Estudos de Costumes
- Cenas da Vida Privada
Memórias de duas jovens esposas
SEGUNDA PARTE
XLIX – MARIA-GASTÃO A DANIEL D’ARTHEZ
Outubro de 1834
Meu caro Daniel, necessito de duas testemunhas para o meu casamento; peço-lhe vir à minha casa amanhã de tarde e traga consigo o nosso amigo, o bom e grande José Bridau. A intenção da que será minha mulher é viver longe da sociedade e perfeitamente ignorada: ela pressentiu o mais caro de meus desejos. Você, que suavizou as misérias de minha vida pobre, nada soube dos meus amores, mas, como pode compreender, esse segredo absoluto foi uma necessidade. Eis o motivo pelo qual, faz um ano, tão pouco nos vimos. No dia seguinte ao meu casamento, estaremos separados por muito tempo. Daniel, você tem alma feita para me compreender: a amizade subsistirá sem o amigo. Eu terei, talvez, necessidade de você, mas não o verei, pelo menos em minha casa. Ela também nisso se antecipou aos nossos desejos. Fez-me o sacrifício da amizade que dedicava a uma companheira de infância, e que para ela era uma verdadeira irmã; tive de lhe imolar o amigo. O que aqui lhe digo o fará perceber não uma paixão, mas um amor integral, completo, divino, baseado no íntimo conhecimento de dois seres que assim se unem. Minha felicidade é pura, infinita; como, porém, existe uma lei secreta que nos proíbe ter uma felicidade sem sombras, no fundo de minha alma e sepultado sob o último recesso, oculto um pensamento pelo qual sou o único atingido e que ela ignora. Você sempre me auxiliou na minha constante miséria para ignorar a horrível situação na qual eu me encontrava. Onde ia eu buscar a coragem para viver, quando a esperança se extinguia tão frequentemente? No seu passado, meu amigo, na sua casa, onde encontrava tanto consolo e auxílios delicados. Enfim, meu caro, minhas dívidas esmagadoras, ela as pagou. Ela é rica, eu nada tenho. Quantas vezes, nos meus acessos de preguiça, não disse eu: “Ah! Se alguma mulher rica me quisesse!”. Pois bem, ante os fatos, os gracejos da mocidade despreocupada, as resoluções dos infelizes sem escrúpulos, tudo se evaporou. Sinto-me humilhado, apesar da mais engenhosa ternura. Sinto-me humilhado, apesar da certeza quanto à nobreza de sua alma. Sinto-me humilhado, embora saiba que minha humilhação é uma prova de meu amor. Enfim, ela viu que não recuei diante dessa degradação. Há um ponto em que, longe de ser um protetor, sou o protegido. Essa dor eu a confio a você. Fora disso, meu caro Daniel, as menores coisas realizam meus sonhos. Encontrei o belo sem mácula, o bem sem defeitos. Enfim, conforme dizem, a noiva é demasiado bela: tem espírito na ternura, tem essa sedução e essa graça que põem variedade no amor, é instruída e tudo compreende; é bonita, loura, miúda e ligeiramente rechonchuda, a ponto de acreditar que Rafael e Rubens se combinaram para compor uma mulher! Não sei se me teria sido possível amar a uma mulher morena tanto quanto a uma loura: sempre me pareceu que a mulher morena era um homem frustrado. É viúva, não tem filhos, tem vinte e sete anos. Embora viva, alerta, incansável, sabe apesar disso comprazer-se nas meditações da melancolia. Esses dons maravilhosos não excluem nela nem a dignidade, nem a nobreza: é imponente. Embora pertença a uma das mais velhas famílias mais encasquetadas da nobreza, ama-me o suficiente para passar por cima das desgraças da minha origem. Nossos amores secretos duraram muito tempo. Nós nos experimentamos um ao outro; somos igualmente ciumentos: nossos pensamentos são bem os relâmpagos do mesmo raio. Amamos os dois pela primeira vez, e essa deliciosa primavera encerrou nas suas alegrias todas as cenas que a imaginação enfeitou com as suas mais risonhas, mais doces e mais profundas concepções. O sentimento prodigalizou-nos as suas flores. Cada um desses dias foi cheio, e, quando nos separávamos, escrevíamos poemas um ao outro. Jamais tive o pensamento de ensombrecer essa brilhante temporada por um desejo, conquanto minha alma se visse incessantemente perturbada por eles. Ela era viúva e livre, compreendeu maravilhosamente o que havia de lisonjeiro naquela contínua reserva; muitas vezes isso a comoveu até as lágrimas. Poderás, pois, entrever, meu caro Daniel, uma criatura verdadeiramente superior. Não houve nem mesmo um primeiro beijo de amor: temíamos um ao outro.
— Cada um de nós tem uma miséria a censurar-se — disse-me ela.
— Não vejo qual a sua.
— Meu casamento — respondeu-me.
A você que é um grande homem e ama uma das mais extraordinárias mulheres dessa aristocracia [1] onde encontrei a minha Armanda, basta-lhe essa palavra para compreender aquela alma e prever qual será a felicidade de
continua pág 358...
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[1] Uma das mais extraordinárias mulheres dessa aristocracia: alusão a Diana de Maufrigneuse, princesa de
Cadignan, uma das personagens mais notáveis de A comédia humana, tipo da “mulher fatal”, como se diria hoje,
com inúmeros casos. Nesse momento, já em plena maturidade (tinha seus trinta e oito anos), era amante de
Daniel d’Arthez. Ver Os segredos da princesa de Cadignan, O deputado de Arcis etc.
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