segunda-feira, 23 de março de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / V — Pobreza, boa vizinha da miséria

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     V — Pobreza, boa vizinha da miséria

             Mário sentia grande predileção por esse velho cândido, que se via lentamente surpreendido pela indigência, o que lhe causava pouco a pouco um certo espanto sem contudo se entristecer.
     Mário encontrava Courfeyrac e procurava Mabeuf. Isto era contudo raro; sucedia, quando muito, uma ou duas vezes no mês.
     Mário gostava de dar longos passeios solitários pelos boulevards exteriores, ou pelo campo de Marte ou pelas ruas menos frequentadas do Luxemburgo. As vezes passava uma tarde inteira a olhar para uma horta, para os canteiros de cebolas, a ver esgaravatar as galinhas ou um cavalo a mover a roda de uma nora. Os que passavam contemplavam-no maravilhados e alguns achavam-lhe um aspecto suspeito e até sinistro. E ele não era mais do que um mancebo pobre, meditando ao acaso.
     Foi num desses passeios que ele descobriu o casebre Gorbeau, e como o tentasse o isolamento do lugar e o baixo preço da casa, alugou-a, sendo conhecido nela só pelo nome de senhor Mário.
     Alguns dos antigos generais ou dos antigos camaradas de seu pai, depois que souberam quem ele era, convidaram-no a ir visitá-los e Mário não recusava, porque eram ocasiões de falar de seu pai. Deste modo ia de tempos a tempos visitar o conde de Pajol, o general Bellavesne, o general Fririon, que estavam nos Inválidos. Tocava-se, cantava-se, e Mário nessas noites vestia o seu conjunto de casaco e calças dos dias solenes. Porém nunca ia a tais reuniões nem a tais bailes senão quando tudo estava coberto de geada, porque não podia pagar o aluguel de uma carruagem e queria chegar com as botas como espelhos.
     Nas horas de amargura, dizia ele algumas vezes: 

— Os homens são de tal modo organizados, que numa sala poder-se-á estar enlameado em toda a parte, menos nas botas. Numa sala ninguém nos exige, para sermos recebidos, senão uma coisa irrepreensível. Não é a consciência, são as botas.

     Todas as paixões, a não ser as do coração, se dissipam com o hábito da meditação. Foi assim que as febres políticas de Mário se desvaneceram A revolução de 1830 concorrera também para isso, satisfazendo-o e pacificando-o. Ficava o mesmo, menos, porém, quanto às suas iras, porque tinha ainda as mesmas opiniões, apenas algum tanto modificadas. Em rigor, o mancebo não tinha opiniões, tinha simpatias. De que partido era ele? Do partido da humanidade. De entre a humanidade, porém, escolhia a França; de entre a nação, o povo; de entre o povo, a mulher. Era para ela que a sua compaixão tendia principalmente. Atualmente preferia uma ideia a um fato, um poeta a um herói e ainda admirava mais um livro como Job do que um acontecimento como Marengo. Além disto, quando após um dia de meditação, voltava à noite pelos boulevards, e por entre os ramos das árvores divisava o espaço sem fundo, os clarões sem nome, o abismo, a escuridão, o mistério, tudo o que simplesmente é humano lhe parecia bem pequeno.
     Ele supunha ter, e talvez tivesse efetivamente, atingido a realidade da vida e da filosofia humana, chegando por fim a não contemplar senão o céu, única coisa que a verdade pode ver do fundo do seu poço.
     Todavia, isto não obstava a que ele multiplicasse os seus planos, combinações, castelos no ar e projetos de futuro. No estado de abstração em que andava, quem lhe tivesse devassado o que dentro dele se passava ficaria maravilhado da pureza daquela alma.
     Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consciência dos outros, julgaríamos com mais segurança um homem pelo que ele devaneia do que pelo que ele pensa. O pensamento é dominado pela vontade, o devaneio não. O devaneio, que é absolutamente espontâneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso espírito. Não há coisa que mais direta e profundamente saia do fundo da nossa alma do que as nossas aspirações irrefletidas e desmesuradas para esplendores do destino. Nestas aspirações é que se pode descobrir o verdadeiro carácter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras são o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o incógnito e o impossível, conforme a sua natureza.
     Por meados do ano de 1831, a velha que o servia, contou a Mário que iam ser postos na rua os seus mesquinhos vizinhos Jondrette. Mário, que quase era hóspede em casa, mal sabia que tinha vizinhos. 

— Porque os põem na rua? — perguntou ele. 
— Por não pagarem a renda, de que já devem dois meses. 
— E a quanto montam os alugueres vencidos? 
— A vinte francos — respondeu a velha. 
— Pegue lá — disse-lhe o mancebo. — Aí tem vinte e cinco francos. Pague o aluguel dessa pobre gente, dê-lhe os cinco francos e não diga que sou eu.

continua na página 521...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - V — Pobreza, boa vizinha da miséria 
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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