quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (V.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

V

continuando...

     Etienne, a quem ele pedia que o ajudasse a demover os companheiros, fez um gesto de impotência. Era tarde demais, os grevistas já eram mais de quinhentos. E já não eram só os revoltados vindos para expulsar os belgas; formavam-se grupos de curiosos de trocistas que se divertiam com a briga. No meio de um grupo, a pouca distância, Zacharie e Philomène olhavam, como se estivessem num teatro, tão despreocupados que tinham até trazido os dois filhos, Achille e Désirée. De Réquillart chegou um novo bando e nele vinham os filhos de Mouque; ele foi logo bater no ombro do seu amigo Zacharie, fazendo piadas; ela, cheia de entusiasmo, correu para a primeira fila dos cabeças-quentes.
     Enquanto isso, o capitão olhava a todo momento para a estrada de Montsou. O reforço pedido não chegava, os seus sessenta homens já não podiam continuar resistindo.
     Por fim, decidiu, em desespero de causa, assustar a multidão, e mandou carregar armas. Os soldados executaram a voz de comando, mas a agitação redobrou, com fanfarronadas e piadas. 

— Olhem, os vagabundos vão fazer exercícios de tiro! — diziam as mulheres, a Queimada, a esposa de Levaque e as outras.

     A mulher de Maheu, com o peito coberto pelo corpinho de Estelle, que tinha acordado e chorava, aproximou-se tanto, que o sargento lhe perguntou o que ela vinha fazer ali com aquela pobre criança. 

— É da tua conta? — respondeu ela. — Atira, se tens coragem. Os homens abanavam a cabeça, cheios de desprezo. Nenhum acreditava que atirassem neles. 
— Os cartuchos não têm bala — disse Levaque. 
— Será que nós somos cossacos? — gritou Maheu. — Não se atira em franceses, desgraçados!

     Outros diziam que, tendo feito a campanha da Criméia, não mais tinham medo de chumbo. E todos continuavam a atirar-se de encontro aos fuzis. Uma descarga naquele momento teria ceifado a multidão. Na primeira fileira, a filha de Mouque estava rouca de tanto gritar furiosa só de pensar que os soldados queriam assassinar mulheres. Já lhes havia cuspido todo o seu repertório de palavrões não encontrava mais uma injúria que fosse bastante ofensiva, quando de repente, não restando senão essa mortal ofensa para ela bombardear a tropa, mostrou o traseiro. Levantou as saias com ambas as mãos até a cintura e pôs à mostra as nádegas enormes. 

— Toma pra vocês! E até que é limpo demais, nem merecem, seus porcos!

     Dobrava-se, punha-se de bruços e ia-se virando para que cada um tivesse o seu quinhão, ao mesmo tempo que dizia: 

— Pro oficial! Pro sargento! Pros soldados todos! 

     Houve uma verdadeira tempestade de gargalhadas, Bébert e Lydie se retorciam, o próprio Etienne, apesar da sua sombria expectativa, aplaudiu aquela nudez insultante. Todos, brincalhões e brigões, começaram a vaiar os soldados, como se os vissem cobertos de dejetos. Só Catherine, à parte, em pé sobre um monte de madeira velha, permanecia calada, com o sangue latejando nas têmporas, invadida por aquele ódio cujo calor sentia aumentar paulatinamente.
     Começaram os incidentes mais graves. O capitão, para acalmar seus homens, decidiu-se a fazer prisões. De um salto a filha de Mouque escapou, metendo-se por entre as pernas da multidão. Três mineiros, Levaque e mais dois, foram apanhados no grupo dos mais violentos e guardados à vista, no fundo da sala dos contramestres.
     Do alto, Négrel e Dansaert gritaram ao capitão para que entrasse e se fechasse com eles. Este recusou, sentia que essas edificações, de portas sem fechaduras, iam ser tomadas de assalto, e ele passaria pela vergonha de ser desarmado. Seu minúsculo destacamento já estava grunhindo de impaciência, não se podia fugir diante daqueles miseráveis de tamancos. Os sessenta, apertados contra a parede, de fuzis carregados, continuaram fazendo frente ao bando.
     A princípio houve um recuo, um profundo silêncio. Os grevistas permaneciam espantados com aquele golpe de força, mas em seguida ergueu-se um clamor, exigindo os prisioneiros, reclamando sua liberdade imediata. Começou a correr um rumor de que estavam sendo esfaqueados lá dentro. E, sem terem combinado, levados pelo mesmo ímpeto, pelo mesmo desejo de desforra, todos correram aos montes de tijolos que ficavam ao lado, tijolos feitos com o barro do terreno margoso e que eram cozidos ali mesmo. As crianças os traziam um a um, as mulheres enchiam as saias. Dentro em pouco todos tiveram um monte de munição aos pés e começou batalha a pedradas.
     Foi a Queimada quem começou a atirar; quebrava os tijolos na aresta aguda dos joelhos, e com ambas as mãos arremessava os dois pedaços. A mulher de Levaque quase destrancava os ombros de tão gorda e mole, e teve de se aproximar para não errar o alvo, apesar das súplicas de Bouteloup, que a puxava por trás, na esperança de levá-la para casa, agora que o marido estava engaiolado. A excitação era geral; a filha de Mouque, não querendo ferir as pernas flácidas com os tijolos, preferiu jogá-los inteiros. Até as crianças entraram na batalha. Bébert ensinava Lydie a atirar por baixo do braço. Era uma verdadeira saraivada de pedras, pedaços enormes que soavam surdamente. E, subitamente, no meio daquelas fúrias, lá estava Catherine, com os punhos no ar, brandindo também pedaços de tijolos, arremessando-os com toda a força dos seus braços finos. Se lhe perguntassem, não saberia dizer por que estava fazendo aquilo, sentia apenas que estava sufocada, desesperada, querendo destruir o mundo. Será que essa maldita existência de infortúnios não teria um fim breve? Estava farta de ser espancada e escorraçada por seu homem, de chafurdar como um animal acuado no lodo das estradas, sem ao menos pedir um pedaço de pão ao seu pai, que, como ela, não tinha nada para comer. Desde que se conhecia por gente sua vida fora horrível, e ia de mal a pior. E por isso partia os tijolos e arremessava-os, com a única ideia de tudo destruir, tão cega de ódio que nem via em quem acertava.
     Etienne, que permanecera diante dos soldados, por pouco não teve a cabeça quebrada. Sua orelha inchava, voltou-se estremecendo ao compreender que o tijolo partira das mãos febris de Catherine; e, arriscando ser morto, ficou onde estava, a olhá-la. Muitos outros também permaneceram sem tomar parte, fascinados pela batalha. O jovem Mouque julgava os golpes, como se estivesse assistindo a um jogo: este acertou, aquele outro não teve sorte! Gracejava, mostrava a Zacharie, que brigava com Philomène, esta zangada por ele ter espancado Achille e Désirée, recusando-se a pô-los às costas para que vissem. Havia espectadores, aglomerados ao longe, ao longo da estrada. E no alto da ladeira, na entrada do conjunto habitacional, o velho Boa-Morte acabava de surgir, arrastando se com a ajuda de uma bengala, imóvel agora, ereto contra o céu cor de ferrugem.
     Quando começaram a chover os primeiros tijolos, o contramestre Richomme pusera-se outra vez entre soldados e mineiros. Suplicava exortava outros, sem levar em conta o perigo, tão desesperado que suas grossas lágrimas lhe corriam pelo rosto. Não se podiam entender suas palavras no meio do barulho, via-se apenas seu grande bigode grisalho que tremia.
     Mas a saraivada de tijolos era cada vez mais forte. Os homens, a exemplo das mulheres, também atiravam.
     Nesse momento a mulher de Maheu percebeu que o marido f cara para trás, de mãos vazias e ar sombrio. 

— Que há contigo? Fala! — gritou ela. — Será possível que vais abandoná-los? Terás a coragem de deixar teus companheiros na cadeia? Ah! se eu não estivesse com esta criança tu verias!

     Estelle, que se tinha agarrado ao seu pescoço, berrando, impedia-a de juntar-se à Queimada e às outras. E, como seu marido parecia não ouvir, ela empurrou com o pé alguns tijolos para junto dele. 

— Raio de homem! Anda, pega isso! Ou será que serei obrigada a cuspir-te na cara diante de todo mundo para te dar ânimo?

     Muito vermelho, ele começou a quebrar tijolos e a arremessá-los. Ela fustigava-o, aturdia-o, uivava por trás dele gritos de guerra, esmagando a criança contra o peito com os braços crispados. Ele avançou sempre encontrando-se finalmente diante dos fuzis. Sob aquela tempestade de pedras, a pequena guarnição desaparecia. Felizmente as pedras batiam alto, a parede estava crivada. Que fazer? A idéia de bater em retirada, de voltar as costas, enrubesceu por um momento o rosto pálido do capitão; mas nem esse movimento era já possível, ao menor gesto seriam despedaçados. Um tijolo acabava de quebrar a pala do seu quepe, gotas de sangue corriam-lhe da testa. Muitos dos seus homens estavam feridos e ele sentia-os fora de si, no estágio desesperado da defesa pessoal, em que se cessa de obedecer aos chefes. O sargento havia largado uma praga, com o ombro direito meio deslocado, a carne ferida por uma pancada surda, semelhante ao ruído que faz a lavadeira quando bate a roupa. Já por duas vezes atingido, o recruta tinha um polegar esmagado e uma queimadura ardente no joelho direito: por quanto tempo ainda teriam de suportar tudo aquilo? Como uma pedra, fazendo ricochete, tivesse atingido o velho soldado de carreira na barriga, este ficou lívido, sua arma tremeu e apontou, segura por seus braços magros. Por três vezes o capitão esteve a ponto de dar voz de fogo, mas uma angústia impedia-o, uma luta interminável de alguns segundos que acordava dentro dele ideias, deveres, todas as suas crenças de homem e de soldado. A chuva de tijolos era cada vez mais forte e ele ia abrir a boca para gritar "Fogo!" quando os fuzis começaram a disparar, primeiro três tiros, depois cinco, depois um tiroteio de pelotão e por fim um disparo sozinho, muito depois no profundo silêncio.
     Houve um momento de estupor. Eles tinham atirado, a multidão boquiaberta permanecia imóvel, ainda sem poder acreditar. Mas gritos dilacerantes elevaram-se, enquanto o clarim tocava o cessar fogo. Seguiu-se um pânico tremendo, um galope de gado metralhado, uma fuga sem rumo pela lama.
     Bébert e Lydie caíram um sobre o outro aos primeiros tiros, ela ferida na cabeça, ele abaixo do ombro esquerdo. A menina, fulminada, não se mexia mais; Bébert, porém, ainda tinha movimentos e abraçava-a nas convulsões da agonia, como se quisesse repetir o gesto que fizera no fundo do buraco escuro, onde tinham passado a sua última noite. E Jeanlin, que justamente naquele momento chegava de Réquillart, ainda sonolento, capengando no meio da fumaça, viu o amigo abraçar-se à sua mulherzinha e morrer.
     Os outros cinco tiros tinham atingido a Queimada e o contramestre Richomme. Ferido pelas costas, no momento em que suplicava aos camaradas, o homem caíra de joelhos e, tombando para um lado, agonizava por terra, com os olhos arrasados das lágrimas que tinha chorado. A velha, com a garganta estraçalhada, caíra reta e rangendo como um feixe de lenha seca, gaguejando uma última praga por entre os borbotões de sangue.
     A essa altura, o fogo do pelotão já varria o terreno, ceifava a cem passos os grupos de curiosos que riam da batalha. Uma bala entrou pela boca do jovem Mouque, derrubando-o, esfacelado, aos pés de Zacharie e Philomène, tendo as duas crianças ficado todas respingadas de sangue. No mesmo momento a filha de Mouque recebia duas balas na barriga. Tinha visto os soldados fazerem pontaria e correra, num movimento instintivo de mulher bondosa, para proteger Catherine, gritando-lhe que tivesse cuidado; e deu um urro de dor, caindo de costas com o choque das balas. Etienne correu, quis levantá-la e carregá-la, mas com um gesto ela disse que estava tudo acabado. Depois, no arranco da morte, não deixou de sorrir a um e outro, como se estivesse feliz de vê-los juntos, agora que se ia.
     Parecia tudo terminado, o furacão de balas fora perder-se ao Longe, atingindo mesmo as fachadas do conjunto habitacional, quando o último tiro partiu, isolado, com atraso.
     Maheu, atingido no coração, rodopiou e caiu com o rosto numa poça de água, negra de carvão.
     Imbecilizada, a esposa abaixou-se. 

— Eh, meu velho, levanta-te! Vamos! estás sentindo alguma coisa?

     Com as mãos ocupadas por Estelle, teve de pô-la debaixo de um braço, para voltar a cabeça do seu homem. 

— Vamos, fala! Onde é que estás ferido?

     Maheu tinha os olhos vidrados, a boca escorrendo uma baba sanguinolenta. Ela compreendeu: o marido estava morto. Ficou então sentada no lodo, a filha debaixo do braço como um pacote, olhando estupefata para o seu homem.
     A mina estava livre. Com o seu gesto nervoso, o capitão tirara e tornara a pôr o quepe rasgado por uma pedra; e conservava o mesmo aprumo, lívido diante daquele desastre da sua vida, enquanto seus homens, impassíveis, voltavam a carregar as armas. Surgiram na janela da recebedoria os rostos assustados de Négrel e Dansaert. Suvarin estava por trás deles, com a testa cortada por uma grande ruga, como se o prego da sua idéia fixa tivesse vindo cravar-se ali, ameaçador. Do outro lado do horizonte, na borda do planalto, Boa-Morte não se movera, com uma das mãos apoiadas na bengala e a outra fazendo uma pala sobre os olhos, para ver melhor, embaixo, o extermínio dos seus. Os feridos gemiam, os mortos esfriavam em posturas indefinidas, enlameados pelo lodo líquido do degelo, com a sujeira do carvão boiando ao seu redor e emoldurados pela neve imunda. E no meio desses cadáveres de homens pequenos, pobres e esqueléticos de tanta miséria, jazia o cadáver de Trombeta, um monte de carne sem vida, monstruoso e atroz.
     Etienne não morrera. Continuava a esperar, ao lado de Catherine, caída de fadiga e angústia, quando uma voz vibrante o fez estremecer. Era o Padre Ranvier, que voltava da sua missa e, com os braços erguidos, num furor de profeta, pedia para os assassinos a cólera de Deus. Anunciava a era da justiça, a próxima exterminação da burguesia pelo fogo do céu, já que ela levava ao cúmulo os seus crimes, massacrando os trabalhadores e os deserdados deste mundo.
  
continua na página 375...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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