volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Segundo
Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.
continuando...
Dias depois, em Balbec, como estivéssemos na sala de dança do cassino, entraram a irmã
e a prima de Bloch, que se haviam tornado ambas muito bonitas, mas a quem não cumprimentei
por causa de minhas amigas, pois a mais jovem, a prima, com o conhecimento de todos, vivia
com a atriz a quem havia conhecido por ocasião da minha primeira temporada. A uma alusão que
fiz à meia voz, Andrée me disse:
- Oh, sob esse aspecto eu sou como Albertine: não há nada que me dê tanto horror quanto
isso.
Quanto a Albertine, pondo-se a conversar comigo no canapé em que estávamos sentados,
dera as costas às duas moças de maus costumes. E no entanto eu havia reparado que antes
desse movimento, na ocasião em que a Srta. Bloch e sua prima tinham aparecido, passara pelos
olhos de minha amiga essa atenção brusca e profunda que por vezes conferia ao rosto malicioso
de Albertine um ar sério, até mesmo grave, deixando-a triste depois. Porém, logo volvera para
mim os seus olhos, que entretanto permaneceram singularmente imóveis e sonhadores. Tendo a
Srta. Bloch e sua prima acabado por ir-se embora, depois de rirem muito alto e soltarem gritos
inconvenientes, perguntei a Albertine se a lourinha (a que era amiga da atriz) não era a mesma
pessoa que na véspera ganhara o prêmio do desfile de carros de flores.
- Ah, não sei - disse Albertine -, uma delas é loura? Digo-lhe que elas me interessam muito
pouco, nunca as observei. Uma delas é loura? - indagou com ar interrogativo e desligado às três
amigas. Referindo-se a pessoas que Albertine encontrava todos os dias no molhe, essa
ignorância me pareceu muito excessiva para não ser fingida.
- Elas também não parecem nos olhar muito - disse eu a Albertine, talvez na hipótese, que
no entanto não considerava de modo consciente, de que Albertine gostasse de mulheres, e, a fim
de lhe tirar toda a pena, mostrando-lhe que não havia atraído a atenção delas e que, de um modo
geral, não é costume, mesmo entre as mais viciosas, preocuparem-se com mocinhas que
desconhecem.
- Não nos olharam? - respondeu Albertine irrefletidamente. - Não fizeram outra coisa o
tempo todo.
- Mas você não podia saber - disse eu -, estava de costas para elas.
- Pois bem, e aquilo ali? - retrucou ela, mostrando-me, encaixado na parede à nossa
frente, um grande espelho que eu não havia notado e no qual eu entendia agora que minha
amiga, sem parar de falar, não cessara de pregar seus belos olhos cheios, preocupação.
A partir do dia em que Cottard entrou comigo no pequeno cassino de Incarville, ainda que
não partilhasse da opinião que ele emitira, Albertine já não me pareceu a mesma; sua vista
causava-me cólera. Eu próprio havia mudado tanto quanto ela me parecia outra. Deixara de lhe
querer bem; sua presença, na sua ausência quando isso lhe podia ser repetido, falava dela da
maneira mais ferina. Contudo, havia tréguas.
Um dia, soube que Albertine e Andrée tinham aceitado um convite de Elstir. Não duvidando
que haviam feito porque poderiam na volta se divertir, como alunas de internato, imitando as
moças de maus costumes, achando nisso um prazer inconfesso de virgens que me apertava o
coração, sem avisar, para constrangê-las e privar Albertine do prazer com que contava, cheguei
de improviso na casa de Elstir. Mas ali só encontrei Andrée. Albertine escolhera outro dia, quando
a tia deveria comparecer. Então pensei comigo que Cottard devia ter se enganado; a impressão
favorável que me produzira a presença da Andrée sem sua amiga prolongava-se e alimentava em
mim disposições mais amenas acerca de Albertine. Mas estas não duraram mais do que frágil boa
saúde dessas pessoas delicadas, sujeitas a melhoras passageiras, a quem basta um nada para
fazê-las ter uma recaída. Albertine incitava Andrée a brincadeiras que, sem irem muito longe, não
eram talvez inteiramente inocentes; padecendo dessa suspeita, terminava por afastá-la. Sentia
me curado, a suspeita renascia sob outra forma. Acabava de ver Andrée, num daqueles
movimentos graciosos que lhe eram particulares, pousar carinhosamente a cabeça no ombro de
Albertine, beijar-lhe o pescoço entrecerrando os olhos; ou então, elas haviam trocado uma
piscadela; uma palavra escapara a alguém que as vira juntas a caminho do banho; pequenos
nadas feito os que flutuam de modo habitual na atmosfera ambiente, onde a maioria das pessoas
os absorvem o dia inteiro sem que sua saúde se ressinta disso, ou que o seu humor se altere,
mas que são mórbidos e geradores de novos sofrimentos para uma criatura que já está
predisposta a tanto. Às vezes até, sem que eu tivesse voltado a ver Albertine, sem que ninguém
me falasse dela, eu reencontrava na memória uma pose de Albertine junto de Gisele que então
me havia parecido inocente; era o que, bastava agora para destruir a calma que eu pudera achar,
não tinha sequer, a necessidade de ir respirar lá fora os germes perigosos, pois, como diria
Cottard, intoxicara a mim mesmo. Pensava então em tudo o que soubesse acerca do amor de
Swann por Odette, da maneira como Swann fora enganado em toda a sua vida. No fundo, a
hipótese que me fez construir aos poucos todo o caráter de Albertine e interpretar dolorosamente
cada instante de uma vida que eu não podia controlar por completo foi a Swann, tal como me
haviam contado que era. Essas narrativas contribuíram para fazer com que, no futuro, minha
imaginação se entregasse ao jogo de supor que Albertine poderia, ao invés de ser uma boa moça,
ter a mesma imoralidade, a mesma capacidade de enganar de uma antiga cocote, e pensava em
todos os sofrimentos que, nesse caso, teriam me esperado se a devesse amar alguma vez.
Um dia, estando nós reunidos no molhe diante do Grande Hotel, acabava de dirigir a
Albertine as palavras mais duras e mais humilhantes, e Rosemonde dizia:
- Ah, como você mudou com ela! Antigamente, tudo era para ela, ela é que segurava as
rédeas; agora não é boa nem para os cães comerem. -
Para ressaltar ainda mais a minha atitude quanto a Albertine, eu estava dirigindo todas as
amabilidades possíveis a Andrée, que, se era atingida pelo mesmo vício, me parecia mais
desculpável por ser doente e neurastênica, quando vimos desembocar, ao trotezinho de seus dois
cavalos, na rua perpendicular ao molhe em cuja esquina estávamos, a caleche da Sra. de
Cambremer. O presidente do conselho, que naquele momento avançava para nós, afastou-se de
um salto, quando reconheceu o carro, para não ser visto em nossa companhia; depois, quando
pensou que os olhares da marquesa podiam cruzar com os seus, inclinou-se com um enorme
cumprimento de chapéu. Mas o carro, em vez de continuar pela rua de La Mer, como parecia
provável, desapareceu por detrás da entrada do hotel. Passaram-se mais ou menos dez minutos,
quando o ascensorista, todo esbaforido, veio me avisar:
- É a marquesa de Cambremer, que veio até aqui visitar o senhor. Subi a seu quarto,
procurei no salão de leitura, não podia encontrar o senhor. Felizmente que tive a ideia de olhar a
praia. -
Mal acabara de falar, quando, seguida de sua nora e de um senhor muito cerimonioso,
caminhou para mim a marquesa, provavelmente de volta de uma vesperal ou de um chá nas
vizinhanças, e toda encurvada sob o peso, menos da velhice que da multidão de objetos de luxo,
dos quais ela achava mais amável e mais digno de sua estirpe estar recoberta, a fim de parecer o
mais "vestida" possível às pessoas a quem vinha visitar. Em suma, era esse "desembarque" dos
Cambremer no hotel que tanto receava a minha avó outrora, quando queria que se deixasse
Legrandin na ignorância de que talvez fôssemos a Balbec. Então mamãe ria dos temores
inspirados por um acontecimento que ela julgava impossível. Eis que, enfim, ele se produzia,
entretanto por outras vias e sem que Legrandin contribuísse em nada para isso.
- Posso ficar, se não estou incomodando? - perguntou Albertine (em cujos olhos
permaneciam, causadas pelas coisas cruéis que eu acabara de dizer-lhe, algumas lágrimas que
notei sem parecer vê-las, mas não regozijar-me com elas). - Teria alguma coisa para lhe dizer. -
Um chapéu de plumas, encimado por um alfinete de safira, estava colocado de qualquer
jeito sobre a peruca da Sra. de Cambremer, como uma insígnia cuja exibição é necessária, mas
suficiente, o local indiferente, a elegância convencional e a imobilidade inútil. Apesar do calor, a
boa senhora vestira uma mantilha de azeviche semelhante a uma dalmática, sobre a qual caía
uma estola de arminho cujo porte parecia estar em relação, não com a temperatura e a estação,
mas com o caráter da cerimônia. E sobre o peito da Sra. de Cambremer, uma coroa de baronesa,
ligada a uma correntinha, pendia a maneira de uma cruz peitoral.
O cavalheiro era um famoso advogado de Paris, de família nobre, que fora passar três dias
na casa dos Cambremes. Era um desses homens a quem a consumada experiência profissional
faz com que desprezem um pouco sua profissão e que dizem, por exemplo:
"Sou eu que advogo bem; portanto, já não me diverte advogar", ou: "Não me interessa
mais operar; sei que opero bem."
Inteligentes, artistas, veem em torno de sua maturidade, fortemente recompensada pelo
sucesso; brilhante "inteligência", essa natureza de "artista" que os confrades lhes reconhecem e
que lhes confere um certo gosto e discernimento. Apaixonam-se pela partitura, não de um grande
artista, mas de um artista contudo bem distinto, para a aquisição de cujas obras empregam os
gordos dividendos que lhes traz sua carreira. Le Sidaner era o artista eleito pelo amigo dos
Cambremer, o qual aliás era bem agradável. Falava bem dos livros, mas não das obras dos
verdadeiros mestres, daqueles que dominaram a si próprios. O único defeito constrangedor desse
diletante era o de empregar certas frases feitas com insistência, por exemplo: "na maior parte", o
que dava àquilo de que ele queria falar algo de importante e de incompleto.
A Sra. de Cambremer, segundo ela me disse, aproveitara uma vesperal de amigos seus
perto de Balbec para visitar-me, como havia prometido a Robert de Saint-Loup.
- O senhor sabe que dentro em pouco ele deve vir passar alguns dias aqui na região. Seu
tio Charlus está veraneando em casa da cunhada, a duquesa de Luxemburgo, e o Sr. de Saint
Loup aproveitará a ocasião para, ao mesmo tempo, ir cumprimentar a tia e rever seu antigo
regimento, onde é muito querido, muito estimado. Muitas vezes recebemos oficiais que nos falam
dele sem poupar elogios. Como seria agradável que o senhor e ele nos dessem o prazer de ir a
Féterne. -
Apresentei-lhe Albertine e suas amigas. A Sra. de Cambremer nos apresentou à sua nora.
Esta, glacial como era com a pequena nobreza que a vizinhança de Féterne a obrigava a
frequentar; cheia de reserva por medo de comprometer-se, estendeu-me ao contrário a mão com
um sorriso radiante, plena de segurança e de alegria diante de um amigo de Robert de Saint
Loup, e que este, com mais finura mundana do que desejaria aparentar, lhe havia dito ser muito
ligado aos Guermantes. Assim, ao contrário de sua sogra, a Sra. de Cambremer ostentava dois
tipos de polidez completamente diversos. Teria sido quando muito o primeiro, seco, insuportável,
que ela teria me concedido se eu a conhecesse através de seu irmão Legrandin. Mas para um
amigo dos Guermantes ela não possuía sorrisos que bastassem. A peça mais cômoda do hotel
para recepção era o salão de leitura, esse lugar outrora tão terrível onde agora eu entrava dez
vezes por dia, saindo livremente, feito dono, como esses loucos mansos, há tanto tempo
pensionistas de um asilo que o médico lhes confiou a chave do mesmo. Assim, ofereci-me à Sra.
de Cambremer para conduzi-la até lá. E, como aquele salão já não me inspirava timidez e não
mais oferecia encantos, porque a face das coisas muda para nós como a das pessoas, foi sem
perturbação que lhe fiz aquela proposta. Mas ela a recusou, preferindo ficar fora, e nós nos
sentamos ao ar livre, no terraço do hotel. Ali encontrei e recolhi um livro da Sra. de Sévigné que
mamãe não tivera tempo de levar em sua fuga precipitada, ao perceber que visitas chegavam
para mim. Assim como a minha avó, ela temia essas invasões de estranhos e, de medo de não
mais poder escapar, se se deixasse cercar, fugia com uma rapidez que fazia sempre, meu pai e
eu, zombarmos dela. A Sra. de Cambremer segurava na mão, junto com o cabo da sombrinha,
várias bolsas bordadas, uma cestinha, uma carteira dourada de onde pendiam fios de grenats e
um lenço de renda. Creio que lhe seria mais cômodo colocá-los sobre uma cadeira; mas sentia
que teria sido inconveniente e inútil pedir-lhe que abandonasse os ornamentos de sua turnê
pastoral e de seu sacerdócio mundano. Contemplávamos o mar calmo onde flutuavam gaivotas
esparsas como corolas brancas.
Por causa do nível de simples medium a que nos degrada a conversação mundana, e
também o nosso desejo de agradar, não com o auxílio de qualidades ignoradas por nós mesmos,
mas daquilo que julgamos ser apreciado pelos que se acham conosco, instintivamente me pus a
falar à Sra. de Cambremer, nascida Legrandin, da mesma forma que o teria feito seu irmão.
- Elas possuem - disse-lhe eu, referindo-me às gaivotas - uma imobilidade e uma brancura
de ninféias. -
E com efeito elas pareciam oferecer um alvo inerte às pequenas ondas que as balançavam
a ponto de que estas, por contraste, davam a impressão de ir em sua perseguição, de modo
intencional e animadas de vida própria. A velha marquesa não se cansava de elogiar a soberba
vista do oceano que tínhamos em Balbec e me invejava, ela que de La Raspeliere (onde aliás não
residia naquele ano) só via as ondas de muito longe. Possuía dois hábitos singulares, que
resultavam a um tempo de seu exaltado amor às artes (sobretudo pela música e de sua
insuficiência dentária. De cada vez que falava de estética, as glândulas salivares, como as de
certos animais na época do cio, entram numa fase de hipersecreção tal, que a boca desdentada
da velha dama deixava passar, nos cantos dos lábios cobertos de um leve buço, algumas gotas
cujo lugar não era ali. Logo em seguida, ela as engolia com um suspiro, como alguém que recobra
a respiração. Enfim, se se tratasse de um bem grande beleza musical, ela em seu entusiasmo
erguia os braços e proferia alguns juízos sumários, energicamente mastigados e, se necessária,
nasais. Ora, eu jamais pensara que a praia vulgar de Balbec pudesse oferecer na verdade uma
"vista de mar", e as simples palavras da Sra. de Cambremer mudavam minhas ideias a respeito.
Em compensação, e isso eu lhe disse, sempre ouvira celebrar a vista única de La Raspeliere,
situada no topo da colina e de onde, num grande salão de duas lareiras, uma fila inteira de janelas
olha, do fundo dos jardins entre as folhagens, o mar até além de Balbec, e outra fila, para o vale.
- Como o senhor é amável e como está bem dito: o mar entre as folhagens. É encantador.
Dir-se-ia... um leque...
Senti, a uma profunda respiração destinada a engolir a saliva e a secura do buço, que o
cumprimento era sincero. Mas a marquesa nascida Legrandin permaneceu fria para mostrar seu
desdém não pelas minhas palavras, mas pelas da sogra. Além disso, não só desprezava a
inteligência desta, como deplorava a sua amabilidade, sempre receando que as pessoas não
fizessem uma alta ideia dos Cambremer.
- E como é bonito o nome - disse eu. - Gostaria de saber a origem de todos esses nomes. -
Quanto a esse posso lhe dizer - respondeu com doçura a velha dama. É uma residência de
família, da minha avó Arrachepel; não é uma família ilustre, mas boa e antiga família provinciana.
- Como, não é ilustre? - interrompeu secamente sua nora. - Um vitral inteiro da catedral de
Bayeux está cheio de suas armas, e a principal igreja de Avranches contém seus monumentos
funerários. Se esses velhos nomes o divertem - acrescentou -, o senhor chega com um ano de
atraso. Tínhamos conseguido nomear para, curato de Criquetot, apesar de todas as dificuldades
que existem para mudança de diocese, o decano de uma região onde pessoalmente possuo
terras, muito longe daqui, em Combray, onde o bom padre sentia que estava ficando
neurastênico. Infelizmente o ar marinho não foi bom para sua idade avançada; sua neurastenia
aumentou e ele acabou voltando para Combray. Mas, enquanto foi nosso vizinho, divertiu-se em ir
consultar todas as velhas cartas e escreveu uma pequena brochura bastante curiosa sobre os
nomes da região. Aliás, isso lhe deu no gosto, pois parece que ele ocupa seus últimos anos em
escrever uma grande obra sobre Combray e redondezas. Vou enviar-lhe a sua brochura sobre as
cercanias de Féterne. É um trabalho de beneditino. Nela o senhor lerá coisas muito interessantes
sobre a nossa velha Raspeliere, de que a minha sogra fala tão modestamente.
- Em todo caso, este ano - respondeu a velha marquesa - La Raspeliere não é mais nossa
e não me pertence. Mas sente-se que o senhor possui uma natureza de pintor; deveria desenhar,
e eu gostaria muito de lhe mostrar Féterne, que é bem melhor que La Raspeliere. -
Pois, desde que os Cambremer haviam alugado esta última residência aos Verdurin, sua
posição dominante deixara bruscamente de lhes parecer o que havia sido para eles durante
tantos anos, isto é, com a vantagem única na região de ter vista a um tempo para o mar e para o
vale, em compensação lhes dera de golpe e de contragolpe o inconveniente de que era preciso
sempre subir e descer para chegar e sair. Em suma, julgar-se-ia que, se a Sra. de Cambremer a
alugara, fora menos para aumentar suas rendas do que para poupar seus cavalos. E ela dizia-se
encantada de poder enfim ter o tempo todo o mar tão pertinho, em Féterne, ela que durante tanto
tempo, esquecendo os dois meses que ali passava, só o vira do alto e como que num panorama.
- Descubro-o na minha idade - dizia - e como o aproveito! Isto me faz tão bem! Alugaria La
Raspeliere por um nada a fim de ser constrangida a morar em Féterne.
- Para retornar a assuntos mais interessantes - prosseguiu a irmã de Legrandin, que dizia
"Minha mãe" à velha marquesa, mas com o passar dos anos assumira maneiras insolentes com
ela -, o senhor falava de ninfeias; penso que conhece as que Claude Monet pintou. Que gênio!
Isto me interessa tanto mais que, perto de Combray, esse lugar onde lhe disse que possuía
terras... -
Mas ela preferiu não falar muito de Combray.
- Ah, certamente é a série de que nos falou Elistir, o maior dos pintores contemporâneos!
exclamou Albertine que nada dissera até então.
- Ah! Vê-se que a senhorita ama as artes - gritou a velha marquesa que, numa respiração
profunda, reabsorveu um jato de saliva.
- Permita-me preferir-lhe Le Sidaner, senhorita - disse sorrindo o advogado, com um ar de
conhecedor. E, como antigamente havia apreciado ou vira apreciar certas "audácias" de Elstir,
acrescentou: - Elstir era dotado, chegou quase até a fazer parte da vanguarda, mas não sei por
que cessou de segui-la, estragou sua vida. -
A Sra. de Cambremer deu razão ao advogado no que dizia respeito a Elistir, mas, para
grande desgosto de seu convidado, igualou Monet a Le Sidaner. Não se pode dizer que ela fosse
idiota; transbordava de uma inteligência que eu sentia ser-me completamente inútil. Precisamente
o sol, declinando, fazia as gaivotas serem agora amareladas, como as ninfeias em outra tela
dessa mesma série de Monet. Eu disse que a conhecia e (continuando a imitar a linguagem do
irmão, cujo nome ainda não me atrevera a declarar) acrescentei que era uma pena não ter ela tido
a ideia de vir na véspera, pois, à mesma hora, era uma luz de Poussin o que ela poderia ter
admirado. Diante de um fidalgote normando, desconhecido dos Guermantes, e que lhe dissesse
que deveria ter vindo na véspera, a Sra. de Cambremer-Legrandin decerto se empertigaria com ar
ofendido. Mas ainda que eu pudesse ter sido bem mais familiar, ela só se derramaria numa
doçura mole e sumarenta; no calor daquele belo fim de tarde, eu podia fartar-me à vontade no
grande bolo de mel que tão raramente era a Sra. de Cambremer e que substituiu os bolinhos que
não tive a lembrança de oferecer. Mas o nome de Poussin, sem alterar a amenidade da mulher
mundana, ergueu os protestos da diletante. Ouvindo esse nome, a Sra. de Cambremer, por seis
vezes, que quase nenhum intervalo separava, deu esse estalido de língua contra o céu da boca
que serve para indicar, a uma criança que fez uma asneira, ao mesmo tempo uma censura por ter
começado e a proibição de continuar.
- Em nome do céu, depois de um pintor como Monet, que é certamente um gênio, não vá
nomear um velho rotineiro e sem talento como Poussin. Eu lhe direi sem rodeios que o considero
o mais paulificante dos barbeiros. Que é que o senhor quer, não consigo chamar aquilo de
pintura. Monet, Degas, Manet, sim, são pintores! É muito curioso - acrescentou ela, fixando um
olhar escrutador e deslumbrado num ponto vago do espaço, onde percebia o próprio pensamento -, é muito curioso, antigamente eu preferia Manet. Agora, sempre admiro Manet, está claro, mas
creio que lhe prefiro talvez Monet, ainda. Ah, as catedrais! -
Ela punha tanto escrúpulo quanto complacência em me informar acerca da evolução
sofrida pelo seu gosto. E sentia-se que as fases por que havia passado esse gosto não eram,
segundo ela, menos importantes que as diversas maneiras do próprio Monet. Aliás, eu não tinha
que me sentir lisonjeado que ela me confidenciasse as suas admirações, pois, mesmo diante da
mais tacanha provinciana, ela não podia ficar cinco minutos sem experimentar a necessidade de
confessá-las. Quando uma senhora nobre de Avranches, que não teria sido capaz de distinguir
Mozart de Wagner, dizia diante da Sra. de Cambremer:
- Não tivemos nenhuma novidade interessante na nossa temporada em Paris, fomos uma
vez à ópera-Cômica, onde representavam Pelléas et Mélisande, é horrível!
A Sra. de Cambremer não só fervia como também sentia necessidade de gritar:
- Mas pelo contrário, é uma pequena obra-prima! e de discutir.
Era talvez um hábito de Combray, adquirido junto às irmãs de minha avó, que chamavam
àquilo "combater por uma boa causa", e que apreciavam os jantares em que, todas as semanas,
sabiam que teriam de defender seus deuses contra os filisteus. Da mesma forma, a Sra. de
Cambremer gostava de "ativar o sangue", "engalfinhando-se" sobre arte, como outros sobre
política. Ela tomava o partido de Debussy como tomaria o de uma amiga sua a quem houvessem
acusado de má conduta. Entretanto, devia compreender muito bem que, ao dizer:
"Mas não, é uma pequena obra-prima", não podia improvisar, junto à pessoa a quem
punha em seu devido lugar, toda a evolução da cultura artística, ao termo da qual ficassem de
acordo sem ter necessidade de discutir.
- Será preciso que eu pergunte a Le Sidaner o que ele pensa de Poussin - disse-me o
advogado. - É uma pessoa fechada, silenciosa, mas saberei muito bem fazê-lo falar.
- Aliás - continuou a Sra. de Cambremer -, tenho horror aos ocasos, é romântico, é pura
ópera. É por isso que detesto a casa de minha sogra, com suas plantas do Sul. O senhor verá,
aquilo parece um parque de Monte-Carlo. É por isso que prefiro o seu litoral; é mais triste, mais
sincero. Há um pequeno caminho de onde não se vê o mar. Nos dias de chuva, só tem lama; é
todo um mundo. É como em Veneza, detesto o Grande Canal e não conheço nada mais tocante
que as pequenas ruelas. De resto, é uma questão de ambiência.
- Mas - disse-lhe eu, sentindo que a única maneira de reabilitar Poussin aos olhos da Sra.
de Cambremer era informá-la de que ele voltara a estar na moda -, o Sr. Degas assegura que não
conhece nada mais belo que os Poussins de Chantilly.
- Oh, eu não conheço esses de Chantilly - disse a Sra. de Cambremer, que não queria ser
de opinião diversa da de Degas -, mas posso falar dos do Louvre que são uns horrores.
- Ele também os admira imensamente.
- Será necessário que os veja de novo. Tudo isto é um pouco antigo na minha cabeça
respondeu ela após um instante de silêncio, e, como se o juízo favorável que em breve
certamente iria fazer acerca de Poussin devesse depender não da notícia que eu acabara de lhe
dar, mas do exame suplementar e desta vez definitivo a que tencionava submeter os Poussins do
Louvre para ter a faculdade de reconsiderar seu julgamento. Contentando-me com o que era um
começo de retratação, visto que se ela ainda não admirava os Poussins, guardava-se para uma
deliberação posterior, eu, para não deixá-la por mais tempo na tortura, disse a sua sogra o quanto
me haviam falado das admiráveis flores de Féterne. Modestamente, ela se referiu ao jardinzinho
de cultivo que possuía nos fundos e aonde, pela manhã, empurrando uma porta, ela ia de
chambre dar de comer a seus pavões, procurar ovos já postos e colher zínias ou rosas que, no
centro da mesa, dando aos ovos à la crême ou às frituras uma orla de flores, recordavam-lhe as
suas alamedas.
- É verdade que temos muitas rosas - disse ela. - Nosso roseiral está quase um pouco
perto demais da casa; há dias em que me dá dor de cabeça. É mais agradável no terraço da
Raspeliere, onde o vento traz o aroma das flores porém menos inebriante. -
continua na página 98...
________________
________________
Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Dias depois, em Balbec)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7
Nenhum comentário:
Postar um comentário