segunda-feira, 30 de março de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / VI — O substituto

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     VI — O substituto

             Quis o acaso que o regimento de que Teodulo era tenente, viesse destacado para Paris, o que deu ocasião a uma segunda ideia da tia Gillenormand.
     Da primeira vez lembrara-lhe mandar espiar Mário por Teodulo; da segunda resolveu fazer suceder Teodulo a Mário.
     No caso em que o avô viesse a sentir uma vaga necessidade de um rosto jovem em casa, pois às ruínas são às vezes agradáveis estes raios de aurora, era necessário tratar de arranjar outro Mário. Seja, disse ela consigo, é uma simples errata, como as que se veem nos livros. Em vez de Mário, lê-se Teodulo.
     Um sobrinho é quase um neto; na falta de um advogado, serve mesmo um lanceiro.
     Um dia de manhã, indo Gillenormand a principiar a ler a Quotidiana, ou coisa semelhante, entrou sua filha e disse-lhe com o tom de voz mais meigo que pôde, pois tratava-se do seu favorito: 

— Meu pai, Teodulo vem hoje apresentar-lhe os seus respeitos. 
— Quem é Teodulo? 
— É o seu sobrinho. 
— Ah! — exclamou o avô.

     E continuou a ler, sem se tornar a lembrar de tal sobrinho, que era para aí um Teodulo qualquer, e não tardou a agastar-se seriamente, o que lhe sucedia todas as vezes que lia. É que «a folha» que ele tinha na mão, realista já se vê anunciava para o outro dia sem reserva nenhuma um dos acontecimentos quotidianos do Paris de então: «Que os estudantes da Faculdade de Direito e de Medicina deviam reunir-se na praça do Panteon ao meio-dia para deliberarem. Tratava-se de uma das questões da ocasião: da artilharia da guarda nacional, e de um conflito entre a guarda nacional e «a milícia cívica», por causa de umas peças assestadas no pátio do Louvre». Os estudantes, pois, deviam deliberar a esse respeito. Não era preciso tanto para exaltar o senhor Gillenormand.
     Lembrou-se de Mário, que era estudante, e que provavelmente iria como os outros «deliberar ao meio-dia na praça do Panteon».
     Quando ele estava nesta cogitação dolorosa, entrou Teodulo, vestido à paisana, discretamente introduzido pela filha de Gillenormand.
     O lanceiro fizera o seguinte cálculo: «O druida não tem tudo em rendas vitalícias. Por isso vale a pena disfarçar-me em paisano de tempos a tempos». 

— Aqui tem seu sobrinho Teodulo — disse a filha de Gillenormand a seu pai em voz alta.

     E acrescentava em voz baixa para o tenente: 

— Aprova tudo.

     E retirou-se.
     O tenente, pouco acostumado a entrevistas tão veneráveis, balbuciou com alguma timidez: 

— Bons dias, meu tio — e fez uma cortesia mista, composta do esboço involuntário e maquinal da continência militar, terminada por uma saudação burguesa. 
— Ah, és tu! Está bem, senta-te — disse o avô.

     Dito isto, esqueceu-se completamente do lanceiro.
     Teodulo sentou-se e Gillenormand levantou-se e pôs-se a passear de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos, falando em voz alta e apertando nos dedos hirtos os dois relógios de algibeira que costumava trazer consigo. 

— Corja de fedelhos! Convocarem-se para a praça do Panteon! Só com uma tranca! Criançalhos que ainda têm os cueiros atrás da porta! Se lhes apertassem o nariz ainda deitavam leite! E vão deliberar amanhã ao meio-dia! A que tempos chegamos! A que tempos chegamos! Está bem de ver que caminhamos para o abismo! Foi para onde nos conduziram os descamisados! Artilharia cívica! Deliberar sobre a artilharia cívica! Irem fazer de meninos bonitos por causa das surriadas da guarda nacional! E com quem eles vão misturar-se! Vejam até onde pode levar o jacobinismo! Aposto tudo quanto quiserem, um milhão contra um real, que não hão de encontrar lá outra gente senão homens que já estiveram presos ou nas galés. Republicanos e forçados é tudo gente da mesma estofa, e por isso se dão perfeitamente. Carnot dizia: «Para onde queres que eu vá, traidor?» E Fouché respondia: «Para onde quiseres, pedaço de asno!» Aí está o que são os republicanos. 
— É exato — disse Teodulo.

     Gillenormand voltou a cabeça um quase nada, viu Teodulo e continuou: 

— Quando me lembro que aquele tratante teve a pouca vergonha de se fazer carbonário! Para que saíste de minha casa? Para te ires fazer republicano. Puh! Primeiro, o povo não quer lá saber da tua república, não quer nada com ela, porque tem juízo, porque sabe que sempre tem havido reis, porque sabe que o povo, afinal de contas, é sempre o povo, e por isso está-se nas tintas para a tua república; ouves, pacóvio! Há maior descaramento? Namoriscar-se do Père Duchêne, fazer fosquinhas à guilhotina, cantar romanzas e tocar guitarra debaixo das janelas de 93, dá mesmo vontade de cuspir na cara a estes rapazelhos, por serem tão pedaços de asnos! E então são-no todos. Não escapa um só. Basta respirar o ar que passa na rua para se tornarem insensatos. O século dezenove é um veneno. Qualquer velhaco que deixe crescer a barba de bode julga-se um tratante de marca e manda tratar das bombas os parentes velhos. É republicano, é romântico. Que vem a ser isto de romântico? Fazem favor de me dizer o que isto é? Todas as tolices possíveis. Há um ano andava tudo à Hernâni. Sabem-me dizer o que vem cá a ser Hernâni! Antíteses! Coisas abomináveis que nem em francês se acham escritas. E ainda por cima ralham de mandarem pôr peças no pátio do Louvre! É para ver como são os salteadores do tempo de agora. 
— Tem razão, meu tio — disse Teodulo.

     Gillenormand continuou: 

— Peças no pátio do Museu! Para quê? Que me queres tu, canhão? Querem metralhar o Apoio de Belveder? Que têm que ver os cartuxos com a Vénus de Medíeis? Oh! Estes rapazes de agora são tudo uma corja de patifes! E esse borra-botas desse Benjamin Constant, que eles trazem nas palminhas? E os que não são celerados são uns patetas. Fazem tudo o que podem para se tornarem feios; andam mal trajados, têm medo das mulheres, quando se juntam com elas têm uns modos de pelintras que fazem estourar de riso as raparigas; palavra de honra que se lhes podia chamar os pobres envergonhados do amor! São disformes e estúpidos. Repetem os equívocos de Tiercelin e de Potier, trazem casacas-sacos, coletes de lacaio, camisas de pano grosseiro, calças de pano grosso, botas grossas, e a ramagem parece-se com a plumagem. Usam de uma algaraviada tão baixa como quem a emprega. E todos estes criançalhos têm opiniões políticas! Para bem, havia de ser severamente punido ter opiniões políticas. Fabricam sistemas, refazem a sociedade, destroem a monarquia, derrubam todas as leis, põem o celeiro no lugar da adega e o meu porteiro no lugar do rei, remexem a Europa toda, reedificam o mundo e têm por grande fortuna ver as pernas às lavadeiras ao subirem para os carros! Ah, Mário, grande maroto! Ir vociferar para o meio de uma praça pública! Discutir, debater, tomar medidas! Eles chamam a isto tomar medidas! Santo nome de Deus! A desordem cada vez se agourenta mais e se torna mais tola! Já vi o caos, agora vejo mas é um esterquilínio. Estudantes a deliberarem sobre a guarda nacional! Isto nem entre os Ogibbewas ou os Cadodachos! Os selvagens que andam completamente nus, com a cabeça enfeitada como um volante de vaqueta e de clava na mão, são menos brutos do que estes bacharéis. Uma súcia de pobretões sem eira nem beira... de onde saem os sábios! E deliberam e raciocinam! Está o mundo a acabar! Somos chegados com toda a certeza ao fim deste miserável globo terráqueo. Faltava um soluço final; dá-o a França. Deliberai, meus tratantes! Isto há de dar-se enquanto eles forem ler os jornais para debaixo das arcadas do Odeon. Custa-lhes tal leitura um soldo, e nela sacrificam o seu bom-senso, a sua inteligência e o seu espírito. Todos os jornais trazem a peste consigo, todos, sem mesmo exceptuar a Bandeira Branca! No fundo, Martainville era um jacobino. Ah, justo céu! Podes-te gabar de que fizeste afligir bem teu avô! 
— Isso é evidente — atalhou Teodulo.

     E, aproveitando a ocasião em que Gillenormand tomava a respiração, o lanceiro acrescentou magistralmente: 

— Para bem, não havia de haver mais jornal nenhum senão o Monitor, e um único livro, o Anuário Militar.

     Gillenormand prosseguiu: 

— É como com o tal seu Sieyèa, um regicida que vem a acabar senador! Pois é onde eles vão bater. Andam para aí a atordoar-se com o tu, cidadão isto, cidadão aquilo, para afinal virem a fazer-se tratar por senhor conde. Senhor conde do que eu agora não digo! O filósofo Sieyès! Bem fiz eu ao menos, que nunca dei mais importância às filosofias de todos estes filósofos do que aos óculos do palhaço de Tivoli! Um dia vi passar os senadores pelo cais Malaquias, de mantos de veludo roxo, semeados de abelhas, e com chapéu à Henrique IV. Metiam medo. Pareciam os macacos da corte do tigre. Cidadãos, declaro-vos que o vosso progresso é uma loucura, a vossa humanidade um devaneio, a vossa revolução um crime, a vossa república um monstro, que a vossa nova França donzela sai do lupanar e assevero-vos a todos, quem quer que sejais, publicistas ou economistas, legistas ou mais conhecedores de liberdade, igualdade e fraternidade do que o gume da guilhotina. É o que lhes digo, meus ricos! 

— Lá isso é assim! — exclamou o tenente. — Não há nada mais verdadeiro.

     Gillenormand interrompeu um gesto que ia a fazer, voltou-se, fitou os olhos nos do lanceiro e disse a Teodulo: 

— És um parvo.

continua na página 525...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - VI — O substituto
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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