terça-feira, 10 de março de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / III — Mário engrandecido

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     III — Mário engrandecido

             Nessa época, Mário contava vinte anos e havia três que abandonara a casa de seu avô. De ambas as partes conservava-se tudo no mesmo estado sem que tivesse havido a mínima tentativa de reconciliação, sem que ao menos diligenciassem avistar-se. No fim de contas, para que se haviam de avistar? Para haver novamente algum conflito? Qual deles cederia? Mário era o vaso de bronze, mas Gillenormand, seu avô, era a panela de ferro.
     Digamo-lo em abono da verdade, Mário enganara-se na apreciação dos sentimentos de seu avô. Imaginara que Gillenormand nunca lhe tivera amizade, que aquele velho seco, ríspido e risonho, que praguejava, gritava, ameaçava e erguia a bengala apenas tinha por ele, quando muito, a afeição simultaneamente frívola e severa dos Gerontes de comédia. Nisto se enganava ele. Há pais que não têm amor aos filhos; não há, porém, um só avô que não adore os netos. Assim acontecia com Gillenormand.
     O bom velho, no fundo do coração, idolatrava Mário. Idolatrava-o a seu modo, ralhando-lhe às vezes e até batendo-lhe; mas, em todo o caso, a sua ausência causara lhe um vácuo negro no coração, e, não obstante exigir que não lhe falassem mais dele, interiormente sentia ser obedecido tanto à risca. Nos primeiros dias. Gillenormand supôs que o bonapartista, o jacobino, o terrorista, o setembrista, voltaria, mas decorreram semanas, passaram-se meses, volveram anos, e, com grande pesar seu, o revolucionário não aparecia! «Mas eu, porventura, podia deixar de fazer o que fiz?» dizia a sós consigo o avô de Mário, e perguntava depois: «Acaso, se hoje se tornassem a dar as mesmas circunstâncias, eu tornaria a fazer o mesmo?» O seu orgulho respondia logo que sim, mas a sua cabeça de ancião, com a qual fazia um gesto silencioso, respondia tristemente que não. Mário fazia-lhe falta nas suas horas de abatimento. Os velhos precisam tanto de afeições como de sol. As afeições aquecem. Por mais ríspido que ele fosse de génio, a ausência de Mário operara-lhe grande mudança. Não haveria forças humanas que o fizessem dar um passo por aquele «velhaquete», porém, a sua falta doía lhe, e, apesar de nunca perguntar por ele, tinha-o constantemente no pensamento. Gillenormand, que continuava a viver no Marais, cada vez mais afastado do contato do mundo, era ainda folgazão e arrebatado como dantes, porém a sua jovialidade tinha certa dureza convulsiva, como que motivada por um sentimento de dor e de cólera, e os seus arrebatamentos terminavam sempre por um abatimento em que predominava a brandura e a tristeza. Às vezes dizia: 

— Oh, se ele voltasse, sempre havia de levar uma sova de mãos de mestre!

     Pelo que respeita à tia, como pensava pouco para poder amar muito, apenas se lembrava de Mário confusamente, vindo por último a ocupar-se mais do gato ou do papagaio, que é provável tivesse, do que do mancebo.
     O que ainda mais aumentava a secreta mágoa de Gillenormand era que a reprimia dentro do coração, sem desabafar com ninguém nem dar mostras do que interiormente sentia. As suas penas eram como os fogões modernamente inventados, os quais queimam o próprio fumo que dentro deles se desenvolve. Sucedia às vezes alguns indiscretos oficiosos falarem-lhe de Mário e perguntarem-lhe: «O que é feito do seu neto?» O velho burguês respondia suspirando, se estava demasiadamente triste, ou sacudindo com um piparote o punho bordado, se queria parecer alegre: «O senhor barão de Pontmercy ocupa-se por aí algures em qualquer coisa!»
     Ao mesmo tempo que o velho passava a sua existência ralado de saudades, aplaudia-se Mário pelo seu procedimento. Como sucede a todos os corações bem formados, a desgraça destruíra-lhe o ressentimento. Não pensava em Gillenormand senão com doçura, mas resolvera não receber mais coisa alguma do homem «que tão mau fora para com seu pai». Era já a tradução mitigada das suas primeiras indignações. Além disto sentia-se satisfeito por ter sofrido e por sofrer ainda. Sofria por seu pai. A sua vida difícil agradava-lhe. Dizia para consigo mesmo que tudo aquilo era o menos; que era uma expiação; que, não sendo assim, seria punido de outro modo e mais tarde, pela sua ímpia indiferença para com seu pai, e um tal pai; que não seria justo que tivesse cabido a seu pai todo o sofrimento e a ele nenhum; e de mais, o que eram os seus trabalhos e privações comparados com a vida heroica do coronel? Que, enfim, a única maneira de se aproximar de seu pai e de se lhe assemelhar era ser valente contra a indigência como ele fora bravo contra o inimigo; e era isto sem dúvida o que o coronel quisera dizer nestas palavras: Escuso dizer que será digno de mim palavras que Mário continuava a trazer, não sobre o coração, porque tinha perdido o papel que as continha, mas gravadas nele.
     E depois, quando seu avô o expulsara, era ele apenas uma criança, e agora era já um homem. Conhecia que o era. A miséria fora-lhe proveitosa. A pobreza na mocidade, quando é bem sucedida, tem de magnífico o voltar integralmente a vontade para o esforço constante e a alma para a aspiração. A pobreza mostra repentinamente a vida material no seu perfeito estado de nudez e torna-a hedionda; daqui os inexplicáveis voos para a vida ideal. O mancebo rico tem mil distrações brilhantes e grosseiras: as corridas de cavalos, a caça, os cães, o tabaco, o jogo, os banquetes, e o resto; ocupações dos lados baixos da alma, à custa dos mais altos e delicados. O mancebo pobre tem de trabalhar para obter o pão; come, e depois de comer só tem meditação. Frequenta os espetáculos grátis que Deus dá; contempla o espaço, os astros, as flores, as crianças, a humanidade com a qual sofre, a natureza em que resplandece. Olha tanto para a humanidade que vê a alma, olha tanto para a criação que vê Deus. Sonha e sente-se enternecer. Do egoísmo do homem que sofre, passa à compaixão do homem que medita. O sentimento que nele se manifesta é admirável: esquecimento de si e compaixão pelos outros. Pensando nos gozos sem número oferecidos pela natureza, dá e prodigaliza às almas abertas, recusa às que se conservam cerradas, e chega a lastimar, ele, o milionário de inteligência, os milionários de dinheiro. Toda a espécie de raiva lhe desaparece do coração à medida que a luz lhe penetra no espírito. E no fim de tudo, é desgraçado? Não. A miséria dum mancebo não é nunca miserável. Qualquer rapaz, seja qual for, por mais pobre que viva, com a sua saúde e vigor, o seu andar lesto e olhos brilhantes, com o sangue fervendo-lhe nas veias, cabelos pretos e faces frescas, lábios rosados, dentes brancos e hálito puro, causará sempre inveja a um imperador velho. E depois, recomeça em cada nova manhã a ganhar o seu pão; e enquanto as mãos não trabalham para o ganhar, ganha a sua espinha dorsal mais arrogância e mais ideias o seu cérebro. Terminada a tarefa volta aos êxtases inefáveis, às contemplações, às alegrias; vive com os pés nas aflições, nos obstáculos, na calçada, nos espinhos, muitas vezes na lama, mas com a cabeça envolta em luz. E firme, sereno, meigo, pacífico, atento, sério, benévolo, sempre contente com pouco, e dá graças a Deus por lhe ter concedido as duas riquezas que faltam a muitos ricos; o trabalho que lhe dá a liberdade e o pensar que o torna digno.
     Fora isto o que se passara em Mário. Chegara mesmo, para dizermos tudo, a pender demasiadamente para o lado da contemplação. No dia em que ganhara a vida, pouco mais ou menos com segurança, não se adiantara mais, mas achando que era bom ser pobre e tirando ao trabalho para dar ao pensamento. Isto quer dizer que passara algumas vezes dias inteiros a meditar, mergulhado como um visionário, em mudas voluptuosidades de êxtase e brilho interior. O problema da sua vida estabelecera-o assim; trabalhar o menos possível em trabalho material, para trabalhar o mais que pudesse em trabalho impalpável; noutros termos: dar algumas horas à vida real, e lançar o resto no infinito. Não notava, julgando não lhe faltar coisa alguma, que a contemplação assim compreendida acaba por ser uma das formas da preguiça; que se contentava com vencer as primeiras dificuldades da vida, e que repousava demasiadamente cedo.
     Era evidente que para uma organização tão enérgica e generosa, não podia um tal estado deixar de ser transitório, e que, ao primeiro embate com as inevitáveis complicações do destino, Mário despertaria.
     Entretanto, apesar de ser advogado, e apesar do que pensava o avô Gillenormand, não pleiteava, nem mesmo chicanava. A meditação afastara-o da advocacia. Conviver com os procuradores de causa, ter de ir ao tribunal, angariar causas, que enfado! E para quê? Não via o mínimo motivo para mudar de ganha-pão. A obscura livraria acabara por lhe dar trabalho certo, de pouca fadiga, o que lhe era suficiente.
     Um dos editores para quem trabalhava, Magimel, segundo me parece, tinha-lhe oferecido alojá-lo em sua casa, dar-lhe trabalho regular e mil e quinhentos francos por ano. Ter boa casa e mil e quinhentos francos! Era decerto excelente. Mas a perda da liberdade! Ser assalariado! Ser uma espécie de literato-caixeiro! No pensar de Mário, aceitando esta vantajosa proposta, melhorava e piorava ao mesmo tempo a sua posição; ganhava comodidades e perdia dignidade; era a troca de uma infelicidade completa e bela, por uma prisão feia e ridícula; uma coisa como um cego que se tornasse torto. Rejeitou portanto a proposta.
     Mário vivia solitário. Pelo seu decidido gosto em se conservar fora de tudo, e mesmo por se ter demasiadamente desgostado da primeira vez, não tornara a entrar no grupo presidido por Enjolras. Tinham ficado em boa harmonia, prontos, a ajudar-se mutuamente, sempre que se oferecesse ocasião, mas nada mais. Mário tinha dois amigos, um moço que era Courfeyrac, o outro velho, que era Mabeuf. A sua maior inclinação era para o velho. Em primeiro lugar devia-lhe a revolução que se operara no seu modo de pensar; devia-lhe o ter conhecido e amado seu pai. Fez-me a operação da catarata, dizia ele.
     Com efeito, a operação do sacristão de S. Sulpício fora decisiva.
     E, contudo, o senhor Mabeuf naquela ocasião não fora mais do que o agente tranquilo e pacífico da Providência. Iluminara Mário por acaso, e sem o saber, como faz uma luz conduzida por alguém; fora a luz e não quem a conduzia.
     Quanto à interior revolução política de Mário, Mabeuf era completamente incapaz de a compreender, de a promover e de a dirigir.
     Como mais para diante teremos de encontrar o senhor Mabeuf, não serão inúteis algumas palavras a seu respeito.

continua na página 516...
______________

Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
_________________________

Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - III — Mário engrandecido
_______________________
  
Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

Nenhum comentário:

Postar um comentário