Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Sétima Parte
I
O tiroteio de Montsou repercutiu até em Paris com um eco
formidável. Durante quatro dias, todos os jornais da oposição, indignados,
publicaram nas suas primeiras páginas narrativas atrozes: vinte e cinco
feridos, catorze mortos, entre eles duas crianças e três mulheres, e mais os
prisioneiros. Levaque transformara-se numa espécie de herói, atribuíam-lhe
uma resposta de uma grandeza antiga ao juiz de instrução. O império, ferido
nas próprias carnes por aquelas poucas balas, fingia a calma do todo
poderoso, sem dar-se conta da gravidade da sua ferida. Era simplesmente
um choque lamentável, coisa vaga e distante, na região carbonífera, muito
longe do centro de gravitação, que era Paris. Tudo seria esquecido em
pouco tempo, a companhia recebera ordem de abafar o problema e de
acabar com a greve, cuja irritante duração se transformava em perigo social.
Por isso, na quarta-feira de manhã, chegaram a Montsou três
administradores. A pequena cidade, que não ousara até então regozijar-se
com o massacre, de coração oprimido, respirou, enfim, saboreando a alegria
de se ver salva. Justamente nesse dia o tempo estava esplêndido, com um
sol radioso, um dos primeiros sóis de fevereiro, cuja tepidez faz que os
brotos dos lilases desabrochem. Todas as persianas da administração foram
descidas, o vasto edifício parecia reviver e dali começaram a sair os boatos
mais animadores; dizia-se que os administradores, muito chocados com a
catástrofe, tinham vindo para abrir seus braços paternais aos desesperados
mineiros. Agora que o golpe fora dado, sem dúvida mais violento do que
eles queriam, prodigalizavam-se na sua missão de salvadores, decretavam
medidas tardias e excelentes. Primeiro despediram os belgas, fazendo
grande alarde dessa concessão extrema aos seus operários; depois
suspenderam a ocupação militar das minas, que grevistas esmagados já não
ameaçavam; foram eles também que obtiveram silêncio acerca da sentinela
da Voreux que desaparecera: tinha-se esquadrinhado a região sem encontrar
o fuzil ou o cadáver ficou decidido que o soldado seria declarado desertor,
ainda que houvesse a suspeita de um crime. Em tudo esses senhores se
esforçaram para atenuar os acontecimentos, tremendo de medo do futuro,
julgando perigoso confessar a irrefreável selvageria de uma multidão,
desencadeada pelos alicerces caducos do velho mundo. E além do mais,
esse trabalho de conciliação não os impedia de conduzir a bom termo os
assuntos puramente administrativos: Deneulin já fora visto entrando na
administração para encontrar-se com o Sr. Hennebeau. As conversações
para a compra de Vandame continuavam, afirmava-se que ele ia aceitar as
ofertas dos administradores.
Mas o que sobretudo agitou a região foram os enormes cartazes
amarelos que esses senhores mandaram afixar nas paredes; liam-se neles
estas poucas linhas em letras garrafais: "Operários de Montsou, não
queremos que os desmandos praticados nos últimos dias privem com seus
tristes efeitos os meios de subsistência dos operários sensatos e de boa
vontade. Por isso, na segunda-feira, de manhã, abriremos novamente todas
as minas, e, quando o trabalho já estiver em curso, examinaremos com
cuidado e benevolência as situações que poderiam ser melhoradas.
Faremos, enfim, tudo o que for possível e justo." Numa manhã, os dez mil
mineiros desfilaram diante desses cartazes. Nenhum falava, muitos
abanavam a cabeça, outros iam-se, arrastando os pés, sem que um músculo
do rosto se tivesse movido.
Até então, o conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante
obstinara-se na sua resistência desesperada. Parecia que o sangue dos
companheiros, que tingira o lodo da mina, impedia o caminho aos demais.
Apenas uns dez haviam descido: Pierron e outros vendidos iguais a ele, que
os demais, com ar sombrio, viam partir e voltar, sem um gesto ou ameaça.
O cartaz afixado na igreja foi acolhido com surda desconfiança; nele não se
falava das carteiras de trabalho que tinham sido devolvidas. A companhia
voltaria a empregar os despedidos? O medo de represálias e a ideia fraternal
de protestar contra a demissão dos mais comprometidos faziam que todos
fincassem pé na obstinação. Tudo aquilo era muito equívoco, o melhor era
esperar para ver, voltariam ao trabalho quando esses senhores resolvessem
explicar-se com franqueza. Um silêncio esmagava o casario baixo, a própria
fome já não tinha importância todos podiam morrer desde que a morte
violenta voejara sobre suas casas.
Um lar principalmente, o dos Maheu, conservava-se negro e mudo,
afundado na sua dor. Desde que tinha acompanhado o marido ao cemitério,
a mulher não abria a boca. Depois da batalha, permitira que Etienne
trouxesse para casa Catherine, enlameada e semimorta e quando a despia
diante do rapaz, para a deitar, pensou por um instante que também a filha
lhe voltava com uma bala na barriga, porque a camiseta tinha grandes
manchas de sangue. Mas compreendeu logo: era, enfim, o sangue da
puberdade que corria, devido ao choque daquele dia abominável. Que sorte
a deles! Que belo presente aquele sangue! Poder fazer filhos para serem
mortos pelos policiais... E não dirigiu a palavra a Catherine, como, aliás,
não falou com Etienne. Este voltou a dormir com Jeanlin, arriscando ser
preso, tomado de tal repugnância à ideia de voltar para as trevas de
Réquillart, que preferia a prisão. Os arrepios o sacudiam, era o horror da
noite após todas aquelas mortes, o medo inconfessado do soldadinho que
jazia sob as rochas. De resto, imaginava a prisão como um refúgio no meio
do tormento da sua derrota; mas a polícia nem sequer o procurou, passava
horas horríveis, sem saber em que esfalfar seu corpo. E, além de tudo isso, a
viúva às vezes os encarava, a ele e à filha, com ar rancoroso, como se
estivesse perguntando o que estavam fazendo na casa dela. Voltaram a roncar amontoados. O velho Boa-Morte ocupava a cama
que pertencera às duas crianças, que dormiam com Catherine, agora que
não existia mais a pobre Alzire para aninhar sua corcunda nas costas da
irmã mais velha. Era ao deitar-se que a mãe sentia o vazio da casa, no frio
do seu leito, agora tão largo. Em vão apertava-se de encontro a Estelle, isso
não substituía o seu homem. E chorava em silêncio, horas a fio. Depois, os
dias começaram a decorrer como antes: sempre sem pão, não tendo contudo
a sorte de morrerem de uma vez por todas; coisas apanhadas a esmo que
prestavam aos miseráveis o mau serviço de fazê-los durar. Nada havia
mudado na sua existência, só havia de menos o seu homem.
Na tarde do quinto dia, Etienne, a quem aquela mulher silenciosa
causava desespero, deixou a sala e caminhou lentamente ao longo da rua
calçada da aldeia. A inação, que lhe era tão pesada, levava-o contínuos
passeios, de braços caídos, cabeça baixa, torturado pelo mesmo
pensamento. Vagava assim havia meia hora, quando sentiu, a cúmulo do
constrangimento, que seus companheiros se punham às portas para o verem.
O pouco que sobrava da sua popularidade fora-se com o vento da fuzilaria,
já não conseguia passar entre eles ter de suportar olhares cheios de rancor.
Quando ergueu a cabeça, figuras ameaçadoras o observavam, as mulheres
entreabriam pequenas cortinas das janelas. E sob aquela acusação, muda
ainda, sob a cólera contida daqueles olhos enormes, dilatados pela fome e
pelas lágrimas, não sabia o que fazer, nem sabia andar. Às suas costas, a
surda censura ia num crescendo. Presa de tal medo de ouvir todo o conjunto
habitacional saindo à rua para lhe gritar sua miséria, voltou para casa, todo
trêmulo.
Mas no lar dos Maheu a cena que o esperava acabou de arrasá-lo. O
velho Boa-Morte estava ao lado do fogão apagado, pregado na sua cadeira
desde que dois vizinhos, no dia da matança, tinham-no encontrado por terra,
com a bengala quebrada, derrubado como uma velha árvore fulminada. E,
enquanto Lénore e Henri, para enganar o estômago, raspavam com ruído
ensurdecedor uma velha panela, onde na véspera tinham cozinhado algumas
couves, a mulher de Maheu, muito ereta, após ter pousado Estelle sobre a
mesa, ameaçava Catherine com o punho.
— Repete, diabo! Repete o que acabas de dizer!
Catherine tinha falado de sua intenção de voltar a trabalhar na
Voreux. A ideia de não ganhar seu pão, de ser apenas tolerada na casa da
mãe como um animal incômodo e inútil, tomava-se cada dia mais
insuportável. E, se não fosse o temor de receber uns tabefes de Chaval, já na
terça-feira teria descido. Gaguejando, insistiu:
— Que queres? Não se pode viver sem fazer nada. Ao menos
teríamos pão.
A outra interrompeu-a:
— Escuta, o primeiro de vocês que voltar ao trabalho, eu mato...
Era só o que faltava! Assassinar o pai e continuar explorando os filhos!
Chega! Antes prefiro ver todos vocês levados de pés juntos, como o que já
foi.
E o seu longo silêncio explodiu furiosamente numa torrente de
palavras. Que bela soma lhe traria Catherine! Apenas trinta soldos, aos
quais se poderiam adicionar vinte se os patrões quisessem dar algum
serviço ao bandido do Jeanlin. Cinquenta soldos e sete bocas a alimentar!
Os pequenos só prestavam para comer. Quanto ao avô, devia estar com
algum parafuso no cérebro frouxo por causa da queda, porque parecia um
idiota, ou então sofrera um abalo vendo os soldados atirarem nos
companheiros.
— Não é verdade, velho? acabaram com a sua casca. De nada lhe
vale ter as mãos ainda fortes, está liquidado.
Boa-Morte olhava-a com seus olhos baços, sem compreender
Ficava horas com o olhar perdido, só sabia cuspir num prato cheio de cinza,
que punham ao seu lado, por asseio.
— E nem ao menos pagaram a sua pensão — prosseguiu ela. —
Estou certa de que vão suspendê-la, por causa das nossas ideias... Não,
chega! Já disse que não quero mais nada desses desgraçados!
— Mas eles — arriscou Catherine — prometem no cartaz...
— Queres deixar-me em paz com esse tal cartaz? Outra arapuca
para nos apanhar e destruir. Agora que nos furaram à bala podem bancar os
bonzinhos para nós.
— Mas então, para onde iremos, mamãe? Não poderemos ficar aqui
no conjunto habitacional, com certeza.
A mulher fez um gesto incompreensível e terrível. Para onde iriam?
Não sabia, nem queria pensar nisso para não ficar louca. Iriam por aí, para
qualquer parte. E, como o barulho da panela estava ficando insuportável,
jogou-se sobre Lénore e Henri e espancou-os. Uma queda de Estelle, que
tinha engatinhado, aumentou a algazarra. A mãe acalmou-a com um tabefe:
que felicidade se tivesse morrido! E começou a falar de Alzire, desejando
aos outros a fortuna dela. Depois, bruscamente, explodiu em soluços, com a
cabeça apoiada na parede.
Etienne, em pé, não ousara intervir. Sua presença na casa já passava
despercebida, as próprias crianças se afastavam dele, cheias de
desconfiança. Mas as lágrimas daquelas desgraçadas dilaceraram-lhe o
coração e murmurou:
— Vamos! vamos! coragem! sairemos dessa...
Ela pareceu não o ouvir lamentando-se num queixume baixo e
contínuo:
— Ah, quanta miséria! Como é possível? Antes de todos esses
horrores ainda se podia aguentar. Comíamos pão seco mas estávamos todos
juntos... O que aconteceu depois, meu Deus! Que fizemos nós para receber
tal castigo, uns já debaixo da terra, os outros querendo ir? É bem verdade
que mais parecíamos bestas de carga e não havia justiça na partilha, nós
sempre apanhando e aumentando a fortuna dos ricos, sem qualquer
esperança de um dia gozar das boas coisas da vida. A alegria de viver
desaparece do não há mais esperança. Claro, isso não podia durar, era
preciso respirar um pouco... Mas se ao menos a gente soubesse o que ia
acontecer! Então é possível tamanha infelicidade só porque se quer justiça?
Os suspiros faziam-na estremecer, sua voz estava embargada por
uma imensa tristeza.
— Depois, sempre aparecem os malandros que prometem que tudo
vai entrar nos eixos, basta a gente querer... E perde-se a cabeça, o que já
existe é causa de tanto sofrimento que se pede aquilo que não existe. Eu
cheguei a sonhar como uma idiota, planejava uma vida de paz em comum;
confesso que andava com a cabeça nas nuvens. E no fim cai-se outra vez na
lama, partindo o lombo... Não era verdade, lá em cima não havia nada
daquilo que se imaginou. O que havia era mais miséria, isso sim! Miséria à
vontade, e tiros ainda por cima...
Etienne escutava essa lamentação e a cada lágrima sentia remorso.
Não sabia o que dizer para acalmar a mulher, toda quebrada com a terrível
queda do alto do seu ideal. Ela voltara para o meio da peça e encarava-o; e
tratou-o por tu, num último grito de raiva:
— E tu também estás planejando voltar ao trabalho, depois de nos
ter afundado a todos? Não te censuro nada, mas, se estivesse no teu lugar, já
teria morrido de desgosto por ter feito tanto mal aos companheiros.
Ele quis responder, mas apenas encolheu os ombros, desesperado:
para que dar explicações que a mulher, na sua dor, não compreenderia? E,
arrasado pelo sofrimento, saiu, retomando a caminhada sem destino.
continua na página 380...
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Sétima Parte - (I.a) /
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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