terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Quando me despedi de Rosemonde e de Gisele)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Quando me despedi de Rosemonde e de Gisele, viram elas com espanto que Albertine, parada, não as seguia. 

- E então, Albertine, que estás fazendo? Não sabes que horas são? - Voltem - respondeu lhes Albertine com autoridade. - Preciso falar com ele - acrescentou, apontando-me com ar submisso. Rosemonde e Gisele me olharam, penetradas de um novo respeito por mim. Era delicioso sentir que, por um momento ao menos, aos próprios olhos de Rosemonde e de Gisele, eu era para Albertine algo de mais importante que a hora de regressar, que suas amigas, e podia até mesmo ter com ela graves segredos aos quais era impossível misturá-las. 
- Quer dizer que não te veremos esta noite? 
- Não sei, depende dele. Em todo caso, até amanhã. 
- Subamos para o meu quarto - disse-lhe eu depois que as amigas se afastaram. Tomamos o elevador; ela se manteve em silêncio diante do ascensorista. O hábito de ser obrigado a recorrer à observação pessoal e à dedução para conhecer os assuntos particulares dos patrões, essas pessoas estranhas que conversam entre si e não lhes falam, desenvolve entre os "empregados" (como o ascensorista denominava os criados) um grande poder de adivinhação, maior do que entre os "patrões". Os órgãos se atrofiam ou tornam-se mais robustos ou mais sutis, conforme aumenta ou diminui a necessidade de seu uso. Desde que existem estradas de ferro, a necessidade de não perder o trem nos ensinou a prestar atenção nos minutos, enquanto que, entre os antigos romanos, cuja astronomia era não só mais sumária; mas cuja vida era também menos apressada, a noção não dos minutos, mas até das horas fixas, mal existia. Assim, o ascensorista compreendera e esperava contar aos camaradas que Albertine e eu estávamos preocupados. Mas ele nos falava sem parar porque era destituído de tato. Entretanto, eu via desenhar-se em seu rosto, substituindo a impressão habitual de alegria e amizade com que me fazia subir pelo elevador, um raro aspecto de abatimento e inquietação. Como lhe ignorava a causa, para tentar distraí-lo, apesar de mais preocupado com Albertine, disse-lhe que a dama que acabara de partir se chamava marquesa de Cambremer e não de Camembert. No andar pelo qual passávamos então, avistei, carregando um travesseiro, uma camareira horrível que me saudou com respeito, esperando uma gorjeta à saída. Gostaria eu de saber se fora ela que tanto havia desejado na noite da minha primeira chegada a Balbec, mas nunca pude ter certeza. O ascensorista jurou-me, com a sinceridade da maioria dos falsos testemunhos, mas sem abandonar seu ar desesperado, que fora mesmo sob o nome de Camembert que a marquesa lhe pedira que a anunciasse. E, para falar a verdade, era natural que tivesse entendido um nome que já conhecia. Além disso, tendo sobre a nobreza e a natureza dos nomes com que se fazem os títulos noções extremamente vagas, que são as de muita gente que não é ascensorista, o nome de Camembert lhe parecera tanto mais verossímil, porque, sendo aquele queijo universalmente conhecido, não seria de espantar que se houvesse extraído um marquesado de um renome tão glorioso, a menos que não fosse o do marquesado que desse a sua celebridade ao queijo. Todavia, como reparava que eu não queria parecer que me enganava, e sabia que os patrões gostam de ver obedecidos seus caprichos mais fúteis e aceitas suas mentiras mais evidentes, prometeu-me, como bom criado, passar a dizer Cambremer. É verdade que nenhum lojista da cidade ou nenhum camponês das redondezas, onde o nome e a pessoa dos Cambremer eram perfeitamente conhecidos, jamais poderiam cometer o erro do ascensorista. Mas o pessoal do Grande Hotel de Balbec absolutamente não era da região. Provinha diretamente, com todo o material, de Biarritz, Nice e Monte-Carlo, uma parte tendo sido encaminhada para Deauville, outra para Dinard e a terceira reservada para Balbec. Mas a dor angustiosa do ascensorista não fez mais que crescer. Para que ele assim se esquecesse de me testemunhar o seu devotamento com os sorrisos costumeiros, era preciso que lhe tivesse acontecido alguma desgraça. Talvez tivesse sido "enviado". Prometi a mim mesmo, nesse caso, tentar conseguir que ele permanecesse no emprego, pois o gerente me garantira que ratificaria tudo o que eu decidisse em rei, - ao seu pessoal. - O senhor pode fazer sempre o que desejar, eu autorizo previamente. -

     De súbito, como acabasse de sair do elevador, comparara a aflição e o ar desesperado do ascensorista. Por causa da presença de Albertine, eu não lhe dera os cem sous que tinha o hábito de lhe pôr na mão, ao subir. E esse imbecil, em vez de entender que eu não queria fazer alarde de gorjetas diante de terceiros, começara a tremer, supondo que aquilo estava acabado de uma vez por todas, que nunca mais lhe daria - Pensava que eu caíra no "desvio" (como teria dito o duque de Guermantes tal suposição não lhe inspirava nenhuma piedade por mim, mas uma terrível decepção egoísta. Disse comigo que eu era menos desarrazoado do que achava minha mãe, quando não ousava deixar de dar um dia a soma exagerada, mas febrilmente esperada, que dera na véspera. Mas também sendo dado até ali por mim, e sem qualquer dúvida, ao habitual ar de alegria em que não hesitava em ver um sinal de simpatia pareceu-me desmentir segura significação. Ao ver o ascensorista, no seu desespero, prestes de atirar do quinto andar, perguntei-me se (caso se achassem respectivamente trocadas as nossas condições sociais, por exemplo, devido a uma revogação) em vez de manobrar gentilmente para mim o elevador, o ascensorista se transformasse num burguês, eu não teria me jogado, e se não há certas classes do povo mais duplicidade que entre os mundanos; mas sem dúvida, reserva-se para a nossa ausência as frases desfavoráveis, de onde a atitude a nosso respeito não seria insultuosa se fôssemos inferiores.
     No entanto, não se pode dizer que no hotel de Balbec o ascensorista fosse o mais interesseiro. Sob esse aspecto, o pessoal dividia-se em duas categorias: por um lado, os que faziam diferenças entre os hóspedes mais sensíveis à gorjeta razoável de um velho nobre (aliás, em condição de evitar-lhes os vinte e oito dias de convocação, recomendando-lhes ao general de Beautrillis) do que às larguezas despropositadas de um rasto, que revelava nisso mesmo uma falta de experiência que só diante dele se chamava bondade. Por outro lado, aqueles para quem nobreza, inteligência, celebridade, situação, maneiras era algo inexistente, coberto por uma cifra; para esses, só havia uma hierarquia, o dinheiro que se tem, ou melhor, se é dado. Talvez o próprio Aimé, que, devido ao grande número de hotéis que servira, afirmava possuir uma grande sabedoria mundana, pertencesse à essa categoria. Quando muito, dava um toque social e de conhecimento das famílias a esse gênero de apreciação, dizendo, por exemplo, da princesa de Luxemburgo: 

- Há muito dinheiro ali? (o ponto de interrogação para informar-se ou para controlar definitivamente as informações que tomara antes de conseguir para um freguês um cozinheiro para Paris; ou lhe garantir uma mesa à esquerda, à entrada, com vista para o mar, em Balbec). Apesar disso, embora não desprovido de interesse, não o teria exibido da maneira tolamente desesperada do ascensorista. Aliás, a ingenuidade deste último talvez simplificasse as coisas. A comodidade de um grande hotel, de uma casa como o era antigamente a de Rachel e que, sem intermediários, à face até então glacial de um empregado ou de uma mulher, a vista de uma cédula de cem francos, e com mais forte razão uma de mil, mesmo dada uma vez ou outra, traz um sorriso e oferecimentos. Pelo contrário, na política, nas relações de amante para amante, há muita coisa colocada entre o dinheiro e a docilidade. Tantas coisas que mesmo aqueles em quem o dinheiro afinal desperta o sorriso são amiúde incapazes de acompanhar o processo interno que os liga, e se julgam e são mais delicados. E depois, isso filtra a conversação polida dos "Já sei o que me resta fazer: amanhã vão me encontrar no necrotério." Assim, encontram-se na sociedade polida poucos romancistas, poetas, todas essas criaturas sublimes que falam justamente do que não convém falar.

     Logo que ficamos sozinhos e fomos pelo corredor, Albertine disse: 

- Que é que você tem contra mim? - 

     Minha dureza para com ela fora mais penosa para mim mesmo? Não passaria, de minha parte, de uma astúcia inconsciente para levar minha amiga, perante mim, àquela atitude de temor e de súplica que me permitiria interrogá-la, e talvez ficar sabendo qual das duas hipóteses que eu há muito formava a seu respeito era a verdadeira? Sempre é certo que, quando ouvi sua pergunta, senti-me subitamente feliz como alguém que alcança um objetivo há muito desejado. Antes de responder, levei-a até minha porta. Esta, abrindo-se, fez refluir a luz cor-de-rosa que enchia o quarto e mudava a musselina branca das cortinas estendidas sobre a noite num tom de aurora. Cheguei à janela; as gaivotas haviam pousado novamente nas ondas; mas agora eram róseas. Fi-lo reparar a Albertine. 

- Não mude de assunto, seja franco comigo - disse ela.

     Menti. Declarei-lhe que ela devia ouvir primeiro uma confissão, a de uma grande paixão que eu tivera fazia algum tempo por Andrée, e o fiz com uma simplicidade e uma franqueza dignas do teatro, mas que na vida só temos para com os amores que já não sentimos. Retomando a mentira que pregara à Gilberte antes de minha primeira estada em Balbec, porém variando-a, e para melhor me fazer acreditado por ela quando lhe dizia agora que não a amava, fui ao ponto de deixar escapar que outrora estivera prestes a enamorar-me dela, mas que muito tempo se passara, que ela para mim não era mais que uma boa camarada e que, mesmo que o quisesse, já não me teria sido possível experimentar de novo a seu respeito sentimentos mais ardentes. Além disso, apoiando-me assim, diante de Albertine, nesses protestos de frieza para com ela, eu só fazia devido a uma circunstância e de um fim particulares tornar mais sensível, acentuar com mais intensidade esse ritmo binário que o amor adota em todos aqueles que duvidam demais de si mesmos para crer que uma mulher possa amá-los um dia; também que eles a possam amar de verdade. Conhecem-se o bastante para saber que, junto das mais diferentes, experimentavam as mesmas esperanças, as mesmas angústias, inventavam os mesmos romances, pronunciam as mesmas palavras, para igualmente se darem conta de que seus sentimentos e ações não se relacionam estreita e necessariamente com a mulher amada, mas passam a seu lado, salpicam na, circundam-na com fluxo que se lança ao longo dos rochedos, e o sentimento de sua própria instabilidade ainda faz aumentar neles a desconfiança de que essa mulher, por quem tanto gostariam de ser amados, não os ama em absoluto. Porém, faria o acaso, visto que ela é apenas um simples acidente colocado diante do jorrar dos nossos desejos, que fôssemos nós mesmos o objetivo; dos desejos dela? Assim, mesmo tendo necessidade de expandir para ela esses sentimentos, tão diversos dos sentimentos simplesmente humanos que nosso próximo nos inspira, esses sentimentos tão especiais que são os sentimentos amorosos, depois de ter dado um passo adiante, confessando àquela a quem amamos a nossa ternura por ela, nossas esperanças, e temendo desagradar-lhe, também confusos por sentir que a linguagem que lhe falamos não se formou expressamente para ela, que nos serviu; e servirá para outras, que se ela não nos ama não poderá nos compreender; e que então falamos com falta de gosto, com o impudor do pedante, que dirige às pessoas ignorantes frases sutis que não são para elas, esse terror, essa vergonha, trazem o contra ritmo, o refluxo, a necessidade ainda que recuando a princípio, retirando vivamente a simpatia primeiro confessada de retomar a ofensiva e de recuperar a estima, a autoridade; o ritmo duplo é perceptível nos diversos períodos de um mesmo amor, em todos os períodos correspondentes de amores similares, em todas as criaturas que melhor se analisam do que se prezam.
     No entanto, se estava um pouco mais vigorosamente acentuado que de hábito naquele discurso que eu fazia à Albertine era apenas para me permitir passar mais rápida e energicamente ao ritmo oposto que minha ternura escondia.
     Como Albertine tivesse dificuldade em acreditar que lhe dizia sobre minha impossibilidade de a amar de novo, por causa do tão longo intervalo, apoiei o que chamava de esquisitice do meu temperamento; dos exemplos tirados de pessoas a quem, por culpa delas ou minha, havia deixado passar a hora de as amar, sem poder, por mais que o desejasse encontrá-la depois. Assim, dava a um tempo a impressão de me desculpar com ela, como de uma indelicadeza, dessa incapacidade de recomeçar a amá-la, e de procurar fazê-la compreender os motivos psicológicos daquilo como se me fossem peculiares. Porém, explicando-me desse modo, e estendendo-me sobre o caso de Gilberte, com quem fora de fato rigorosamente verdadeiro o que o era muito pouco aplicado em relação a Albertine, não fazia mais que tornar minhas asserções tão plausíveis; quanto fingia acreditar que não o fossem. Sentindo que Albertine apreciava o que julgava ser "o meu modo franco de falar" e reconhecendo em minhas deduções a clareza da evidência; desculpei-me do primeiro, dizendo que bem sabia que a gente sempre desagradava ao dizer a verdade; e que esta, aliás, deveria parecer-lhe incompreensível. Ao contrário, ela me agradeceu a sinceridade e acrescentou que, quanto ao resto, compreendia às maravilhas um estado de espírito tão freqüente e tão natural.
     Confessando a Albertine um sentimento imaginário por Andrée e por ela própria uma indiferença que, para parecer totalmente sincera e sem exagero, assegurei-lhe incidentalmente, como por escrúpulo de polidez, não dever ser tomada muito ao pé da letra, pude enfim, sem recear que Albertine lhe suspeitasse amor, falar-lhe com uma doçura que há muito me recusava e que me pareceu deliciosa. Quase acariciei a minha confidente; falando de sua amiga, a quem amava, vinham-me lágrimas aos olhos. Mas, vindo aos fatos, disse-lhe por fim que ela sabia o que era o amor, suas suscetibilidades, seus sofrimentos e que talvez, como já velha amiga minha, se empenhasse em fazer cessar as grandes mágoas que me causava, não diretamente, pois não era ela que eu amava, se ousava repeti-lo sem constrangê-la, mas indiretamente, atingindo-me em meu amor por Andrée. Interrompi-me para olhar e mostrar a Albertine um grande pássaro solitário e apressado que, longe, à nossa frente, fustigando o ar com as batidas regulares de suas asas, passava rapidamente por sobre a praia, aqui e ali manchada de reflexos semelhantes a pedacinhos de papel vermelho rasgados, e atravessava-a em todo o comprimento, sem diminuir o voo, sem desviar sua atenção, sem mudar de caminho, como um emissário que vai levar bem longe uma mensagem urgente e de importância capital. 

 - Ele ao menos vai direto ao fim - comentou Albertine em tom de censura. 
- Você me diz isso porque não sabe o que eu desejaria dizer-lhe. Mas é tão difícil que prefiro desistir; estou certo de que você se aborreceria; e tudo só ficaria nisso: eu não seria mais feliz em nada com aquela a quem amo de fato e teria perdido uma boa camarada. 
- Mas eu lhe juro que não me aborreceria. -

     Tinha ela um ar tão suave, tão tristemente dócil e como que esperasse de mim a sua felicidade, que eu mal me segurava para não beijá-la e beijá-la quase com o mesmo tipo de prazer que sentiria em beijar minha mãe naquele rosto novo que já não oferecia a face alerta e ruborizada de uma gatinha teimosa e perversa, de narizinho róseo e arrebitado, mas parecia, na plenitude de sua tristeza acabrunhada, todo fundido na bondade em amplas vazas escorridas e pendentes. Abstraindo o meu amor como uma loucura crônica sem reação com ela, pondo-me no seu lugar, eu me enternecia diante daquela boa moça habituada a que tivessem consigo atitudes amáveis e leais, e que bom rapaz que julgara que eu podia ser para ela, a perseguia desde algumas semanas; perseguições que haviam atingido por fim o seu ponto culminante. Por colocar me num ponto de vista puramente humano, exterior à nós dois e de onde o meu amor ciumento se desvanecia, é que sentia por Albertine essa profunda piedade, que seria menor se não a amasse. De resto, na oscilação ritmada que vai da declaração à briga (o meio mais seguro, o mais eficazmente perigoso para formar, por movimentos opostos e sucessivos, um nó que não se desata e nos prende solidamente a uma pessoa), no seio do movimento de retração que constitui um dos dois elementos do ritmo, para que distinguir ainda os refluxos da piedade humana que opostos ao amor, embora tendo talvez inconscientemente a mesma causa em todo caso produzem os mesmos efeitos? Ao nos lembrarmos mais tarde do total de tudo o que fizemos por uma mulher, percebemos muitas vezes que os atos inspirados pelo desejo de mostrar que amamos, de nos fazer amados, de obter favores, não ocupam mais espaço do que os devidos à necessidade humana de reparar os erros relativos à criatura amada, por simples dever moral, como se não mais a amássemos. 

- Mas afinal, que poderei ter feito? - indagou Albertine.

     Bateram; era o ascensorista; a tia de Albertine, que passava de carro pelo hotel, havia parado para ver se por acaso ela não se achava ali e levá-la de volta. Albertine mandou dizer que não podia descer, que fossem jantar sem esperá-la, que não sabia a que horas chegaria à casa. 

- Mas sua tia não vai ficar aborrecida? 
- Imagine! Ela vai compreender muito bem.

     Assim, portanto, ao menos naquele momento, como talvez jamais houvesse outro, um encontro comigo acontecia ser, aos olhos de Albertine, devido às circunstâncias, algo de uma tão evidente importância que devia superar tudo o mais, e ao qual, reportando-se instintivamente sem dúvida a uma jurisprudência familiar, enumerando certas conjunturas em que, quando estava em jogo a carreira do Sr. Bontemps não haviam desistido diante de uma viagem, minha amiga tinha a certeza de que sua tia acharia muito natural ver sacrificada a hora do jantar. Essa hora remota que ela passava sem mim, com os seus, Albertine dava-me agora, fazendo-a deslizar até mim; eu podia utilizá-la à vontade. Acabei pois, ousar dizer-lhe o que me haviam contado do seu gênero de vida e que apesar da aversão profunda que me inspiravam as mulheres portadoras do mesmo vício, eu não me incomodara até que me haviam dito o nome de sua cúmplice, e que ela facilmente podia compreender, tendo em vista o quanto eu amava Andrée, como deveria ter sofrido. Talvez fora mais hábil dizer que também me haviam nomeado outras mulheres, que me eram indiferentes. Mas a brusca e terrível revelação que me fizera Cottard entrara em mim dilacerando-me, tal e qual, inteira, sem mais nada. E assim como, antes, eu jamais teria por mim mesmo a ideia de que Albertine amava Andrée, ou que pelo menos pudesse ter brincadeiras cariciosas com ela, caso Cottard não me houvesse chamado a atenção para a sua atitude ao valsar, da mesma forma não soubera passar deste pensamento ao outro, para mim totalmente diverso, de que Albertine pudesse ter com outras mulheres, que não Andrée, relações a que nem o afeto serviria de desculpa. Albertine, antes mesmo de me jurar que aquilo não era verdade, manifestou, como toda pessoa a quem acabam de falar dela desse modo, cólera, aborrecimento e, em relação ao caluniador desconhecido, a raivosa curiosidade de saber quem era e o desejo de ser confrontada com ele para poder confundi-lo. Mas garantiu-me que, pelo menos a mim, não me queria mal por isso. 

- Se isso fosse verdade, eu lhe teria confessado. Mas tanto eu como Andrée temos horror dessas coisas. Não chegamos à nossa idade sem ver mulheres de cabelos curtos, que têm maneiras masculinas e são do gênero que você diz. E não há nada que mais nos revolte.

     Albertine só me dava a sua palavra, peremptória e sem provas. Mas era justamente o que melhor podia me acalmar, pois o ciúme pertence a essa família de dúvidas doentias que cedem muito mais à energia de uma afirmativa do que à sua verossimilhança. É aliás próprio do amor tornar-nos a um tempo mais desconfiados e mais crédulos, fazer-nos suspeitar, mais depressa do que o faríamos quanto a uma outra, daquela a quem amamos, e mais facilmente acreditar em suas negações. É preciso amar para preocupar-se com que não existam apenas mulheres honestas, ou melhor, para reparar nisso, e é preciso também amar para desejar que existam, isto é, para ter certeza de que existem. É humano buscar a dor e logo livrar-se dela. As proposições capazes de o conseguir facilmente nos parecem verdadeiras, não se discute muito sobre um calmante que produz efeito. E depois, por múltipla que seja a criatura que amamos, pode em todo caso apresentar-nos duas personalidades essenciais conforme nos surja como nossa, ou com seus desejos voltados para outrem. A primeira dessas personalidades possui a força particular que nos impede de crer na realidade da segunda, o segredo específico para acalmar os sofrimentos que esta última provocou. A criatura amada é sucessivamente o mal e o remédio que suspende e agrava o mal. Sem dúvida, há muito tempo, pela força que exercia em minha imaginação e minha faculdade sensitiva o exemplo de Swann, eu estava preparado para julgar verdadeiro o que receava em vez daquilo que teria desejado. Assiti a doçura trazida pelas afirmações de Albertine esteve a um passo de me comprometer porque me lembrei da história de Odette. Mas disse a mim, mesmo que, se era justo considerar o pior não só quando, para comprometer os sofrimentos de Swann tentara colocar-me em seu lugar, mas também agora que se tratava de mim mesmo, buscando a verdade como se fosse de outro. Todavia não era preciso que, por crueldade para comigo, tratasse do que escolhe o local em que talvez seja mais útil, mas também onde o sol está mais exposto, eu chegasse ao erro de julgar uma suposição; mais ficara verdadeira que as outras, só porque era a mais dolorosa. Não haveria uma boa família burguesa, e Odette, verdadeiramente, entre Albertine, era moça de muito abismos, abandonada pela mãe desde a infância? A palavra de uma não podia ser comparada com a de outra. Além disso, Albertine não tinha em mentir-me com o mesmo interesse que Odette a Swann. E ainda a este, Odette havia contado o que Albertine acabara de negar. Eu teria portanto, cometido uma falha de raciocínio tão grave, embora inversa como a que me inclinasse uma hipótese apenas porque esta me fazia sofrer menos que as outras, separasse sem levar em consideração essas diferenças de fato nas outras situações; e reconstituindo a vida real de minha amiga unicamente segundo o que soubera acerca da de Odette. Tinha diante de mim uma nova Albertine, vislumbrada por mim diversas vezes, em minha primeira estadia em Balbec; em que de fato tinha sido sincera e bondosa; uma Albertine que, por afeição a mim, acabava por perdoar minhas suspeitas tratando de dissipá-las. Fez-me sentar a seu lado na cama. Agradeci-lhe o que havia dito, assegurei-lhe que estávamos reconciliados; que não seria mais duro com ela. Disse-lhe que, de qualquer modo deveria voltar para jantar em casa. Ela me perguntou se não me sentia bem assim. E, puxando a minha cabeça para uma carícia como jamais me fizera, que isso se devia à nossa rusga terminada. Passou ligeiramente a língua sobre meus lábios, o qual tentava entreabrir; mas não os descerrei. 

- Como és mau. - disse ela.

     Devia ter ido embora naquela mesma noite sem jamais tornar a vê-la. Desde então percebi que o amor não era compartilhado; porque existem pessoas para quem não existe amor compartilhado. Um pode gostar da felicidade daquele simulacro que me era dado nesses momentos únicos; nos quais a bondade da mulher, ou o seu capricho ao acaso, dizem sobre nosso desejos, numa perfeita coincidência, as palavras e as mesmas ações como se fôssemos verdadeiramente, amados. Sábio seria considerar com curiosidade uma pequena parcela de ventura, na falta da qual eu morreria sem ter suspeitado o que pode ser essa ventura para os corações menos difíceis ou mais favorecidos; supor que ela fazia parte de uma felicidade vasta e duradoura que só me aparecia naquele ponto; e, para que o dia seguinte não desse um desmentido a esse fingimento, não procurar pedir um favor a mais depois daquele que só fora alcançado devido a um artifício de um minuto de exceção. Deveria ter deixado Balbec, fechar-me na solidão e nela permanecer em harmonia com as últimas vibrações da voz que eu soubera por um instante fazer amorosa, e da qual só exigiria que nunca mais se dirigisse a mim, por medo de que, com uma palavra nova que daí em diante só poderia ser diferente, ela viesse ferir com uma dissonância o silêncio sensitivo onde, como que graças a um pedal, a tonalidade da ventura poderia sobreviver em mim por muito tempo.

continua na página 108...
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