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domingo, 6 de julho de 2025

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: A bolsa (04)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1

1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



A bolsa

continuando...

     Hipólito balbuciou algumas palavras de agradecimento e tornou ao seu silêncio anterior, contentando-se em admirar com crescente entusiasmo a bela cabeça da moça pela qual estava fascinado. Pouco depois esqueceu-se nessa contemplação, sem mais pensar na miséria profunda do ambiente. Para ele, o semblante de Adelaide destacava-se sobre uma atmosfera luminosa. Respondeu concisamente às perguntas que lhe foram dirigidas e que felizmente ouviu, graças à singular faculdade de nosso espírito, cujo pensamento pode, de algum modo, desdobrar-se às vezes. A quem já não aconteceu ficar mergulhado numa meditação voluptuosa ou triste, ouvir-lhe a voz no íntimo, e ao mesmo tempo assistir a uma conversação ou a uma leitura? Dualismo admirável que muitas vezes ajuda a suportar com paciência os cacetes! Fecunda e risonha, a esperança derramou sobre ele mil pensamentos de felicidade, e ele nada mais quis observar em derredor de si: criança, cheia de confiança, parecia-lhe vergonhoso analisar um prazer. Depois de certo lapso de tempo, apercebeu-se que a velha dama e a moça jogavam com o velho gentil homem. Quanto ao satélite deste, fiel à sua condição de sombra, mantinha-se de pé, atrás do amigo cujo jogo o preocupava, respondendo às mudas perguntas que lhe fazia o jogador, por meio de pequenas caretas aprovativas, que repetiam os movimentos interrogadores da outra fisionomia.

 — Du Halga, estou perdendo sempre — dizia o gentil-homem. 
 — É que está cometendo erros — respondeu a baronesa de Rouville. 
 — Faz três meses que não lhe pude ganhar uma única partida. 
 — Tem os ases, senhor conde? — perguntou a velha dama. 
 — Sim. E marquei um — disse ele. 
 — Quer que eu lhe aconselhe? — perguntou Adelaide. 
 — Não, não, fica-te aí, na minha frente. Com os diabos! Seria o cúmulo, se além de perder, eu não te visse na minha frente.

     Por fim terminou a partida. O gentil-homem puxou da bolsa e, atirando dois luíses sobre o pano verde — não sem algum mau humor —, exclamou:

 — Quarenta francos, exatinhos como ouro — e acrescentou: — Demônios! Já são onze horas. 
 — Onze horas — repetiu a personagem muda, olhando o relógio.

     Ao ouvir essas palavras um pouco mais nitidamente do que as outras, o moço achou que já era tempo de se retirar. Voltando então para o mundo das ideias vulgares, recorreu a alguns lugares-comuns para dizer alguma coisa, cumprimentou a baronesa, a filha, os dois desconhecidos e saiu, entregue às primeiras alegrias do amor verdadeiro, sem tentar analisar os pequenos incidentes do serão.
      No dia seguinte, o jovem pintor sentiu o mais violento desejo de ver Adelaide. Se tivesse dado ouvidos à sua paixão, teria entrado em casa das vizinhas desde as seis horas da manhã, ao chegar ao seu ateliê. Teve, entretanto, suficiente bom-senso para esperar até a tarde. Mas logo que julgou poder apresentar-se no apartamento da sra. de Rouville, desceu, tocou a sineta, não sem algumas fortes pulsações do coração e, corando como uma donzela, pediu timidamente a Adelaide, que lhe viera abrir a porta, o retrato do barão de Rouville.

 — Mas queira entrar — disse a moça, que sem dúvida o ouvira descer.

     O pintor seguiu-a envergonhado, embaraçado, sem saber o que dizer, de tão estúpido que ficara com a felicidade. Ver Adelaide, ouvir o fru-fru de seu vestido, depois de ter desejado, durante toda a manhã, estar junto dela, de se ter levantado cem vezes dizendo: “Vou descer!” e não ter descido; isso, para ele, era viver tão exuberantemente, que tais sensações demasiado prolongadas lhe teriam gasto a alma. O coração tem o singular poder de dar um valor extraordinário a pequenos nadas. Que alegria para um viajante colher uma pequena haste de relva, uma folha qualquer, se nesta busca arriscou a vida! Os nadas do amor são assim. A velha dama não estava no salão. Quando a moça se viu ali só com o pintor, foi buscar uma cadeira para alcançar o retrato, mas vendo que o não podia tirar do prego onde estava pendurado sem pôr o pé na cômoda, virou-se para Hipólito e disse-lhe corando:

 — Não sou bastante alta. Quer o senhor tirá-lo dali?

      Um sentimento de pudor, de que davam testemunho a expressão de sua fisionomia e o tom de sua voz, foi o verdadeiro motivo de seu pedido, e o rapaz, que assim o compreendeu, dirigiu-lhe um desses olhares de inteligência que são a mais doce linguagem do amor. Vendo-se tão bem adivinhada pelo pintor, Adelaide baixou os olhos por um movimento de orgulho, cujo segredo pertence às virgens. Não achando o que dizer e quase intimidado, o pintor tirou o quadro do prego, examinou-o com toda a gravidade, expondo-o à luz, junto à janela, e retirou-se sem dizer à srta. Leseigneur mais do que: “Breve eu o restituirei”. Ambos, durante esse rápido momento, sentiram uma dessas intensas comoções cujos efeitos sobre a alma podem comparar-se aos produzidos por uma pedra atirada no fundo de um lago. Nascem daí as mais ternas reflexões, sucedendo-se umas às outras, indefiníveis, multiplicadas, sem alvo, agitando o coração como as ondas circulares que franzem a superfície das águas, durante muito tempo, a partir do ponto onde a pedra caiu. Hipólito voltou para o seu ateliê carregando aquele retrato. Já tinha tudo preparado, uma tela no cavalete, uma paleta carregada de tintas, os pincéis limpos, o lugar e a iluminação escolhidos. Trabalhou, pois, no retrato, até a hora do jantar com o ardor que os artistas empregam em seus caprichos. Voltou essa mesma noite à casa da baronesa de Rouville, lá ficando das nove às onze horas. Excetuando os vários assuntos da conversa, esse serão muito se assemelhou ao precedente. Os dois velhos chegaram à mesma hora, foi jogada a mesma partida de piquet, foram repetidas as mesmas frases pelos jogadores, a quantia perdida pelo amigo de Adelaide foi tão considerável como a perdida na véspera, a única diferença foi que Hipólito, um pouco mais ousado, atreveu-se a conversar com a moça.
     Passaram-se assim oito dias, durante os quais os sentimentos do pintor e os de Adelaide experimentavam essas deliciosas e lentas transformações, que levam as almas a um perfeito entendimento. Por isso, de dia para dia, o olhar com o qual Adelaide acolhia seu amigo se foi tornando mais íntimo, mais confiante, mais alegre e mais franco; sua voz, suas maneiras adquiriram qualquer coisa de mais untuoso, de mais familiar. Os dois riam, conversavam, diziam um ao outro seus pensamentos, falavam de si mesmos com a ingenuidade de duas crianças que, no decurso de um dia, travaram relações e procedem como se já se conhecessem há mais de três anos. Schinner aprendeu o piquet. Sendo ignorante e noviço, ele naturalmente cometeu erro após erro e, como o velho, perdeu quase todas as partidas. Sem ainda se terem confessado seu amor, os dois namorados sabiam que pertenciam um ao outro. Hipólito comprazia-se em exercer seu poder sobre a sua tímida amiguinha. Muitas concessões lhe foram feitas por Adelaide, a qual, medrosa e dedicada, se deixava ludibriar por esses falsos arrufos, que o menos hábil dos namorados ou a mais ingênua das moças inventam, deles se servindo continuamente, como as crianças mimadas abusam do poder que lhes confere o amor materno. Por esse motivo, bem depressa cessaram as familiaridades do velho conde com Adelaide. A moça compreendeu as tristezas do pintor e os pensamentos ocultos nas rugas de sua fronte, no acento brusco das poucas palavras que ele proferia, quando o velho beijava sem cerimônia as mãos ou o pescoço de Adelaide. Por sua vez, a srta. Leseigneur exigiu logo, do seu apaixonado, contas severas de todos os seus atos; mostrava-se tão infeliz, tão inquieta quando Hipólito não vinha, sabia tão bem ralhar com ele pelas suas ausências, que o pintor teve de renunciar a ver seus amigos e deixou de frequentar a sociedade. Adelaide deixou transparecer o ciúme natural nas mulheres, quando soube que, às vezes, ao sair de casa da sra. Rouville, às onze horas, o pintor fazia ainda visitas e percorria os mais brilhantes salões de Paris. Esse gênero de vida, dizia ela, era mau para a saúde; depois, com a convicção profunda à qual o tom, o gesto e o olhar de uma pessoa amada dão tanto poder, ela assegurou “que um homem forçado a prodigar seu tempo e as cintilações de seu espírito a várias mulheres ao mesmo tempo não podia ser objeto de uma afeição bastante intensa”. O pintor foi assim levado, tanto pelo despotismo da paixão como pelas exigências de uma moça enamorada, a viver unicamente naquele apartamento, onde tudo lhe agradava. Enfim, jamais amor foi mais puro nem mais ardente. Quer de um lado, quer do outro, a mesma fé, a mesma delicadeza fizeram crescer aquela paixão sem o recurso dos sacrifícios pelos quais muita gente procura demonstrar seu amor. Existia entre eles uma troca contínua de sensações tão doces que não sabiam qual dos dois dava ou recebia mais. Um pendor involuntário tornava sempre íntima a união de suas almas. O progresso desse sentimento verdadeiro foi tão rápido que, passados dois meses do acidente devido ao qual o pintor tivera a felicidade de conhecer Adelaide, as vidas de ambos se fundiam numa única vida. Desde pela manhã, ao ouvir caminhar no andar superior, a moça podia dizer a si mesma: “Ele está aí!”. Quando Hipólito voltava para a casa materna, à hora do jantar, nunca deixava de ir cumprimentar as vizinhas e, à noite, acorria à hora habitual com pontualidade de apaixonado. Assim é que a mais tirânica das mulheres e a mais exigente em amor não poderia fazer a mais leve censura ao jovem artista. Por isso, Adelaide saboreou uma felicidade sem nuvens nem limites, ao ver realizar-se em toda a sua extensão o ideal que é tão natural sonhar na sua idade. O velho gentil-homem compareceu menos frequentemente, o ciumento Hipólito o substituirá à noite, no pano verde, na sua constante pouca sorte no jogo. Entretanto, em meio à sua felicidade, ao pensar na triste situação da baronesa de Rouville, porquanto obtivera mais de uma prova de suas necessidades, invadiu-o um pensamento importuno. Já por várias vezes ao voltar para casa, dissera a si mesmo “Como! Vinte francos todas as noites?”. E não se animava a confessar a si mesmo suas odiosas suspeitas.
      Levou dois meses a fazer o retrato, que ele próprio, depois de o terminar, envernizar e emoldurar, olhou como um de seus melhores trabalhos. A sra. baronesa de Rouville não lhe tocara mais no assunto. Seria pouco-caso ou orgulho? O pintor não quis procurar a explicação desse silêncio. Conspirou alegremente com Adelaide para colocarem o retrato no lugar, durante uma ausência da sra. de Rouville. Um dia, pois, durante o passeio que sua mãe dava habitualmente pelas Tulherias, Adelaide subiu sozinha, pela primeira vez, ao ateliê de Hipólito, alegando o pretexto de ver o retrato na luz favorável em que tinha sido pintado. Ficou muda e imóvel, mergulhada numa contemplação deliciosa, na qual todos os sentimentos da mulher se fundiam num único. Não se resumem eles numa admiração sem limites pelo homem amado? Quando o pintor, inquieto por aquele silêncio, se voltou para olhar a moça, ela estendeu-lhe a mão, sem poder articular uma palavra; mas duas lágrimas lhe corriam dos olhos. Hipólito tomou aquela mão, cobriu-a de beijos, e durante um momento os dois se olharam em silêncio, querendo ambos confessar seu amor, mas sem se arriscarem a isso. O pintor conservou a mão de Adelaide presa nas suas, e um mesmo calor e um mesmo movimento lhes fizeram saber que seus corações pulsavam tão forte um como o outro. Demasiado comovida, a jovem afastou-se suavemente de Hipólito e disse, dirigindo-lhe um olhar cheio de ingenuidade:

 — Vai dar uma grande felicidade à minha mãe. 
 — Como! Só à sua mãe? — perguntou ele. 
 — Oh! Eu sinto-me demasiado feliz.

continua pág 408...
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A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: A bolsa (04)
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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.
Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).
Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava. De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850.
A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac; orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São Paulo: Globo, 2012.

(A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1 0.000 kb; ePUB
1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série.
12-13086 cdd-843
Índices para catálogo sistemático:
1. Romances: Literatura francesa 843

domingo, 16 de março de 2025

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: A bolsa (03)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1

1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



A bolsa

continuando...

     As duas senhoras começaram falando em pintura, porque as mulheres adivinham muito bem os secretos embaraços que uma primeira visita acarreta, elas mesmas os sentem, talvez, e a natureza de seu espírito fornece-lhes mil recursos para fazê-los cessar. Interrogando o rapaz sobre os processos materiais de sua arte, sobre seus estudos, Adelaide e sua mãe conseguiram dar ânimo ao pintor para conversar. Os nadas indefiníveis da conversação das duas, cheia de benevolência, levaram muito naturalmente Hipólito a expender observações ou pensamentos que pintaram a natureza de seus costumes e de sua alma. Os desgostos haviam prematuramente envelhecido o rosto da senhora, bela sem dúvida em outros tempos, mas conservando hoje apenas os traços salientes, os contornos, numa palavra, o esqueleto de uma fisionomia, cujo conjunto indicava grande finura, muita graça no movimento dos olhos, nos quais se divisava a expressão particular às mulheres da antiga corte e que nada poderia definir. Aquelas feições tão finas, tão delicadas, tanto podiam denunciar maus sentimentos e indicar astúcia e manhas femininas, levadas a um alto grau de perversidade, como revelar as delicadezas de uma bela alma. Com efeito, o semblante da mulher é embaraçoso para os observadores vulgares, pois a diferença entre a franqueza e a hipocrisia, entre o gênio da intriga e o gênio do coração, é nele imperceptível. O homem dotado de vista penetrante adivinha essas tonalidades sutilíssimas, produzidas por uma linha mais ou menos curva, uma covinha mais ou menos escavada, uma saliência mais ou menos arqueada ou proeminente. A apreciação desses diagnósticos é inteiramente da esfera da intuição, a única que pode desvendar o que cada um está interessado em esconder. Dava-se com o rosto da velha dama o mesmo que com o apartamento em que ela morava; parecia tão difícil saber se aquela miséria encobria vícios ou uma alta probidade, como verificar se a mãe de Adelaide era uma antiga coquete, habituada a tudo pesar, calcular, vender, ou uma mulher sensível, cheia de nobreza e de amáveis qualidades. Na idade de Schinner, porém, o primeiro impulso do coração é de crer no bem. Por isso, ao contemplar a nobre e quase desdenhosa fronte de Adelaide, ao fitar seus olhos cheios de alma e de pensamentos, ele, por assim dizer, respirou os suaves e modestos perfumes da virtude. Em meio da palestra, ele aproveitou uma oportunidade para falar de retratos em geral, proporcionando-se assim o direito de examinar o horroroso pastel, cujo colorido havia desmaiado e cujo polvilho em grande parte caíra.

 — As senhoras talvez gostem muito desta pintura por causa da semelhança, porque o desenho é horrível, não? — perguntou ele, olhando para Adelaide.
 — Foi feita em Calcutá, muito apressadamente — respondeu a mãe, com voz comovida.

      Ela contemplou o esboço informe com aquele enlevo profundo que as recordações da felicidade produzem, quando despertam e caem sobre o coração, como um orvalho benfazejo, e em cujas refrescantes impressões tanto gostamos de mergulhar; mas houve também na expressão da fisionomia da velha dama vestígios de um eterno luto. Pelo menos foi assim que o pintor quis interpretar a atitude e o semblante de sua vizinha, junto à qual foi então sentar-se.

 — Senhora — disse ele —, dentro em pouco terão desaparecido as cores desse pastel. O retrato apenas existirá então na sua memória. Ali onde a senhora verá uma imagem que lhe é cara, os demais nada perceberão. Quer permitir-me transportar aquela semelhança para a tela? Ela assim ficará mais solidamente fixada do que o está nesse papel. Conceda-me em atenção à nossa vizinhança o gosto de prestar-lhe esse serviço. Há horas em que um artista gosta de descansar das suas grandes composições, por meio de trabalhos de menor alcance. Será para mim uma distração refazer essa cabeça.

      A velha dama estremeceu ao ouvir essas palavras, e Adelaide dirigiu ao pintor um desses olhares concentrados, que parecem um jorro vindo da alma. Hipólito queria ligar-se às suas vizinhas por um laço qualquer e conquistar o direito de mesclar-se à sua vida. Seu oferecimento, que se dirigia aos mais vivos sentimentos afetivos, era o único que lhes podia fazer, pois satisfazia seu orgulho de artista e nada tinha de humilhante para as duas damas. A sra. Leseigneur aceitou sem calor nem pesar, mas com a consciência das grandes almas que conhecem a extensão dos laços que semelhantes favores estabelecem e que deles constituem um magnífico elogio, uma prova de estima.

 — Parece-me — disse o pintor — que esse uniforme é de um oficial de Marinha?
— Sim — disse ela —, é o de um comandante de navio, o sr. de Rouville, meu marido. Morreu em Batávia, em consequência de ferimentos recebidos em combate com um vaso de guerra inglês, com o qual se encontrou nas costas da Ásia. Ele comandava uma fragata de cinquenta e seis canhões, ao passo que o Revenge era uma nau de noventa e seis bocas de fogo. A luta foi muito desigual, mas ele se defendeu com tanta coragem que a sustentou até a noite e pôde escapar. Quando regressei à França, Bonaparte ainda não estava no poder, e recusaram-me uma pensão. Quando, ultimamente, eu a solicitei outra vez, o ministro disse-me com dureza que, se o barão de Rouville tivesse emigrado, eu a teria obtido, que hoje ele seria contra-almirante; enfim Sua Excelência terminou opondo-me não sei que lei sobre perda de direitos. Só fiz essa tentativa, a que fui impelida por amigos, por causa de minha pobre Adelaide. Sempre tive repugnância de estender a mão em nome de uma dor que tira à mulher sua voz e suas forças. Não me agrada essa avaliação pecuniária de um sangue irreparavelmente derramado...
 — Minha mãe, esse assunto sempre lhe faz mal.

      Ante essas palavras de Adelaide, a baronesa Leseigneur de Rouville curvou a cabeça e calou-se.

— Senhor — disse a rapariga a Hipólito —, eu pensava que os trabalhos dos pintores fossem, de um modo geral, pouco ruidosos.

      A essa pergunta, Schinner corou, lembrando-se do barulho que fizera. Adelaide não concluiu e poupou-lhe uma mentira qualquer, levantando-se de repente ao ruído de um carro que se deteve na porta; foi ao seu quarto, de onde voltou em seguida com dois castiçais dourados, guarnecidos de velas já usadas, que ela acendeu bem depressa, e, sem esperar o tinir da sineta, abriu a porta da primeira peça, onde deixou a lâmpada. O ruído de um beijo, dado e recebido, repercutiu até o coração de Hipólito. A impaciência mal contida do rapaz para ver aquele que tratava Adelaide tão familiarmente não foi logo satisfeita. Os visitantes tiveram com a moça uma conversação em voz baixa que ele achou demasiado comprida. Finalmente, a srta. de Rouville apareceu, acompanhada por dois homens, cujo vestuário, fisionomia e aspecto constituem toda uma história. O primeiro, homem de cerca de sessenta anos, vestia uma dessas casacas inventadas, creio eu, para Luís XVIII, que então reinava, e nas quais o problema mais difícil do vestuário foi resolvido por um alfaiate que deveria ser imortal. Esse artista conhecia, sem dúvida nenhuma, a arte das transições que foi todo o espírito desse tempo tão politicamente móvel. Não é um mérito bastante raro o saber julgar a própria época? Aquela casaca, que os rapazes de hoje podem tomar por fábula, não era nem civil nem militar e podia passar ora por militar, ora por civil. Flores-de-lis bordadas ornavam os debruados das abas posteriores. Os botões dourados tinham também flores-de-lis. Nos ombros, duas passadeiras vazias pediam dragonas. Esses dois indícios de milícia ali estavam como uma petição sem apostila. No velho, a botoeira da casaca de fazenda azul estava florida com diversas fitas. Com certeza sempre trazia na mão seu tricórnio, guarnecido com alamar de ouro, pois as mechas níveas de seus cabelos empoados não apresentavam vestígios da pressão do chapéu. Parecia não ter mais de cinquenta anos e dava a impressão de gozar de perfeita saúde. Não deixando de acusar o caráter leal e franco dos velhos emigrados, sua fisionomia denotava também os costumes libertinos e fáceis, as paixões alegres e a despreocupação daqueles mosqueteiros, outrora célebres nos anais da galantaria. Seus gestos, seu porte, suas maneiras demonstravam que ele não se queria corrigir nem do seu monarquismo, nem da sua religião, nem dos seus amores.
      Uma figura verdadeiramente fantástica acompanhava esse pretensioso voltigeur de Luís XIV [1] (tal foi a alcunha dada pelos bonapartistas àqueles nobres remanescentes da monarquia); mas, para bem descrevê-la, seria preciso fazer dela o objeto principal do quadro, no qual ela é apenas um acessório. Imaginem uma personagem magra e seca, vestida como o outro, mas não sendo, por assim dizer, mais do que seu reflexo, ou sua sombra, se quiserem. A casaca, nova no primeiro, no outro estava velha e sovada. O pó dos cabelos parecia, no último, menos branco, o ouro das flores-de-lis era menos brilhante, as passadeiras das dragonas mais desesperadas e amarrotadas, a inteligência mais fraca, a vida mais próxima ao termo fatal, do que no primeiro. Enfim, realizava o dito de Rivarol sobre Champcenetz: “É o meu lugar”.[2] Nada mais era do que a cópia do outro, uma cópia pálida e pobre, pois existia entre eles a diferença que há entre a primeira e a última prova de uma litografia. Esse ancião mudo foi um mistério para o pintor e conservou-se constantemente um mistério. O cavalheiro — era cavalheiro — não falou, e ninguém lhe dirigiu a palavra. Seria um amigo, um parente pobre, um homem que acompanhava o velho conquistador, como uma dama de companhia acompanha uma velha senhora? Teria ele salvo a fortuna ou apenas a vida do seu benfeitor? Seria o Trim de um outro capitão Toby?[3] Por toda parte, como em casa da baronesa de Rouville, ele despertava sempre curiosidade, sem jamais satisfazê-la. Quem poderia, sob a Restauração, lembrar-se dos laços que antes da Revolução prendiam o cavalheiro à esposa de seu amigo, morta fazia vinte anos?
     A personagem que parecia ser a mais moça daqueles dois destroços adiantou-se galantemente para a baronesa de Rouville, beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. A outra saudou e colocou-se perto do seu modelo, a uma distância representada por duas cadeiras. Adelaide veio apoiar seus cotovelos no espaldar da poltrona ocupada pelo velho gentil-homem, imitando, sem o saber, a pose que Guérin deu à irmã de Dido no seu célebre quadro.[4] Conquanto a familiaridade do velho fidalgo fosse a de um pai, de momento suas liberdades pareceram desagradar à moça.

— Que é isso, estás enfadada comigo? — perguntou ele.

     Depois lançou sobre Schinner um desses olhares enviesados, cheios de finura e de manha, olhares diplomáticos, cuja expressão traía a prudente inquietação, a curiosidade polida das pessoas bem-educadas que parecem, ao ver um desconhecido, perguntar: “É ele dos nossos?”.

 — Apresento-lhe nosso vizinho — disse-lhe a velha senhora, mostrando-lhe Hipólito. — Este senhor é um pintor célebre, cujo nome deve ser-lhe conhecido, não obstante sua despreocupação pelas artes.

      O gentil-homem percebeu a malícia de sua velha amiga na omissão do nome, e saudou o rapaz.

— Certamente — disse ele — muito ouvi falar de seus quadros no último Salão. O talento, senhor, tem belos privilégios — acrescentou, olhando para a roseta vermelha do artista. — Essa distinção que temos de adquirir à custa de nosso sangue e de longos serviços, os senhores a obtêm ainda moços. Mas todas as glórias são irmãs — concluiu ele, levando a mão à sua cruz de São Luís.

continua pág 403...
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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.
Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).
Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava. De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850.
A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac; orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São Paulo: Globo, 2012.

(A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1 0.000 kb; ePUB
1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série.
12-13086 cdd-843
Índices para catálogo sistemático:
1. Romances: Literatura francesa 843

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[1]  Voltigeur: fuzileiro de infantaria ligeira; no sentido figurado: partidário apaixonado.
[2] O dito de Rivarol sobre Champcenetz: Rivarol (1753-1801), espirituoso jornalista e escritor, autor do famoso Discurso sobre a Universalidade da Língua Francesa, teve como colaborador de seus panfletos o cavalheiro de Champcenetz (1759-1794), jornalista ultrarrealista, executado durante a Revolução.
[3] O caporal Trim é o criado inseparável do capitão Toby, duas figuras originais e divertidas do romance Tristram Shandy, de Sterne.
[4] O célebre quadro de Guérin (1774-1833): Eneias contando a Dido os desastres de Troia. Por uma coincidência das mais interessantes, Baudelaire, ao analisar, em suas Curiosidades estéticas, este mesmo quadro, observa que “o olho úmido desta Dido, afogado nos vapores do keepsake, quase anuncia certas parisienses de Balzac”.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: A bolsa (02)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1

1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



A bolsa

     A fim de fazer compreender tudo o que essa cena podia ter de interessante e de inesperado para o pintor, devemos acrescentar que fazia apenas alguns dias que ele tinha instalado o ateliê nos altos daquela casa, situada no lugar mais obscuro e, portanto, o mais lamacento da rue de Suresnes, quase em frente à Igreja de la Madeleine, a dois passos de seu apartamento que se achava na rua dos Champs-Élysées. A celebridade que o seu talento lhe valera fizera dele um dos mais queridos artistas da França; começava a não mais sentir apertos de dinheiro e, segundo sua própria expressão, gozava das suas últimas misérias. Em vez de ir trabalhar num desses ateliês situados perto das barreiras e cujo aluguel módico estava antigamente em relação com a escassez de seus recursos, satisfizera um desejo que nele renascia diariamente, evitando ademais uma longa caminhada e a perda de tempo que para ele se tornara mais precioso do que nunca.
     Ninguém no mundo inspiraria tanto interesse como Hipólito Schinner, se consentisse em se fazer conhecer, mas não era homem que confiasse levianamente os segredos de sua vida. Era o ídolo de uma mãe pobre que o educara à custa das mais duras privações. A srta. Schinner, filha de um granjeiro alsaciano, nunca fora casada. Sua alma terna fora em outros tempos cruelmente espezinhada por um homem rico, que não se distinguia por grandes delicadezas no amor. No dia em que, moça e em todo o esplendor de sua beleza, em toda a glória de sua vida, ela sofreu, à custa de seu coração e das suas belas ilusões, esse desencanto que nos atinge tão lentamente e tão depressa, pois só queremos crer no mal o mais tarde possível, parecendo-nos chegar esse momento demasiado cedo, aquele dia foi um século de reflexões, sendo também o dia dos pensamentos religiosos e da resignação. Recusou as esmolas do homem que a traíra e renunciou à sociedade, fazendo de sua falta novo motivo de orgulho. Entregou-se toda ao amor materno, pedindo a este, em troca dos gozos sociais a que renunciava, todas as suas delícias. Viveu de seu trabalho, acumulando um tesouro em seu filho. Por isso, mais tarde, certo dia, uma hora pagou-lhe os longos e lentos sacrifícios de sua indigência. Na última exposição, seu filho recebera a cruz da Legião de Honra. Os jornais, unânimes em favor de um talento ignorado, ainda reboavam de elogios sinceros. Os próprios artistas consagravam Schinner como um mestre, e os negociantes de pintura cobriam seus quadros de ouro. Aos vinte e cinco anos, Hipólito Schinner, ao qual a mãe transmitira sua alma de mulher, tinha, melhor do que nunca, compreendido sua posição no mundo. Querendo restituir à mãe os gozos de que a sociedade a tinha privado por tanto tempo, vivia para ela esperando, à força de glória e de fortuna, vê- la um dia feliz, rica, considerada, cercada de homens célebres. Schinner escolhera, pois, seus amigos entre os homens mais honrados e mais distintos. Difícil na escolha de suas relações, ele queria elevar ainda mais a posição que seu talento já erguera tão alto. O trabalho, a que se dedicava desde a mocidade, forçando-o a permanecer na solidão, mãe dos grandes pensamentos, deixara-o nas belas crenças que ornam os primeiros dias da vida. Sua alma adolescente não desconhecia nenhum dos mil pudores que fazem de um rapaz moço um ser à parte, cujo coração abunda em felicidades, em poesias, em esperanças virgens, fracas para os embotados, mas profundas porque são simples. Fora dotado dessas maneiras meigas e polidas que sentam tão bem à alma e seduzem até mesmo aqueles que as não compreendem. Era bem-feito de corpo. Sua voz, que vinha do coração, despertava nos outros nobres sentimentos e evidenciava uma modéstia verdadeira por um certo candor na pronúncia. Vendo-o, todos se sentiam arrastados para ele, por uma dessas atrações morais que os sábios, felizmente, não sabem analisar; se o soubessem, encontrariam, talvez, algum fenômeno de galvanismo ou o efeito de não sei que fluido e formulariam nossos sentimentos por proporções de oxigênio e de eletricidade. Esses detalhes farão, talvez, compreender às pessoas ousadas por gênio e aos homens bem engravatados o motivo pelo qual, durante a ausência do porteiro, a quem tinha mandado em busca de um carro, no fim da rue de Madeleine, Hipólito Schinner não fez nenhuma pergunta à porteira a respeito das duas pessoas, cujo bom coração lhe fora patenteado. Mas, embora respondesse apenas por um sim ou por um não às perguntas, naturais em semelhante ocorrência, que lhe foram feitas por aquela mulher sobre o seu acidente e sobre a intervenção oficiosa das locatárias do quarto andar, não pôde impedi-la de obedecer ao instinto dos porteiros: ela falou-lhe das duas desconhecidas, segundo os interesses de sua política e segundo as opiniões subterrâneas do cubículo.

— Ah! — disse ela —, foram com certeza a srta. Leseigneur e a mãe, que moram aqui há quatro anos. Ainda não sabemos em que se ocupam essas senhoras; de manhã, e só até o meio-dia, vem uma velha criada, meio surda e tão calada como um muro, fazer a arrumação do apartamento; à noite, dois ou três velhos senhores, decorados como o senhor, sendo que um tem carruagem e lacaios, e que dizem ter sessenta mil libras de renda, vêm visitá-las e ficam, às vezes, até muito tarde. Aliás, são moradoras bem sossegadas, como o senhor. Ademais, são econômicas, vivem com muito pouco. Assim que chega uma conta elas pagam-na. É engraçado, senhor, a mãe tem nome diferente do da filha. Ah! Quando elas vão às Tulherias, a senhorita vai toda elegante! E não sai nem uma vez sem ser seguida por moços aos quais ela dá com a porta na cara quando entra. E faz bem. O proprietário não consentiria...

     O carro chegara, Hipólito não quis ouvir o resto e foi para casa. Sua mãe, a quem ele contou o incidente, fez um novo curativo na ferida e não consentiu que ele voltasse ao ateliê no dia seguinte. Tendo vindo um médico, fez este diversas prescrições, e Hipólito ficou três dias em casa. Durante essa reclusão, sua imaginação ociosa lembrou-lhe vivamente, e de modo fragmentado, os detalhes da cena que se seguiu ao seu desmaio. O perfil da moça contrastava fortemente com as trevas de sua visão interior: revia o semblante emurchecido da mãe, ou sentia ainda as mãos de Adelaide; tornava a ver um gesto que, a princípio, pouco o impressionara, mas cuja graça deliciosa a recordação punha em relevo; depois, uma atitude, na qual os sons de uma voz melodiosa, embelezada pela distância da memória, reapareciam de súbito, como esses objetos que, mergulhados no fundo da água, emergem à superfície. Por isso, no dia em que pôde recomeçar seu trabalho, foi cedo para o ateliê; mas a visita que incontestavelmente tinha o direito de fazer às suas vizinhas foi a causa verdadeira de sua pressa. Já se ia esquecendo dos quadros começados. No momento em que uma paixão se desfaz do seu casulo, encontram-se prazeres inexplicáveis, que os que amaram compreendem. Por isso, algumas pessoas saberão por que o pintor subiu lentamente os degraus do quarto andar e conhecerão o segredo das rápidas pulsações que agitavam seu coração no momento em que ele viu a porta escura do modesto apartamento onde a srta. Leseigneur morava. Essa moça, que não usava o nome da mãe, despertava mil simpatias no jovem pintor; ele queria ver, entre ambos, similitudes de situação e atribuía-lhe a desgraça de sua própria origem. Enquanto trabalhava, Hipólito entregou-se complacentemente a pensamentos de amor e fez bastante barulho para obrigar as duas senhoritas a se ocuparem com ele, da mesma forma que ele se ocupava com elas. Ficou até muito tarde no ateliê, aí jantando, e depois, cerca das sete horas, foi ter com as vizinhas.
     Nenhum pintor de costumes se animou, talvez por pudor, a nos iniciar na intimidade de certas existências parisienses, no segredo dessas moradias, de onde saem tão frescas, tão elegantes toilettes, mulheres tão brilhantes que, exteriormente ricas, mostram em tudo sinais de uma fortuna equívoca. Se a pintura está aqui desenhada de modo demasiado franco, se nela achardes prolixidade, não acuseis a descrição que forma, por assim dizer, corpo com a história, pois o aspecto do apartamento habitado por suas vizinhas muito influiu nos sentimentos e nas esperanças de Hipólito Schinner.
     A casa pertencia a um desses proprietários nos quais preexiste um profundo horror às reformas e aos embelezamentos, um desses homens que consideram sua posição de proprietário parisiense como um estado. Na grande cadeia das espécies morais, essa gente ocupa uma situação intermédia entre o avarento e o usurário. Otimistas por cálculo, todos eles são fiéis ao status quo da Áustria. Se falardes em deslocar um armário de parede ou uma porta, em abrir o mais indispensável dos ventiladores, seus olhos brilham, revoluciona-se-lhes a bílis, empinam-se como cavalos assustados. Quando o vento derruba algum espigão de suas chaminés, ficam doentes e se privam de ir ao Ginásio[1] ou à Porte -Saint-Martin,[2] por causa das reparações a fazer. Hipólito que, a propósito de certos embelezamentos no seu ateliê, tivera, grátis, a representação de uma cena cômica com o sr. Molineux, não se admirou dos tons negros e gordurosos, das marcas oleosas, das manchas e outros acessórios bastante desagradáveis que ornavam o forro de madeira das peças. Aliás, esses estigmas de miséria não deixam de ter certa poesia para um artista.
     A srta. Leseigneur veio ela mesma abrir a porta. Ao reconhecer o jovem pintor, cumprimentou-o; depois, ao mesmo tempo, com essa destreza parisiense e essa presença de espírito que o orgulho dá, virou-se para fechar a porta de uma divisão envidraçada, através da qual Hipólito poderia ter visto algumas peças de roupa, estendidas em cordas, por cima dos fogões econômicos, uma velha cama de campanha, brasas, carvão, ferro de passar, o filtro, a louça e todos os utensílios peculiares a uma casa modesta. Cortinas de musselina bem limpas ocultavam cuidadosamente aquele cafarnaum, termo usado para designar familiarmente essas espécies de laboratórios, aliás mal iluminados por pequenas aberturas que dão para os pátios vizinhos. Com o rápido olhar dos artistas, Hipólito viu a destinação, os móveis, o conjunto e o estado dessa primeira peça dividida em duas. A parte decorosa, que servia ao mesmo tempo de antecâmara e de sala de jantar, estava forrada com um velho papel cor de aurora, com margens aveludadas, fabricadas com certeza por Réveillon,[3] e cujos buracos e manchas tinham sido cuidadosamente dissimulados sob pedaços de lacre. Gravuras representando as Batalhas de Alexandre, por Lebrun,[4] mas em quadros desdourados, guarneciam simetricamente as paredes. No meio da peça havia uma mesa de acaju maciço, de forma antiquada e de bordos gastos. Uma pequena estufa, cujo cano reto mal se via, ficava diante da lareira, cuja abertura continha um armário. Por um estranho contraste, as cadeiras apresentavam vestígios de um passado esplendor e eram de acaju esculpido, mas o marroquim vermelho dos assentos, as tachas douradas e os canutilhos mostravam cicatrizes tão numerosas como as dos velhos sargentos da guarda imperial. Aquela peça servia de museu para certas coisas que não se encontram senão nessas espécies de lares anfíbios, objetos sem nome, que participam ao mesmo tempo do luxo e da miséria. Entre outras curiosidades, Hipólito notou um óculo de longo alcance, magnificamente ornado, suspenso acima do pequeno espelho esverdeado que decorava a lareira. Para completar esse estranho mobiliário, havia entre a chaminé e o tabique um feio aparador pintado de modo a imitar o acaju, que de todas as madeiras é a que menos se consegue falsificar. Mas, quer o mosaico vermelho e escorregadio, quer os tapetes ordinários colocados diante das cadeiras, os móveis, tudo reluzia com aquele asseio de esfregação que dá um falso brilho às velharias, acentuando ainda mais seus estragos, sua idade e os longos serviços prestados. Reinava nessa peça um olor indefinível, resultante da mescla das exalações do cafarnaum com os vapores da sala de jantar e os da escada, embora a janela estivesse entreaberta e o ar da rua agitasse as cortinas de percal cuidadosamente estiradas, de modo a ocultar o vão onde os precedentes inquilinos tinham assinalado sua presença por várias incrustações, espécie de afrescos domésticos. Adelaide abriu logo a porta da outra sala, onde introduziu o pintor com certo prazer. Hipólito, que em outros tempos vira em casa de sua mãe os mesmos sinais de indigência, notou-os com a singular vivacidade de impressão que caracteriza as primeiras aquisições de nossa memória e penetrou, melhor do que outro qualquer, nos detalhes daquela existência. Ao reconhecer as coisas de sua infância, aquele bom rapaz não sentiu nem desprezo dessa infelicidade oculta, nem orgulho do luxo que acabava de conquistar para sua mãe.

— Então, senhor, quero crer que não sente mais os efeitos de sua queda, não? — disse-lhe a velha, levantando-se de uma antiga poltrona, colocada no canto da lareira e oferecendo-lhe uma cadeira. 
— Não, senhora. Venho agradecer-lhe os cuidados que me proporcionou, e sobretudo à senhorita que me ouviu cair. 

     Ao dizer essa frase, impregnada de adorável estupidez, que dá à alma as primeiras perturbações de um amor verdadeiro, Hipólito olhou para a moça. Adelaide estava acendendo a lâmpada de dupla corrente de ar, sem dúvida para fazer desaparecer uma vela posta num grande castiçal de cobre, adornada com algumas estrias salientes, devidas a um escoamento extraordinário de cera. Inclinou ligeiramente a cabeça, foi colocar o castiçal na antecâmara, voltou para pôr a lâmpada em cima da lareira e sentou-se ao lado da mãe, um pouco atrás do pintor, a fim de poder olhá-lo à vontade, fingindo estar muito ocupada com a luz da lâmpada, que, devido à umidade do vidro embaciado, estralejava por estar com a mecha queimada e mal cortada. Avistando o grande espelho que ornava a lareira, Hipólito para ele dirigiu imediatamente os olhos, a fim de admirar Adelaide. O pequeno ardil da moça serviu, portanto, apenas para embaraçar os dois. Conversando com a sra. Leseigneur, pois foi este nome que Hipólito se arriscou a dar à velha senhora, ele examinou o salão, mas de modo discreto e disfarçado. Viam-se apenas as figuras egípcias da grelha de ferro, numa lareira cheia de cinza, onde dois tições tentavam reunir-se diante de uma falsa acha de lenha de terracota, tão cuidadosamente enterrada como o poderia estar o tesouro de um avaro. Um velho tapete de Aubusson, bem remendado, bem passado, gasto como o casaco de um inválido, não recobria todo o mosaico, cuja frialdade se sentia nos pés. As paredes tinham como adorno um papel avermelhado, fingindo um estofo de lampa com desenhos amarelos. No centro da parede oposta às janelas, o pintor viu uma fenda e os rasgões produzidos no papel pelas duas portas de uma alcova onde, sem dúvida, dormia a sra. Leseigneur. Um sofá, colocado diante dessa abertura secreta, não a dissimulava de modo completo. Em frente à lareira, por cima de uma cômoda de acaju, cujos ornamentos não deixavam de ter certa riqueza e gosto, ostentava-se o retrato de um militar de alta patente, que a escassez de luz não permitiu ao pintor distinguir, mas, pelo que viu, achou que aquele horrível borrão tivesse sido pintado na China. Nas janelas, cortinas de seda encarnada estavam descoradas como os móveis de estofo amarelo e encarnado daquele salão para duplo fim. Em cima do mármore da cômoda, uma bandeja preciosa de malaquita continha uma dúzia de xícaras de café, com pinturas magníficas e fabricadas sem dúvida em Sèvres. Em cima da lareira, erguia-se o eterno relógio estilo Império, representando um guerreiro guiando os quatro cavalos de um carro, cuja roda tinha em cada raio o número de uma hora. As velas dos castiçais estavam amarelecidas pela fumaça, e, em cada canto do alizar, havia um vaso de porcelana coroado de flores artificiais, cheias de poeira e cercadas de musgo. No meio da peça, Hipólito notou uma mesa de jogo preparada e cartas novas. Para um observador, havia um não sei quê de desolador no espetáculo daquela miséria, que se assemelhava à maquiagem de uma mulher velha que ainda quer se dar ares de moça. Diante desse espetáculo, qualquer homem de bom-senso teria, de início e secretamente, estabelecido o seguinte dilema: ou essas duas mulheres são a própria probidade, ou vivem de expedientes e do jogo. Mas, ao ver Adelaide, um rapaz tão puro como Schinner só podia acreditar na mais perfeita inocência e atribuir às incoerências daquele mobiliário os mais honrosos motivos.

— Minha filha — disse a velha dama à moça —, estou com frio, acende o fogo e traze o meu xale.

     Adelaide foi a um quarto contíguo ao salão, no qual provavelmente dormia, e voltou trazendo para a mãe um xale de cachemira que, quando novo, devia ter custado um preço elevado, e cujos desenhos eram indianos, mas que, agora velho, desbotado e cheio de cerziduras, harmonizava-se perfeitamente com os móveis. A sra. Leseigneur envolveu-se artisticamente nele e com a destreza de uma mulher velha que queria fazer crer na verdade de suas palavras. A rapariga correu celeremente ao cafarnaum e voltou com um punhado de gravetos que galhardamente atirou no fogo para reacendê-lo.
     Seria bastante difícil reproduzir a conversa havida entre aquelas três pessoas. Guiado pelo tato adquirido pelas desgraças sofridas na infância, Hipólito não se atrevia a fazer a menor observação relativa à situação de suas vizinhas, ao ver em torno os sintomas de uma penúria tão mal disfarçada. A mais simples pergunta teria sido indiscreta e não devia ser feita senão por uma amizade já velha. Não obstante, o pintor estava profundamente preocupado com aquela miséria oculta, e sua alma generosa sofria com aquilo, mas sabendo o que qualquer espécie de piedade, mesmo a mais amistosa, pode ter de ofensivo, ele se sentia constrangido pelo desacordo que havia entre os seus pensamentos e as suas palavras.

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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.
Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).
Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava. De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850.
A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac; orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São Paulo: Globo, 2012.

(A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1 0.000 kb; ePUB
1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série.
12-13086 cdd-843
Índices para catálogo sistemático:
1. Romances: Literatura francesa 843

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Leia também:
"Chat-Qui-Pelote"
A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada - Ao "Chat-Qui-Pelote" (1)
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (57)
A bolsa
A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: A bolsa (02)
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[1] Ginásio: Théâtre du Gymnase Dramatique, de comédias musicadas (Vaudevilles), inaugurado em 1828.
[2] Porte-Saint-Martin: no bulevar deste nome, onde anos depois se representaria Vautrin, drama do próprio Balzac.
[3] Réveillon: pessoa real, fabricante de papéis de parede.
[4] Lebrun: Charles Lebrun (1619-1690), ilustre pintor francês; deve a fama a uma série de quadros monumentais que representam as Batalhas de Alexandre.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: A bolsa (01)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1

1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



A bolsa

INTRODUÇÃO

     A bolsa (em francês, La Bourse) começa ainda nesse ambiente artístico de Paris onde Balzac nos introduziu em Ao “Chat-qui-pelote”; mas depressa nos faz passar do ateliê do pintor Hipólito Schinner ao apartamento de suas vizinhas, que será o cenário de todo o enredo. Cenário reproduzido, aliás, com todas as minúcias, que até se poderiam achar excessivas se o autor não tomasse o cuidado de o descrever através da visão justamente de um pintor; de olhos acostumados a distinguir os pormenores, este, logo em sua primeira visita, os percebe e avalia melhor do que o faria qualquer outro observador, reconstituindo pelo conjunto deles a essência latente da vida de suas vizinhas, isto é, a pobreza escondida.
     Toda essa introdução é urdida com extrema habilidade; as minúcias da descrição, como o relato das impressões do pintor, preparam uma atmosfera de mistério que chega ao clímax com o episódio da bolsa. Fareja-se um segredo, aliás propositadamente sugerido pelo autor quando diz: “Nenhum pintor de costumes se animou, talvez por pudor, a nos iniciar na intimidade de certas existências parisienses, no segredo dessas moradias de onde saem tão frescas, tão elegantes toilettes, mulheres tão brilhantes que, exteriormente ricas, deixam em tudo os sinais de uma fortuna equívoca”. Essa expectativa, porém, fica insatisfeita; o happy end um pouco forçado de que Balzac se socorre não fornece resposta a todas as perguntas que ele mesmo formulou ou insinuou.
     Poder-se-ia notar também que o enxerto da novela no conjunto de A comédia humana não se opera com a mesma perfeição que na maioria das obras. Só ao chegar ao fim é que o autor parece ter se lembrado de que não explicara satisfatoriamente a ligação que existe entre duas das personagens; daí, nas últimas frases, um esclarecimento precipitado, que antes serve para desorientar o leitor, desviando-lhe a atenção do desfecho da própria novela. O trabalho do alinhavo é, aqui, por demais visível.

Paulo Rónai 



a SOFKA[1]

Não notou, senhorita, que ao colocarem duas figuras em adoração ao lado de uma bela santa, os pintores ou escultores da Idade Média sempre lhes davam uma semelhança filial? Ao ver seu nome entre os que me são caros e sob cuja proteção eu ponho minhas obras, lembre-se desta comovente harmonia, e aqui encontrará menos uma homenagem do que a expressão do afeto fraternal que lhe consagra

seu servidor
Balzac 


     Existe para as almas, facilmente expansivas, uma hora deliciosa que sobrevém no instante indeciso, em que ainda não é noite, mas em que já não é dia; a penumbra crepuscular projeta suas tintas imprecisas, ou seus estranhos reflexos, sobre todos os objetos, favorecendo um devaneio que se combina vagamente com os efeitos da luz e da sombra. O silêncio, que quase sempre reina nesse momento, torna-o mais particularmente caro aos artistas que se concentram, se colocam a alguns passos de suas obras, nas quais não podem mais trabalhar e as julgam, embriagando-se com o assunto cujo sentido íntimo se revela então aos olhos interiores do gênio. Aquele que não permaneceu pensativo, junto a um amigo, durante esse momento de sonhos poéticos, dificilmente compreenderá seus indizíveis benefícios. Graças ao claro-escuro, os ardis materiais, empregados pela arte, a fim de dar a impressão de realidade, desaparecem completamente. Se se trata de um quadro, as personagens que ele representa parecem falar e caminhar; a sombra torna-se sombra, e o dia, dia, a carne adquire vida, os olhos se movem, o sangue circula nas veias, e os estofos cintilam. A imaginação contribui para a realidade de cada detalhe e nada mais vê a não ser a beleza da obra. É a hora em que a ilusão reina despoticamente; talvez se erga com a noite! Não é a ilusão, para o pensamento, uma espécie de noite que povoamos de sonhos? A ilusão abre então as asas, transportando a alma para o mundo da fantasia, mundo fértil em caprichos voluptuosos, no qual o artista esquece o mundo positivo, o dia anterior, o dia seguinte, o futuro, tudo, até mesmo suas misérias, tanto as boas como as más.
     Nessa hora de magia, um jovem pintor, homem de talento, e que na arte nada mais via do que a própria arte, estava trepado numa escada dupla que lhe servia para pintar uma grande e alta tela, quase terminada. Nessa posição, criticando-se, admirando-se, de boa-fé, vogando na corrente de seus pensamentos, ele mergulhava numa dessas meditações que encantam a alma, ampliando-a, acariciando-a e consolando-a. Seu devaneio durou sem dúvida muito tempo. Caiu a noite. Ou fosse porque ele quisesse descer da escada, ou porque tivesse feito um movimento imprudente, por julgar já estar no chão — o acontecimento não lhe permitiu ter uma lembrança exata das causas do seu acidente —, caiu, batendo com a cabeça numa banqueta, perdeu os sentidos e ficou imóvel durante um lapso de tempo, cuja duração ignorou. Uma voz doce tirou-o da espécie de entorpecimento no qual se achava mergulhado. Quando abriu os olhos, uma luz intensa fez com que rapidamente os tornasse a fechar; mas, através do véu que lhe embotava os sentidos, ouviu o murmúrio de duas mulheres e sentiu duas mãos moças, tímidas, entre as quais sua cabeça repousava. Não tardou em voltar a si e pôde distinguir, ao clarão de uma dessas velhas lâmpadas chamadas de dupla corrente de ar, a mais deliciosa cabeça de moça que jamais vira, uma dessas cabeças que passam muitas vezes por um capricho do pincel, mas que, de súbito, materializou para ele as teorias desse belo ideal que cada artista imagina para si mesmo e do qual procede o seu talento. O semblante da desconhecida pertencia, digamos assim, ao tipo fino e delicado da escola de Proudhon e possuía também aquela poesia que Girodet [2] dava às suas figuras fantásticas. A suavidade juvenil das têmporas, a regularidade das sobrancelhas, a pureza das linhas, a virgindade fortemente impressa em todos os traços daquela fisionomia faziam da moça uma criatura perfeita. O talhe era flexível e delgado, as formas eram delicadas. Suas vestes, conquanto simples e asseadas, não revelavam nem fortuna nem miséria. Ao voltar a si, o pintor exprimiu sua admiração com um olhar de surpresa e balbuciou agradecimentos confusos. Sentiu na testa um lenço e reconheceu, não obstante o olor particular dos ateliês, o cheiro forte do éter, que sem dúvida fora usado para o tirar de seu desmaio. Viu, finalmente, uma mulher velha, parecida com as marquesas do Antigo Regime, a qual segurava a lâmpada, dando conselhos à jovem desconhecida.

— Senhor — respondeu a moça, a uma das perguntas feitas pelo pintor que ainda se achava atordoado pela queda —, minha mãe e eu ouvimos o barulho causado pelo seu corpo ao cair no chão e julgamos ter escutado um gemido. O silêncio que se seguiu ao tombo assustou-nos, e subimos apressadamente. Como achássemos a chave na porta, tivemos a feliz ideia de entrar e o vimos estendido no chão, sem movimento. Minha mãe foi buscar o necessário para fazer uma compressa e reanimá-lo. O senhor está ferido na testa, aí, sente?

— Sim, agora sim — disse ele.

— Oh! Isso não será nada — disse a velha senhora. — Por felicidade sua cabeça bateu nesse manequim. 

— Sinto-me muitíssimo melhor — murmurou o pintor —, de nada mais preciso além de um carro para regressar a casa. A porteira irá buscar um. 

     Quis renovar os agradecimentos às duas desconhecidas, mas, a cada frase, a velha senhora o interrompia dizendo: 

— Amanhã, senhor, não se esqueça de pôr umas sanguessugas ou de se fazer sangrar, beba algumas taças de vulnerário e tome cuidado consigo, porque as quedas são perigosas. 

     A moça olhava de soslaio para o pintor e para os quadros do ateliê. Sua atitude e seus olhares revelavam uma decência perfeita; sua curiosidade assemelhava-se à distração, e seus olhos pareciam exprimir esse interesse que as mulheres manifestam, com graciosa espontaneidade, por tudo quanto é desgraça em nós. As duas desconhecidas pareciam esquecer as obras do pintor, diante o sofrimento do artista. Depois que ele as tranquilizou sobre o seu estado, elas saíram examinando-o com uma solicitude igualmente despida de ênfase e de familiaridade, sem lhe fazer perguntas indiscretas nem tentar inspirar-lhe o desejo de conhecê-las. Seus atos tiveram um cunho de fina naturalidade e bom gosto. Suas maneiras nobres e simples causaram, a princípio, pouco efeito no pintor, porém mais tarde, quando relembrou todas as circunstâncias do acontecimento, ficou profundamente impressionado. Ao chegarem ao andar inferior ao do ateliê, a velha senhora exclamou suavemente. 

— Adelaide, deixaste a porta aberta.

— Foi para me socorrer — respondeu o pintor com um sorriso de gratidão.

— Mamãe, a senhora desceu faz pouco — replicou a moça corando.

— Quer que o acompanhemos até lá embaixo? — perguntou a mãe ao pintor. — A escada é escura.

— Agradeço-lhe, minha senhora, já me sinto melhor. 

— Agarre-se ao corrimão.

     As duas mulheres ficaram no patamar para iluminar o caminho ao jovem, enquanto ouviam o ruído de seus passos.

continua pág 391...
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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.
Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).
Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava. De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850.
A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac; orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São Paulo: Globo, 2012.

(A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1 0.000 kb; ePUB
1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série.
12-13086 cdd-843
Índices para catálogo sistemático:
1. Romances: Literatura francesa 843

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Leia também:
"Chat-Qui-Pelote"
A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada - Ao "Chat-Qui-Pelote" (1)
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (57)
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A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: A bolsa (01)
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[1] A Sofka da presente dedicatória é uma bela russa da alta sociedade parisiense, Sophie Koslowsky, filha do príncipe Koslowsky, aventureiro bem conhecido; foi ela que introduziu Balzac em várias famílias aristocráticas. Segundo as curiosíssimas memórias manuscritas, devidas a um contemporâneo, já citadas na introdução de Memórias de duas jovens esposas, cujo autor anônimo relata todos os diz que diz que malévolos que corriam sobre Balzac, as duas figuras em adoração de que se trata no prefácio seriam o próprio romancista e a srta. Sofka; a bela santa seria a condessa Guidoboni-Visconti, anteriormente — segundo o anônimo — amante do príncipe Koslowsky, amiga de sua filha Sophie e, no momento da dedicatória, amante de Balzac.
[2] Pierre Proudhon (1758-1823) e Anne-Louis Girodet de Roussy (1767-1824): pintores famosos da época.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (57)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1

1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



Memórias de duas jovens esposas


SEGUNDA PARTE

LVII – A CONDESSA DE L’ESTORADE AO CONDE L’ESTORADE

Do Chalé, 7 de agosto

      Meu amigo, leva as crianças e faze sem mim a viagem à Provença; fico junto de Luísa, que só tem poucos dias de vida, devo-me a ela e ao seu marido que, segundo creio, enlouquecerá.
     Depois de escrever o bilhete que conheces e que me fez voar, acompanhada dos médicos, a Ville-d’Avray, não me separei dessa mulher encantadora e não te pude escrever, pois é esta a décima quinta noite que passo com ela.
     Ao chegar, encontrei-a com Gastão, bela e enfeitada, com a fisionomia risonha, feliz. Que mentira sublime! Essas duas belas crianças tiveram uma explicação. Durante um momento, eu, como Gastão, fui enganada por aquela audácia, mas Luísa apertou-me a mão e me disse ao ouvido:

— É preciso iludi-lo, estou morrendo.

     Um frio glacial envolveu-me ao sentir-lhe as mãos ardendo e as faces vermelhas. Aplaudi-me por minha prudência. Eu tivera a ideia, para não assustar ninguém, de dizer aos médicos que ficassem passeando pelos bosques até que os mandasse chamar.

— Deixa-nos — disse ela a Gastão. — Duas mulheres que se reveem após cinco anos de separação têm muitos segredos a se confiar, e Renata tem, sem dúvida, alguma confidência a fazer-me.

     Uma vez a sós, ela se atirou em meus braços sem poder conter as lágrimas.

— Mas que há? — perguntei. — Em todo caso, trago-te o primeiro cirurgião e o primeiro médico do hospital, com Bianchon; enfim, são quatro.

 — Oh! Se eles puderem salvar-me, se ainda for tempo, que venham! — exclamou ela. — O mesmo sentimento que me induzia a morrer induz-me agora a viver.

— Mas que fizeste?

— Tornei-me tísica em último grau, em poucos dias.

— E como?

— Tinha suores noturnos e corria para junto do açude, no orvalho. Gastão julga me resfriada, e eu estou morrendo.

— Manda-o a Paris; eu mesma vou buscar os médicos — disse, correndo como uma insensata para o lugar onde os tinha deixado.

     Infelizmente, meu amigo, feita a conferência, nenhum desses sábios deu a menor esperança, todos acham que, com a queda das folhas, Luísa morrerá. A constituição dessa querida criatura favoreceu singularmente o seu intento: tinha tendências para a doença que ela acelerou; teria podido viver muito tempo, mas em poucos dias tornou tudo irreparável. Não te direi minhas impressões ao ouvir essa sentença perfeitamente justificada. Sabes que vivi tanto por Luísa como por mim. Fiquei aniquilada, e não pude reconduzir os cruéis doutores. Com o rosto banhado em lágrimas, passei não sei quanto tempo mergulhada numa dolorosa meditação. Uma voz celestial tirou-me do meu entorpecimento com estas palavras: “Então, estou condenada!”, ditas por Luísa, que pousava a mão no meu ombro. Fez-me levantar e levou-me para o seu pequeno salão.

— Não me deixes mais — pediu-me com um olhar suplicante —, não quero ver desesperos em torno de mim; sobretudo quero enganá-lo, a ele, e terei forças para isso. Sinto-me cheia de energia, de mocidade, e saberei morrer de pé. Quanto a mim, não me queixo, morro como tantas vezes desejei: aos trinta anos, jovem, bela, íntegra. Quanto a ele, vejo que o faria infeliz. Deixei-me prender nas redes do meu amor, como uma corça que se estrangula ao se impacientar por se ver presa: das duas, sou eu a corça... e muito selvagem. Meus injustificados ciúmes já lhe martelaram o coração de modo a fazê-lo sofrer. No dia em que minhas suspeitas se topassem com a indiferença que é o prêmio que o ciúme atrai, pois bem... eu morreria. Estou quite com a vida. Há seres que têm sessenta anos de serviço nos registros do mundo e que de fato não viveram dois anos, e inversamente eu pareço ter apenas trinta anos, mas na realidade tenho sessenta anos de amor. Assim, pois, para mim e para ele, este desenlace é feliz. Quanto a nós duas é uma outra história: tu perdes uma irmã que te ama, e essa perda é irreparável. Somente tu, aqui, deves chorar minha morte. Minha morte — continuou ela, após uma longa pausa durante a qual eu a vi através de um véu de lágrimas — traz consigo uma cruel lição. Meu querido doutor de saias, tens razão: o casamento não pode ter como base a paixão, nem mesmo o amor. Tua vida é nobre e bela, caminhaste na tua via, querendo cada vez mais ao teu Luís, ao passo que, começando a vida conjugal com um ardor extremo, este não pode senão decrescer. Errei duas vezes, e duas vezes a Morte veio esbofetear a minha felicidade com a sua mão descamada. Tirou-me o mais nobre e o mais dedicado de todos os homens; hoje, a magra rapta-me ao mais belo, ao mais sedutor, ao mais poético dos maridos deste mundo. Mas, alternadamente, terei conhecido o belo ideal da alma e o da forma. Em Felipe, a alma dominava o corpo e o transformava; em Gastão o coração, o espírito e a beleza rivalizam. Morro adorada, que posso mais querer?... Reconciliar-me com Deus, que talvez negligenciei um pouco, e para o qual me dirigirei cheia de amor, pedindo-lhe que me restitua um dia, no céu, aqueles dois anjos. Sem eles, o paraíso para mim seria um deserto. Meu exemplo seria fatal; sou uma exceção. Como é impossível encontrar Felipes ou Gastões, a lei social nisto está de acordo com a lei natural. Sim, a mulher é um ser fraco que deve, ao casar-se, fazer inteiro sacrifício da sua vontade ao homem, que em troca deve fazer-lhe o sacrifício do seu egoísmo. As revoltas e os prantos que o nosso sexo ergueu e divulgou nestes últimos tempos, com tanto estridor, são tolices que nos tornam merecedoras do qualificativo de crianças, que tantos filósofos nos deram.

     Luísa continuou a falar assim, com voz meiga que lhe conheces, dizendo as mais sensatas coisas, do modo mais elegante, até que Gastão voltou trazendo de Paris a cunhada, com as duas crianças e a ama inglesa, que Luísa lhe pedira, fosse buscar.

— Eis os meus lindos algozes — disse ela ao ver os sobrinhos. — Não era natural que me enganasse? Como se parecem com o tio!

      Foi encantadora com a sra. Gastão senior, a quem pediu que se considerasse no chalé como na sua própria casa, e fez-lhe as honras da casa com essas maneiras à Chaulieu que possui no mais alto grau. Escrevi imediatamente ao duque e à duquesa de Chaulieu, ao duque de Rhétoré e ao duque de Lenoncourt-Chaulieu, bem como à Madalena. Fiz bem. No dia seguinte, cansada de tanto esforço, Luísa não pôde dar seu passeio; nem sequer se levantou, a não ser para assistir ao jantar.
      Madalena de Lenoncourt, os dois irmãos e a mãe vieram à noite. A frieza, que o casamento de Luísa pusera entre ela e sua família, dissipou-se. A partir dessa noite, os dois irmãos e o pai de Luísa têm vindo todas as manhãs a cavalo, e as duas duquesas passam no chalé todas as noites. A morte aproxima tanto quanto separa, faz com que as paixões mesquinhas emudeçam. Luísa é sublime de graça, de razão, de seduções, de espírito e de sensibilidade. Até o último momento, evidencia esse bom gosto que a tornou tão notável e nos galardoou com os tesouros desse espírito, que fazia dela uma das rainhas de Paris.

— Quero estar bonita até no meu caixão — disse-me com aquele sorriso que é só dela, ao recolher-se ao leito para nele deperecer nestes últimos quinze dias.

      No seu quarto não há vestígios de doença: as poções, os tubos de borracha, toda a aparelhagem médica está oculta.

— Não é que estou tendo uma bela morte? — dizia ela ontem ao cura de Sèvres, a quem deu sua confiança.

     Nós desfrutamos dela como avarentos. Gastão, que tem sido preparado por tantas inquietações e tantas horríveis evidências, tem-se mostrado corajoso, mas está atingido: não me admirarei se o vir seguir de perto a esposa. Ontem, à margem do açude, ele me disse:

— Devo ser o pai dessas duas crianças. — E mostrava-me a cunhada que fazia os sobrinhos passear. — Mas, embora nada pretenda fazer para me ir deste mundo, prometa-me ser uma segunda mãe para eles e consentir que seu marido aceite a tutela oficial, que eu lhe confiarei juntamente com minha cunhada.

      Disse isso sem a menor ênfase e como um homem que se sente perdido. Sua fisionomia responde com sorriso aos sorrisos de Luísa, e somente eu não me engano com esse jogo. Ele mostra uma coragem igual à dela. Luísa quis ver o afilhado; mas não me desgostei de ele estar na Provença, pois ela poderia querer fazer-lhe algumas liberalidades que muito me embaraçariam.
      Adeus, meu amigo.


25 de agosto (dia do santo de seu nome)

     Ontem à noite, durante alguns momentos, Luísa delirou; mas foi um delírio verdadeiramente elegante, que demonstra que as pessoas de espírito não enlouquecem do mesmo modo que os burgueses e os tolos. Cantou com voz abafada algumas árias italianas dos Puritanos, da Sonâmbula e de Moisés.[1] Estávamos todos silenciosos em torno do leito, e todos, inclusive o seu irmão Rhétoré, ficamos com os olhos cheios de lágrimas, tão claro estava que a sua alma assim se evolava. Não nos via mais! Nos atrativos daquele canto fraco e de uma meiguice divina havia ainda toda a sua graça. A agonia começou à noite. Acabo, às sete horas da manhã, de a levantar; ela recuperou algumas forças e quis sentar-se junto à janela; pediu a mão de Gastão... Depois, meu amigo, o anjo mais encantador que poderemos ver neste mundo nada mais nos deixou que os seus despojos. Tendo recebido, na véspera, a extrema-unção, sem que Gastão o soubesse, pois durante a terrível cerimônia estivera a dormir um pouco, ela me exigira que lhe lesse em francês o De profundis,[2] enquanto se conservava assim frente a frente com a bela natureza que para si própria criara. Mentalmente ela repetia as palavras e apertava as mãos do marido, ajoelhado do outro lado da poltrona.


26 de agosto

     Tenho o coração despedaçado. Acabo de vê-la no seu sudário, onde está pálida com tonalidades violeta. Oh! Quero ver os meus filhos! Os meus filhos! Traze-me os meus filhos a meu encontro.

 Paris, 1841.  

continua pág 387...
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[1]  Os puritanos, A sonâmbula e Moisés: óperas italianas, com música de Bellini as duas primeiras, de Rossini a terceira.
[2] De Profundis: o Salmo CXXIX na tradução latina da Vulgata, incluído no ofício dos mortos.
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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.
Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).
Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava. De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850.
A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac; orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São Paulo: Globo, 2012.

(A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1 0.000 kb; ePUB
1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série.
12-13086 cdd-843
Índices para catálogo sistemático:
1. Romances: Literatura francesa 843

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Leia também:
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A bolsa

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (56)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1

1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



Memórias de duas jovens esposas


SEGUNDA PARTE

LV – A CONDESSA DE L’ESTORADE À SRA. GASTÃO

15 de julho

   Querida Luísa, mando-te esta carta por um mensageiro antes de eu mesma voar para o chalé. Acalma-te. Tua última carta me pareceu tão insensata que acreditei poder, em semelhante circunstância, confiar tudo a Luís; tratava-se de te salvar, a ti mesma. Se, como tu, empregamos horríveis meios, o resultado é tão feliz que tenho certeza de tua aprovação. Desci ao ponto de fazer intervir a polícia, mas isso é um segredo entre o prefeito, nós e tu. Gastão é um anjo! Eis os fatos: o irmão dele, Luís Gastão, morreu em Calcutá a serviço de uma companhia comercial, no momento em que ia regressar à França, rico, feliz e casado. A viúva de um negociante inglês era-lhe a mais brilhante fortuna. Depois de dez anos de trabalhos empreendidos, a fim de mandar o necessário para a vida do irmão, a quem adorava e a quem nunca falava de suas decepções, nas suas cartas, para não afligi-lo, ele foi tomado de surpresa pela falência do famoso Halmer. A viúva ficou arruinada. O golpe foi tão violento que Luís Gastão perdeu a cabeça. Com o enfraquecimento da moral, a doença assenhorou-se do corpo, e ele sucumbiu em Bengala, onde fora salvar os restos da fortuna de sua pobre mulher. Esse querido capitão depositara num banco uma primeira quantia de trezentos mil francos para mandá-la ao irmão, mas o banqueiro, arrastado pela falência de Halmer, tirou-lhe esse último recurso. A viúva de Luís Gastão, essa bela mulher que tomaste por tua rival, chegou a Paris com dois filhos, que são teus sobrinhos, e sem vintém. As joias da mãe mal e mal deram para pagar a passagem da família. As informações que Luís Gastão dera ao banqueiro para mandar o dinheiro a Maria-Gastão serviram à viúva para achar o antigo domicílio de teu marido. Como o teu Gastão desapareceu sem dizer para onde ia, mandaram a sra. Luís Gastão à casa de d’Arthez, a única pessoa que podia dar informações sobre Maria-Gastão. D’Arthez foi tanto mais generoso em atender às primeiras necessidades dessa jovem senhora, por ter Luís Gastão, há quatro anos, no momento de seu casamento, indagado de seu irmão junto ao nosso célebre escritor, por sabê-lo amigo de Maria. O capitão pedira a d’Arthez o meio de fazer essa importância chegar com segurança às mãos de Maria-Gastão. D’Arthez respondera que Maria-Gastão se tornara rico com o seu casamento com a baronesa de Macumer. A beleza, esse magnífico presente da mãe, salvara nas Índias como em Paris os dois irmãos de qualquer infortúnio. Não achas isso uma história comovente? D’Arthez escreveu, como era natural, ao teu marido, contando o estado em que se achavam a sua cunhada e os seus sobrinhos e informando-o das generosas intenções que o acaso fizera abortar, mas que o Gastão da Índia tivera para com o Gastão de Paris. O teu querido Gastão, como deves imaginar, acorreu precipitadamente a Paris. É essa a história de sua primeira excursão. Durante cinco anos, ele economizara cinquenta mil francos, sobre a renda que o forçaste a receber, e os empregou em duas inscrições de mil e duzentos francos de renda cada uma, em nome dos sobrinhos; depois mandou mobiliar esse apartamento, onde mora tua cunhada, prometendo-lhe três mil francos cada trimestre. Eis a história dos seus trabalhos no teatro e do prazer que lhe causou o êxito de sua primeira peça. Assim, pois, a sra. Gastão não é tua rival e usa muito legitimamente o teu nome. Um homem nobre e delicado, como Gastão, devia ocultar-te essa aventura, por temor de tua generosidade. O teu marido não considera seu o que tu lhe deste. D’Arthez leu-me a carta que ele lhe escreveu para pedir-lhe que fosse uma das testemunhas do vosso casamento: Maria-Gastão nela diz que sua felicidade seria completa se não tivesse dívidas para te deixar pagar e se fosse rico. Uma alma virgem não é senhora de não ter tais sentimentos; estes ou existem, ou não existem; e quando existem concebem-se as suas delicadezas e exigências. É muito simples que o teu Gastão tenha querido dar em segredo, ele próprio, uma existência conveniente à viúva do irmão, quando essa mulher lhe ia mandar cem mil escudos de sua própria fortuna. Ela é bonita, tem grande coração, maneiras distintas, mas não tem espírito. Essa mulher é mãe; já se deixa ver que me liguei a ela assim que a vi, vendo-a com um filho pelo braço e com o outro vestido como baby de um lorde. Tudo para os filhos! Está escrito nela nas menores coisas. Assim, longe de te zangares com o teu adorado Gastão, tudo o que tens são novos motivos para amá-lo! Entrevi-o, é o moço mais encantador de Paris. Oh! Sim, queridinha, bem compreendi ao vê-lo que uma mulher o amasse loucamente: ele tem a fisionomia da sua alma. Em teu lugar, eu levaria para o chalé a viúva e os dois filhos, fazendo construir para eles uma deliciosa casa de campo, e faria deles meus filhos! Acalma-te, pois, e por tua vez prepara essa surpresa para Gastão.



LVI – A SRA. GASTÃO À CONDESSA DE L’ESTORADE

   Ah! Minha bem-amada, ouve a terrível, a fatal, a insolente frase do imbecil La Fayette ao seu senhor, ao seu rei: É demasiado tarde![1]. Oh! Minha vida, minha bela vida! Qual o médico que me restituirá? Golpeei-me mortalmente. Ai de mim! Não era eu um fogo-fátuo destinado a extinguir-se depois de ter brilhado? Meus olhos são duas torrentes de lágrimas e... não posso chorar senão longe dele... Fujo-lhe, e ele me procura. Meu desespero é todo interior. Dante esqueceu meu martírio no seu Inferno. Vem ver-me morrer.

continua pág 381...
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[1] É demasiado tarde! (ll est trop tard!): esta frase famosa foi pronunciada por La Fayette quando, presidente da comissão instalada na Prefeitura de Paris durante a Revolução de Julho de 1830, recebia a carta pela qual o rei Carlos X revogava seus decretos de 25 do mesmo mês, cujo caráter reacionário tinha provocado a revolução. Poucos dias depois, o duque de Orléans, chefe do ramo secundogênito, ocupou o trono sob o nome de Luís Filipe.
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Honoré de Balzac 
(Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.
Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).
Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava. De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850.
A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac; orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São Paulo: Globo, 2012.

(A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1 0.000 kb; ePUB
1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série.
12-13086 cdd-843
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1. Romances: Literatura francesa 843

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