajadas de vento, o nevoeiro e a neblina se tornaram mais escuros com as sombras da noite; não se via nem sinal do navio. O mar encapelado frustrava todas as nossas tentativas de baldear a água do bote. Os remos eram inúteis como propulsores, desempenhando agora apenas a função de salva-vidas. Assim, cortando as amarras do barril à prova d’água onde estavam os fósforos, Starbuck, após várias tentativas, conseguiu acender a lamparina; então, pendurando-a numa haste, entregou-a a Queequeg como porta estandarte dessa desamparada esperança. Ali, pois, ele ficou sentado, mantendo erguida aquela vela estúpida em meio ao todo-poderoso desamparo. Ali, pois, ele ficou sentado, signo e símbolo de um homem sem fé, em vão mantendo erguida a esperança em pleno desespero.
     Molhados, encharcados e tremendo de frio, desesperando de navio ou bote, erguemos os olhos quando surgiu a aurora. A neblina ainda espalhada sobre o mar, a lamparina vazia jazia estilhaçada no fundo do bote. De repente, Queequeg pôs-se de pé e colocou a mão em concha sobre os ouvidos. Nós todos ouvimos um rangido fraquinho, como de cordas e vergas, até então abafado pela tempestade. O som ficou cada vez mais próximo; a neblina densa dispersou-se turvamente dividida por uma forma imensa e vaga. Aterrorizados, pulamos todos no mar, enquanto o navio finalmente surgiu às nossas vistas, aproximando-se a uma distância não muito superior ao seu comprimento.
     Flutuando sobre as ondas vimos o bote abandonado, que por um instante se agitava e debatia sob a proa do navio como uma astilha embaixo de uma catarata; e então o casco imenso passou por sobre ele, e não foi mais visto até reaparecer espojando-se do lado da popa. De novo nadamos até ele, fomos atirados contra ele pelas águas, e, por fim, fomos recolhidos a bordo sãos e salvos. Antes de a tormenta se aproximar, os outros botes tinham desistido do peixe e voltado a tempo ao navio. O navio nos havia dado por perdidos, mas ainda navegava por ali para ver se encontrava por acaso algum sinal da nossa destruição– um remo ou a haste de uma lança.

Continua na página 220...
______________________

Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 48 - A Primeira Descida(b) / 
________________________

Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

Nenhum comentário:

Postar um comentário