quarta-feira, 18 de março de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Mas o doutor gostava tanto de contradizer como de troçar)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Mas o doutor gostava tanto de contradizer como de troçar e, principalmente não admitia que um profano lhe fosse falar de medicina. 

- Ninguém imagina que não dorme - decretou em tom dogmático. 
- Ah, - respondeu o marquês, inclinando-se respeitosamente como o teria feito Cottard outrora. 
- Bem se vê - prosseguiu Cottard que o senhor não administrou, como eu, até dois gramas de trional sem chegar a provocar sonolência. 
- É verdade, é verdade - respondeu o marquês, rindo com ar de presumido - nunca tomei trional, nem nenhuma dessas drogas que logo não fazem mais efeito, mas desarranjam o estômago. Quando se caça a noite inteira, como eu na floresta de Chantepie, asseguro-lhe que não é necessário trional para poder dormir. 
- São os ignorantes que dizem isso - respondeu o professor. - O trional recupera às vezes de modo notável o tônus nervoso. O senhor fala do trional, mas sabe ao menos o que é? 
- Mas...Já ouvi dizer que é um medicamento para dormir. 
- O senhor não respondeu à minha pergunta - replicou doutoralmente o professor, que, três vezes por semana, estava "de exame" na Faculdade. - Não lhe pergunto se faz ou não dormir, mas de que se trata. Pode me dizer o que contém em partes de amila e etila? 
- Não - respondeu o Sr. de Cambremer, embaraçado. 
- Prefiro um bom cálice de aguardente fina ou até vinho do Porto 345. 
- Que são dez vezes mais tóxicos - interrompeu o professor. 
- Quanto ao trional - animou-se o Sr. de Cambremer -, minha mulher usa todas essas coisas; seria melhor que o senhor falasse com ela. 
- Que deve saber mais ou menos tanto quanto o senhor. Em todo caso, se a sua mulher toma trional para dormir, o senhor está vendo que a minha não precisa disso. - Vamos, Léontine, mexe-te, vais ficar anquilosada; por acaso eu durmo depois do jantar? Que vai ser de ti aos sessenta, se hoje dormes como uma velha? Vais engordar, paralisas a circulação... Ela nem sequer me ouve mais. - Fazem mal à saúde esses cochilos após o jantar, não é, doutor? - disse o Sr. de Cambremer para reabilitar-se junto a Cottard. - Depois de comer bastante, seria preciso fazer exercício. 
- Histórias! -respondeu o doutor. - Examinou-se igual quantidade de alimento do estômago de um cão que permanecera em repouso, e no estômago de um cão que havia corrido, e ficou no primeiro que a digestão estava mais adiantada. 
- Então é o sono que interrompe a digestão? 
- Isto depende se se trata de uma digestão esofágica, estomacal ou intestinal; é inútil lhe dar explicações que o senhor não compreenderia, visto que não fez estudos de medicina. Vamos, Léontine, de pé! Está na hora de partir. -

     Não era verdade, pois o doutor apenas ia continuar seu jogo de cartas, mas assim ele esperava contrariar, da maneira mais brusca, o sono da mulher a quem dirigia as mais sábias exortações, sem obter resposta. Ou porque uma vontade de dormir persistia na Sra. Cottard, mesmo em estado de sono, ou porque a poltrona não desse apoio à sua cabeça, esta última foi lançada mecanicamente da esquerda para a direita, e de baixo para cima, no vácuo, como um objeto inerte, e a Sra. Cottard, de cabeça oscilante, ora tinha o ar de quem ouvia música, ora parecia entrar na última fase da agonia. Lá onde fracassavam as admoestações cada vez mais veementes do marido, o sentimento da própria idiotice venceu: 

- O banho está bom de temperatura - murmurou ela -, mas as plumas do dicionário... - exclamou, endireitando-se. - Oh, meu Deus, como sou tola! Que estou dizendo? Estava pensando no meu chapéu, devo ter dito alguma asneira, um pouco mais e eu ia adormecer; é esse maldito fogo. -

     Todo mundo se pôs a rir, pois não havia nenhum fogo aceso. 

- Estão zombando de mim - disse a Sra. Cottard, rindo ela própria. Mão na testa, ela apagou, com a leveza do magnetizador e uma habilidade de mulher que arruma o penteado, os últimos vestígios do sono; desejo apresentar minhas humildes escusas à querida Sra. Verdurin e dela saber a verdade. -

     Mas seu sorriso tornou-se logo triste, pois o professor, sabendo que a mulher buscava agradá-lo e temia não o conseguir, acabava de gritar-lhe: 

- Olha-te no espelho, estás vermelha como se tivesses uma erupção de acne, pareces uma velha camponesa. 
- Sabem, ele é encantador - disse a Sra. Verdurin; - tem um bonito lado de bonomia, malícia. E depois, trouxe meu marido das portas do túmulo quando toda a Faculdade já o dava por perdido. Passou três noites junto dele, sem ir deitar-se. Assim, Cottard, para mim, já sabem acrescentou num tom grave e quase ameaçador, erguendo a mão para as duas esferas de mechas brancas suas têmporas musicais, e como se quiséssemos tocar no doutor: - é agrado! Poderia pedir tudo o que quisesse. Aliás, não o chamo de doutor Cottard, chamo-o de doutor Deus! E, mesmo dizendo isto, calunio-o, por este Deus repara, na medida do possível, uma parte das desgraças o outro é responsável. 
- Jogue trunfo - disse a Morel o Sr. de Charlus com ar feliz. 
- Trunfo, para ver - disse o violinista. 
- Seria preciso anunciar primeiro o rei - volveu o Sr. de Charlus -, o senhor está distraído, mas como joga bem! 
- Tenho o rei - disse Morel. 
- É um belo homem - respondeu o professor. 
- Que negócio é este com essas estacas? - indagou a Sra. Verdurin, mostrando ao Sr. de Cambremer um soberbo escudo esculpido acima da lareira. 
- São suas armas? - acrescentou com desdém irônico. 
- Não, não são as nossas - respondeu o Sr. de Cambremer. - Nós usamos escudo de ouro com três faixas ameadas contra-ameadas de goles, com cinco peças, cada uma carregada de um relevo de ouro. Não, essas aí pertencem aos d'Arrachepel, que não eram da nossa linhagem, mas de quem herdamos a casa; e nunca os de nossa linhagem quiseram mudar aqui fosse o que fosse. Os Arrachepel (antigamente Pervilain, dizem) usavam escudo de ouro com cinco estacas pontiagudas de goles. Quando se aliaram aos Féterne, o seu escudo mudou, porém permaneceu, cantonada de vinte cruzetas recruzetadas, a estaca diminuída; fincada, de ouro, acompanhada à destra de um voo de arminho. - Pegue essa - disse baixinho a Sra. de Cambremer. - Minha bisavó era um d'Arrachepel, ou de Rachepel se preferir, pois os dois nomes são encontrados nas velhas cartas - continuou o Sr. de Cambremer, que enrubescia vivamente, pois só então lhe ocorrera a idéia de que sua mulher lhe tinha horror e receou que a Sra. Verdurin aplicasse a si mesma palavras que de modo algum a visavam. - A História pretende que, no século XI, o primeiro Arrachepel, Macé, dito Pelvilain, tenha demonstrado especial habilidade nos cercos para arrancar estacas. De onde o cognome de Arrachepel, com o qual foi nobilitado, e os bastiões que a gente vê persistir em suas armas através dos séculos. Trata-se dos bastiões que, para tornar mais inabordáveis as fortificações, plantavam, fincavam em terra permita-me a expressão diante delas, e que eram ligados entre si. São os que a senhora muito chamava de estacas e que não tinham nada dos bastões flutuantes do La Fontaine. Pois tinham fama de tornar uma praça inexpugnável. Evidentemente, com a artilharia moderna isto faz sorrir. Mas é preciso lembrar que se trata do século XI. 
[Alusão à fábula "Os camelos e os bastões flutuantes”-N.doT.] 
- Falta-lhe atualidade - disse a Sra. Verdurin. - 
- Mas a pequena campânula tem caráter. A senhora tem - disse Cottard uma veia de... turlututu [palavra que seguidamente empregava para evitar o termo de Moliere.] 
[A Palavra de Moliére é cocu ("cornudo"). Turtututu, como interjeição, significa "caluda!", indicando suspensão do que se diria. (N. do T)] 
- Sabem por que foi reformado o rei de ouros?- perguntou Cottard. 
- Bem que eu desejaria estar em seu posto - disse Morel, a quem entediava o serviço militar. 
- Ah! O mau patriota - exclamou o Sr. de Charlus, que não pôde conter-se de beliscar a orelha do violinista. 
- Não, não sabem por que o rei de ouros foi reformado? - repetiu Cottard, que insistia em seus gracejos. - É porque só tem um olho. 
- O senhor tem um parceiro forte, doutor - disse o Sr. de Cambremer, para mostrar a Cottard que sabia quem ele era. 
- Este rapaz é espantoso - interrompeu ingenuamente o Sr. de Charlus, assinalando Morel. - Joga como um deus. -

     Esta reflexão não agradou muito ao doutor, que respondeu: 

- Quem viver verá. Para espertalhão, espertalhão e meio. 
- A dama, o ás - anunciou triunfalmente Morel, a quem a sorte favorecia.   

     O doutor curvou a cabeça como não pudesse negar essa boa sorte e confessou, fascinado: 

- É belo. 
- Ficamos muito contentes em jantar com o Sr. de Charlus - disse a Sra. de Cambremer à Sra. Verdurin. 
- Não o conheciam? É extremamente agradável, é especial, é de uma época (teria ficado muito embaraçado para dizer qual) - respondeu a Sra. Verdurin com o sorriso satisfeito de uma diletante, de um juiz e de uma dona-de-casa.

     A Sra. de Cambremer perguntou-me se eu iria a Féterne com Saint-Loup. Não pude deixar de soltar um grito de admiração ao ver a lua suspensa, como um lampião alaranjado, à abóbada dos carvalhos que partia do castelo. 

- Isso ainda não é nada; daqui a pouco, quando a lua estiver mais alta e o vale ficar iluminado, será mil vezes mais lindo. Eis o que não têm em Féterne! - disse a Sra. Verdurin em tom desdenhoso à Sra. de Cambremer, a qual não sabia o que responder, não querendo depreciar a sua propriedade, sobretudo diante dos locatários. 
- A senhora ainda fica por algum tempo na região? - Perguntou o Sr. de Cambremer à Sra. Cottard, o que podia passar por uma vaga intenção de convidá-la e que dispensava por ora encontros mais precisos. 
- Oh, certamente, senhor, faço muita questão desse êxodo anual por causa das crianças. Digam o que disserem, elas têm necessidade de ar livre. Talvez eu seja muito primitiva nisso, mas creio que curativo algum vale mais, para as crianças, que o ar livre, ainda que me provem o contrário por A mais B. Seus rostinhos já estão mudados. A Faculdade queria mandar-me para Vichy; mas lá é sufocante demais e eu cuidarei do meu estômago quando os rapazes já estiverem bem grandes. E depois, o professor, com os exames, tem sempre muito trabalho, e os calores o cansam muito. Acho que uma pessoa tem necessidade de repouso total quando esteve o ano inteiro muito atarefada. De qualquer maneira, ficaremos ainda um bom mês. 
-Ah, então nos veremos de novo. 
- Aliás, eu tanto mais sou obrigada a ficar porque meu marido deve ir dar uma volta pela Savóia, e só dentro de uma quinzena é que vai fixar-se aqui. Prefiro o lado do vale ao do mar prosseguiu a Sra. Verdurin. 
- Vão ter um tempo esplêndido na volta. - Era preciso mesmo ver se os carros estão prontos, para o caso que o senhor faça absolutamente questão de regressar esta noite a Balbec disse-me o Sr. Verdurin -, pois não vejo necessidade disso. Nós o mandaríamos levar de carro amanhã de manhã. Certamente vai fazer um dia lindo. As estradas estão admiráveis. -

     Eu disse que era impossível. 

- Mas, em todo caso, ainda não é hora - objetou a Patroa. - Deixe-os sossegados, têm tempo de sobra. Nada adiantará chegar uma hora antes na estação. Estão melhor aqui. E você, meu pequeno Mozart - disse ela a Morel, não ousando dirigir-se diretamente a Charlus - não quer ficar? Temos belos quartos que dão para o mar. 
- Mas ele não pode - respondeu o Sr. de Charlus pelo jogador que, absorvido, não ouvira. - Só tem licença até meia-noite. Precisa voltar para dormir, como um menino muito obediente e bem comportado - acrescentou em tom complacente, amaneirado, insistente, feito sentisse uma sádica volúpia em empregar essa casta comparação e igualmente em apoiar de passagem a sua voz sobre o que se referisse a Morel, em tocá-lo, na falta de mão, com palavras que pareciam apalpá-lo.

     Pelo sermão que me dirigira Brichot, o Sr. de Cambremer concluíra que eu era dreyfusista. Como fosse tão antidreyfusista quanto possível, por cortesia para com um inimigo, pôs-se a fazer o elogio de um coronel judeu que sempre fora muito correto com um primo dos Chevreny e lhe conseguira a promoção que ele merecia. 

- E meu primo tinha ideias absolutamente contrárias - disse o Sr. de Cambremer, deixando no vago o que seriam essas ideias, mas que eu senti serem tão antigas e malformadas como o seu rosto, ideias que algumas famílias de certas cidadezinhas deveriam ter há muito tempo. - Pois bem, o senhor sabe, acho isso muito bonito. - concluiu o Sr. de Cambremer.

     É verdade que ele não empregava "bonito" no sentido estético em que designaria para sua mãe ou sua mulher, obras diversas, mas obras de arte. O Sr. de Cambremer servia-se antes desse qualificativo para felicitar, por exemplo, uma pessoa de saúde frágil que houvesse engordado um pouco. 

- Como, recuperou três quilos em dois meses? Fique sabendo que isto é bonito! -

     Estavam servidos refrescos numa mesa. A Sra. Verdurin convidou os senhores para irem escolher pessoalmente a bebida que lhes agradasse. O Sr. de Charlus foi beber o seu copo e voltou rapidamente a sentar-se perto da mesa de jogo e não se moveu mais dali. A Sra. Verdurin lhe perguntou: 

- Não provou da minha laranjada? -
  
     Então o Sr. de Charlus, com um gracioso sorriso, num tom cristalino que raramente ostentava e com mil trejeitos da boca e requebros do talhe, respondeu: 

- Não, preferi o seu vizinho, o refresco de morango, acho, é delicioso. -

     É singular que uma certa ordem de atos secretos tenha como consequência exterior uma forma de falar ou de gesticular que os revela. Se uma pessoa crê ou não na Imaculada Conceição ou na inocência de Dreyfus, ou na pluralidade dos mundos, e deseja calar-se a respeito, não se achará na sua voz, nem no seu modo de andar, coisa alguma que permita entrever seu pensamento. Mas, ao ouvir o Sr. de Charlus dizer com aquela voz aguda e com esse sorriso e esses gestos: 

- Não, preferi o seu vizinho, o refresco de morango -, a gente podia dizer: - Vejam, ele ama o sexo forte com certeza igual à que permite a um juiz condenar um criminoso que não confessou, e um médico a um paralítico geral que talvez não conheça a sua enfermidade, mas que comete tais erros de pronúncia que deles se pode deduzir que morrerá dentro de três anos. Talvez as pessoas que concluam da maneira de dizer: - Não, preferi o seu vizinho, o refresco de morango por um amor chamado antifísico, não precisem de tanta ciência. Mas dá-se que aqui existe uma relação mais direta entre o signo revelador e o segredo. Sem dizê-lo precisamente, sente-se que é uma doce e risonha dama que nos responde e que parece amaneirada porque se faz passar por um homem, e que a gente não está acostumada a ver os homens fazerem tantos trejeitos. E talvez seja mais gracioso pensar que, há muito tempo, um certo número de mulheres angélicas foram arroladas por engano no sexo masculino, onde, exiladas, enquanto batem as asas em vão para os homens, a quem inspiram uma repulsa física, sabem arrumar um salão, compõem "interiores". O Sr. de Charlus não se importava que a Sra. Verdurin ficasse de pé, e permanecia instalado em sua poltrona para estar mais perto de Morel. 
- Não acha um crime - disse a Sra. Verdurin ao barão - que este aí, que poderia encantar nos com seu violino, esteja numa mesa de écarté? Quando se toca violino como ele! 
- Ele joga cartas muito bem, faz tudo muito bem, é extremamente inteligente - disse o Sr. de Charlus, enquanto olhava o jogo, a fim de dar conselhos a Morel. Esta, aliás, não era a única razão para que ele não se levantasse da poltrona diante da Sra. Verdurin. Com o singular amálgama que fizera de suas concepções sociais, a um tempo de grão-senhor e de apreciador de arte, em vez de ser polido, da mesma forma como o seria um homem do seu meio, fazia para si próprio, segundo Saint-Simon, como que quadros vivos; e, naquele momento divertia-se em figurar o marechal d'Huxelles, o qual o interessava ainda sob outros aspectos e de quem se dizia que era presunçoso a ponto de não se, erguer de sua cadeira, com um ar de preguiça, diante do que havia de mais distinto na Corte. 
- Diga então, - ao Charlus falou a Sra. Verdurin, que principiava a tomar familiaridades -, não teria o senhor em seu bairro algum velho nobre arruinado que pudesse me servir de porteiro? 
- Como não?... Como não?... - respondeu o Sr. de Charlus, sorrindo com ar de bons- cheirice. - Mas não lhe aconselho. 
- Por quê? 
- Recearia pela senhora; que os convidados elegantes não passassem além da portaria. - Foi a primeira escaramuça entre eles. A Sra. Verdurin mal lhe deu atenção. Infelizmente deveria haver outras em Paris. O Sr. de Charlus continuou sem abandonar sua poltrona. Aliás, não podia deixar de sorrir imperceptivelmente ao ver o quanto a submissão, tão facilmente obtida, da Sra. Verdurin confirmava suas máximas favoritas acerca do prestígio da aristocracia e da covardia dos burgueses. A Patroa não parecia de modo algum espantada pela postura do barão e, se o deixou, foi apenas porque se inquietara de me ver importunar do pelo Sr. de Cambremer. Mas antes disso, queria esclarecer as relações do Sr. de Charlus com a condessa Molé. 
- O senhor me disse que conhecia a Sra. Molé. Costuma ir à casa dela? - indagou, conferindo às palavras "ir à casa dela" o sentido de ser recebido em sua casa, de ter recebido autorização de ir visitá-la.

     O Sr. de Charlus respondeu com um acento de desdém, uma afetação de precisão e um tom de salmodia: 

- Ora, às vezes. -

     Este "às vezes" provocou dúvidas na Sra. Verdurin, que perguntou: 

- Não tem encontrado lá o duque de Guermantes? 
- Ah, não me lembro. 
- Ah - disse a Sra. Verdurin -, o senhor não conhece o duque de Guermantes? 
- Mas como não haveria de conhecê-lo? - respondeu o Sr. de Charlus, a quem um sorriso fez ondular a boca. O sorriso era irônico; mas, como o barão temia deixar ver um dente de ouro, quebrou o sorriso com um refluxo dos lábios, de modo que a sinuosidade dali resultante foi a de um sorriso de benevolência: 
- Por que o senhor diz: "Como não haveria de conhecê-lo?" 
- É que ele é meu irmão - disse negligentemente o Sr. de Charlus, deixando a Sra. Verdurin imersa na estupefação e na incerteza de saber se o seu convidado zombava dela, se era um filho natural ou filho de outro leito. A idéia de que o irmão do duque de Guermantes se chamasse barão de Charlus não lhe ocorreu ao espírito. Dirigiu-se a mim: 
- Agora há pouco ouvi que o Sr. de Cambremer o convidava para jantar. O senhor compreende, para mim tanto faz. Porém, no seu interesse, espero que o senhor não vá. Em primeiro lugar, aquilo está infestado de gente aborrecida. Ah! Se o senhor gosta de jantar com condes e marqueses provincianos que ninguém conhece, estará bem servido. 
- Creio que serei obrigado a comparecer uma ou duas vezes. Aliás, não estou muito livre, pois tenho uma jovem prima que não posso deixar sozinha (achava que essa pretensa parenta simplificaria as coisas para que eu saísse com Albertine). Mas, quanto aos Cambremer, como já a apresentei a eles... 
- Faça o que quiser. O que posso lhe dizer é que é excessivamente malsão; quando apanhar um catarro, ou esses reumatismos de família, vai ficar bem arranjado. 
- Mas o local não é bem bonito? 
- Mmm... sim, se quiserem. Quanto a mim, confesso francamente que prefiro cem vezes a vista daqui para este vale. Primeiro, ainda que nos pagassem, eu não teria ficado com outra casa, porque o ar marinho é fatal ao Sr. Verdurin. Por pouco que a sua prima seja nervosa... Mas de resto o senhor é nervoso, creio... tem sufocações. Pois bem! O senhor verá. Vá por uma vez, que não dormirá durante oito dias. Mas isto não é da nossa conta. - E sem pensar no que sua nova frase ia ter de contraditório com as anteriores: - Se lhe diverte ver a casa que não é má, bonita seria demais, mas enfim divertida, com o velho fosso, a velha ponte levadiça, como é preciso que eu dê um jeito e jante lá uma vez, pois bem! Venha nesse dia, tratarei de levar todo o meu pequeno círculo, e então será galante. Depois de amanhã iremos a Arembouville de carro. A estrada é magnífica, há uma cidra deliciosa. Venha então. O senhor, Brichot, virá também. E o senhor também, Ski. Será uma excursão que aliás o meu marido já deve ter arrumado. Não sei exatamente a quem ele convidou. Sr. de Charlus, não é dos tais? -

     O barão, que somente ouvira esta última frase e não sabia que se falava de uma excursão a Arembouville, teve um sobressalto: 

- Estranha pergunta murmurou num tom malicioso, que deixou irritada a Sra. Verdurin. 
- Aliás - disse-me ela -, enquanto espera o jantar dos Cambremer, por que não traz aqui a sua prima? Será que ela gosta de conversação, de pessoas inteligentes? E agradável? Sim? Pois muito bem! Venha com ela. Não existem só os Cambremer no mundo. Compreendo que se sintam felizes em convidá-la, pois não conseguem apanhar ninguém. Aqui ela terá bons ares, e sempre homens inteligentes. Em todo caso, espero que não me largue na próxima quarta. Ouvi dizer que o senhor tinha um chá em Rivebelle com sua prima, o Sr. de Charlus e não sei quem mais. Devia arranjar um modo de trazer tudo isso para cá, seria interessante uma pequena chegada em massa. As comunicações não podem ser mais fáceis, os caminhos são encantadores; em caso de necessidade, mandarei buscá-lo. De resto, não sei o que pode atraí-lo em Rivebelle, está infestada de mosquitos. Decerto acredita na reputação das tortas. Meu cozinheiro as faria bem melhor. Eu mesma lhe darei a torta normanda, a verdadeira, e sablés, só lhe digo isto. Ah, se o senhor faz questão da porcaria que se serve em Rivebelle, que assim seja; eu não assassino os meus convidados, Senhor, e, mesmo que o quisesse, meu cozinheiro recusaria fazer essa coisa inominável e mudaria de casa. As tortas de lá a gente não sabe de que são feitas. Conheço uma pobre menina a quem aquilo causou uma peritonite que a levou em três dias. Tinha só dezessete anos. É triste devido à sua pobre mãe - acrescentou a Sra. Verdurin com ar melancólico, sob as esferas de suas têmporas carregadas de experiência e dor. - Mas enfim, vá merendar em Rivebelle se lhe diverte ser explorado e atirar dinheiro pela janela. Unicamente, peço-lhe, é uma missão de confiança que lhe atribuo: quando for seis horas, traga todo o seu pessoal para cá, não vá deixar as pessoas voltarem cada qual para sua casa, em debandada. Poderá trazer quem quiser. Não diria isso a qualquer um. Mas estou certa de que seus amigos são gentis, vejo logo que havemos de nos compreender. Além do pequeno núcleo, quarta-feira vêm justamente pessoas muito agradáveis. Não conhece a pequena Sra. de Longpont? Ela é deslumbrante e cheia de espirito, nada esnobe, verá que ela lhe agradará muito. E ela também deve trazer todo um bando de amigos - acrescentou a Sra. Verdurin, para me mostrar que isso era distinto e me animar pelo exemplo. - Veremos quem é que terá maior influência e quem trará mais gente, Barbe de Longpont ou o senhor. E depois, creio que também se deve trazer Bergotte - acrescentou com ar vago, já que esse concurso de uma celebridade se tornara muito improvável devido a uma nota aparecida nos jornais pela manhã, anunciando que a saúde do grande escritor inspirava os mais sérios cuidados. - Enfim, o senhor verá que há de ser uma de minhas quartas de maior êxito, não quero ter mulheres aborrecidas. De resto, não avalie por esta noite, que falhou inteiramente. Não proteste, não deve ter-se entediado mais que eu, pois eu mesma a achei cacetíssima. Saiba que não será sempre como hoje. Aliás, não falo dos Cambremer, que são impossíveis, mas conheci gente da alta sociedade que passava por ser agradável. Pois bem! Ao lado de meu pequeno núcleo, não existiam. Ouvi-o dizer que achava Swann inteligente. Primeiro, minha opinião é que era muito exagerado, mas sem mesmo abordar o caráter do homem, que sempre considerei fundamente antipático, sorrateiro, dissimulado, tive-o diversas vezes no jantar das quartas. Pois bem! O senhor pode indagar aos outros, mesmo ao lado de Brichot, que está longe de ser uma águia, que é um bom professor de segunda que fiz entrar para o Instituto, mesmo assim, Swann não valia nada. Era tão apagado! - E como eu externasse uma opinião contrária: - É assim. Não quero lhe dizer nada contra ele, visto que era seu amigo; aliás, gostava muito do senhor falou-me a seu respeito de modo delicioso, mas pergunte a estes se ele jamais disse alguma coisa de interessante em nossos jantares. Isso afinal é a pedra de toque. Pois bem! Não sei por quê, mas Swann, aqui em casa, não dava nada, não rendia coisa alguma. E o pouco que ele ainda valia, adquiriu-o aqui. - Assegurei-lhe que ele era inteligente. - Não, o senhor só acreditava nisso porque o conhecia há menos tempo do que eu. No fundo, bem depressa a gente lhe dava a volta. A mim, ele aborrecia. (Tradução: ele comparecia à casa dos La Trémoïlle e à dos Guermantes, e sabia que eu não ia.) E eu posso tolerar tudo, menos o tédio. Ah, isso não! -

continua na página 171...
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