Mostrando postagens com marcador Sodoma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sodoma. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap IV - Só esperava uma oportunidade)

em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Quarto

Brusca reviravolta para Albertine. - Desolação pela madrugada. - Vou imediatamente para Paris com Albertine.  
 

    Só esperava uma oportunidade para a ruptura definitiva. E, uma noite, como mamãe partisse no dia seguinte para Combray, onde ia assistir uma irmã de sua mãe em sua última enfermidade, deixando-me para que aproveitasse os ares marinhos, como o teria desejado a minha avó, eu lhe anunciara que irrevogavelmente estava decidido a não casar com Albertine e em breve ia deixar de vê-la. Estava contente de ter podido, com estas palavras, dar uma satisfação à minha mãe na véspera de sua partida. Ela não me ocultara que isto havia sido de fato uma satisfação bem grande. Precisava também explicar-me com Albertine. Como voltasse com ela da Raspeliere, tendo os fiéis descido, uns em Saint-Mars-le-Vêtu, outros em Saint-Pierre-des lfs, outros ainda em Doncieres, sentindo-me especialmente feliz e desligado dela, decidira-me, agora que só havia nós dois no vagão, a abordar finalmente o assunto. Aliás, a verdade é que aquela dentre as moças de Balbec que eu amava, embora ausente naquela ocasião como suas amigas, mas que ia voltar (agradava-me estar com todas, pois cada uma delas tinha, para mim, como no primeiro dia, algo da essência das outras, como se pertencesse a uma raça à parte), era Andrée. Visto que ela ia chegar de novo a Balbec dentro de alguns dias, certamente viria logo me visitar, e então, para estar livre, não casar com ela se não quisesse, para poder ir a Veneza e, no entanto, daqui até lá, tê-la todinha para mim, o meio que adotaria seria não dar a entender que me aproximava demais dela e, desde a sua chegada, quando estivéssemos conversando, lhe diria: - Que pena que eu não a tenha visto algumas semanas antes! Eu a teria amado; agora, meu coração já está preso. Mas isto não quer dizer nada, nós nos veremos amiúde, pois estou entristecido com meu outro amor, e você me ajudará a consolar-me. - Sorria interiormente ao pensar nessa conversação, pois, assim, daria a Andrée a ilusão de que não a amava de verdade; desse modo, ela não ficaria cansada de mim e eu aproveitaria alegre e suavemente a sua ternura. Mas tudo isso só tornava mais necessário falar afinal seriamente com Albertine, para não agir de forma indelicada, e, visto estar resolvido a me dedicar à sua amiga, era preciso que ela, Albertine, soubesse perfeitamente que eu não a amava. Era preciso dizer-lhe imediatamente, pois Andrée podia chegar a qualquer momento. Porém, como nos aproximássemos de Parville, senti que não teríamos tempo nessa noite e que era preferível deixar para o dia seguinte o que agora estava irrevogavelmente decidido. Portanto, contentei-me em lhe falar do jantar que tivéramos na casa dos Verdurin. No momento em que repunha a sua capa, tendo o trem acabado de deixar Incarville, última estação antes de Parville, ela me disse: 

- Então amanhã, de novo Verdurin, não se esqueça que é você quem vai me buscar. -

     Não pude evitar dizer com bastante secura: 

- Sim, a menos que eu "largue", pois começo a achar esta vida verdadeiramente idiota. Em todo caso, se formos, para que o meu tempo na Raspeliere não seja inteiramente perdido, será necessário que pense em pedir à Sra. Verdurin algo que muito possa interessar-me, ser um objeto de estudo e me dar prazer, pois de fato tive pouco prazer este ano em Balbec. 
 - Isto não é gentil para comigo, mas não lhe quero mal porque sinto que você está nervoso. Qual seria esse prazer? 
- Que a Sra. Verdurin faça tocar para mim peças de um compositor cuja obra conhece muito bem. Eu também conheço uma, porém creio que há outras e eu teria necessidade de saber se foram editadas, se são diversas das primeiras. 
- Que compositor? 
- Minha queridinha, quando eu te disser que se chama Vinteuil, ficarás mais adiantada? - Podemos ter desenvolvido todas as ideias possíveis, que a verdade nunca penetra nelas, e é de fora, quando menos se espera, que ela nos dá sua tremenda picada e nos fere para sempre. 
- Você não sabe como me diverte - respondeu Albertine erguendo-se, pois o trem ia parar. - Não só isto me diz muito mais do que você poderia pensar, mas mesmo sem a Sra. Verdurin poderei lhe dar todas as informações que quiser. Lembra-se que falei de uma amiga mais velha, que me serviu de mãe e de irmã, e com quem passei em Trieste os meus melhores anos e que, aliás, devo reencontrar dentro de algumas semanas em Cherburgo, de onde viajaremos juntas (é meio barroco, mas você sabe como amo o mar); pois bem, essa amiga (oh, não é absolutamente o tipo de mulher que você poderia imaginar!), veja que coisa extraordinária, é justamente a melhor amiga da filha desse Vinteuil, e eu conheço quase tanto a filha de Vinteuil. Nunca as chamo senão de minhas duas irmãs mais velhas. Não me sinto constrangida em mostrar que sua pequena Albertine poderá lhe ser útil nesses assuntos de música, de que você diz, aliás com razão, que não entendo nada. -

     A essas palavras, pronunciadas quando chegávamos à estação de Parville, tão longe de Combray e de Montjouvain, tanto tempo depois da morte de Vinteuil, uma imagem se agitava em meu coração, uma imagem mantida em reserva durante tantos anos que, mesmo se tivesse podido adivinhar o seu poder nocivo ao armazená-la outrora, acharia que, com o passar do tempo, ela o tivesse perdido inteiramente; conservada viva no fundo de mim como Orestes, cuja morte os deuses haviam impedido, a fim de que, no dia marcado, regressasse à sua terra para punir o assassinato de Agamenon - para meu suplício, talvez para meu castigo, quem sabe, de ter deixado morrer a minha avó; surgindo de súbito do fundo da noite onde parecia sepultada para sempre e ferindo, como um Vingador, a fim de inaugurar-me uma vida terrível, nova e merecida, talvez também para expor a meus olhos as funestas consequências que as más ações engendram indefinidamente, não apenas para aqueles que as cometeram, mas para aqueles que não acreditaram, que só fizeram contemplar um espetáculo curioso e divertido, como eu, ai de mim, naquele distante entardecer em Montjouvain, escondido atrás de um arbusto, onde (como quando escutara complacentemente a narrativa dos amores de Swann) havia deixado que se abrisse perigosamente em mim a via funesta do Saber, destinada a ser dolorosa. E nesse mesmo tempo da minha maior dor, tive uma sensação quase orgulhosa, quase alegre, como a de um homem a quem o choque recebido faria dar tamanho salto que ele alcançasse um ponto a que nenhum esforço o poderia ter levantado. Albertine, amiga da Srta. Vinteuil e da amiga desta, praticante profissional do safismo, era, junto do que eu imaginara nas maiores dúvidas, o que é, para o pequeno acústico da Exposição de 1889, de que mal se esperava pudesse ir de uma casa a outra, o telefone que voa sobre as ruas, as cidades, os campos, os mares, ligando países. Era uma terra incógnita terrível aonde eu fora aterrissar, uma nova fase de sofrimentos insuspeitados que se abria. E, entretanto, esse dilúvio da realidade que nos submerge, se é enorme em face de nossas tímidas e ínfimas suposições, era pressentido por elas. Era sem dúvida algo como o que eu acabava de saber, era algo como a amizade de Albertine e da Srta. Vinteuil, algo que meu espírito não teria sabido inventar, mas que eu obscuramente apreendia quando me inquietava tanto ao ver Albertine junto de Andrée. Muitas vezes, é unicamente por falta de espírito criador que não se vai muito longe no sofrimento. E a mais terrível realidade nos concede, ao mesmo tempo que o sofrimento, a alegria de uma bela descoberta, porque só faz doar uma forma clara e nova ao que ruminávamos há muito sem desconfiar.
     O trem havia parado em Parville, e como éramos os seus únicos passageiros, foi com uma voz amolentada pela sensação de inutilidade da tarefa, pelo mesmo hábito que no entanto o fazia cumpri-la, inspirando-lhe a um tempo a exatidão e a indolência, e mais ainda, o desejo de dormir, que o empregado gritou:

- Parville! -

     Albertine, sentada à minha frente e vendo que chegara a seu destino, deu alguns passos do fundo do vagão onde estávamos e abriu a portinhola. Mas este movimento, que ela assim fazia para descer, me dilacerava intoleravelmente o coração, como se, ao contrário da posição independente do meu corpo, que a dois passos dele parecia ocupar o de Albertine, tal separação espacial, que um desenhista verídico seria forçado a figurar entre nós, não passasse de uma aparência, e como se, para quem quisesse redesenhar as coisas conforme a realidade verdadeira, fosse preciso agora colocar Albertine, não a certa distância de mim, mas dentro de mim. Ela me fazia tanto mal ao se afastar que, agarrando-a, puxei-a desesperadamente pelo braço. 
- Seria materialmente impossível - perguntei - que você fosse dormir esta noite em Balbec? 
- Materialmente, não. Mas estou caindo de sono. 
- Você me faria um imenso favor... 
 - Pois seja, embora eu não compreenda; por que não me falou mais cedo? De qualquer modo, fico. -  

     Minha mãe dormia quando, depois de ter mandado que dessem a Albertine um quarto situado em outro andar, voltei para o meu. Sentei-me junto à janela, reprimindo os soluços para que não me ouvisse minha mãe, que só estava separada de mim por um delgado tabique. Nem sequer pensara em fechar os postigos, pois, num dado instante, erguendo os olhos, vi à minha frente, no céu, aquele mesmo clarão de um vermelho tinto que se via no restaurante de Rivebelle, num estudo que Elstir fizera de um sol poente. Lembrei-me da exaltação que me provocara, quando a vira do trem no dia da minha primeira chegada a Balbec, essa mesma imagem de uma tarde que não precedia a noite, mas um novo dia. Porém, agora, nenhum dia mais seria novo para mim, nem mais me despertaria o desejo de uma felicidade desconhecida, e somente prolongaria meus sofrimentos até que eu não tivesse mais forças para suportá-los. A verdade daquilo que Cottard me havia dito no cassino de Parvillefi [ou Incarville] já não me apresentava dúvidas. O que eu temera, e vagamente suspeitara havia muito tempo em Albertine, o que meu instinto deduzia de todo o seu ser, e aquilo que meus raciocínios, dirigidos pelo meu desejo, tinham me feito pouco a pouco negar, era verdade! Por trás de Albertine, eu já não via as montanhas azuladas do mar, mas o quarto de Montjouvain em que ela caía nos braços da Srta. Vinteuil com aquele riso que ela fazia ouvir como o som ignorado do seu prazer. Pois, linda como era Albertine, como podia ser que a Srta. Vinteuil, com os gostos que tinha, não lhe pedisse para satisfazê-los? E a prova de que Albertine não ficara chocada com isso e havia consentido é que não tinham brigado e a sua intimidade não cessara de aumentar. E aquele gracioso movimento de Albertine, ao pousar o queixo no ombro de Rosemonde, olhando-a a sorrir e depondo-lhe um beijo no pescoço, esse movimento que me lembrara a Srta. Vinteuil e para cuja interpretação eu todavia hesitara em admitir que uma mesma linha traçada por um gesto resultasse obrigatoriamente de uma mesma tendência, quem sabe se Albertine simplesmente não o aprendera com a Srta. Vinteuil? Pouco a pouco o céu apagado se iluminava. Eu que até então nunca havia despertado sem sorrir para as coisas mais humildes, para a taça de café com leite, o ruído da chuva, o estrondo do vento, senti que o dia que estava para nascer em alguns instantes, e todos os dias que se seguiriam, nunca mais me haveriam de trazer a esperança de uma felicidade desconhecida, e sim o prolongamento de meu martírio. Aferrava-me à vida ainda; sabia que nada mais tinha a esperar dela que não fosse cruel. Corri para o elevador, apesar da hora indevida, para chamar o ascensorista, que preenchia as funções de vigia noturno, e lhe pedi que fosse ao quarto de Albertine dizer-lhe que eu tinha algo de importante para lhe comunicar, caso ela pudesse receber-me. 

 - A senhorita prefere vir ela própria - veio ele me responder. - Estará aqui num instante. - De fato, em breve Albertine entrou de robe de chambre. 
 - Albertine - disse-lhe bem baixinho, recomendando que não elevasse a voz para não acordar minha mãe, de quem estávamos separados por esse tabique cuja delgadez, hoje importuna e que obrigava a sussurrar, parecia outrora, quando ali tão bem se pintaram as intenções de minha avó, uma espécie de diafaneidade musical -, estou envergonhado por incomodá-la. Eis do que se trata. Para que você compreenda, é preciso que lhe diga uma coisa que você não sabe. Quando vim para cá, deixei uma mulher com quem deveria me casar, que estava prestes a abandonar tudo por mim. Devia seguir de viagem esta manhã e, desde uma semana, todos os dias eu me perguntava se teria coragem de não lhe telegrafar dizendo que voltava. Tive essa coragem, mas sentia-me tão infeliz que achei que me mataria. Por isso é que perguntei ontem à noite se não poderia vir dormir em Balbec. Se eu tivesse que morrer, gostaria de lhe dizer adeus. - E dei livre curso às lágrimas, que minha ficção tornava naturais. 
- Meu pobrezinho, se eu tivesse sabido, teria passado a noite a seu lado -exclamou Albertine, a cujo espírito nem mesmo ocorreu a idéia de que eu talvez desposasse a tal mulher, desvanecendo-se desse modo a oportunidade de que ela própria fizesse um "bom casamento", de tanto que ela se sentia sinceramente comovida com um pesar cuja causa eu não podia ocultar lhe, mas não a realidade e a força - Além disso - continuou ela -, ontem, durante todo o trajeto desde a Raspeliere, bem que havia sentido que você estava triste e nervoso, receava alguma coisa. - Na verdade, o meu desgosto só começara em Parville, e o nervosismo bem diferente, mas que por felicidade Albertine confundia com ele, provinha do tédio de viver ainda alguns dias com ela. Albertine acrescentou: - Não o deixo mais, vou ficar aqui o tempo todo. - Oferecia-me justamente - e só ela podia oferecê-lo o único remédio contra o veneno que me queimava, aliás homogêneo a ele; um suave, o outro cruel, ambos igualmente derivavam de Albertine. Nesse momento Albertine meu mal livrava-me de sofrimentos, me deixava ela, a Albertine remédio enternecido como um convalescente. Mas eu pensava que ela em breve ia partir de Balbec para Cherburgo e de lá para Trieste. Seus hábitos de outrora iriam renascer. Antes de tudo o que eu desejava era impedir Albertine de tomar o barco, tratar de conduzi-la à Paris. Decerto, de Paris, mais facilmente ainda que de Balbec, ela poderia, se o quisesse, ir para Trieste, mas em Paris nós veríamos; talvez eu pudesse pedir à Sra. de Guermantes para indiretamente agir sobre a amiga da Srta. Vinteuil, no sentido de que esta não ficasse em Trieste, para fazê-la aceitar um emprego alhures, talvez na casa do príncipe de ***, que eu havia encontrado na casa da Sra. de Villeparisis e na da própria Sra. de Guermantes. E este, mesmo que Albertine quisesse ir à sua casa para visitar a amiga, poderia, avisado pela Sra. de Guermantes, impedir que se encontrassem. Com certeza, poderia eu refletir que em Paris, se Albertine possuía esses gostos, acharia muitas outras pessoas com quem satisfazê-los. Porém cada movimento de ciúme é particular e traz a marca da criatura desta vez a amiga da Srta. Vinteuil que o suscitou. Era a amiga da Srta. Vinteuil que continuava sendo a minha grande preocupação. A paixão misteriosa com que antigamente havia pensado na Áustria, porque era o país de origem de Albertine (seu tio ali fora conselheiro da embaixada), de modo que sua singularidade geográfica, a raça que o habitava, seus monumentos suas paisagens, podia eu considerá-los, tais como num atlas ou numa coleção de quadros, no sorriso e nas maneiras de Albertine -, essa paixão misteriosa eu a sentia ainda, mas, por uma troca de sinais, no domínio do horror. Sim, era dali que Albertine provinha. Era ali que, em cada residência, ela estava segura de encontrar, fosse a amiga da Srta. Vinteuil, fossem outras. Iriam renascer os hábitos da infância, iriam reunir-se dentro de três meses para o Natal, depois para o Ano-Novo, datas que já me eram tristes por si mesmas, pela recordação inconsciente da mágoa que nelas sentira, quando outrora me separavam de Gilberte durante todo o tempo das férias de Natal. Após longos jantares, depois dos réveíllons, quando todos estariam alegres, animados, Albertine ia tomar, com suas amigas de lá, as mesmas atitudes que eu vira assumir com Andrée, quando a amizade de Albertine por ela era inocente, quem sabe? talvez as atitudes que tinham aproximado, diante de mim, a Srta. Vinteuil perseguida por sua amiga, em Montjouvain. Á Srta. Vinteuil, agora, enquanto sua amiga a acariciava antes de cair sobre ela, eu emprestava o rosto afogueado de Albertine, da Albertine que eu ouvi lançar, fugindo, e depois se abandonando, o seu riso estranho e profundo. Que era, diante do sofrimento que sentia, o ciúme que um dia havia sentido, quando Saint-Loup encontrara a mim e Albertine em Doncieres e onde ela lhe fizera provocações? E também aquele que experimentara ao pensar no iniciador desconhecido a quem eu devera os primeiros beijos que ela me dera em Paris, no dia em que eu esperava a carta da Srta. de Stermaria? Aquele outro ciúme, provocado por Saint-Loup ou por um jovem qualquer, nada valia. Em tal caso, poderia no máximo temer um rival contra quem eu tivesse de arrebatá-la. Mas aqui o rival não era meu semelhante, suas armas eram diferentes, eu não podia lutar no mesmo terreno, dar a Albertine os mesmos gozos, nem sequer concebê-los com exatidão. Em muitos momentos da nossa vida trocaríamos todo o futuro por um poder em si mesmo insignificante. Outrora, eu teria renunciado a todas as vantagens da vida para conhecer a Sra. Blatin, porque ela era uma amiga da Sra. Swann. Hoje, para que Albertine não fosse a Trieste, eu teria suportado todos os sofrimentos e, se isso não fosse bastante, lhes teria infligido, tê-la-ia isolado, sequestrado, tomado o pouco dinheiro que ela possuía para que a penúria a impedisse materialmente de fazer a viagem. Como outrora, quando queria ir a Balbec, o que me impelia a partir era o desejo de uma igreja persa, de um temporal pela madrugada, o que agora me dilacerava o coração, ao pensar que Albertine talvez fosse a Trieste, era que ela passaria ali a noite de Natal com a amiga da Srta. Vinteuil; pois a imaginação, quando muda de natureza e se transforma em sensibilidade, não dispõe para tanto de maior número de imagens simultâneas. Se me dissessem que ela não se encontrava naquele momento em Cherburgo ou em Trieste, que não poderia ver Albertine, como teria eu chorado de alegria e de doçura! Como teria mudado minha vida e seu futuro! E, no entanto, eu bem sabia que era arbitrária essa localização do meu ciúme, que, se Albertine possuía esses gostos, poderia satisfazê-los com outras. Aliás, quem sabe se até essas mesmas jovens, podendo encontrá-la em outro local, não torturariam elas tanto o meu coração? Era de Trieste, daquele mundo ignorado onde eu sentia que Albertine passava bem, onde estavam suas lembranças, suas amizades, seus amores de infância, que se exalava aquela atmosfera hostil, inexplicável, como a que se evolava outrora até o meu quarto de Combray, da sala de jantar em que eu ouvia conversar e rir com estranhos, dentre o ruído dos talheres, mamãe, que não viria dar-me boa-noite; como a que enchera para Swann, as casas em que Odette ia procurar, em festas, prazeres inconcebíveis. Não era mais como uma terra deliciosa, onde a raça é pensativa, os ocasos dourados, os carrilhões tristes, que agora eu imaginava Trieste, mas como uma cidade maldita que eu desejaria mandar queimar de imediato e suprimir do mundo real. Aquela cidade estava afundada no meu coração como aguilhão permanente. Deixar Albertine partir em breve para Cherburgo e Trieste causava-me horror. E até mesmo ficar em Balbec. Pois agora que a revelação da intimidade de minha amiga com a Srta. Vinteuil se fazia uma quase certeza, parecia-me que, em todos os momentos em que Albertine não estivesse comigo (e havia dias inteiros em que, por causa de sua tia, não podia vê-la), ela se entregaria às primas de Bloch, talvez a outras. A idéia de que naquela mesma noite ele poderia ver as primas de Bloch me deixava louco. Assim, depois que me disse que não me largaria durante uns dias, respondi: 
- Mas é que eu desejaria voltar a Paris. Não viria comigo? E não gostaria de vir morar um pouquinho conosco em Paris? -

     Era necessário impedi-la, a todo custo, de estar sozinha, pelo menos durante alguns dias, conservá-la junto a mim para assegurar-me de que ela não pudesse ver a amiga da Srta. Vinteuil. Isto, na verdade, equivaleria a morar sozinha comigo, pois minha mãe, aproveitando-se de uma viagem de inspeção que meu pai ia fazer, impusera-se como um dever obedecer a uma vontade de minha avó, que desejaria que ela fosse passar alguns dias em Combray junto de uma de suas irmãs. Mamãe não gostava da tia porque esta não fora para a minha avó, tão carinhosa com ela, a irmã que deveria ter sido. Assim, depois de crescidas, as crianças lembram-se, rancorosas, dos que foram maus com elas. Porém mamãe, transformada em minha avó, era incapaz de rancor; a vida de sua mãe era para ela como uma pura e inocente infância onde ia aspirar aquelas lembranças cuja doçura ou amargor regulavam suas ações com uns e outros. Minha tia teria podido fornecer a mamãe certos detalhes inestimáveis, porém agora dificilmente o faria, pois achava-se muito enferma (dizia-se que era um câncer), e minha mãe censurava-se por não ter ido mais cedo, para acompanhar meu pai, e nisso não via senão mais um motivo para fazer o que sua mãe teria feito; e, assim como ela, ia, no aniversário do pai de minha avó, o qual fora tão ruim pai, depositar sobre seu túmulo as flores que minha avó costumava levar. Assim, junto ao túmulo que ia se entreabrir, desejava minha mãe levar as suaves conversas que minha tia não viera oferecer à minha avó. Enquanto estivesse em Combray, minha mãe se ocuparia de certos trabalhos que minha avó sempre desejara, mas somente se fossem executados sob a supervisão de sua filha. Assim, eles ainda não tinham sido principiados, pois não queria mamãe, deixando Paris antes de meu pai, fazer-lhe sentir demasiado o peso de um luto ao qual ele se associava, mas que não podia afligi-lo tanto quanto a ela. 

- Ah, isto não será possível por agora - respondeu Albertine. - Além disso, que necessidade tem você de voltar tão depressa a Paris, visto que essa dama já partiu? 
- Porque estarei mais tranquilo num lugar onde a conheci, em vez de Balbec, que ela nunca viu e a que tomei horror. -

     Terá Albertine compreendido mais tarde que essa outra mulher não existia, e que se naquela noite eu quisera morrer de verdade fora porque ela me revelara, estouvadamente, que tinha ligações com a amiga da Srta. Vinteuil? É possível. Há momentos em que isso me parece provável. Em todo caso, naquela manhã, acreditou na existência dessa mulher. 

- Mas você deveria casar com essa senhora, meu pequeno - disse ela. - Seria feliz e ela certamente o seria também. -

     Respondi que a ideia de que poderia fazer feliz aquela mulher, de fato, quase estivera a ponto de me decidir; ultimamente, depois de receber uma grande herança que me permitiria dar muito luxo e distrações à minha mulher, estivera a ponto de aceitar o sacrifício daquela a quem amava. Inebriado pela gratidão que me inspirava a gentileza de Albertine, tão próxima do atroz sofrimento que ela me causara, assim como prometeríamos de bom grado uma fortuna ao garçom do café que nos serve um sexto cálice de aguardente, disse-lhe que minha mulher teria um auto e um iate; que, sob esse aspecto, já que Albertine gostava tanto de passear de auto e de iate, era uma pena que não fosse ela a quem eu amava; que eu teria sido o marido perfeito para ela, mas que se haveria de dar um jeito, que talvez a gente pudesse encontrar-se de forma agradável. Apesar de tudo, como na própria embriaguez a gente evita interpelar os passantes, com receio dos golpes, abstive-me de cometer a imprudência que teria cometido no tempo de Gilberte, dizendo que era a ela, Albertine, que eu amava. 

- Você vê, estive prestes a casar com ela. Mas não ousei fazê-lo, todavia, e não desejaria obrigar uma jovem a viver junto de alguém tão doente e aborrecido. 
- Mas você está louco, todos desejariam viver com você, olhe como todo mundo o procura. Só se fala de você na casa da Sra. Verdurin, e me disseram que se dá o mesmo na mais alta sociedade. Portanto, essa senhora não foi justa com você, para lhe dar essa impressão de dúvida a seu próprio respeito. Vejo que se trata de uma malvada, detesto-a; ah! se eu estivesse em seu lugar... 
- Nada disso, ela é muito gentil, gentil demais. Quanto aos Verdurin e aos outros, rio-me deles. Fora aquela a quem amo e à qual, de resto, renunciei, só ligo para a minha pequena Albertine; somente ela, ficando muito tempo comigo, pelo menos nos primeiros dias -acrescentei, para não assustá-la e poder pedir-lhe muito nesses dias -, é que poderá consolar-me um pouco. - Só vagamente aludi a uma possibilidade de casamento, dizendo que era irrealizável porque nossos temperamentos não combinavam. Contra minha própria vontade, sempre perseguido em meu ciúme pelas lembranças das relações de Saint-Loup com "Rachel-quando-do-Senhor" e de Swann com Odette, estava muito inclinado a crer que, no momento em que amava, não podia ser amado, e que só o interesse podia unir a mim uma mulher. Certamente era uma loucura julgar Albertine por Odette e Rachel. Porém não se tratava dela, mas de mim; eram os sentimentos que eu pudesse inspirar que o meu ciúme me fazia subestimar em excesso. E desse julgamento, talvez errôneo, nasceram sem dúvida muitas desgraças que iriam se abater sobre nós.
 - Então recusa o meu convite para Paris? 
- Minha tia não há de querer que eu parta neste momento. Além disso, mesmo que eu possa mais tarde, não será esquisito que eu entre assim em sua casa? Em Paris, vão logo descobrir que não sou sua prima. 
 - Pois bem, diremos que somos meio noivos. Que diferença faz, já que você sabe que não é verdade? -

     O pescoço de Albertine, que lhe saía inteiro da camisa, era forte, dourado, de intensa granulação. Beijei-a tão puramente como se tivesse beijado minha mãe para acalmar um desgosto de criança que julgasse então jamais poder arrancar do peito. Albertine deixou-me para ir vestir-se. Aliás, o seu devotamento já principiava a diminuir; agora há pouco me dissera que não me deixaria um segundo sequer. (E eu bem sentia que sua resolução não duraria, visto que eu receava, caso permanecêssemos em Balbec, que ela fosse ter naquela mesma noite, sem mim, com as primas de Bloch.) Ora, ela vinha agora me dizer que desejava passar em Maineville e que voltaria para me ver à tarde. Não se recolhera na véspera à noite, poderia haver correspondência para ela, além do que a sua tia podia estar inquieta. Eu havia respondido: 

- Se é só por isso, a gente podia mandar o ascensorista dizer à sua tia que você está aqui e pegar suas cartas. -

     E, desejosa de se mostrar gentil, porém contrariada por estar sendo reprimida, franzira a testa e depois, de súbito, disse amavelmente: 

 - É isto mesmo e mandara o ascensorista.

     Não fazia um momento que Albertine me deixara, quando o ascensorista veio bater de leve. Eu não esperava que, enquanto conversava com Albertine, tivesse ele tido tempo de ir a Maineville e voltar. Vinha me dizer que Albertine escrevera um bilhete à sua tia e que podia, se eu o quisesse, ir a Paris no mesmo dia. Aliás, fizera mal em dar o recado oralmente, pois, apesar da hora matinal, o gerente já estava a par de tudo e, transtornado, vinha perguntar-me se eu estava descontente com alguma coisa, se de fato ia partir, se não poderia esperar ao menos alguns dias, já que o vento hoje estava muito receoso (de recear). Eu não queria lhe explicar que desejava a todo custo que Albertine já não estivesse em Balbec quando as primas de Bloch fossem dar o seu passeio, principalmente na ausência de Andrée, a única que poderia protegê-la, e que Balbec era como um desses lugares em que um doente, que ali não mais respira, decido mesmo que deva morrer no caminho, não passar a noite seguinte. Além do mais, eu ia ter de lutar contra rogos do mesmo gênero, primeiro no hotel, onde Marie Gineste e Céleste Albaret tinham os olhos vermelhos. (Aliás, Marie fazia ouvir o soluço apressado de uma torrente; Céleste, mais frágil, recomendava-lhe calma; porém, tendo Marie murmurado os únicos versos que conhecia: Ici-bas tous les filas meurent. Céleste não pôde se conter, e um lençol de lágrimas se espalhou pelo seu rosto cor de lilás; penso, aliás, que me esqueceram na mesma noite.)
     A seguir, no trenzinho local, apesar de todas as minhas precauções para não ser visto, encontrei o Sr. de Cambremer que, à vista de minhas malas, empalideceu, pois contava comigo para dali a dois dias; exasperou-me querendo me convencer de que minhas sufocações deviam se à mudança de tempo e que outubro seria um mês excelente para elas, e me perguntou se, de qualquer modo, não poderia "adiar a minha partida por oito dias", expressão cuja estupidez só não me deixou enfurecido talvez porque me fazia mal a sua proposta. E, enquanto ele me falava no vagão, a cada parada eu temia ver aparecer, mais terrível que Herimbald ou Guiscard, o Sr. de Crécy, implorando para ser convidado, ou, mais temível ainda, a Sra. Verdurin, fazendo questão de me convidar. Mas isto só devia acontecer dentro de algumas horas. Eu ainda não chegara a tanto. Só precisava fazer face às queixas desesperadas do gerente. Mandei-o embora, pois receava que, mesmo sussurrando, acabasse ele por acordar mamãe. Fiquei sozinho no quarto, aquele mesmo quarto de teto por demais alto, onde me sentira tão infeliz na minha primeira chegada, onde pensara com tanta ternura na Srta. de Stermaria e havia espiado a passagem de Albertine e suas amigas como aves de arribação paradas na praia, onde a possuíra com tanta indiferença quando a mandara buscar pelo ascensorista, onde conhecera a bondade de minha avó e depois soubera que ela estava morta; aqueles postigos ao pé dos quais caía a luz da manhã, eu os abrira a primeira vez para avistar os primeiros contrafortes do mar (esses postigos que Albertine me fazia fechar para que não nos vissem aos beijos). Eu tomava melhor consciência de minhas próprias transformações confrontando-as com a identidade das coisas. Entretanto, habituamo-nos a elas como às pessoas, e, quando subitamente nos lembramos do significado diverso que elas comportam e, depois que tiverem perdido todo significado, dos acontecimentos bem diferentes dos de hoje que enquadraram, a diversidade dos atos realizados sob o mesmo teto, entre as mesmas bibliotecas envidraçadas, e a mudança no coração e na vida que semelhante diversidade implica, parecem ainda acrescidas pela permanência imutável do cenário, reforçado pela unidade do lugar. Duas ou três vezes, durante um momento, tive a idéia de que o mundo onde estavam esse quarto e essas bibliotecas, e no qual Albertine era coisa tão pouca, consistisse talvez num mundo intelectual, que era a única realidade, e meu desgosto, algo como aquilo que é causado pela leitura de um romance e de que somente um louco poderia fazer um sofrimento durável e permanente que se prolongasse por toda a sua vida; que talvez bastasse um pequeno movimento de minha vontade para alcançar esse mundo real e nele penetrar, ultrapassando a minha dor como um círculo de papel que se fura, e não mais me preocupar com o que fizera Albertine, assim como não nos preocupamos com os atos da heroína imaginária de um romance depois que terminamos a leitura. Além disso, as amantes a quem mais amei jamais coincidiram com o meu amor por elas. Esse amor era verdadeiro, visto que eu subordinava todas as coisas à função de vê-las, de guardá-las só para mim, já que soluçava se as tinha esperado uma noite. Mas elas mais possuíam a propriedade de despertar esse amor, de levá-lo ao paroxismo, do que serem a sua imagem. Quando as via, quando as ouvia, nada encontrava nelas que se parecesse ao meu amor e pudesse explicá-lo. No entanto, minha única alegria era vê-las, minha única ansiedade, esperá-las. Dir-se-ia que uma virtude, sem qualquer relação com elas, lhes fora acessoriamente acrescentada pela natureza, e que essa virtude, essa força similielétrica, tinha por efeito excitar em mim o meu amor, isto é, dirigir todas as minhas ações e provocar todos os meus sofrimentos. Porém a beleza, a inteligência ou a bondade dessas mulheres eram inteiramente distintas de tudo isso. Como por uma corrente elétrica que nos move, fui sacudido pelos meus amores, vivi-os e senti-os; nunca pude chegar a vê-los ou a pensá-los. Inclino-me até a crer que nesses amores (ponho de lado aliás o prazer físico que os acompanha em geral, mas que não basta para constituí-los), sob a aparência da mulher, é a essas forças invisíveis, de que ela está acessoriamente acompanhada, que nós nos dirigimos como à obscuras divindades. É delas, cuja benevolência nos é necessária, que buscamos o contato, sem nele encontrar um prazer positivo. Com essas deusas, a mulher põe-nos em relação, sem fazer mais que isso. Como oferendas, prometemos jóias, viagens, pronunciamos fórmulas que significam que adoramos, e fórmulas opostas que significam sermos indiferentes. Dispusemos de todo o nosso poder para alcançar um novo encontro, mas que seja concedido sem tédio. Ora, seria pela própria mulher, se ela não estivesse complementada com essas forças ocultas, que faríamos tanto esforço que, quando ela partisse, não saberíamos dizer como estava vestida e nos aperceberíamos de que nem sequer a tínhamos olhado? Como é enganador o sentido da vista! Um corpo humano, até mesmo amado como o de Albertine, nos parece a alguns metros, a poucos centímetros, bem distante de nós. Da mesma forma a alma que nele está. Unicamente, se alguma coisa muda violentamente o lugar dessa alma em relação a nós, mostrando-nos que ela ama a outros seres e não a nós, então, pelas batidas do nosso coração deslocado, sentimos que, não a alguns passos de nós, mas dentro de nós, é que estava a criatura amada. Em nós, nas regiões mais ou menos superficiais. Mas as palavras: "Esta amiga é a Srta. Vinteuil" tinham sido o Sésamo, que eu seria incapaz de achar por mim mesmo, que fizeram entrar Albertine nas profundezas do meu coração dilacerado. E a porta que se fechara sobre ela, poderia eu procurá-la durante cem anos sem saber como reabri-la. Essas palavras, deixara de ouvi-las por um momento, enquanto Albertine estava junto a mim, ainda há pouco. E, beijando-a como beijava minha mãe em Combray para acalmar a minha angústia, quase acreditava na inocência de Albertine ou, pelo menos, não pensava continuamente na descoberta que fizera acerca de seu vício. Mas agora que estava sozinho, as palavras ressoavam de novo como esses ruídos internos do ouvido que ouvimos logo que alguém deixa de nos falar. Agora, seu vício não apresentava dúvidas para mim. A luz do sol que ia se erguer, modificando as coisas a meu redor, me fez de novo tomar, como que me deslocando um momento em relação a ela, consciência mais cruel ainda do meu sofrimento. Eu jamais vira principiar uma manhã tão linda nem tão dolorosa. Pensando em todas as paisagens indiferentes que iam iluminar-se e que ainda na véspera só teriam me dado o desejo de as visitar, não pude conter um soluço quando, num gesto de ofertório, mecanicamente concluído, e que me pareceu simbolizar o sacrifício sangrento que ia ter de fazer de toda alegria, a cada manhã, até o fim da minha vida, renovação solenemente celebrada em cada aurora de minha mágoa cotidiana e do sangue de minha chaga, o ovo de ouro do sol, como que propulsado pela ruptura de equilíbrio que, no momento da coagulação, traria uma mudança de densidade, farpado de chamas como nos quadros, rompeu de um salto a cortina atrás da qual o sentíamos desde um instante, fremente e prestes a entrar em cena, e da qual apagou, sob ondas de luz, a púrpura misteriosa e condensada. Ouvi-me a chorar a mim mesmo. Mas nesse momento, contra toda expectativa, a porta se abriu e, o coração batendo, pareceu-me ver a minha avó diante de mim, como numa dessas aparições que eu já tivera, mas só dormindo. Então tudo aquilo não passava de um sonho? Ai de mim! Estava bem desperto. 

 - Achas que me pareço com tua pobre avó - me disse mamãe (pois era ela) com doçura, como para acalmar o meu assombro, confessando de resto aquela semelhança, com um belo sorriso de orgulho modesto que jamais conhecera a coqueteria. Seus cabelos em desordem, onde as mechas grisalhas não estavam escondidas e serpenteavam em torno de seus olhos inquietos, de suas faces envelhecidas, o próprio chambre de minha avó que ela usava, tudo isso me impedira, por um instante, de reconhecê-la, fazendo-me duvidar se dormia ou se minha avó havia ressuscitado. Fazia já muito tempo que minha mãe se assemelhava bem mais à minha avó do que à jovem e risonha mamãe que minha infância conhecera. Mas eu não pensara mais nisso. Assim, quando ficamos lendo por muito tempo, distraídos, não percebemos o passar das horas e, de repente, vemos a nosso redor o sol, inevitavelmente levado a passar pelas mesmas fases, lembrar, a ponto de equivocar-nos, o sol que ali existia na véspera à mesma hora, e despertar a seu redor as mesmas harmonias, as mesmas correspondências que preparam o ocaso. Foi sorrindo que minha mãe me fez ver o meu erro, pois era-lhe doce ter tal semelhança com a mãe. 
- Eu vim - disse ela porque, ao dormir, me parecia ouvir alguém que chorava. Isso me acordou. Mas o que houve que não está deitado? E tens os olhos cheios de lágrimas. Que está acontecendo? -

     Segurei-lhe a cabeça entre os braços: 

- Mamãe, ouve, receio não ter te falado amavelmente de Albertine; o que te disse era injusto. 
- E o que tem isso? - disse mamãe; e, percebendo o sol nascente, sorriu com tristeza pensando na mãe; e para que eu não perdesse o fruto de um espetáculo que minha avó lastimava que eu não contemplasse nunca, apontou-me a janela. Mas, por detrás da praia de Balbec, do mar, do nascer do sol que mamãe me mostrava, eu via, com os movimentos de desespero que não lhe escapavam, o quarto de Montjouvain, onde Albertine, rósea, enroscada como uma grande gata, o nariz rebelde, tomara o lugar da amiga da Srta. Vinteuil e dizia, nos assomos de seu riso voluptuoso: 
- Pois bem! Se nos virem, será melhor. Então eu não ousaria escarrar nesse macaco velho? -

     Era esta a cena que eu via por detrás da que se estendia pela janela e que não era, sobre a outra, mais que um véu sombrio, superposto como um reflexo. Ela própria parecia um efeito quase irreal, como uma vista pintada. À nossa frente, na saliência dos rochedos de Parville, o bosquezinho onde havíamos feito o "jogo do anel" fazia cair em declive até o mar, sob o verniz da água, todo dourado ainda, o tabuleiro de suas folhagens, como na hora em que muitas vezes, no fim do dia, quando ali eu tinha ido dormir uma sesta com Albertine, nos levantáramos ao ver o sol descambando. Na desordem das névoas da noite, que ainda arrastavam os farrapos róseos e azuis sobre as águas atulhadas dos destroços nacarados da aurora, passavam barcos sorrindo à luz oblíqua que amarelava suas velas e a ponta dos gurupés como quando regressavam à tardinha: cena imaginária, tiritante e deserta, pura evocação do poente que não repousava, como a noite, na sequência das horas do dia que eu tinha o hábito de ver preceder-lhe, desligada, interpolada, mais inconsistente ainda que a imagem horrível de Montjouvain que ela não lograva anular, encobrir, esconder poética e baldada imagem da lembrança e do sonho. 

- Mas vejamos - disse minha mãe -, não me disseste nenhum mal dela, falaste até que ela te aborrecia um pouco, que estavas contente por teres desistido da ideia de te casares com ela. Não é motivo para chorar desse jeito. Pensa que tua mamãe vai partir hoje e ficará desolada por deixar o seu lobinho nesse estado. Tanto mais, meu pobrezinho, que não tenho tempo para te consolar. Pois, por mais que minhas coisas já estejam prontas, a gente nunca dispõe de tempo num dia de partida. 
- Não é isso.

     E então, calculando o futuro, pesando bem a minha vontade, compreendendo que aquela ternura de Albertine pela amiga da Srta. Vinteuil, e durante tanto tempo, não podia ter sido inocente, que Albertine já fora iniciada e, tanto quanto o indicavam os seus gestos, nascera aliás com a predisposição ao vício que minhas inquietações tantas vezes tinham pressentido, ao qual jamais deveria ter deixado de se entregar (ao qual se entregava talvez naquele instante, aproveitando um momento em que eu não estava presente), disse à minha mãe, sabendo a mágoa que lhe causava, que ela não demonstrou e que só se traiu por aquele ar de séria preocupação que tinha quando comparava a gravidade de me causar desgosto ou de me fazer mal. Aquele ar que tivera em Combray pela primeira vez, quando se resignara a passar a noite junto a mim, aquele ar que nesse momento se parecia extraordinariamente ao de minha avó quando me permitia beber conhaque, disse à minha mãe: 

- Sei do desgosto que vou te causar. Primeiro, em vez de ficar aqui como querias, vou partir ao mesmo tempo que tu. Mas isto ainda não é nada. Não me sinto bem aqui, prefiro voltar. Mas escuta, não te aborreça demais. Eis o que ocorre: enganei-me, enganei-te de boa-fé ontem, refleti a noite inteira. É necessário absolutamente, e decidamo-lo de imediato, porque eu bem o reconheço agora, porque não mudarei mais e porque não poderia viver sem isso, é absolutamente necessário que eu me case com Albertine.

continua na página 237...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap IV - Só esperava uma oportunidade)
Volume 6
Volume 7

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Chegado o dia do jantar)

em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 
continuando...

    Chegado o dia do jantar, esperavam no grande salão de Féterne. Na realidade, os Cambremer davam o jantar para a fina flor da elegância que eram o Sr. e a Sra. Féré. Mas de tal modo temiam desagradar o Sr. de Charlus que, embora tivessem conhecido os Féré através do Sr. de Chevregny, a Sra. de Cambremer sentiu-se febril ao ver, no dia do jantar, que este os vinha visitar em Féterne. Inventaram todos os pretextos para mandá-lo para Beausoleil o mais rápido possível, mas não tão depressa que ele não cruzasse no pátio com o casal Féré, os quais ficaram tão chocados por vê-lo assim mandado embora, como ele envergonhado. Mas, custasse o que custasse, os Cambremer queriam poupar ao Sr. de Charlus a vista do Sr. de Chevregny, achando que este era provinciano, devido a matizes que se deixam passar em família e só se levam em conta diante de estranhos, que são precisamente os únicos a não perceberem tal. Mas ninguém gosta de exibir os parentes que permanecem aquilo que tanto nos esforçamos por deixar de ser. Quanto ao Sr. e à Sra. Féré, eram no mais alto grau aquilo que se chama pessoas de muita distinção. Aos olhos dos que assim os qualificavam, sem dúvida os Guermantes, os Rohan e vários outros também eram pessoas muito distintas, mas o seu nome dispensava de dizê-lo. Como nem todos sabiam do elevado nascimento da mãe do Sr. Féré nem da mãe da Sra. Féré, e do círculo extraordinariamente fechado que ela e o marido frequentavam, quando diziam os seus nomes, sempre acrescentavam, para explicar, que se tratava "do que há de melhor". O seu nome obscuro acaso lhes ditava uma espécie de sobranceira reserva? Sempre é fato que os Féré não tinham relações com pessoas que os La Trémoille teriam frequentado. Fora necessário a posição de rainha do litoral, que a velha marquesa de Cambremer possuía na Mancha, para que os Féré viessem a uma de suas vesperais todos os anos. Tinham-nos convidado para jantar, e muito contavam com o efeito que o Sr. de Charlus ia produzir neles. Anunciaram discretamente que ele estava no número dos convivas. Por acaso, a Sra. Féré não o conhecia. A Sra. de Cambremer teve com isso uma grande satisfação, e pelo seu rosto perpassou o sorriso do químico que vai pôr em contato, pela primeira vez, dois corpos especialmente importantes. A porta se abriu, e a Sra. de Cambremer esteve a ponto de desmaiar ao ver Morel entrar sozinho. Como um secretário encarregado de desculpar o seu ministro, como uma esposa morganática a exprimir o pesar que tem o príncipe de estar doente (assim fazia a Sra. de Clinchamp em relação ao duque d'Aumale), Morel disse, no tom mais leviano: 

- O barão não poderá vir. Está um pouco indisposto; pelo menos, acho que é por causa disso; não estive com ele esta semana - acrescentou, desesperando até com essas últimas palavras a Sra. de Cambremer, que dissera ao casal Féré que Morel estava com o Sr. de Charlus em todas as horas do dia. Os Cambremer fingiram que a ausência do barão era um atrativo a mais para a recepção, e, sem que Morel ouvisse, diziam aos convidados: 
- Passaremos bem sem ele, não é mesmo? Até será mais agradável. -

     Mas estavam furiosos, suspeitaram de uma intriga urdida pela Sra. Verdurin, e, em represália, quando esta voltou a convidá-los para La Raspeliere, o Sr, de Cambremer, não podendo resistir ao prazer de rever sua casa e de se reencontrar com o pequeno grupo, compareceu, mas só, dizendo que a marquesa estava desolada, pois seu médico lhe ordenara que não deixasse o quarto. Com essa meia presença, os Cambremer julgaram, a um tempo, dar uma lição ao Sr. de Charlus e mostrar aos Verdurin que não lhes deviam senão uma polidez restrita, como as princesas de sangue outrora acompanhavam as duquesas, mas unicamente até o meio do segundo quarto. Ao fim de algumas semanas, estavam quase brigados. O Sr. de Cambremer me dava explicações: 

- Direi que com o Sr. de Charlus era mesmo difícil. Ele é extremamente dreyfusista... 
- Mas não! 
- Sim... em todo caso seu primo, o príncipe de Guermantes, o é; falam muito mal dele por isso. Tenho parentes que notam muito essas coisas. Não posso frequentar essas pessoas; acabaria brigando com minha família. 
- Visto que o príncipe de Guermantes é dreyfusista, tanto melhor - disse a Sra. de Cambremer; pois Saint-Loup, que dizem que vai casar com a sobrinha deles, também é. Talvez até seja este o motivo do casamento. 
- Ora, minha cara, não diga que Saint-Loup, de quem tanto gostamos, é dreyfusista. Não convém espalhar levianamente essas alegações - disse o Sr. de Cambremer- - Você o deixaria malvisto no exército! 
- Ele foi, mas não o é mais - disse eu ao Sr. de Cambremer. 
- Quanto ao seu casamento com a Srta. de Guermantes-Brassac, é certo mesmo? 
- Só se fala nisso, mas o senhor está em condições de sabê-lo. 
- Mas eu repito que ele disse a mim mesma que era dreyfusista - insistiu a Sra. de Cambremer. 
- De resto, é muito desculpável; os Guermantes são meio alemães. 
- Quanto aos Guermantes da rua de Varenne, pode dizer que o são inteiramente - observou Cancan. - Mas Saint-Loup é vinho de outra pipa; ainda que tenha toda uma parentela alemã, seu pai reivindicava, acima de tudo, o seu título de grão-senhor francês; voltou à ativa em 1871 e foi morto durante a guerra da maneira reais bela. Por muito que eu seja intransigente sobre a matéria, não é preciso exagerar num sentido ou noutro. In medio... virtus, ah! não consigo me lembrar. É algo que diz o doutor Cottard. Eis aí um que tem sempre a palavra pronta. Deveriam ter aqui um Petit Larousse. -

     Para evitar pronunciar-se sobre a citação latina e abandonar o assunto Saint-Loup em que seu marido parecia achar que ela carecia de tato, a Sra. de Cambremer tocou no caso da Patroa, cujo estremecimento com eles ainda era necessário explicar. 

- Alugamos La Raspeliere à Sra. Verdurin com toda a boa vontade - disse a marquesa. Apenas, ela parece ter acreditado que, com a casa e tudo o que achou meios de se atribuir, a utilização do prado, as velhas tapeçarias, todas as coisas que absolutamente não estavam no contrato, teria ainda mais direito a ligar-se a nós. São coisas inteiramente distintas. Nosso erro foi o de não ter mandado fazer as coisas por um procurador ou uma agência. Em Féterne isso não tem importância, mas creio que daqui estou vendo a cara que faria a tia de Ch'nouville se visse aparecer, no meu dia de recepção, a velha Verdurin toda descabelada. Quanto ao Sr. de Charlus, naturalmente ele conhece pessoas muito distintas, mas também gente de muito má posição. -

     Perguntei quem. Pressionada, a Sra. de Cambremer acabou por dizer: 

- Afirma-se que é ele quem sustenta um senhor Moreau, Morille, Morue, já nem sei mais. Nenhuma relação, é claro, com Morel, o violinista - acrescentou enrubescendo. - Quando senti que a Sra. Verdurin imaginava que, por ser nossa locatária na Mancha, teria o direito de me fazer visitas em Paris, compreendi ser necessário cortar as amarras.

     Apesar dessa desavença com a Patroa, os Cambremer não estavam de mal com os fiéis, subindo de bom grado ao nosso vagão quando se achavam na linha. Quando estávamos prestes a chegar a Douville, Albertine, pegando uma última vez o seu espelho, julgava conveniente às vezes mudar as luvas ou tirar por um momento o chapéu e, com o pente de tartaruga que eu lhe dera e que ela trazia nos cabelos, alisava os coques, ajeitava os fofos e, caso necessário, erguia o rolo de cabelos acima das ondulações que caíam em vales regulares até a nuca. Uma vez dentro dos carros que nos esperavam, a gente absolutamente não sabia mais onde estava; as estradas não tinham iluminação; pelo ruído mais forte das rodas, reconhecíamos estar atravessando uma aldeia, julgávamos ter chegado, e nos achávamos em pleno campo, ouvíamos sinos ao longe, esquecíamos estar de smoking, e tínhamos quase adormecido quando, no fim dessa longa margem de escuridão que, devido à distância percorrida e aos incidentes característicos de todo trajeto em estrada de ferro, parecia ter nos levado até uma hora avançada da noite e quase à metade do caminho de volta a Paris de repente, depois que o rodar do carro sobre uma areia mais fina revelara que acabávamos de entrar no parque, explodiam, reintegrando-nos na vida mundana, as ofuscantes luzes do salão e, depois, da sala de jantar, onde sentíamos um vivo movimento de recuo ao ouvir soar aquelas oito horas que acreditávamos passadas há muito, enquanto que os numerosos serviços e os vinhos finos iam suceder-se ao redor dos homens de fraque e das mulheres meio decotadas, num jantar de claridade rutilante como um verdadeiro jantar na cidade e a que apenas cercava, desse modo mudando o seu caráter, a dupla écharpe sombria e singular que haviam tecido, desviadas por essa utilização mundana de sua primitiva solenidade, as horas noturnas, campestres e marinhas da ida e da volta. Esta, com efeito, nos forçava a deixar o esplendor radiante e logo esquecido do salão luminoso, pelos carros onde eu me acomodava com Albertine para que minha amiga não pudesse estar com os outros sem mim, e muitas vezes por uma outra causa ainda, que era nós dois podermos fazer muita coisa num carro escuro, onde, no caso de se filtrar um súbito raio de luz, os solavancos da descida aliás nos desculpariam de estarmos agarrados um ao outro. Quando o Sr. de Cambremer ainda não havia brigado com os Verdurin, ele me perguntava: 

- Não acha que vai ter sufocações, com esse nevoeiro? Minha irmã teve sufocações terríveis esta manhã. Ah, o senhor também teve - dizia com satisfação. - Vou contar a ela esta noite. Sei que, logo que eu chegar, ela imediatamente vai se informar se o senhor não as tem há muito tempo. -

     Aliás, ele só me falava das minhas sufocações para chegar às da irmã, e me fazia descrever as particularidades das primeiras apenas para assinalar melhor as diferenças existentes entre as duas. Mas apesar destas, como as sufocações da irmã lhe parecessem dever constituir autoridade, não podia crer que o que "aprovava" nas suas não fosse indicado para as minhas, e irritava-se por ver que eu não o experimentava, pois há uma coisa ainda mais difícil do que seguir um regime: é não impô-lo aos outros. 

- Aliás, que digo eu, um profano, quando o senhor está aqui diante do areópago, na fonte. Que pensa disso o professor Cottard? Além disso, voltei a ver sua mulher uma outra vez porque ela dissera que rainha "prima" era um tipo esquisito e eu quis saber o que ela entendia por isso. Ela negou que o havia dito, mas terminou por confessar que falara de uma pessoa que julgara encontrar com minha prima. Não lhe sabia o nome e disse afinal que, se não se enganava, era a mulher de um banqueiro, a qual se chamava Lina, Linétte, Lisette, Lia, enfim, alguma coisa desse gênero.

     Eu pensava que "mulher de um banqueiro" fora posto ali apenas para maior delimitação. Quis indagar a Albertine se aquilo era verdade. Mas preferia aparentar ser aquele que sabe a ser o que faz perguntas. Além disso, Albertine não teria respondido nada, ou um "não", cujo "n" seria hesitante demais e o "ão" acentuado em excesso. Albertine jamais contava fatos que pudessem prejudicá-la, e sim outros que só podiam explicar-se pelos primeiros, pois a verdade é antes uma corrente que parte do que nos dizem, e que captamos, por invisível que seja, do que a própria coisa que nos disseram. Assim, quando lhe afirmei que uma mulher que ela havia conhecido em Vichy era de mau gênero, jurou-me que essa mulher não era de modo algum aquilo que eu imaginava e jamais tentara induzi-la a nada. Mas, noutro dia, como lhe falasse de minha curiosidade por esse tipo de gente, acrescentou que a dama de Vichy também tinha uma amiga que ela, Albertine, não conhecia, mas que a dama lhe havia "prometido apresentar". Para que o tivesse prometido, era portanto necessário que Albertine o desejasse, ou que a dama soubesse, ao oferecê-lo, que lhe causava prazer. Mas, se eu o objetasse a Albertine, daria a impressão de que só dispunha de revelações por meio dela, e logo as teria interrompido. Não saberia de mais nada e teria deixado de me fazer temido. Aliás, estávamos em Balbec, a dama de Vichy e sua amiga moravam em Menton; o afastamento e a impossibilidade do perigo destruiriam logo as minhas suspeitas. Muitas vezes, quando o Sr. de Cambremer me interpelava da plataforma da estação, eu acabava de aproveitar-me das trevas com Albertine, e com tanto mais dificuldade porque ela se debatera um pouco, receando que as trevas não fossem bem completas. 

- Sabe que tenho certeza de que Cottard nos viu; de resto, mesmo sem ver, ele bem que ouviu a sua voz sufocada, justo no momento em que se falava das suas sufocações de outro gênero - dizia-me Albertine ao chegar à gare de Douville, onde retomávamos o trenzinho para o regresso. Mas esse regresso, bem como a ida, ao dar-se certa impressão de poesia, revelava em mim o desejo de fazer viagens, de levar uma vida nova, e, desse modo, fazia-me desejar abandonar qualquer projeto de casamento com Albertine, e até acabar definitivamente com as nossas relações, e assim me tornava, devido mesmo à sua natureza contraditória, mais fácil esse rompimento. Pois na volta, como na ida, em cada estação havia conhecidos que embarcavam conosco ou nos cumprimentavam da plataforma; acima dos prazeres furtivos da imaginação, dominavam estes, contínuos, da sociabilidade, que são tão apaziguadores, tão calmantes. Antes das próprias estações, já seus nomes (que tanto me haviam feito sonhar, desde o dia em que os ouvira, na primeira tarde em que viajara com minha avó) tinham se humanizado, tinham perdido sua singularidade desde a noite em que Brichot, a pedido de Albertine, nos explicara mais completamente suas etimologias. Eu achara um encanto essa "flor" (fleur) com que terminavam certos nomes, como Figuefleur, Honfleur, Flers, Barfleur, Harfleur, etc., e divertido o "boi" (boeut) que existe no fim de Bricqueboeuf. Mas a flor e o boi desapareceram quando Brichot (e isto ele me dissera no primeiro dia no trem) nos informara que fleur quer dizer "porto" (como fiord) e que boeuf, em normando budh, quer dizer cabana. Como citava diversos exemplos, o que me parecera particular se generalizava: Bricqueboeuf juntava-se a Elbeuf, e, mesmo num nome à primeira vista tão individual como o local, feito o nome de Pennedepie, onde as estranhezas mais impossíveis de elucidar pela razão me pareciam amalgamadas desde um tempo imemorial em um vocábulo vilão, saboroso e endurecido como determinado queijo normando, fiquei desolado ao encontrar o pen gaulês que significa "montanha" e se encontra tanto em Penmarch como nos Apeninos. Como a cada parada do trem eu sentisse que teríamos mãos amigas para apertar, dizia à Albertine: 
- Trate logo de perguntar a Brichot os nomes que quer saber. Você me falou de Marcouville-l'Orgueilleuse. 
- Sim, gosto muito desse orgulho, é uma aldeia altiva - disse Albertine. 
- Achá-la-ia mais altiva ainda - respondeu Brichot - se em vez de sua forma francesa, ou até de baixa latinidade, tal como a encontramos no cartulário do bispo de Bayeux, Marcovilla superba, tomasse a forma mais antiga, mais vizinha do normando, Marculphivífia superba, a aldeia, o domínio de Marculph. Em quase todos estes nomes que terminam em ville, vocês ainda poderiam ver, erguido sobre esta costa, o fantasma dos rudes invasores normandos. Em Hermonville, você não teve, de pé à pontinhola do vagão, mais que o nosso excelente doutor que, evidentemente, não tem nada de chefe normando. Porém, fechando os olhos, poderia ver o ilustre Herimund (Herimundivifa). Conquanto eu não saiba por que se vai por estas estradas, compreendidas entre Loigny e Balbec-Plage, em vez das outras, bem mais pitorescas, que levam de Loigny ao velho Balbec, a Sra. Verdurin talvez já o tenha levado de carro para aquelas bandas. Então deve ter visto Incarvillle, ou aldeia de Wiscar, e Tourville, antes de chegar à casa da Sra. Verdurin, é a aldeia de Turold. Além disso, não houve só normandos. Parece que os alemães chegaram até aqui (Aumenancourt, Alemanicurtis); não o digamos àquele jovem oficial que vejo daqui; seria capaz de não mais querer ir visitar seus primos. Houve também saxões, como o testemunha a fonte de Sissone (um dos passeios prediletos da Sra. Verdurin, e com toda a razão), tanto como na Inglaterra o Middlesex, o Wessex. Coisa inexplicável, parece que os godos, gueux como diziam, vieram até cá, e mesmo os mouros, pois Mortagne provém de Mauretania. Ficou o vestígio deles em Gourville (Gothorumvifia). Aliás, também subiste algum vestígio dos latinos: Lagny (Latiniacum). 
- Quanto a mim, peço a explicação de Thorpehomme - disse o Sr. de Charlus. - Compreendo "homme" - acrescentou, enquanto Cottard e o escultor trocavam um olhar de inteligência. - Mas Thorp? 
- "Homme" não significa de modo algum aquilo que o senhor é naturalmente levado a crer, barão - respondeu Brichot, olhando maliciosamente para o escultor e Cottard. - "Homme" nada tem a ver aqui com o sexo a que não devo minha mãe. "Homme" é Holm, que significa "ilhota", etc. Quanto a Thorp, ou "aldeia", encontramo-lo em cem palavras com que já aborreci o nosso jovem amigo. Assim, em Thorpehomme não existe nome de chefe normando, mas palavras do idioma normando. Veja como toda esta região foi germanizada. 
- Creio que ele exagera - disse o Sr. de Charlus. 
- Estive ontem em Orgeville... - Desta vez devolvo-lhe o homem que havia tirado em Thorpehomme, barão. Seja dito sem pedantismo; uma carta de Roberto I nos dá para Orgeville, Otgerivifia, o domínio de Otger. Todos estes nomes são os de antigos senhores. Orgeville-la Venelle corresponde a I'Avenel. Os Avenel eram uma família conhecida na Idade Média. Bourguenolles, aonde a Sra. Verdurin nos levou outro dia, escrevia-se "Bourg de Môles", pois essa aldeia pertenceu no século XI a Baudouin de Môles, bem como La Chaise-Baudouin; mas eis-nos em Doncieres. 
- Meu Deus, quantos tenentes vão tentar embarcar! - disse o Sr. de Charlus com simulado pavor. - Digo-o pelos senhores; quanto a mim, não me incomoda, pois vou descer aqui. 
- Está ouvindo, doutor? - disse Brichot. - O barão tem medo de que os oficiais lhe passem por cima do corpo. E contudo estão no seu papel, encontrando-se agrupados aqui, pois Doncieres é exatamente Saint-Cyr, dominus Cyriacus. Há muitos nomes de cidades onde sanctus e sancta são substituídos por dominus e domina. Ademais, esta cidade tranqüila e militar apresenta às vezes falsos ares de Saint-Cyr, de Versalhes e até de Fontainebleau.

     Durante esses regressos (como nas idas), eu dizia a Albertine que se arrumasse, pois sabia muito bem que em Amancourt, em Doncieres, em Épreville e em Saint-Vast, nós teríamos de receber visitas breves. Aliás, tais visitas não eram desagradáveis, fosse, em Hermonville (o domínio de Herimund), a do Sr. de Chevregny, aproveitando a oportunidade de que tinha vindo receber convidados para me convidar a ir almoçar no dia seguinte em Montsurvent, ou, em Doncieres, a brusca invasão de um dos encantadores amigos de Saint-Loup, enviado por este (se não estivesse livre) para me transmitir um convite do capitão de Borodino, do grupo de oficiais no Coq Hardi, ou dos suboficiais no Faisan Doré. Saint-Loup vinha muitas vezes pessoalmente, e, durante todo o tempo em que ele ali se encontrava, eu, sem que ninguém percebesse, mantinha Albertine prisioneira sob meu olhar, aliás inutilmente vigilante. Entretanto, por uma vez interrompi a guarda. Como houvesse uma longa parada, Bloch, tendo-nos cumprimentado, retirou-se quase imediatamente para se juntar ao pai, o qual acabava de herdar do tio, e, tendo alugado um castelo que se chamava La Commanderie, achava bem próprio de um grão-senhor só circular em sege de posta, com postilhões de libré. Bloch pediu-me que o acompanhasse até a carruagem. 

- Mas apressa-te, pois esses quadrúpedes são impacientes; vêm, homem caro aos deuses, que darás alegria a meu pai. -

     Mas eu sofria muito em deixar Albertine no trem com Saint-Loup; eles poderiam falar-se enquanto eu estivesse de costas, ir para outro vagão, sorrir-se, tocar-se; meu olhar aderente a Albertine não podia destacar-se dela enquanto Saint-Loup ali estivesse. Ora, vi muito bem que Bloch, que me havia pedido como um serviço que fosse cumprimentar seu pai, primeiro achou pouco gentil que eu recusasse, visto que nada me impedia, já que os empregados tinham avisado que o trem ainda ficaria pelo menos um quarto de hora na estação, e que quase todos os passageiros, sem os quais o trem não partiria, haviam descido; e a seguir não duvidou de que fosse porque, decididamente minha conduta nessa ocasião lhe servia de prova decisiva -, eu era um esnobe. Pois não ignorava o nome das pessoas com quem eu me achava. De fato, o Sr. de Charlus me dissera, algum tempo antes e sem se lembrar ou importar-se que isso já fora feito outrora para se aproximar dele: 

- Mas apresente-me o seu companheiro. O que você faz é uma falta de respeito para comigo - e havia conversado com Bloch, que parecera agradar-lhe imensamente, tanto que o havia gratificado com um "espero tornar a vê-lo". 
- Então é irrevogável, não queres andar estes cem metros para cumprimentar meu pai, a quem isso daria tanta satisfação? - indagou Bloch.

     Sentia-me desgraçado por dar a impressão de que faltava com a boa camaradagem, ainda mais pelo motivo suposto por Bloch, e por ver que ele imaginava que eu já não era o mesmo para com meus amigos burgueses na presença de pessoas "bem-nascidas". Desde esse dia, deixou de me testemunhar a mesma amizade e, o que me era mais penoso, não teve mais a mesma estima pelo meu caráter. Mas, para desenganá-lo quanto ao motivo que me fizera permanecer no vagão, teria de lhe dizer alguma coisa a saber, que eu tinha ciúmes de Albertine -, o que me seria ainda mais doloroso do que deixá-lo crer que eu era estupidamente mundano. É assim que, teoricamente, achamos que deveríamos sempre nos explicar com toda a franqueza, evitar mal entendidos. Mas com muita freqüência a vida os combina de tal maneira que, para dissipá-los, nas raras circunstâncias em que isso seria possível, teríamos de revelar o que não é o caso presente - algo que deixaria o nosso amigo ainda mais ofendido do que a culpa imaginária de que nos acusa, ou um segredo cuja divulgação e era o que me acabava de ocorrer nos parece ainda pior que o mal-entendido. E além disso, mesmo sem explicar a Bloch, visto que não podia fazê-lo, a razão pela qual eu não o acompanhara, se eu lhe tivesse pedido que não ficasse magoado, não teria feito mais que aumentar essa mágoa, mostrando que dela me apercebera. Não havia o que fazer senão inclinar-se diante desse fato que havia desejado que a presença de Albertine me impedisse de acompanhá-lo e que acreditasse pelo contrário que era dessa gente brilhante a que, embora o tivesse sido cem vezes mais, só teria por efeito que me ocuparia então exclusivamente de Bloch e o reservasse toda minha cortesia. Bastou assim acidentalmente, absurdamente um incidente (neste caso a presença de Albertina e de Saint-Loup) interpor-se entre dois destinos cujas linhas convergiam uma para outra, para que se desviassem, apartassem-se mais e mais e já não pudessem aproximar-se. E há amizades mais formosas que as de Bloch e a minha, que se viram destruídas sem que o involuntário autor do desgosto tenha podido lhe explicar nunca ao aborrecido o que sem dúvida curasse seu amor próprio e devolvesse sua simpatia decrescente. Amizades mais formosas que a de Bloch não seria por outra parte dizer muito. Tinha todos os defeitos que mais me desgostavam. Minha ternura pela Albertina era acidentalmente o que me permitia suportá-los. Assim nesse singelo momento em que eu conversei com ele enquanto vigiada com um olho ao Roberto, Bloch me disse que havia almoçado em casa da senhora de Bontemps e que todos haviam falado com os maiores elogios de mim até o declinar de Hélios. Bom, pensei, como a senhora de Bontemps acredita que Bloch é um gênio, o sufrágio entusiasta que me terá concedido produzirá mais pelo que todos outros pudessem haver dito, e isso chegará de volta até Albertina. De um dia ao outro, não pode deixar de inteirar-se, e me assombra que sua tia não lhe haja dito ainda que sou um homem superior. 

- Sim, - adicionou Bloch, - todos fizeram seu elogio. Eu só guardei um silêncio tão profundo como se em lugar do almoço, por outra parte medíocre que nos serviam, tivesse absorvido papoula, de cara ao bem-aventurado irmão de Tanathos e da Letea, o divino Hypnos que envolve com doces ligaduras o corpo e a língua; e não é que o admire menos que essa banda de cães ávidos com os quais haviam-me convidado. Mas eu o admiro porque o compreendo e eles admiram-lhe sem o compreender. Para dizê-lo melhor, admiro-o muito para falar assim de você, em público; tivesse-me parecido uma profanação elogiar em voz alta o que levo no mais fundo de meu coração. Por mais que perguntassem a seu respeito, um pudor sagrado, filho de Kronion, fez-me emudecer.

     Não tive o mau gosto de parecer descontente, mas esse pudor me pareceu parente muito mais que de Kronion; desse pudor que impede a um crítico que nos admira, falar de nós para que o templo secreto no qual reinamos não seja invadido pela turfa dos leitores ignorantes e os jornalistas; com o pudor do homem de estado que não nos condecora para que não confundam-nos em meio da gente que não vale o mesmo que nós; com o pudor do acadêmico que não vota por nós para nos economizar a vergonha de ser colega de X ..., que não tem talento; com o pudor enfim mais respeitável e mais criminoso; entretanto dos filhos que rogam-nos não escrevamos de seus pais defuntos, que teve muitos méritos para lhes assegurar o silêncio e o descanso, impedir que se mantenha a vida e se crie glória ao redor do pobre morto, que preferiria seu nome pronunciado pelas bocas dos homens às coroas conduzidas, muito piedosamente por outra parte, até sua tumba. Se enquanto Bloch me desesperava por não compreender os motivos que me impediam de saudar seu pai, fala-me irritado ao me confessar que me descuidasse em casa da senhora de Bontemps (agora compreendia por que Albertina não tinha aludido nunca a esse almoço e ficava em silêncio quando lhe falava do afeto de Bloch por mim) o jovem israelita produziu no senhor de Charlus uma impressão muito distinta a chateação. Na verdade Bloch acreditava agora que não só não podia eu estar nem um segundo longe da gente elegante, mas sim ciumento das iniciativas que puderam ter com ele (como o senhor de Charlus) tratava de lhe pôr travas e lhe impedia de vincular-se, com eles; mas por sua parte o barão lamentava não ter visto mais a meu companheiro. Segundo seu costume, cuidou-se de demonstrá-lo. Começou por me fazer, sem aparentá-lo, algumas pergunta a respeito de Bloch, mas com um tom tão negligente, com um interesse que parecia de tal modo simulado que ninguém podia acreditar que ouvisse as respostas. Com um ar desprendido, com uma melancolia que mais que indiferença indicava distração e como uma simples cortesia por mim. 

- Parece inteligente, disse que escrevia tem talento?

     Disse-lhe ao senhor de Charlus que tinha sido muito amável ao lhe dizer que esperava voltar a vê-lo. Nem por um momento revelou o barão que tinha ouvido minha frase e como a repeti quatro vezes sem ter resposta, acabei por duvidar se não teria sido vítima de uma miragem acústica quando acreditei ouvir o que havia dito o senhor de Charlus. 

- Vive em Balbec? - cantarolou o barão, com um aspecto tão pouco inquisitivo que é irritante que o idioma francês não possua outro sinal além disso do de interrogação para terminar essas frases aparentemente tão pouco interrogativas. É verdade que esse sinal não serviria ao senhor de Charlus. Não, alugara perto daqui, a Encomenda.

     Uma vez que soube o que desejava o senhor de Charlus fingiu desprezar Bloch. 

- Que horror!, - exclamou devolvendo à voz todo seu vigor de clarim. Todas as localidades ou propriedades chamadas A Encomenda. foram construídas ou possuídas pelos Cavaleiros da Ordem de Malta (a qual pertenço) como os lugares chamados o Templo ou a Cavalaria dos Templários. Se eu habitasse a Encomenda seria muito natural. Mas um judeu...

     Por outra parte não me assombra; isso depende de um curioso afã pelo sacrilégio próprio dessa raça. Assim que um judeu tem bastante dinheiro para comprar um castelo, escolhe sempre um que se chama o Priorado, a Abadia, o Monastério, a Casa de Deus. Tive que ver isso com um funcionário judeu, adivinhem onde vivia? Em Pont-l.Evêque. Cansado da desgraça deu um jeito de o mandarem à Bretanha, no Pont-l.Abbè. Quando na Semana Santa dão esses espetáculos indecentes que se chamam A Paixão, a metade da sala está cheia de judeus, encantados de pensar que vão crucificar pela segunda vez à Jesus, pelo menos em efígie. No concerto do Lamoureux, tinha uma vez por vizinho um rico banqueiro judeu. Tocaram a Infância do Cristo, de Berlioz, e causava pena. Mas logo recuperou a beatitude que lhe é habitual para ouvir o encantamento da Sexta-Feira Santa. 

- Seu amigo vive na Encomenda, desgraçado! que sadismo! Você me indicará o caminho -adicionou voltando para seu ar indiferente; para que um dia possa ir ver como suportam nossos antigos domínios semelhante profanação. É uma desgraça, porque é educado e parece fino. Só faltaria viver na rua do Templo, em Paris.

     O senhor de Charlus parecia com essas palavras querer encontrar unicamente um novo exemplo de sua teoria; mas em realidade me expor uma pergunta com dois objetos cujo principal era saber a direção de Bloch. Com efeito, fez notar Brichot, a rua do Templo se chamava rua da Cavalaria do Templo. 

- E a esse respeito permite uma observação, barão? - disse o universitário. 
- O que? O que é? - disse secamente o senhor de Charlus, ao que essa observação impedia conseguir seu relatório. 
- Não, nada, - respondeu Brichot, embaralhado. - Era a propósito da etimologia de Balbec que me pediram. A rua do Templo se chamava antes Varre du Bac, porque a Abadia do Bac, na Normandia, tinha aí, em Paris, sua vara da justiça.

     O senhor de Charlus nada respondeu e aparentou não ter ouvido, o que nele constituía uma das formas de insolência. 

- Onde vive seu amigo em Paris? Como as três quartas partes das ruas tiram seu nome de uma igreja ou uma abadia, há probabilidade de que continue o sacrilégio. Não se pode impedir que os judeus vivam no bulevar de Madalena, no bairro de São Honorato ou na praça de São Agustin. Enquanto não chegam ao pérfido refinamento de escolher domicílio na praça do átrio de Nossa Senhora, na rua do Arcebispado, na rua Canonesa ou na de Ave-Maria, terá que lhes ter em conta as dificuldades.  

     Não pudemos informar ao senhor de Charlus qual era a atual direção de Bloch, nos era desconhecida. Mas eu sabia que os escritórios do pai estavam na rua dos Mantos Brancos. 

- Oh! é o cúmulo da perversidade! - exclamou o senhor de Charlus, que pareceu achar uma profunda satisfação em seu próprio grito de irônica indignação. Rua dos Mantos Brancos! repetiu, espremendo cada sílaba com uma risada. -Que sacrilégio! Pensem que esses Mantos Brancos profanados pelo senhor Bloch eram os dos frades mendicantes, ditos servos da Santa Virgem, que São Luís assentou ali. E a rua sempre pertenceu à ordens religiosas. A profanação é tanto mais diabólica porque, a dois passos da rua dos Blancs-Manteaux, existe uma rua cujo nome não me lembro e que é inteira concedida aos judeus; há caracteres hebraicos nas lojas, fábricas de pães ázimos, açougues judeus, é a perfeita Judengasse de Paris. O Sr. de Rochegude a denomina gueto parisiense. Era aí que o Sr. Bloch deveria morar. Naturalmente - prosseguiu num tom bastante enfático e altaneiro, e dando, para sustentar conceitos estéticos com uma resposta que lhe dirigia,- malgrado seu, a sua hereditariedade, um ar de velho mosqueteiro de Luís XIII à sua cabeça atirada para trás só me ocupo de tudo isso do ponto de vista da arte. A política não é da minha competência, e eu não posso condenar em bloco, visto tratar-se de Bloch, uma nação que conta Spinoza entre seus membros ilustres. E admiro bastante Rembrandt para não reconhecer a beleza que se pode extrair da freqüência à sinagoga. Mas enfim, um gueto é tanto mais belo quanto mais homogêneo e mais completo. Aliás, fique certo, de tal modo o instinto prático e a cupidez se misturam nesse povo ao sadismo, que a proximidade da rua hebraica de que lhe falo, a comodidade de ter à mão os açougues de Israel, fez com que o seu amigo escolhesse a rua dos Blancs-Manteaux. Como é curioso! Aliás, é por ali que residia um estranho judeu que mandara ferver hóstias, após o que imagino que o fizeram ferver a ele próprio, o que é mais estranho ainda, já que isso parece significar que o corpo de um judeu pode valer tanto quanto o corpo do bom Deus. Talvez fosse possível combinar com seu amigo para que ele nos leve a visitar a igreja dos Blancs-Manteaux. Considere que foi lá que deixaram exposto o corpo de Luís de Orléans depois de seu assassinato por João sem Medo, o qual, infelizmente, não nos livrou dos Orléans. De resto, dou-me pessoalmente muito bem com meu primo, o duque de Chartres, mas, enfim, trata-se de uma raça de usurpadores, que mandaram assassinar Luís XVI e despojar Carlos X e Henrique V. Além disso, têm a quem sair, pois contam entre seus antepassados a Monsenhor, a quem assim chamavam sem dúvida por ser a mais espantosa das velhas damas, o Regente e o resto. Que família! -

     Esse discurso anti-semita ou pró-semita conforme se leve em conta o exterior das frases ou as intenções que elas revelam me fora comicamente interrompido por uma frase que Morel me sussurrou e que teria desesperado o Sr. de Charlus. Morel, que havia reparado na impressão que Bloch produzira, agradecia-me ao ouvido o tê-lo "despachado", acrescentando cinicamente: 

- Ele bem que desejaria ficar, isso tudo é ciúmes; gostaria de tomar o meu posto. É bem típico de um judeu! 
- Poderíamos aproveitar essa parada que se prolonga para pedir algumas explicações rituais ao seu amigo. Será que não podia trazê-lo de volta? - perguntou-me o Sr. de Charlus com a ansiedade da dúvida. 
- Não, é impossível; ele já se foi de carro e, além disso, aborrecido comigo. 
- Obrigado, obrigado - me sussurrou Morel. 
- A desculpa é absurda, sempre se pode alcançar um carro, nada o impediria de tomar um auto - respondeu o Sr. de Charlus, como homem acostumado a que todos se inclinassem diante dele. Mas, reparando no meu silêncio: - Qual é esse carro mais ou menos imaginário? perguntou me com insolência e numa última esperança. - É uma sege de porta aberta e que já deve ter chegado à Commanderie. - Diante do impossível, o Sr. de Charlus se resignou e pareceu gracejar. - Compreendo que tenham recuado diante do cupê redundante. Pois, seria um recupê - 

[Trocadilho intraduzível, em português, pois faz alusão à circuncisão dos judeus. (em francês coupé, ou sela, "cortado"), (N. do T)]

     Finalmente fomos avisados de que o trem ia partir, e Saint-Loup nos deixou. Mas esse dia foi o único em que ele, subindo para o nosso vagão, me fez involuntariamente sofrer com a idéia de ter de deixá-lo por um instante com Albertine para acompanhar Bloch. Das outras vezes a sua presença não me torturou. Pois, por si mesma, Albertine, para me evitar qualquer inquietação, colocava-se, sob um pretexto qualquer, de tal forma que nem mesmo sem querer poderia roçar em Robert, que ficava quase longe demais até para lhe estender a mão; desviando dele os olhos, logo que ele se achava presente, ela punha-se a conversar ostensivamente, e quase com afetação, com qualquer outro dos passageiros, continuando nesse jogo até que Saint-Loup descesse. De modo que, assim, as visitas que ele nos fazia em Doncieres não me causavam nenhum sofrimento, nem sequer nenhum incômodo, não constituíam qualquer exceção entre as outras, pois todas eram agradáveis, trazendo-me de certa maneira a homenagem e o convite daquela terra. Já desde o fim do verão, no nosso trajeto de Balbec a Douville, quando eu avistava de longe aquela estação de Saint-Pierre-des-lfs, onde à tardinha cintilava por um instante a crista das falésias, toda rosada como ao sol poente a neve de uma montanha, ela já não me fazia pensar (não falo nem mesmo na tristeza que a vista de seu estranho relevo subitamente me causara na primeira noite, ao me dar tão grande vontade de tomar o trem de volta para Paris em vez de continuar até Balbec) no espetáculo que de manhã se podia ter dali, segundo me dissera Elstir, na hora que precede o nascer do sol em que todas as cores do arco-íris se refratam sobre os rochedos, e onde tantas vezes ele havia despertado o menino que, durante um ano, lhe servira de modelo, a fim de pintá-lo inteiramente nu na areia da praia. O nome de Saint-Pierre-des-lfs anunciava-me apenas que ia aparecer um qüinquagenário estranho, espirituoso e maquilado, com quem eu poderia falar sobre Chateaubriand e Balzac. E agora, nas névoas da tarde, detrás daquela falésia de Incarville que tanto me fizera sonhar outrora, o que eu via, como se a sua greda antiga se tornasse transparente, era a bela casa de um tio do Sr. de Cambremer e na qual eu sabia que ficariam sempre contentes em me acolher caso não quisesse jantar na Raspeliere ou voltar a Balbec. Assim, não eram somente os nomes de lugares dessa região que haviam perdido o seu mistério inicial, mas os próprios lugares. Os nomes, já meio vazios de um mistério que a etimologia substituíra pelo raciocínio, tinham baixado ainda mais um grau. Em nossos regressos a Hermonville, a Saint-Vast, a Arembouville, no momento em que o trem parava, avistávamos sombras que a princípio não reconhecíamos e que Brichot, que não via coisa alguma, poderia talvez ter tomado, de noite, por fantasmas de Herimund, de Wíscar e de Herimbald. Era simplesmente o Sr. de Cambremer, completamente rompido com os Verdurin, que reconduzia convidados e que, da parte de sua mãe e da esposa, vinha me perguntar se eu não queria que ele me "raptasse" para hospedar-se alguns dias em Féterne, onde iam apresentar-se uma excelente musicista que me cantaria todo o Glück e um renomado jogador de xadrez com quem eu disputaria excelentes partidas que não prejudicariam a pesca e o iatismo na baía, nem mesmo os jantares dos Verdurin, para os quais o marquês se comprometia, sob palavra de honra, a "emprestar-me", mandando que me levassem e trouxessem para maior facilidade, e também para maior segurança. 

- Mas não posso crer que seja bom para o senhor ir até tão alto. Sei que minha irmã não o poderia suportar. Voltaria num tal estado! Aliás, no momento ela não anda muito bem... Na verdade, o senhor teve uma crise tão forte! Amanhã não poderá ficar de pé! - E se torcia de riso, não por maldade, mas pelo mesmo motivo por que não podia, sem rir, ver um coxo estatelar-se na rua ou conversar com um surdo. - E então? O quê, o senhor não tem um acesso há quinze dias? Pois saiba que isso é ótimo! Verdadeiramente, deveria vir instalar-se em Féterne, conversaria com minha irmã sobre suas sufocações. -

     Em Incarville, era o marquês de Montpeyroux que, não tendo podido ir a Féterne, pois ausentara-se para caçar, tinha vindo "ao trem" de botas e com o chapéu ornado com uma pluma de faisão, a fim de apertar a mão de parentes e anunciar-me, na mesma ocasião, para o dia que eu quisesse, a visita de seu filho, que ele me agradecia que eu recebesse e gostaria muito que o fizesse ler um pouco; ou então o Sr. de Crécy, que vinha fazer a sua digestão, dizia ele, fumando seu cachimbo, aceitando um ou até vários charutos, e que me dizia: 

- Pois bem, o senhor não marca um dia para a nossa próxima reunião à Lúculo? Não temos nada a nos dizer? Permita-me que lhe lembre que deixamos em aberto no trem a questão das duas famílias Montgommery. É preciso que encerremos o assunto. Conto com o senhor. -

     Outros vinham apenas comprar jornais. E também muitos conversavam conosco, tanto que eu sempre desconfiei acharem-se ali na plataforma, na estação mais próxima de seu pequeno castelo, somente por não terem o que fazer senão encontrar num momento pessoas conhecidas. Em suma, um quadro da vida mundana como qualquer outro, eram essas paradas do trenzinho. Este parecia ter consciência do papel que lhe cabia, adquirira uma certa amabilidade humana: paciente, de temperamento dócil, esperava pelos retardatários o tempo que eles quisessem, e até mesmo, depois de ter partido, parava para recolher os que lhe faziam sinal; estes então corriam atrás dele, resfolegando, no que se pareciam a ele, mas com a diferença de que o alcançavam a toda velocidade, ao passo que ele só se utilizava de uma sábia lentidão. Assim Hermonville, Arembouville, Incarville já nem sequer me evocavam as rudes grandezas da conquista normanda, não satisfeitas de se haverem totalmente despojado da inexplicável tristeza em que as banhara outrora na umidade da noite. Doncieres! Para mim, mesmo depois de a ter conhecido e de haver despertado do meu sonho, o quanto não restava nesse nome, por muito tempo, das ruas agradavelmente gélidas, das vitrinas iluminadas, das aves suculentas! Doncieres! Agora, nada mais era que a estação onde embarcava Morel; Égleville (Aquilaevilla), aquela em que geralmente nos esperava a princesa Sherbatoff; Maineville, a estação em que descia Albertine nas noites de bom tempo, quando, não estando muito cansada, tinha vontade de se demorar ainda um momento comigo, visto que, por um atalho, não precisava caminhar muito mais do que se tivesse descido em Parville (Paterni villa). Não só eu já não sentia o temor ansioso do isolamento que me oprimira na primeira noite, como também não mais tinha que recear a sua renovação, nem de sentir-me desenraizado ou de me achar sozinho nessa terra que produzia não apenas castanheiros e tamargueiras, mas também amizades que, ao longo do percurso, formavam uma longa cadeia, interrompida como a das colinas azuladas, por vezes ocultas na anfratuosidade do rochedo ou por detrás das tílias da avenida, mas delegando a cada estação um amável gentil homem que vinha, com um cordial aperto de mão, interromper o meu caminho, impedir-me de sentir sua extensão e, se preciso, oferecer-se para continuá-la comigo. Um outro estaria na estação seguinte, de forma que o apito do trenzinho não nos fazia deixar um amigo senão para permitir que encontrássemos outros. Entre os castelos mais afastados e o trem de ferro que os costeava quase ao passo de uma pessoa que caminha depressa, tão curta era a distância que no momento em que, na plataforma, diante da sala de espera, os seus proprietários nos interpelavam, quase poderíamos acreditar que o faziam da soleira de sua porta, da janela do seu quarto, como se a pequena via férrea departamental não passasse de uma rua de província e o solar isolado de um hotel citadino; e até nas raras estações em que eu não ouvia o "boanoite" de ninguém, o silêncio possuía uma plenitude nutritiva e calmante, pois eu o sabia formado pelo sono de amigos que se deitavam cedo na mansão próxima, onde a minha vinda seria saudada com alegria se eu precisasse despertá-los para lhes pedir um serviço de hospitalidade. Além do que, o hábito preenche de tal modo o nosso tempo que, no fim de alguns meses, não nos resta um só instante livre numa cidade em que, ao chegarmos, o dia nos dava a disponibilidade de suas doze horas; se por acaso uma hora ficasse vaga, não mais teria a ideia de empregá-la em visitar uma igreja pela qual outrora eu tinha vindo a Balbec, nem mesmo confrontar um local pintado por Elstir com o esboço que eu vira em casa dele, mas ir jogar mais uma partida de xadrez em casa do Sr. Féré. Com efeito, era a influência degradante, como também o encanto, que tivera essa região de Balbec de se converter para mim numa verdadeira terra de conhecidos; se sua repartição territorial, sua semeadura extensiva ao longo do litoral em culturas diversas conferiam obrigatoriamente às visitas que eu fazia a esses diferentes amigos a forma de viagem, também restringiam essa viagem a não ter mais que o agrado social de uma série de visitas. Os próprios nomes de lugares, tão perturbadores para mim outrora, que o simples annuaire des châteaux, folheado no capítulo do departamento da Mancha, me causava tanta emoção como o Indicador das estradas de ferro, tinham-se tornado tão familiares que eu podia até consultar esse mesmo Indicador, na página Balbec-Douville por Doncieres, com a mesma tranquilidade de um catálogo de endereços. Nesse vale por demais social, a cujos flancos eu sentia grudada, visível ou não, uma comparsaria de amigos numerosos, o grito poético da noite já não era o da coruja ou da rã, e sim o "Como vai?'' do Sr. de Criquetot ou o "Kairé!" de Brichot. A atmosfera já não despertava angústias e, carregada de eflúvios puramente humanos, era facilmente respirável, até mesmo excessivamente calmante. O benefício que eu dela tirava era, pelo menos, o de só ver as coisas do ponto de vista prático. O casamento com Albertine me parecia uma loucura.

continua na página 237...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Chegado o dia do jantar)
Volume 6
Volume 7