volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Segundo
Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.
continuando...
Quando me despedi de Rosemonde e de Gisele, viram elas com espanto que Albertine,
parada, não as seguia.
- E então, Albertine, que estás fazendo? Não sabes que horas são? - Voltem - respondeu
lhes Albertine com autoridade. - Preciso falar com ele - acrescentou, apontando-me com ar
submisso. Rosemonde e Gisele me olharam, penetradas de um novo respeito por mim. Era
delicioso sentir que, por um momento ao menos, aos próprios olhos de Rosemonde e de Gisele,
eu era para Albertine algo de mais importante que a hora de regressar, que suas amigas, e podia
até mesmo ter com ela graves segredos aos quais era impossível misturá-las.
- Quer dizer que não te veremos esta noite?
- Não sei, depende dele. Em todo caso, até amanhã.
- Subamos para o meu quarto - disse-lhe eu depois que as amigas se afastaram.
Tomamos o elevador; ela se manteve em silêncio diante do ascensorista. O hábito de ser
obrigado a recorrer à observação pessoal e à dedução para conhecer os assuntos particulares
dos patrões, essas pessoas estranhas que conversam entre si e não lhes falam, desenvolve entre
os "empregados" (como o ascensorista denominava os criados) um grande poder de adivinhação,
maior do que entre os "patrões". Os órgãos se atrofiam ou tornam-se mais robustos ou mais sutis,
conforme aumenta ou diminui a necessidade de seu uso. Desde que existem estradas de ferro, a
necessidade de não perder o trem nos ensinou a prestar atenção nos minutos, enquanto que,
entre os antigos romanos, cuja astronomia era não só mais sumária; mas cuja vida era também
menos apressada, a noção não dos minutos, mas até das horas fixas, mal existia. Assim, o
ascensorista compreendera e esperava contar aos camaradas que Albertine e eu estávamos
preocupados. Mas ele nos falava sem parar porque era destituído de tato. Entretanto, eu via
desenhar-se em seu rosto, substituindo a impressão habitual de alegria e amizade com que me
fazia subir pelo elevador, um raro aspecto de abatimento e inquietação. Como lhe ignorava a
causa, para tentar distraí-lo, apesar de mais preocupado com Albertine, disse-lhe que a dama que
acabara de partir se chamava marquesa de Cambremer e não de Camembert. No andar pelo qual
passávamos então, avistei, carregando um travesseiro, uma camareira horrível que me saudou
com respeito, esperando uma gorjeta à saída. Gostaria eu de saber se fora ela que tanto havia
desejado na noite da minha primeira chegada a Balbec, mas nunca pude ter certeza. O
ascensorista jurou-me, com a sinceridade da maioria dos falsos testemunhos, mas sem
abandonar seu ar desesperado, que fora mesmo sob o nome de Camembert que a marquesa lhe
pedira que a anunciasse. E, para falar a verdade, era natural que tivesse entendido um nome que
já conhecia. Além disso, tendo sobre a nobreza e a natureza dos nomes com que se fazem os
títulos noções extremamente vagas, que são as de muita gente que não é ascensorista, o nome
de Camembert lhe parecera tanto mais verossímil, porque, sendo aquele queijo universalmente
conhecido, não seria de espantar que se houvesse extraído um marquesado de um renome tão
glorioso, a menos que não fosse o do marquesado que desse a sua celebridade ao queijo.
Todavia, como reparava que eu não queria parecer que me enganava, e sabia que os patrões
gostam de ver obedecidos seus caprichos mais fúteis e aceitas suas mentiras mais evidentes,
prometeu-me, como bom criado, passar a dizer Cambremer. É verdade que nenhum lojista da
cidade ou nenhum camponês das redondezas, onde o nome e a pessoa dos Cambremer eram
perfeitamente conhecidos, jamais poderiam cometer o erro do ascensorista. Mas o pessoal do
Grande Hotel de Balbec absolutamente não era da região. Provinha diretamente, com todo o
material, de Biarritz, Nice e Monte-Carlo, uma parte tendo sido encaminhada para Deauville, outra
para Dinard e a terceira reservada para Balbec. Mas a dor angustiosa do ascensorista não fez
mais que crescer. Para que ele assim se esquecesse de me testemunhar o seu devotamento com
os sorrisos costumeiros, era preciso que lhe tivesse acontecido alguma desgraça. Talvez tivesse
sido "enviado". Prometi a mim mesmo, nesse caso, tentar conseguir que ele permanecesse no
emprego, pois o gerente me garantira que ratificaria tudo o que eu decidisse em rei, - ao seu
pessoal. - O senhor pode fazer sempre o que desejar, eu autorizo previamente. -
De súbito, como acabasse de sair do elevador, comparara a aflição e o ar desesperado do
ascensorista. Por causa da presença de Albertine, eu não lhe dera os cem sous que tinha o hábito
de lhe pôr na mão, ao subir. E esse imbecil, em vez de entender que eu não queria fazer alarde
de gorjetas diante de terceiros, começara a tremer, supondo que aquilo estava acabado de uma
vez por todas, que nunca mais lhe daria - Pensava que eu caíra no "desvio" (como teria dito o
duque de Guermantes tal suposição não lhe inspirava nenhuma piedade por mim, mas uma
terrível decepção egoísta. Disse comigo que eu era menos desarrazoado do que achava minha
mãe, quando não ousava deixar de dar um dia a soma exagerada, mas febrilmente esperada, que
dera na véspera. Mas também sendo dado até ali por mim, e sem qualquer dúvida, ao habitual ar
de alegria em que não hesitava em ver um sinal de simpatia pareceu-me desmentir segura
significação. Ao ver o ascensorista, no seu desespero, prestes de atirar do quinto andar,
perguntei-me se (caso se achassem respectivamente trocadas as nossas condições sociais, por
exemplo, devido a uma revogação) em vez de manobrar gentilmente para mim o elevador, o
ascensorista se transformasse num burguês, eu não teria me jogado, e se não há certas classes
do povo mais duplicidade que entre os mundanos; mas sem dúvida, reserva-se para a nossa
ausência as frases desfavoráveis, de onde a atitude a nosso respeito não seria insultuosa se
fôssemos inferiores.
No entanto, não se pode dizer que no hotel de Balbec o ascensorista fosse o mais
interesseiro. Sob esse aspecto, o pessoal dividia-se em duas categorias: por um lado, os que
faziam diferenças entre os hóspedes mais sensíveis à gorjeta razoável de um velho nobre (aliás,
em condição de evitar-lhes os vinte e oito dias de convocação, recomendando-lhes ao general de
Beautrillis) do que às larguezas despropositadas de um rasto, que revelava nisso mesmo uma
falta de experiência que só diante dele se chamava bondade. Por outro lado, aqueles para quem
nobreza, inteligência, celebridade, situação, maneiras era algo inexistente, coberto por uma cifra;
para esses, só havia uma hierarquia, o dinheiro que se tem, ou melhor, se é dado. Talvez o
próprio Aimé, que, devido ao grande número de hotéis que servira, afirmava possuir uma grande
sabedoria mundana, pertencesse à essa categoria. Quando muito, dava um toque social e de
conhecimento das famílias a esse gênero de apreciação, dizendo, por exemplo, da princesa de
Luxemburgo:
- Há muito dinheiro ali? (o ponto de interrogação para informar-se ou para controlar
definitivamente as informações que tomara antes de conseguir para um freguês um cozinheiro
para Paris; ou lhe garantir uma mesa à esquerda, à entrada, com vista para o mar, em Balbec).
Apesar disso, embora não desprovido de interesse, não o teria exibido da maneira tolamente
desesperada do ascensorista. Aliás, a ingenuidade deste último talvez simplificasse as coisas. A
comodidade de um grande hotel, de uma casa como o era antigamente a de Rachel e que, sem
intermediários, à face até então glacial de um empregado ou de uma mulher, a vista de uma
cédula de cem francos, e com mais forte razão uma de mil, mesmo dada uma vez ou outra, traz
um sorriso e oferecimentos. Pelo contrário, na política, nas relações de amante para amante, há
muita coisa colocada entre o dinheiro e a docilidade. Tantas coisas que mesmo aqueles em quem
o dinheiro afinal desperta o sorriso são amiúde incapazes de acompanhar o processo interno que
os liga, e se julgam e são mais delicados. E depois, isso filtra a conversação polida dos "Já sei o
que me resta fazer: amanhã vão me encontrar no necrotério." Assim, encontram-se na sociedade
polida poucos romancistas, poetas, todas essas criaturas sublimes que falam justamente do que
não convém falar.
Logo que ficamos sozinhos e fomos pelo corredor, Albertine disse:
- Que é que você tem contra mim? -
Minha dureza para com ela fora mais penosa para mim mesmo? Não passaria, de minha
parte, de uma astúcia inconsciente para levar minha amiga, perante mim, àquela atitude de temor
e de súplica que me permitiria interrogá-la, e talvez ficar sabendo qual das duas hipóteses que eu
há muito formava a seu respeito era a verdadeira? Sempre é certo que, quando ouvi sua
pergunta, senti-me subitamente feliz como alguém que alcança um objetivo há muito desejado.
Antes de responder, levei-a até minha porta. Esta, abrindo-se, fez refluir a luz cor-de-rosa que
enchia o quarto e mudava a musselina branca das cortinas estendidas sobre a noite num tom de
aurora. Cheguei à janela; as gaivotas haviam pousado novamente nas ondas; mas agora eram
róseas. Fi-lo reparar a Albertine.
- Não mude de assunto, seja franco comigo - disse ela.
Menti. Declarei-lhe que ela devia ouvir primeiro uma confissão, a de uma grande paixão
que eu tivera fazia algum tempo por Andrée, e o fiz com uma simplicidade e uma franqueza
dignas do teatro, mas que na vida só temos para com os amores que já não sentimos. Retomando
a mentira que pregara à Gilberte antes de minha primeira estada em Balbec, porém variando-a, e
para melhor me fazer acreditado por ela quando lhe dizia agora que não a amava, fui ao ponto de
deixar escapar que outrora estivera prestes a enamorar-me dela, mas que muito tempo se
passara, que ela para mim não era mais que uma boa camarada e que, mesmo que o quisesse, já
não me teria sido possível experimentar de novo a seu respeito sentimentos mais ardentes. Além
disso, apoiando-me assim, diante de Albertine, nesses protestos de frieza para com ela, eu só
fazia devido a uma circunstância e de um fim particulares tornar mais sensível, acentuar com mais
intensidade esse ritmo binário que o amor adota em todos aqueles que duvidam demais de si
mesmos para crer que uma mulher possa amá-los um dia; também que eles a possam amar de
verdade. Conhecem-se o bastante para saber que, junto das mais diferentes, experimentavam as
mesmas esperanças, as mesmas angústias, inventavam os mesmos romances, pronunciam as
mesmas palavras, para igualmente se darem conta de que seus sentimentos e ações não se
relacionam estreita e necessariamente com a mulher amada, mas passam a seu lado, salpicam
na, circundam-na com fluxo que se lança ao longo dos rochedos, e o sentimento de sua própria
instabilidade ainda faz aumentar neles a desconfiança de que essa mulher, por quem tanto
gostariam de ser amados, não os ama em absoluto. Porém, faria o acaso, visto que ela é apenas
um simples acidente colocado diante do jorrar dos nossos desejos, que fôssemos nós mesmos o
objetivo; dos desejos dela? Assim, mesmo tendo necessidade de expandir para ela esses
sentimentos, tão diversos dos sentimentos simplesmente humanos que nosso próximo nos
inspira, esses sentimentos tão especiais que são os sentimentos amorosos, depois de ter dado
um passo adiante, confessando àquela a quem amamos a nossa ternura por ela, nossas
esperanças, e temendo desagradar-lhe, também confusos por sentir que a linguagem que lhe
falamos não se formou expressamente para ela, que nos serviu; e servirá para outras, que se ela
não nos ama não poderá nos compreender; e que então falamos com falta de gosto, com o
impudor do pedante, que dirige às pessoas ignorantes frases sutis que não são para elas, esse
terror, essa vergonha, trazem o contra ritmo, o refluxo, a necessidade ainda que recuando a
princípio, retirando vivamente a simpatia primeiro confessada de retomar a ofensiva e de
recuperar a estima, a autoridade; o ritmo duplo é perceptível nos diversos períodos de um mesmo
amor, em todos os períodos correspondentes de amores similares, em todas as criaturas que
melhor se analisam do que se prezam.
No entanto, se estava um pouco mais vigorosamente acentuado que de hábito naquele
discurso que eu fazia à Albertine era apenas para me permitir passar mais rápida e energicamente
ao ritmo oposto que minha ternura escondia.
Como Albertine tivesse dificuldade em acreditar que lhe dizia sobre minha impossibilidade
de a amar de novo, por causa do tão longo intervalo, apoiei o que chamava de esquisitice do meu
temperamento; dos exemplos tirados de pessoas a quem, por culpa delas ou minha, havia
deixado passar a hora de as amar, sem poder, por mais que o desejasse encontrá-la depois.
Assim, dava a um tempo a impressão de me desculpar com ela, como de uma indelicadeza,
dessa incapacidade de recomeçar a amá-la, e de procurar fazê-la compreender os motivos
psicológicos daquilo como se me fossem peculiares. Porém, explicando-me desse modo, e
estendendo-me sobre o caso de Gilberte, com quem fora de fato rigorosamente verdadeiro o que
o era muito pouco aplicado em relação a Albertine, não fazia mais que tornar minhas asserções
tão plausíveis; quanto fingia acreditar que não o fossem. Sentindo que Albertine apreciava o que
julgava ser "o meu modo franco de falar" e reconhecendo em minhas deduções a clareza da
evidência; desculpei-me do primeiro, dizendo que bem sabia que a gente sempre desagradava ao
dizer a verdade; e que esta, aliás, deveria parecer-lhe incompreensível. Ao contrário, ela me
agradeceu a sinceridade e acrescentou que, quanto ao resto, compreendia às maravilhas um
estado de espírito tão freqüente e tão natural.
Confessando a Albertine um sentimento imaginário por Andrée e por ela própria uma
indiferença que, para parecer totalmente sincera e sem exagero, assegurei-lhe incidentalmente,
como por escrúpulo de polidez, não dever ser tomada muito ao pé da letra, pude enfim, sem
recear que Albertine lhe suspeitasse amor, falar-lhe com uma doçura que há muito me recusava e
que me pareceu deliciosa. Quase acariciei a minha confidente; falando de sua amiga, a quem
amava, vinham-me lágrimas aos olhos. Mas, vindo aos fatos, disse-lhe por fim que ela sabia o que
era o amor, suas suscetibilidades, seus sofrimentos e que talvez, como já velha amiga minha, se
empenhasse em fazer cessar as grandes mágoas que me causava, não diretamente, pois não era
ela que eu amava, se ousava repeti-lo sem constrangê-la, mas indiretamente, atingindo-me em
meu amor por Andrée. Interrompi-me para olhar e mostrar a Albertine um grande pássaro solitário
e apressado que, longe, à nossa frente, fustigando o ar com as batidas regulares de suas asas,
passava rapidamente por sobre a praia, aqui e ali manchada de reflexos semelhantes a
pedacinhos de papel vermelho rasgados, e atravessava-a em todo o comprimento, sem diminuir o
voo, sem desviar sua atenção, sem mudar de caminho, como um emissário que vai levar bem
longe uma mensagem urgente e de importância capital.
- Ele ao menos vai direto ao fim - comentou Albertine em tom de censura.
- Você me diz isso porque não sabe o que eu desejaria dizer-lhe. Mas é tão difícil que
prefiro desistir; estou certo de que você se aborreceria; e tudo só ficaria nisso: eu não seria mais
feliz em nada com aquela a quem amo de fato e teria perdido uma boa camarada.
- Mas eu lhe juro que não me aborreceria. -
Tinha ela um ar tão suave, tão tristemente dócil e como que esperasse de mim a sua
felicidade, que eu mal me segurava para não beijá-la e beijá-la quase com o mesmo tipo de prazer
que sentiria em beijar minha mãe naquele rosto novo que já não oferecia a face alerta e
ruborizada de uma gatinha teimosa e perversa, de narizinho róseo e arrebitado, mas parecia, na
plenitude de sua tristeza acabrunhada, todo fundido na bondade em amplas vazas escorridas e
pendentes. Abstraindo o meu amor como uma loucura crônica sem reação com ela, pondo-me no
seu lugar, eu me enternecia diante daquela boa moça habituada a que tivessem consigo atitudes
amáveis e leais, e que bom rapaz que julgara que eu podia ser para ela, a perseguia desde
algumas semanas; perseguições que haviam atingido por fim o seu ponto culminante. Por colocar
me num ponto de vista puramente humano, exterior à nós dois e de onde o meu amor ciumento se
desvanecia, é que sentia por Albertine essa profunda piedade, que seria menor se não a amasse.
De resto, na oscilação ritmada que vai da declaração à briga (o meio mais seguro, o mais
eficazmente perigoso para formar, por movimentos opostos e sucessivos, um nó que não se
desata e nos prende solidamente a uma pessoa), no seio do movimento de retração que constitui
um dos dois elementos do ritmo, para que distinguir ainda os refluxos da piedade humana que
opostos ao amor, embora tendo talvez inconscientemente a mesma causa em todo caso
produzem os mesmos efeitos? Ao nos lembrarmos mais tarde do total de tudo o que fizemos por
uma mulher, percebemos muitas vezes que os atos inspirados pelo desejo de mostrar que
amamos, de nos fazer amados, de obter favores, não ocupam mais espaço do que os devidos à
necessidade humana de reparar os erros relativos à criatura amada, por simples dever moral,
como se não mais a amássemos.
- Mas afinal, que poderei ter feito? - indagou Albertine.
Bateram; era o ascensorista; a tia de Albertine, que passava de carro pelo hotel, havia
parado para ver se por acaso ela não se achava ali e levá-la de volta. Albertine mandou dizer que
não podia descer, que fossem jantar sem esperá-la, que não sabia a que horas chegaria à casa.
- Mas sua tia não vai ficar aborrecida?
- Imagine! Ela vai compreender muito bem.
Assim, portanto, ao menos naquele momento, como talvez jamais houvesse outro, um
encontro comigo acontecia ser, aos olhos de Albertine, devido às circunstâncias, algo de uma tão
evidente importância que devia superar tudo o mais, e ao qual, reportando-se instintivamente sem
dúvida a uma jurisprudência familiar, enumerando certas conjunturas em que, quando estava em
jogo a carreira do Sr. Bontemps não haviam desistido diante de uma viagem, minha amiga tinha a
certeza de que sua tia acharia muito natural ver sacrificada a hora do jantar. Essa hora remota
que ela passava sem mim, com os seus, Albertine dava-me agora, fazendo-a deslizar até mim; eu
podia utilizá-la à vontade. Acabei pois, ousar dizer-lhe o que me haviam contado do seu gênero
de vida e que apesar da aversão profunda que me inspiravam as mulheres portadoras do mesmo
vício, eu não me incomodara até que me haviam dito o nome de sua cúmplice, e que ela
facilmente podia compreender, tendo em vista o quanto eu amava Andrée, como deveria ter
sofrido. Talvez fora mais hábil dizer que também me haviam nomeado outras mulheres, que me
eram indiferentes. Mas a brusca e terrível revelação que me fizera Cottard entrara em mim
dilacerando-me, tal e qual, inteira, sem mais nada. E assim como, antes, eu jamais teria por mim
mesmo a ideia de que Albertine amava Andrée, ou que pelo menos pudesse ter brincadeiras
cariciosas com ela, caso Cottard não me houvesse chamado a atenção para a sua atitude ao
valsar, da mesma forma não soubera passar deste pensamento ao outro, para mim totalmente
diverso, de que Albertine pudesse ter com outras mulheres, que não Andrée, relações a que nem
o afeto serviria de desculpa. Albertine, antes mesmo de me jurar que aquilo não era verdade,
manifestou, como toda pessoa a quem acabam de falar dela desse modo, cólera, aborrecimento
e, em relação ao caluniador desconhecido, a raivosa curiosidade de saber quem era e o desejo de
ser confrontada com ele para poder confundi-lo. Mas garantiu-me que, pelo menos a mim, não me
queria mal por isso.
- Se isso fosse verdade, eu lhe teria confessado. Mas tanto eu como Andrée temos horror
dessas coisas. Não chegamos à nossa idade sem ver mulheres de cabelos curtos, que têm
maneiras masculinas e são do gênero que você diz. E não há nada que mais nos revolte.
Albertine só me dava a sua palavra, peremptória e sem provas. Mas era justamente o que
melhor podia me acalmar, pois o ciúme pertence a essa família de dúvidas doentias que cedem
muito mais à energia de uma afirmativa do que à sua verossimilhança. É aliás próprio do amor
tornar-nos a um tempo mais desconfiados e mais crédulos, fazer-nos suspeitar, mais depressa do
que o faríamos quanto a uma outra, daquela a quem amamos, e mais facilmente acreditar em
suas negações. É preciso amar para preocupar-se com que não existam apenas mulheres
honestas, ou melhor, para reparar nisso, e é preciso também amar para desejar que existam, isto
é, para ter certeza de que existem. É humano buscar a dor e logo livrar-se dela. As proposições
capazes de o conseguir facilmente nos parecem verdadeiras, não se discute muito sobre um
calmante que produz efeito. E depois, por múltipla que seja a criatura que amamos, pode em todo
caso apresentar-nos duas personalidades essenciais conforme nos surja como nossa, ou com
seus desejos voltados para outrem. A primeira dessas personalidades possui a força particular
que nos impede de crer na realidade da segunda, o segredo específico para acalmar os
sofrimentos que esta última provocou. A criatura amada é sucessivamente o mal e o remédio que
suspende e agrava o mal. Sem dúvida, há muito tempo, pela força que exercia em minha
imaginação e minha faculdade sensitiva o exemplo de Swann, eu estava preparado para julgar
verdadeiro o que receava em vez daquilo que teria desejado. Assiti a doçura trazida pelas
afirmações de Albertine esteve a um passo de me comprometer porque me lembrei da história de
Odette. Mas disse a mim, mesmo que, se era justo considerar o pior não só quando, para
comprometer os sofrimentos de Swann tentara colocar-me em seu lugar, mas também agora que
se tratava de mim mesmo, buscando a verdade como se fosse de outro. Todavia não era preciso
que, por crueldade para comigo, tratasse do que escolhe o local em que talvez seja mais útil, mas
também onde o sol está mais exposto, eu chegasse ao erro de julgar uma suposição; mais ficara
verdadeira que as outras, só porque era a mais dolorosa. Não haveria uma boa família burguesa,
e Odette, verdadeiramente, entre Albertine, era moça de muito abismos, abandonada pela mãe
desde a infância? A palavra de uma não podia ser comparada com a de outra. Além disso,
Albertine não tinha em mentir-me com o mesmo interesse que Odette a Swann. E ainda a este,
Odette havia contado o que Albertine acabara de negar. Eu teria portanto, cometido uma falha de
raciocínio tão grave, embora inversa como a que me inclinasse uma hipótese apenas porque esta
me fazia sofrer menos que as outras, separasse sem levar em consideração essas diferenças de
fato nas outras situações; e reconstituindo a vida real de minha amiga unicamente segundo o que
soubera acerca da de Odette. Tinha diante de mim uma nova Albertine, vislumbrada por mim
diversas vezes, em minha primeira estadia em Balbec; em que de fato tinha sido sincera e
bondosa; uma Albertine que, por afeição a mim, acabava por perdoar minhas suspeitas tratando
de dissipá-las. Fez-me sentar a seu lado na cama. Agradeci-lhe o que havia dito, assegurei-lhe
que estávamos reconciliados; que não seria mais duro com ela. Disse-lhe que, de qualquer modo
deveria voltar para jantar em casa. Ela me perguntou se não me sentia bem assim. E, puxando a
minha cabeça para uma carícia como jamais me fizera, que isso se devia à nossa rusga
terminada. Passou ligeiramente a língua sobre meus lábios, o qual tentava entreabrir; mas não os
descerrei.
- Como és mau. - disse ela.
Devia ter ido embora naquela mesma noite sem jamais tornar a vê-la. Desde então percebi
que o amor não era compartilhado; porque existem pessoas para quem não existe amor
compartilhado. Um pode gostar da felicidade daquele simulacro que me era dado nesses
momentos únicos; nos quais a bondade da mulher, ou o seu capricho ao acaso, dizem sobre
nosso desejos, numa perfeita coincidência, as palavras e as mesmas ações como se fôssemos
verdadeiramente, amados. Sábio seria considerar com curiosidade uma pequena parcela de
ventura, na falta da qual eu morreria sem ter suspeitado o que pode ser essa ventura para os
corações menos difíceis ou mais favorecidos; supor que ela fazia parte de uma felicidade vasta e
duradoura que só me aparecia naquele ponto; e, para que o dia seguinte não desse um
desmentido a esse fingimento, não procurar pedir um favor a mais depois daquele que só fora
alcançado devido a um artifício de um minuto de exceção. Deveria ter deixado Balbec, fechar-me
na solidão e nela permanecer em harmonia com as últimas vibrações da voz que eu soubera por
um instante fazer amorosa, e da qual só exigiria que nunca mais se dirigisse a mim, por medo de
que, com uma palavra nova que daí em diante só poderia ser diferente, ela viesse ferir com uma
dissonância o silêncio sensitivo onde, como que graças a um pedal, a tonalidade da ventura
poderia sobreviver em mim por muito tempo.
continua na página 108...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Quando me despedi de Rosemonde e de Gisele)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7
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