sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (IV.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

IV


     Mas era preciso fazer desaparecer aquele cadáver. Etienne pensou primeiro em jogá-lo ao canal. Mudou de ideia com a certeza de que lá seria encontrado. Sua ansiedade crescia com o correr dos minutos. Que decisão tomar? Teve uma inspiração súbita: se pudesse levar o corpo até Réquillart, saberia então como fazê-lo desaparecer para sempre. 

— Vem aqui — disse para Jeanlin. O menino estava arredio. 
— Não, queres bater-me. E agora tenho o que fazer. Boa noite. Realmente, tinha combinado com Bébert e Lydie encontrarem-se num esconderijo, um buraco que haviam preparado sob a provisão de madeira da Voreux. Para eles era uma farra enorme dormirem fora de casa para assistir à surra que os belgas iam levar se descessem à mina. 
— Escuta, vem aqui — repetiu Etienne —, ou eu chamo os soldados para te cortarem a cabeça.

     E, como Jeanlin se decidisse a ajudá-lo, amarrou fortemente seu lenço no pescoço do soldado, sem retirar a faca, que impedia o sangue de correr A neve derretia-se, o solo não estava manchado de sangue e não havia mesmo vestígios de luta 

— Pega pelas pernas.

     Jeanlin fez o que Etienne mandava, enquanto este segurava o morto pelos ombros, depois de colocar o fuzil às costas. E assim desceram lentamente o aterro, cuidando para não fazer rolar nenhuma pedra. Felizmente a lua estava escondida quando se esgueiravam, porem, pela margem do canal, ela surgiu, muito clara, e foi um milagre não os verem do posto da guarda. Silenciosos, caminhavam às pressas, atrapalhados pelo balanço do cadáver, sendo obrigados a pousá-lo de cem em cem metros. A esquina da viela de Réquillart ficaram horrorizados ao ouvir o barulho de passos e mal tiveram tempo de se esconder por trás de um muro para deixar passar uma patrulha. Mais adiante foram surpreendidos por um homem, mas ia bêbado e afastou-se injuriando-os. Chegaram enfim à galeria antiga, alagados de suor, tão perturbados que batiam o queixo.
     Etienne havia pensado que não seria fácil passar o soldado pelo fosso das escadas. Foi uma trabalheira medonha. Primeiro, Jeanlin, de cima, deixou escorregar o corpo, enquanto ele, suspenso do matagal, acompanhava-o, para ajudá-lo a transpor os dois primeiros patamares, onde faltavam alguns degraus. Em seguida, a cada escada, teve de repetir a mesma manobra, descer primeiro, depois recebê-lo em seus braços. E isso se repetiu nos trinta lances seguintes, duzentos e dez metros, sentindo-o continuamente cair sobre si. O fuzil machucava-lhe a espinha, não quis que o menino fosse buscar o coto de vela, que poupara avaramente. Para quê? A luz viria atrapalhá-los mais ainda naquele buraco estreito. Contudo, quando chegaram à embocadura da galeria, exaustos, mandou Jeanlin buscar a vela. Sentou-se perto do corpo, em meio às trevas, com o coração aos pulos.
     Assim que Jeanlin voltou com a luz, Etienne consultou-o, já que o menino conhecia muito bem aquelas obras antigas, ate as fendas por onde os homens não podiam passar. Tornaram a partir arrastando o morto cerca de um quilômetro, por um dédalo de galerias em ruínas. Por fim, o teto foi ficando mais baixo, já estavam ajoelhados, por baixo de uma rocha que se esfarelava e era escorada por caibros meio rachados. Era uma espécie de caixa comprida, ali colocaram o soldadinho como num caixão, pondo a seu lado o fuzil. Depois, a pontapés, acabaram de quebrar os caibros, arriscando lá ficarem também. Imediatamente a rocha se fendeu; apenas tiveram tempo de se arrastar para fora. Quando Etienne se voltou, querendo ver, a queda do teto continuava, esmagando lentamente o corpo sob o peso enorme. Dentro em pouco — o via mais nada a não ser a enorme massa de terra.
     Tendo voltado ao seu canto da caverna onde armazenava os outros, Jeanlin atirou-se sobre a palha, murmurando, prostrado 

— Bolas! os garotos que me esperem, vou dormir uma hora.

     Etienne tinha apagado a vela, da qual só restava um pedaço muito pequeno. Ele também estava exausto, mas não tinha sono, com a cabeça martelada por dolorosos pensamentos, que eram como pesadelos. Em breve, só um ficou, torturante, fatigando-o com uma interrogação a que não podia responder: por que não tinha acabado com Chaval quando o subjugara com a faca? E por que aquela criança terminava de esfaquear um soldado de quem nem sequer o nome sabia? Essa coragem para matar, o direito de matar, transtornava todas as suas crenças revolucionárias. Sena um covarde? O menino, deitado na palha, pusera-se a roncar, com um ronco de embriagado, como se estivesse curando a bebedeira de seu crime. E, repugnado, irritado, Etienne sofria com a sua presença. De repente estremeceu, um sopro de medo roçara-lhe o rosto. Um roçar muito leve, um soluço parecia-lhe ter saído das profundezas da terra. A imagem do soldadinho, deitado lá no fundo com seu fuzil, debaixo das rochas, fez que sentisse um arrepio nas costas e os cabelos em pé. Era idiota, toda a mina se enchia de murmúrios, teve de acender novamente a vela e só sossegou vendo o vazio das galerias àquela pálida claridade.
     Ainda durante um quarto de hora esteve refletindo, sempre assolado pela mesma luta, com os olhos fixos naquele pavio que ardia. Mas houve um deslocamento de ar, o pavio foi-se afogando, e tudo voltou às trevas. Sentiu outro arrepio, teve ímpetos de esbofetear Jeanlin para impedi-lo de ressonar tão alto. A presença do menino era-lhe tão insuportável que fugiu em busca de ar livre, correndo pelas galerias e pelo poço das escadas, como se ouvisse uma sombra resfolegante a persegui-lo.
     Em cima, entre as ruínas de Réquillart, Etienne pôde enfim respirar à vontade. Já que não ousava matar, restava-lhe morrer. Essa ideia de morte, que já tivera uma vez, renascia, tomava corpo no seu cérebro como uma derradeira esperança. Morrer corajosamente, pela revolução, eis a solução que acabaria com todos os seus problemas, impedindo-o de continuar pensando. Se seus companheiros atacassem os belgas, ele estaria na vanguarda e teria a oportunidade de receber os primeiros golpes. E foi com passos firmes que voltou a rondar a Voreux...
     Deram duas horas. Da sala dos contramestres, onde se instalara a guarda que protegia a mina, elevava-se uma grande algazarra. O desaparecimento da sentinela alvoroçara os soldados, tinham ido acordar o capitão e acabaram acreditando que houvera deserção, após meticuloso exame do local. E, à espreita na sombra, Etienne pensou nesse capitão republicano, de quem o soldadinho lhe falara. Quem sabe se não o decidiriam a passar para o lado do povo? Se a tropa se recusasse a atirar, isso podia ser o sinal para o massacre dos burgueses. Começou a voar nas asas de outro sonho; não mais pensou em morrer, permaneceu horas com os pés enfiados na lama, a neblina do degelo a cair-lhe nos ombros, arrebatado pela esperança de uma vitória ainda possível.
     Até as cinco horas esperou pela chegada dos operários belgas. Depois deu-se conta de que a companhia tivera a inteligência de fazê-los dormir na Voreux. A descida começou, os poucos grevistas do Deux-Cent Quarante colocados de piquete hesitavam em prevenir os companheiros. Foi Etienne quem os advertiu sobre o que se estava passando, e eles partiram correndo, enquanto o rapaz esperava atrás do aterro, perto do embarcadouro. Deram seis horas. O céu escuro ia ficando pálido, iluminando-se com um alvorecer avermelhado, quando o Padre Ranvier surgiu por um atalho, com a batina arregaçada sobre as pernas magras. Todas as segundas-feiras ia dizer a missa na capela de um convento, do outro lado da mina. 

— Bom dia, meu amigo — disse em voz forte, depois de examinar o rapaz com seus olhos de fogo.

     Etienne não respondeu. Ao longe, por entre os cavaletes da Voreux, vira passar uma mulher e precipitou-se, inquieto, julgando ter reconhecido Catherine.
     Desde a meia-noite que Catherine palmilhava o degelo dos caminhos. Chaval, ao voltar, encontrou-a deitada e a pôs em pé com um tabefe, gritando-lhe que saísse imediatamente se não quisesse voar pela janela. E ela, em lágrimas, sem abrigo, com as pernas todas roxas dos pontapés, tivera de sair, empurrada para fora com um último tapa. Essa separação brutal a deixara tonta. Sentara-se num portal, olhando a casa, esperando que ele a chamasse de volta, porque não era possível, ele devia estar espiando-a pela janela para mandá-la subir assim que a visse tiritar, abandonada, sem ninguém que a recolhesse.
     Depois, passadas duas horas, decidiu-se, morrendo de frio naquela imobilidade de cão escorraçado: saiu de Montsou pelo mesmo caminho em que viera, sem ousar chamar da calçada ou bater na porta Afinal, tomou a estrada larga, planejando dirigir-se para o conjunto habitacional, à casa dos pais. Mas, quando lá chegou, foi possuída por tamanha vergonha, que correu ao longo dos jardins, temendo ser reconhecida por alguém, não obstante o pesado sono em que tudo estava mergulhado por trás das persianas fechadas. E, a partir daí, andou ao acaso, apavorada ao menor ruído, com medo de ser apanhada e conduzida como prostituta para a casa pública de Marchiennes, cuja ameaça a perseguia como um pesadelo havia meses. Por duas vezes foi dar na Voreux, assustando-se com a algazarra da casa da guarda, correndo esbaforida, olhando para trás, temendo que a perseguissem. A ruela de Réquillart estava sempre cheia de homens bêbados, mas ela acabou indo até lá, na vaga esperança de encontrar aquele que a expulsara horas antes.
     Naquela manhã Chaval devia ir trabalhar. Este pensamento trouxe novamente Catherine para as proximidades da mina, se bem que soubesse que seria inútil falar-lhe: estava tudo acabado entre eles. Na Jean-Bart não havia mais trabalho e o homem jurara matá-la se ela voltasse a trabalhar na Voreux, onde temia comprometer-se em sua companhia. Que fazer, então? Ir embora, morrer de fome, ceder à sanha de todos os homens que passassem? Arrastava-se, tropeçava nas poças, as pernas trêmulas, toda enlameada. O degelo transformara-se numa enxurrada de lodo pelos caminhos; ela atolava-se, andando sempre, sem ânimo para procurar uma pedra onde pudesse sentar-se.
     Surgiu o dia. Catherine reconheceu Chaval pelas costas, contornando prudentemente o aterro, no mesmo momento em que percebeu Lydie e Bébert, espiando do seu esconderijo, no monte de madeiras. Tinham passado a noite ali, esperando, sem se atreverem a voltar para casa, já que a ordem de Jeanlin era de esperarem por ele. E, enquanto este, em Réquillart, curava a embriaguez do seu crime, as duas crianças tinham-se lançado nos braços uma da outra, para aquecerem-se. O vento assobiava por entre os toros de castanheiro e carvalho, eles se enovelavam, como se estivessem numa cabana de lenhador abandonada. Lydie não ousava dizer em voz alta seus sofrimentos de menina-mulher acostumada a apanhar, da mesma forma que Bébert não tinha coragem para queixar-se dos tabefes com que seu capitão lhe inchava o rosto. Mas este, no final das contas, estava abusando demasiado, fazendo que arriscassem suas peles em roubos que eram verdadeiras loucuras e depois recusando-se a fazer a partilha. E nos seus coraçõezinhos começou a pulsar revolta, acabaram beijando-se apesar da proibição do outro, não se importando de receber um tapa do invisível, com que ele os ameaçava. O tapa não veio e eles continuaram a beijar-se docemente esquecidos de todo o resto, pondo nessa carícia sua longa paixão reprimida, tudo o que havia neles de martirizado e enternecido. Durante toda a noite tinham-se aquecido dessa maneira, tão felizes no fundo daquele buraco inóspito, que nem se lembravam de algum vez o terem sido tanto, nem mesmo na festa de Santa Bárbara quando comiam filhoses e bebiam vinho.
     Um toque repentino de clarim fez Catherine estremecer. Pôs-se na ponta dos pés e viu a guarda da Voreux armando-se. Etienne surgiu correndo. Bébert e Lydie, de um pulo, saltaram para fora do esconderijo. Ao longe, dentro do dia que clareava, um bando de homens e mulheres vinha descendo do conjunto habitacional, com grandes gestos de cólera.

continua na página 362...
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Sexta Parte - (IV.b) /    
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.



GERMINAL de Émile Zola por Miriam Bevilacqua




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