quarta-feira, 11 de março de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Este, mantendo o ouvido mais penetrante)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Este, mantendo o ouvido mais penetrante que a vista, lançou à Patroa um olhar logo desviado de míope e de filósofo. Se esses olhos eram menos agudos, os de seu espírito em compensação lançavam sobre as coisas um olhar mais vasto. Via o pouco que se podia esperar das afeições humanas, e resignava-se. Certamente sofria com isso. Ocorre que, mesmo aquele que numa só noite, num meio onde tem o hábito de agradar, adivinha que o acharam ou muito frívolo, ou por demais pedante, ou demasiado canhestro, ou excessivamente atrevido, etc., volta infeliz para casa. Muitas vezes, foi por causa de uma questão de opiniões, sistema, que ele pareceu absurdo ou antiquado aos outros. Muitas vezes sabe perfeitamente que esses outros não se lhe igualam em valor. Pode facilmente dissecar os sofismas de que os outros se valeram para condená-los tacitamente, quer ir fazer uma visita, escrever uma carta: mais prudente, não faz nada, espera o convite da semana seguinte. Por vezes também essa desgraças, em vez de terminarem numa noite, duram meses. Devidas à instabilidade dos julgamentos humanos, aumentam-nas ainda mais. Pois apenas sabe que a Sra. X... o despreza, sentindo que é estimado na casa da Sra. Y.., declara ser esta bem superior e emigra para o seu salão. Aliás, não é aqui o local de pintar esses homens, superiores à vida mundana, mas que não tendo sabido realizar-se fora dela, felizes por serem acolhidos, amargurados quando os desconhecem, descobrindo todos os anos as taras da dona da casa a quem incentivavam, e o gênio da que não tinham apreciado seu devido valor, arriscando-se a retornar a seus primeiros amores quando tiverem sofrido os inconvenientes que igualmente traziam os segundos, e quando os desses primeiros estiverem um tanto esquecidos. Por essas pequenas desgraças pode-se avaliar o desgosto que causava a Brichot aquela que ele sabia definitiva. Não ignorava que a Sra. Verdurin ria às vezes publicamente dele, e até de suas enfermidades, e, sabendo o pouco que se deve esperar das afeições humanas, submetera-se, e nem por isso deixava de considerar a Patroa como sua melhor amiga. Mas, ao rubor que se espalhou pelo rosto do universitário, a Sra. Verdurin compreendeu que ele, ouvira e prometeu a si mesma ser amável com ele durante a noite. Não puder deixar de lhe dizer que ela era muito pouco para com Saniette. 

- Como não sou amável! Mas ele nos adora, o senhor não sabe o que somos para ele! Meu marido fica às vezes um pouco irritado com sua estupidez, e é preciso convir que tem razão, mas, nesses momentos, por que é que ele não reage um pouco mais em vez de assumir esses ares de cão escorraçado? Não é franco. Não gosto disto. O que não impede que eu tente sempre acalmar o meu marido, porque, se ele vai muito longe, Saniette poderia não voltar; e isso eu não desejaria, pois, aqui para nós, ele não tem um só tostão, precisa desses jantares. E depois, afinal, se ele fica melindrado, se não volta mais, não é da minha conta; quando se tem necessidade dos outros que se procure não ser tão idiota. 
- O ducado de Aumale esteve durante muito tempo na nossa família, antes de passar para a Casa da França - explicava o Sr. de Charlus ao Sr. de Cambremer, diante de Morel embasbacado e para quem, a falar a verdade, toda essa dissertação era, se não endereçada, ao menos destinada. - Tínhamos precedência sobre todos os príncipes estrangeiros; poderia dar-lhe cem exemplos. A princesa de Croyl, tendo desejado, no enterro de Monsieur, pôr-se de joelhos junto da minha trisavó, esta lhe observou abertamente que ela não tinha direito ao lajedo, mandou retirá-la pelo oficial de serviço e levou o caso ao rei, que ordenou à Sra. de Croy que pedisse desculpas à Sra. de Guermantes na casa desta. Tendo o duque de Borgonha vindo à nossa casa com os aguazis, a varinha erguida, obtivemos do rei que a mandasse abaixar. Sei que não fica bem falar das virtudes dos seus. Mas é bem conhecido que os nossos sempre estiveram à frente na hora do perigo. Nosso grito de armas, quando deixamos o dos duques de Brabant, foi "Passavant". De modo que esse direito de ser em toda parte os primeiros, que tínhamos reivindicado durante séculos na guerra, é bem legítimo em suma que o tenhamos depois obtido na Corte. E, que diabo, ali sempre nos foi reconhecido. Dar-lhe-ei ainda como prova a princesa de Baden. Como se esquecera do seu posto, chegando até a disputar o lugar a essa mesma duquesa de Guermantes de que lhe falei há pouco, e quisera entrar primeiro no Paço, aproveitando um movimento de hesitação que talvez tivesse tido minha parenta (embora não houvesse razão para tal), o rei exclamou vivamente: "Entre, entre, minha prima; a senhora de Baden sabe muito bem o que lhe deve." E era como duquesa de Guermantes que possuía esse lugar, embora por si mesma tivesse uma origem bastante elevada, visto que era, pelo lado materno, sobrinha da rainha da Polônia, da rainha da Hungria, do Eleitor Palatino, do príncipe de Savóia-Carignan e do príncipe de Hanôver, depois rei da Inglaterra. 
- Maecenas atavus edite regibus!" - [Citação de Horácio (Odes, livro I, 1, primeiro verso): "Mecenas, descendente de régios ancestrais." Mecenas era o protetor de Virgílio e Horácio, e seu nome se tornou sinônimo de protetor das artes. (N. do T)] - disse o Sr. de Brichot, dirigindo-se ao Sr. de Charlus, que respondeu com uma leve inclinação de cabeça a essa cortesia. 
- Que está dizendo? - perguntou a Sra. Verdurin a Brichot, a quem desejaria reparar as palavras ditas pouco antes. 
- Eu falava, Deus me perdoe, de um dândi que era a flor da sociedade (a Sra. Verdurin franziu as sobrancelhas) lá pelo século de Augusto (a Sra. Verdurin, tranqüilizada pela distância dessa sociedade, assumiu uma expressão mais serena), de um amigo de Virgílio e Horácio, os quais levavam a adulação ao ponto de dizer-lhe na cara as suas ascendências mais que aristocráticas, régias; numa palavra, referia-me a Mecenas, um rato de biblioteca que era amigo de Horácio, de Virgílio e de Augusto. Estou certo de que o Sr. de Charlus sabe muito bem, sob todos os aspectos, quem foi Mecenas. -

     Olhando graciosamente de esguedelha para a Sra. Verdurin, porque a ouvira convidar Morel daí a dois dias, e receando não ser convidado, o Sr. de Charlus disse:

- Creio que Mecenas era algo como o Verdurin da Antigüidade. -

     A Sra. Verdurin só pôde reprimir a meio um sorriso de satisfação. Dirigiu-se a Morel: 

- É muito agradável o amigo de seus pais - disse. - Vê-se que é um homem instruído, bem educado. Fará boa figura no nosso pequeno núcleo. Onde mora ele em Paris?

     Morel guardou um silêncio altivo e pediu somente para jogar uma partida de cartas. A Sra. Verdurin exigiu primeiro um pouco de violino. Para espanto geral, o Sr. de Charlus, que jamais falava de seus grandes dons, acompanhou no mais puro estilo o último trecho (inquieto, atormentado, schumanesco, mas enfim anterior à sonata de Franck) da sonata para piano e violino de Fauré. Senti que ele daria a Morel, maravilhosamente dotado para o som e o virtuosismo, precisamente o que lhe faltava, a cultura e o estilo. Mas pensei com curiosidade naquilo que une, num mesmo homem, uma tara física e um dom do espírito. O Sr. de Charlus não era muito diferente do irmão, o duque de Guermantes. Ainda há pouco (e isso era raro), falara num francês tão ruim como o deste. Censurando-me (sem dúvida para que eu falasse em termos elogiosos de Morel à Sra. Verdurin) por jamais ir visitá-lo, e invocando minha discrição, dissera me: 

- Mas já que sou eu quem lhe pede, só eu é que poderia formalizar-me. -

     Isto poderia ser dito pelo duque de Guermantes. Em resumo, o Sr. de Charlus não passava de um Guermantes. Mas bastara que a natureza desequilibrasse suficientemente nele o sistema nervoso para que, em vez de uma mulher, como o teria feito seu irmão, ele preferisse um pastor de Virgílio ou um aluno de Platão; e logo as qualidades desconhecidas do duque de Guermantes e freqüentemente ligadas a esse desequilíbrio tinham feito do Sr. de Charlus um delicioso pianista, um pintor amador que possuía um certo gosto, um conversador eloqüente. O estilo rápido, ansioso, encantador, com que o Sr. de Charlus executava o trecho schumanesco da sonata de Fauré quem poderia discernir que esse estilo tinha o seu correspondente (não me atrevo a dizer a sua causa) nas características inteiramente físicas, nas imperfeições nervosas do Sr. de Charlus? Mais tarde explicaremos esta expressão - "imperfeição nervosa" e por quais motivos um grego dos tempos de Sócrates e um romano dos tempos de Augusto podiam ser o que se sabe enquanto permaneciam homens absolutamente normais, e não homens-fêmeas como os vemos atualmente. Assim como reais inclinações artísticas, não chegadas a termo, o Sr. de Charlus tinha, bem mais que o duque, amado sua mãe, amado a esposa, e até anos depois, quando lhe falavam nelas, brotavam-lhe lágrimas, porém superficiais, como a transpiração de um homem muito gordo, cuja testa por um nada se umedece de suor. Com a diferença de que a este se diz: "Como o senhor está com calor!" enquanto se finge não ver o choro dos outros. Finge-se, isto é, finge-o a sociedade; pois o povo se inquieta de ver chorar, como se um soluço fosse mais grave que uma hemorragia. A tristeza que se seguiu à morte da esposa, graças ao hábito de mentir, não excluía no Sr. de Charlus uma vida que não lhe era adequada. Ainda mais tarde, ele teve a ignomínia de dar a entender que, durante a cerimônia fúnebre, achara um meio de pedir o nome e o endereço ao menino do coro. E talvez fosse verdade. Findo o trecho musical, permiti-me reclamar Franck, o que pareceu causar tanto sofrimento à Sra. de Cambremer que não insisti. 

- O senhor não pode gostar disso - disse-me ela. Em seu lugar, pediu as festas de Debussy, o que fez gritarem: 
- Ah, é sublime! desde a primeira nota.

     Porém Morel percebeu que só conheciam os primeiros compassos e, por brincadeira, sem qualquer intenção de mistificar, principiou uma marcha de Meyerbeer. Infelizmente, como fez poucas transições e não avisou nada, todo mundo acreditou que ainda se tratava de Debussy, e continuaram a exclamar "Sublime!" Morel, revelando que o autor não era o de Pelléas, mas o de Roberto o Diabo, causou certa frieza. A Sra. de Cambremer não teve tempo de o sentir por si mesma, pois acabava de descobrir um caderno de Scarlatti e se lançara sobre ele num ímpeto de histérica. 

- Oh, toque isto, tome, este aqui, é divino! - gritava.

     No entanto, desse autor por tanto tempo desprezado, e erguido há pouco às mais altas honrarias, o que ela escolhia em sua impaciência febril era um desses trechos malditos que muitas vezes nos impediram de dormir, e que uma aluna desapiedada recomeça indefinidamente no andar vizinho ao nosso. Mas Morel estava farto de música, e, como fazia questão de jogar cartas, o Sr. de Charlus, para participar da partida, desejaria um uíste. 

- Há pouco, ele disse ao Patrão que era príncipe - disse Ski à Sra. Verdurin -, mas isto não é verdade; ele pertence a uma simples família burguesa de pequenos arquitetos. 
- Quero saber o que o senhor dizia de Mecenas. Isto me diverte, e muito! - repetiu a Sra. Verdurin a Brichot, com uma amabilidade que o deixou exaltado. Assim, para brilhar aos olhos da Patroa e talvez aos meus: 
- Mas, para falar a verdade, senhora, Mecenas me interessa principalmente por ter sido o primeiro apóstolo marcante desse Deus chinês que hoje conta na França mais seguidores do que Brama, que o próprio Cristo, o todo-poderoso Deus Que-Mim-Porta. -

     A Sra. Verdurin já não se contentava, nesses casos, em mergulhar a cabeça nas mãos. Abatia-se com o ímpeto dos insetos chamados efêmeros sobre a princesa Sherbatoff; se esta estivesse a pouca distância, a Patroa se agarrava à axila da princesa, fincava-lhe as unhas e, por alguns instantes, ocultava a cabeça como uma criança que brinca de esconde-esconde. Dissimulada por esse anteparo protetor, podia ela pretender que ria até as lágrimas e também podia perfeitamente não pensar, em nada, como as pessoas que, enquanto fazem uma oração um tanto longo, têm a sábia precaução de esconder o rosto nas mãos. A Sra. Verdurin imitava ao ouvir os quartetos de Beethoven, a um tempo para mostrar que os considerava como uma oração, e para que não vissem que dormia. 

- Falo com toda a seriedade, senhora - disse Brichot. - Acho que hoje é demasiado grande o número de pessoas que passam o tempo todo considerando que seu umbigo é o centro do mundo. Em boa doutrina, não tenho coisa alguma a objetar e não sei qual nirvana que tende a nos dissolver no grande Todo (o qual, como Munique e Oxford, está muito mais perto de Paris do que Asnieres ou Bois-Colombes), mas não é nem de um bom francês, nem mesmo de um bom europeu, quando os japoneses estão talvez às portas da nossa Bizâncio, que antimilitaristas socializados discutam gravemente acerca das virtudes cardeais do verso livre. -

     A Sra. Verdurin julgou que podia largar a espádua machucada da princesa e deixou reaparecer seu rosto, não sem fingir que enxugava os olhos e recuperar o fôlego duas ou três vezes. Mas Brichot queria que eu tivesse a minha parte no festim, e, tendo aprendido, nas sustentações de teses a que presidia como ninguém, que nunca se lisonjeia tanto a juventude como repreendendo-a, dando-lhe importância, fazendo-se tratar por ela de reacionário: 

- Eu não gostaria de blasfemar contra os deuses da juventude - disse ele, lançando-me esse olhar furtivo que um orador dirige às escondidas a alguém presente no auditório, e de quem cita o nome. - Não gostaria de ser condenado como herético e relapso na capela mallarmaica, onde o nosso novo amigo, como todos de sua idade, deve ter ajudado a missa esotérica, ao menos como menino de coro, e ter se mostrado deliquescente ou rosa-cruz. Mas, na verdade, já vimos muitos desses intelectuais adorando a Arte com um A maiúsculo e que, quando já não lhes basta embriagarem-se com Zola, tomam injeções de Verlaine. Tornando-se eterômanos por devoção baudelairiana, não mais seriam capazes do esforço viril que a pátria pode lhes pedir um dia ou outro, anestesiados que estão pela grande nevrose literária na atmosfera quente, enervante, pesada de odores malsãos, de um simbolismo de casa de ópio. -

["Rosa-cruz" aqui, trata-se não do grupo de iluminados alemães do século XVII, mas de um movimento estético e intelectual de escritores e artistas do final do século XIX. (N. do T)]

     Incapaz de fingir a menor sombra de admiração pela tirada inepta e diversificada de Brichot, voltei-me para Ski e lhe garanti que se equivocava inteiramente sobre a família a que pertencia o Sr. de Charlus; respondeu-me que estava seguro do que afirmara e acrescentou que eu até lhe dissera que o verdadeiro nome dele era Gandin, Le Gandin. 

- Eu lhe disse - respondi - que a Sra. de Cambremer era irmã de um engenheiro, Sr. Legrandin. Nunca lhe falei do Sr. de Charlus. Há tanta relação de nascimento entre ele e a Sra. de Cambremer, como entre os Grande Condé e Racine. 
- Ah, eu pensava - disse Ski descuidadamente, sem se desculpar pelo seu erro, como não se desculpara pelo que, algumas horas antes, quase nos fizera perder o trem. 
- Pretende o senhor ficar muito tempo no litoral? - perguntou a Sra. Verdurin ao Sr. de Charlus, em quem pressentia um fiel, tremendo à idéia de que ele voltasse logo para Paris. 
- Meu Deus, a gente nunca sabe - respondeu o Sr. de Charlus num tom arrastado e fanhoso. - Gostaria de ficar até fins de setembro. 
- O senhor tem razão - disse a Sra. Verdurin; - é a ocasião das belas tempestades. 
- Para falar a verdade, não seria isso o que me decidiria a permanecer. Faz algum tempo que tenho negligenciado demais o arcanjo São Miguel, meu padroeiro, e gostaria de compensá-lo ficando até o dia de sua festa, a 29 de setembro, na abadia do Mont. 
- Essas coisas lhe interessam muito? - indagou a Sra. Verdurin, que talvez conseguisse calar o seu anticlericalismo ferido, caso não temesse que uma tão longa excursão fizesse o violinista e o barão "largarem" por 48 horas. 
- Talvez a senhora esteja atacada de surdez intermitente - disse o Sr. de Charlus com insolência. - Eu lhe disse que São Miguel era um de meus gloriosos padroeiros. - Depois, sorrindo num êxtase benévolo, os olhos fixos na distância, a voz erguida numa exaltação que me pareceu mais do que estética, conquanto religiosa: - É tão belo, no ofertório, quando Miguel se mantém de pé junto do altar, de manto branco, balançando um turíbulo de ouro, e com tal quantidade de perfumes que o odor sobe até Deus! 
- A gente poderia ir até lá em bando - sugeriu a Sra. Verdurin, apesar de seu horror ao clero. 
- Nesse momento, desde o ofertório - prosseguiu o Sr. de Charlus, que, por outros motivos, mas da mesma maneira que os bons oradores da Câmara, jamais respondia a uma interrupção e fingia não a ter ouvido-, seria um deslumbramento ver o nosso amigo palestrinizando e executando até uma ária de Bach. Ficaria louco de júbilo, e o bom abade também; e seria a maior homenagem, ao menos a maior homenagem pública, que eu poderia fazer ao meu santo padroeiro. Que exemplo edificante para os fiéis! Logo falaremos sobre isso ao jovem Angélico musical, militar como São Miguel.

     Saniette, chamado para fazer o papel de morto, declarou que não sabia jogar uíste. E Cottard, vendo que não havia mais tempo antes da hora do trem, pôs-se logo a começar uma partida de écarfé com Morel. O Sr. Verdurin, furioso, caminhou com ar terrível para Saniette: 

- Você não sabe jogar nada! - gritou, danado por ter perdido uma oportunidade de jogar uíste e encantado por ter encontrado um modo de injuriar o antigo arrivista. Este, aterrorizado, resolveu ser espirituoso: 
- Sim, sei tocar piadas - disse. Cottard e Morel estavam sentados frente a frente. - Ao senhor que honra - disse Cottard. 
- E se nos aproximássemos um pouco da mesa de jogo? - sugeriu ao Sr. de Cambremer.

     O Sr. de Charlus, inquieto por ver-se violinista na companhia de Cottard. 

- É tão interessante como essas questões de etiqueta, que já não significam grande coisa no nosso tempo, os únicos reis que nos restam, pelo menos na França, são os reis do baralbê, e me parece que eles vêm a rodo às mãos do jovem virtuoso - acrescentou a seguir, com uma admiração por Morel que se estendia até a sua maneira de jogar, igualmente para lisonjeá-lo e, por fim, para explicar o movimento que fazia debruçando-se sobre o ombro do violinista. 
- Eu corto! - disse Cottard, imitando o sotaque rastaqüera; seus filhos riram às gargalhadas, como faziam seus alunos e o chefe da clínica, quando o Mestre, mesmo à cabeceira de um doente em estado grave, lançava, com a máscara impassível do epiléptico, uma de suas facécias de costume. 
- Não sei beth o que devo jogar - disse Morel, consultando o Sr. de Cambremer. 
- Quanto quiser; de qualquer modo será derrotado, desse jeito ou de outro, será igual, - Igual... Galli-Marié? - comentou o doutor, escorregando para o Sr. de Cambremer um olhar insinuante e benévolo. 
- Era o que chamávamos a verdadeira diva, era o sonho, uma Cármen como nunca mais se verá. Era,a mulher para o papel. Gostava também de ouvir Ingalli-Marié.

[Trocadilho com o nome de duas cantoras: Marie Célestino Laurence Galli-Marié (1840-1905), famosa criadora da Cármen na ópera de Bizet, e Speranza Engally a partir da palavra égal, igual. (N. do T)] 

     O marquês se ergueu com essa vulgaridade desdenhosa das pessoas bem-nascidas que não compreendem que insultam o dono da casa parecendo não estar certo de poder frequentar os seus convidados e que se desculpam como hábito inglês para empregar uma expressão depreciativa: 

- Quem é este senhor que está jogando cartas? Que faz na vida? O que é que ele vende? Gosto muito de saber com quem me encontro, para não me ligar com qualquer um. Ora, não ouvi o seu nome quando o senhor deu-me a honra de me apresentar a ele. -

     Se o Sr. Verdurin, autorizando-se com estas últimas palavras, tivesse de fato apresentado aos convidados o Sr. de Cambremer, este o levaria a mal. Mas sabendo que o contrário é que ocorrera, achava gracioso parecer bom moço e modesto sem perigo. O orgulho que tinha o Sr. Verdurin de sua intimidade com Cottard só fez aumentar desde que o doutor se tornara um professor ilustre. Porém, já não se exprimia sob a forma ingênua de outrora. Então, quando Cottard mal era conhecido, se falavam ao Sr. Verdurin das nevralgias faciais de sua esposa: 

- Não há nada a fazer - dizia ele, com o ingênuo amor-próprio das pessoas que acham ilustre o que lhes diz respeito, e que todos conhecem o professor de canto da sua filha. - Se ela tivesse um médico de segunda categoria, a gente poderia tentar outro tratamento, mas, quando este médico se chama Cottard (nome que ele pronunciava como se fosse Bouchard ou Charcot), o remédio é aguentar firme. -

     Utilizando um procedimento inverso, sabendo que o Sr. de Cambremer certamente já ouvira falar no famoso professor Cottard, o Sr. Verdurin assumiu um ar simplório. 

- É o nosso médico de família, um grande coração, que nós adoramos e que se faria esquartejar por nós; não é um médico, é um amigo; não creio que o senhor o conheça nem que o seu nome lhe diga alguma coisa; em todo caso, para nós é o nome de um bom homem, de um caríssimo amigo, Cottard. -

     Este nome, murmurado com ar modesto, enganou o Sr. de Cambremer, que julgou tratar se de outra pessoa. 

- Cottard? O senhor não está falando do professor Cottard? -

     Ouviu-se precisamente a voz do dito professor que, atrapalhado com uma jogada, dizia, segurando as cartas: 

- Foi aqui que os atenienses se aterraram. 
 Ah, sim, justamente, ele é professor - disse o Sr. Verdurin. 
- O quê! O professor Cottard! O senhor não está enganado? Tem certeza de que se trata do mesmo? O que mora na rua de Bac! 
- Sim, ele mora na rua de Bac, 43. O senhor o conhece? 
- Mas todo mundo conhece o professor Cottard. É uma sumidade! É como se o senhor me perguntasse se eu conhecia Bouffe de Saint-Blaise ou Courtois-Suffit. Bem que eu havia reparado, ao ouvi-lo falar, que não era um homem comum e foi por isso que me permiti perguntar lhe. 
- Vamos, o que é preciso ajuntar? Trunfo? - perguntava Cottard.

     Depois, bruscamente, com uma vulgaridade que teria sido irritante mesmo numa circunstância heróica, em que um soldado quer emprestar uma expressão familiar ao desprezo pela morte, mas que se tornava duplamente estúpido no passatempo sem perigo das cartas, Cottard, decidindo-se a jogar trunfo, tomou um aspecto sombrio, "cabeça tonta", e, por alusão aos que arriscam a pele, jogou sua carta como se fosse a sua vida, gritando: 

- Afinal de contas, dane-se! - 

     Não era o que precisava jogar, mas teve um consolo. No meio do salão, numa larga poltrona, a Sra. Cottard, cedendo ao efeito, irresistível nela, da digestão, depois de vãos esforços, havia cedido ao sono vasto e leve que dela se apoderava. Por mais que se endireitasse às vezes para sorrir, seja por zombaria dela própria, seja com receio de deixar sem resposta alguma palavra amável que lhe dirigissem, sem querer recaía no mal delicioso e implacável. Mais que o ruído, o que a despertava assim por um segundo apenas era o olhar (que, por ternura, ela via mesmo de olhos fechados, e previa, pois a mesma cena se verificava todas as noites e obcecava o seu sono, como a hora em que é preciso que nos levantemos), o olhar pelo qual o professor assinalava o sono da esposa às pessoas presentes. Para começar, contentava-se em olhá-la e sorrir, pois, se como médico censurava esse sono após o jantar (pelo menos, dava essa razão científica para se zangar no fim, mas não é certo que ela fosse determinante, tal a variedade de pontos de vista que possuía a respeito), como marido todo-poderoso e zombeteiro ficava encantado em troçar da mulher, de a princípio só a despertar pela metade, a fim de que ela voltasse a adormecer e ele tivesse o prazer de despertá-la novamente. Agora, a Sra. Cottard dormia a sono solto. 

- Ora, ora, Léontine, estás pescando? - gritou-lhe o professor. 
- Estou escutando o que diz a Sra. Swann, meu caro - respondeu debilmente a Sra. Cottard, que recaiu; na sua letargia. 
- É loucura! - exclamou Cottard; - daqui a pouco vai garantir que não dormiu. É como os pacientes que vão a uma consulta e afirmam que nunca dormem.
- Talvez o imaginem - disse rindo a Sra. de Cambremer.

continua na página 160...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Este, mantendo o ouvido mais penetrante)
Volume 6
Volume 7

Nenhum comentário:

Postar um comentário