Terceira Parte - Mário
O senhor Mabeuf tinha chegado a produzir peras de semente, tão saborosas como as
de S. Germano; é de uma destas combinações que nasceu, segundo parece, a ameixa
amarela de Outono, tão célebre hoje, e não menos perfumada do que a de Verão. Ouvia
missa mais por doçura de carácter do que por devoção e porque, gostando da presença
dos homens, mas odiando o seu ruído, só na igreja os achava reunidos e silenciosos.Livro Quinto — Excelência do Infortúnio
IV — O senhor Mabeuf
Na ocasião em que o senhor Mabeuf dissera a Mário: — Certamente, aprovo as
opiniões políticas —, exprimia o verdadeiro estado do seu espírito. Todas as opiniões
políticas lhe eram indiferentes e aprovava-as todas sem distinção, para que elas o
deixassem tranquilo, pelo mesmo modo que os gregos chamavam às Fúrias «belas,
bondosas e encantadoras» Euménides.
O senhor Mabeuf tinha por opinião política a apaixonada afeição às plantas, e
sobretudo aos livros. Possuía como toda a gente a sua determinação em ista, sem a qual
ninguém teria podido viver naquele tempo; mas não era nem realista, nem bonapartista,
nem cartista, nem orleanista, nem anarquista; era alfarrabista.
Não compreendia que os homens se ocupassem a odiar-se por causa de ninharias
como a Carta, a democracia, a legitimidade, a monarquia, a república, etc., quando havia
no mundo toda a espécie de musgos, de ervas e de arbustos que eles podiam
contemplar, e montões de in-fólios e até de livros em formato de 32, que podiam
folhear. O senhor Mabeuf tinha o maior cuidado em não ser inútil; ter livros não o
impedia de ler, ser botânico, não o privava de ser jardineiro. Quando conhecera
Pontmercy, o que determinara a simpatia entre eles fora que o coronel faria pelas flores
o que ele fazia pelos frutos.
Conhecendo que era preciso ser alguma coisa, adotara a vida de sacristão. Enquanto
ao mais, nunca conseguira amar tanto uma mulher como uma cebola de túlipa, ou
estimar mais um homem do que os caracteres elzeverianos. Tinha já passado havia
muito tempo os sessenta anos quando um dia lhe perguntaram:
— Nunca se casou?
— Não me lembra — disse ele.
Quando lhe sucedia algumas vezes — a quem não sucede isto? — dizer: «Se eu fosse
rico» Não era nunca mirando uma bonita rapariga, como Gillenormand fazia, mas
quando contemplava um alfarrábio. Vivia só com uma velha governanta. Era um tanto
gotoso nas mãos, e quando dormia, os seus velhos dedos, pela força do reumatismo,
curvavam-se todos nas dobras dos lençóis. Coligira e publicara Uma Flora dos arrabaldes
de Cauferefz com gravuras coloridas, obra assaz estimada, de que ele possuía as chapas,
e que por si mesmo vendia. Todos os dias batiam duas ou três vezes à sua porta, na rua
Mezières, por este motivo. Obtinha assim os seus dois mil francos por ano; o que
resumia toda a sua fortuna. Ainda que pobre, tivera o talento de juntar, à força de
paciência, de privações e de tempo, uma colecção preciosa de exemplares raros em
todos os gêneros. Nunca saía de casa sem levar um livro debaixo do braço, mas voltava
sempre trazendo dois. A única decoração das quatro salas do rés-do-chão que, com um
jardinzinho, compunham a sua habitação, consistia em herbários emoldurados e
gravuras de velhos mestres. A presença de um sabre ou de uma espingarda gelava-o.
Nunca na sua vida se aproximara de uma peça de artilharia, nem mesmo nos Inválidos.
Tinha um estômago sofrível, um irmão cura, os cabelos todos brancos, completa falta de
dentes tanto na boca como no espírito, tremura em todo o corpo, pronunciado acento
picardo, riso infantil, a maior facilidade em se assustar, e o todo de um velho cordeiro.
Para juntar a tudo isto, não tinha outra amizade ou relações entre os vivos, senão um
velho livreiro da porta S. Jacques, chamado Royol. O seu grande sonho era naturalizar o
anil em França.
A sua governanta era também uma das variedades da inocência. A pobre e excelente
velha conservara-se solteira. O seu gato, chamado Sultão, que teria podido miar o
miserere de Allegri na capela Sistina, preenchera-lhe o coração e absorvera-lhe toda a
quantidade de paixão de que era susceptível. Nenhum dos seus sonhos chegara até ao
homem. Não pudera nunca ultrapassar o seu gato; e tinha barbas como ele. Passava o
tempo, ao domingo, depois da missa, a contar a roupa que possuía na sua caixa, e a
estender sobre a cama diferentes cortes de vestido, que comprava e nunca fazia. Sabia
ler. O senhor Mabeuf pusera-lhe o apelido de tia Plufarco.
Mabeuf simpatizava com Mário, porque, sendo moço e de uma índole meiga, lhe
aquecia a velhice sem assustar a timidez. A mocidade com doçura produz nos velhos o
efeito do sol sem vento.
Quando Mário estava saturado de glória militar, de pólvora, de marchas e
contramarchas, e de todas as prodigiosas batalhas em que seu pai dera e recebera tão
grandes cutiladas, e ia visitar Mabeuf, este falava-lhe do herói debaixo do ponto de vista
das flores.
Em 1830 morrera-lhe o irmão, abade, e quase imediatamente, como quando vem
chegando a noite, se lhe toldara o horizonte de cerrada escuridão. Com a falência de
certo banqueiro perdeu uns dez mil francos, que era a quanto subiam todos os seus
haveres e os que herdara de seu irmão. A revolução de Julho produziu uma crise no
comércio de livros. Em tempos críticos a primeira coisa que deixa de se vender é uma
Flora. Por conseguinte, o consumo da Flora dos arredores de Cauferetz cessou de súbito.
Passavam-se semanas sem se vender um só exemplar. Às vezes, Mabeuf estremecia a um
toque de campainha, cuidando que seria algum comprador. A tia Plutarco, porém,
chegava-se a ele e dizia-lhe tristemente: «É o aguadeiro». Em suma, um dia, Mabeuf
deixou a rua de Mezières, abdicou das funções de sacristão, renunciou a S. Sulpício,
vendeu uma parte, não dos seus livros, mas das estampas que era o que menos
apreciava e foi estabelecer-se numa casinha do boulevard Montparnasse, onde, todavia,
morou apenas três meses, por duas razões: a primeira porque o andar térreo e o jardim
custavam trezentos francos, e ele não ousava gastar mais do que duzentos para renda de
casa; a segunda, porque ficava próximo à escola de tiro de Fatou, e por consequência a
cada instante estava a ouvir tiros de pistola, o que se lhe tornava insuportável.
Pegou, pois, na sua Flora, nas chapas, nos seus ervários, carteiras e livros, e foi
estabelecer-se ao pé da Salpêtrière, numa espécie de choupana da aldeia de Austerlitz,
onde, por cinquenta escudos anuais, tinha três salas e um jardim, murado por uma sebe
e com poço. Aproveitou-se desta mudança para vender quase todos os seus móveis. No
dia em que deu entrada na sua nova morada, andou sempre muito alegre e foi ele
próprio que pregou os pregos para as gravuras e ervários, gastando o resto do dia em tirar as ervas ao jardim. A noite, vendo a tia Plutarco com ar triste e modo pensativo,
bateu-lhe no ombro e disse-lhe, sorrindo: «O anil temos nós!»
Só duas pessoas, o livreiro da porta de S. Jacques e Mário, tinham permissão de visitá-lo na sua choupana de Austerlitz, nome bombástico que, a falar a verdade, lhe era
sumamente desagradável.
Como acabamos de indicar, os cérebros absorvidos numa ciência ou numa mania, ou,
o que frequentes vezes se dá, em ambas as coisas juntamente, apenas lentamente se
tornam permeáveis às coisas da vida. Até do próprio destino andam remotos. Resulta,
portanto, destas concentrações numa possibilidade, que, se fosse razoável, pareceria
filosofia. Declina o indivíduo, desce, exaure-se, abate-se, quase sem dar por tal. Acaba
isto sempre, é verdade, por um despertar, porém tardio. No entanto, parece que se
conserva neutro na luta que se trava entre a sua boa e má sorte. É ele o objeto da luta
e olha para ela com indiferença.
Foi assim que por entre a escuridão que se operava em torno de Mabeuf, e
desvanecendo-se todas as suas esperanças uma após outra, ele ficara sereno, algum
tanto pueril, porém profundamente. Os hábitos do seu espírito tinham o movimento
oscilatório de uma pêndula.
Uma vez que uma ilusão lhe desse corda, trabalhava por muito tempo, mesmo depois
de ter acabado a ilusão. Um relógio não para repentinamente na ocasião em que
perdemos a chave dele.
Mabeuf tinha prazeres inocentes. Eram prazeres pouco custosos e inesperados; o
menor acaso os ocasionava.
Um dia, a tia Plutarco lia um romance em voz alta a um canto do quarto, parecendo-lhe que assim compreendia melhor o que lia. Ler em voz alta é afirmar cada um a si
mesmo o que lê. Há pessoas que leem em voz tão alta que parecem estar a asseverar a si
mesmas debaixo de palavra de honra aquilo que leem.
A tia Plutarco lia pois com essa energia o romance que tinha na mão e Mabeuf ouvia
sem a escutar.
No decurso da sua leitura, tratando-se nela de um oficial de dragões e de uma bela,
chegou à seguinte frase:
«...A bela boudha e o dragão...»
Neste ponto interrompeu-se para limpar os óculos.
— Boudha e o Dragão — repetiu Mabeuf a meia voz. — É isso, não há dúvida; houve
um dragão que do fundo do seu antro lançava chamas pela boca, as quais incendiavam o
céu. Já muitas estrelas haviam sido queimadas por este monstro, que de mais a mais tinha garras de tigre. Então Boudha foi ao antro dele e conseguiu converter o dragão. É
um bom livro esse que está a ler, tia Phutarco. Não há lenda mais bonita.
Em seguida embrenhou-se em profunda meditação.
continua na página 519...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - IV — O senhor Mabeuf
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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