sábado, 17 de janeiro de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Nesse caso particular, ela se enganava)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Nesse caso particular, ela se enganava; jamais voltei a ver nem a identificar a linda jovem do cigarro. De resto, veremos porque, durante muito tempo, tive de deixar de procurá-la. Mas não a esqueci. Muitas vezes me ocorre, ao pensar nela, ser tomado de um desejo louco. Mas esses retornos do desejo obrigam-nos a refletir que, se quiséssemos reencontrar essas moças com o mesmo prazer, seria também necessário regressar ao ano que depois foi seguido por dez outros durante os quais a moça perdeu o frescor. Às vezes, pode-se encontrar uma criatura, mas não abolir o tempo. Tudo isso até o dia, triste e imprevisto como uma noite de inverno, em que já não procuramos aquela moça, nem qualquer outra, e em que encontrá-la chegaria a assustar-nos. Pois já não sentimos atrativos suficientes para agradar, nem forças para amar. Não, é claro, que a gente esteja, no sentido próprio do termo, impotente. E, quanto a amar, amaríamos mais que nunca. Mas sentimos que se trata de uma empreitada demasiado grande para o pouco de forças que nos resta. O repouso eterno já dispôs intervalos em que não se pode sair nem falar. Pôr o pé no degrau devido é uma vitória, como não falhar no salto mortal. Ser visto nesse estado por uma mocinha a quem amamos, mesmo que tenhamos conservado o rosto e os cabelos louros de rapaz! Já não podemos nos arriscar ao cansaço de acompanhar o passo da juventude. Tanto pior se o desejo carnal reduplica ao invés de se amortecer! Trazem-nos então uma mulher a quem não nos preocupamos em agradar, que só por uma noite partilhará o nosso leito e que nunca mais veremos. 

- Devem continuar não tendo notícias do violinista - disse Cottard.

     De fato, o acontecimento do dia no pequeno clã era o "sumiço" do violinista predileto da Sra. Verdurin. Prestando serviço militar perto de Doncieres, ele vinha três vezes por semana jantar em La Raspeliere, pois tinha licença noturna. Ora, na antevéspera, pela primeira vez os fiéis não tinham conseguido descobri-lo no trem. Supusera-se que havia faltado. Mas embora a Sra. Verdurin tivesse mandado esperar o trem seguinte, e por fim o último, o carro voltara vazio. 

- Certamente, ele está preso, não há outra explicação para a sua fuga. Ah, diabos! Vocês sabem, no serviço militar, com esses rapazes, basta um sargento ranzinza. 
- Será tanto mais mortificante para a Sra. Verdurin - disse Brichot se ele "some" ainda esta noite, quando nossa amável anfitriã recebe para jantar, justamente pela primeira vez, os vizinhos que alugaram La Raspeliere, o marquês e a marquesa de Cambremer. 
- Esta noite, o marquês e a marquesa de Cambremer! - gritou Cottard. - Mas eu não sabia absolutamente nada. Naturalmente sabia, como todos vocês, que eles deveriam vir um dia, mas não imaginava que estivesse tão próximo. Diabos! - disse ele, voltando-se para mim: que foi que lhe disse: a princesa Sherbatoff, o marquês e a marquesa de Cambremer. - E depois de ter repetido esses nomes, embalando-se com sua melodia: - Bem vê que atiramos bem. Não importa -disse ele -, para quem está começando, o senhor acerta em cheio. Vai ser um espetáculo brilhante. - E, voltando-se para Brichot, acrescentou: - A Patroa deve estar furiosa. Já é hora de chegarmos para lhe dar auxílio. -

     Desde que a Sra. Verdurin estava na Raspeliere, afetava, diante dos fiéis, estar de fato na obrigação e no desespero de convidar uma vez os seus proprietários. Assim, dizia, teria melhores condições para o ano seguinte, e não o fazia senão por interesse. Mas pretendia ter tamanho horror, achar uma tal monstruosidade um jantar com pessoas que não fossem do pequeno grupo, que o adiava sempre. Aliás, se o jantar a assustava um pouco pelos motivos que ela proclamava, exagerando-os, por outro lado, encantava-a por razões de esnobismo que ela preferia calar. Portanto, era meio sincera, julgava o pequeno clã como algo de tão único no mundo, um desses conjuntos que levam séculos para que se constitua outro idêntico, que tremia à ideia de ver nele introduzidas essas pessoas provincianas, que ignoravam a Tetralogia e os Mestres, que não saberiam sustentar sua parte no concerto da conversação geral e eram capazes, comparecendo à casa da Sra. Verdurin, de destruir uma das famosas quartas-feiras, obras-primas incomparáveis e frágeis, semelhantes aos cristais de Veneza que uma nota desafinada basta para quebrar. 

- Além disso, devem ser o que há de mais antimilitaristas - dissera o Sr. Verdurin. 
- Ah, isso, por exemplo, pouco me importa, já faz muito tempo que falam nessa história respondera a Sra. Verdurin, que, sinceramente dreyfusista, desejaria no entanto encontrar, na preponderância de seu salão dreyfusista, uma recompensa mundana. Ora, o dreyfusismo triunfava politicamente, mas não entre os mundanos. Labori, Reinach, Picquart e Zola continuavam sendo, para a gente mundana, uns traidores que só podiam afastá-los do pequeno núcleo. Assim, depois dessa incursão na política, a Sra. Verdurin fazia questão de regressar à arte. Aliás, d'Indy e Debussy não estavam "mal" no Caso Dreyfus? 
- No que tange ao Caso, não teríamos mais que colocá-los junto de Brichot - disse ela, pois o universitário era o único dos fiéis que tomara o partido do Estado-Maior, o que o fizera baixar muito na estima da Sra. Verdurin. - Não se é obrigado a falar eternamente do Caso Dreyfus. Não, a verdade é que os Cambremer me aborrecem. -

     Quanto aos fiéis, tão excitados pelo desejo inconfesso que tinham de conhecer os Cambremer como iludidos pelo aborrecimento representado que a Sra. Verdurin dizia sentir em recebê-los, retomavam todos os dois conversando com ela, os frágeis argumentos que ela própria invocava - favor desse convite, buscavam torná-los irresistíveis. 

- Decida-se de uma vez - repetia Cottard -, e terá as concessões quanto ao aluguel, eles que pagarão o jardineiro, e os senhores poderão utilizar-se do prado. 
- Tudo isso bem vale a pena de aborrecer-se por uma noite. Só falo disso no interesse - acrescentava, conquanto o coração lhe palpitasse uma vez, quando, no carro da Sra. Verdurin, havia cruzado com o da velha Sra. de Cambremer na estrada, e sobretudo ao ser humilhado pelos empregados da estrada de ferro, quando se encontrava perto do marquês, na estação. Por seu turno, os Cambremer, vivendo realmente muito longe do movimento mundano para poderem sequer suspeitar que certas mulheres elegantes falavam da Sra. Verdurin com alguma consideração, imaginavam que este era uma pessoa que só podia conhecer boêmios, não era nem mesmo intimamente casada, e que, no tocante a pessoas "bem nascidas", não veria nunca senão a eles, Cambremer. Resignavam-se a jantar na casa dela, ao menos para estarem em bons termos com uma locatária cujo retorno esperavam por numerosas temporadas, sobretudo desde que tinham sabido, no mês anterior, que ela havia acabado de herdar tantos milhões. Era em silêncio e sem gracejos de mau gosto que eles se preparavam para o dia falar. Os fiéis já não esperavam que eles comparecessem algum dia, pois a Sr. Verdurin tantas vezes fixara, diante deles, a data sempre mudada. Essas falsas resoluções objetivavam não só fazer ostentação do tédio que lhe provocava esse jantar, como também manter em suspense os membros do pequeno grupo que residiam nas vizinhanças e eram às vezes tentados a abandoná-la. Não que a Patroa adivinhasse que o "grande dia" lhes era tão agradável quanto a si própria, mas porque, tendo-os persuadido que tal jantar era para ela a mais terrível das maçadas, podia apelar para o seu devotamento. 
- Vocês não vão me deixar sozinha frente a frente com esses chineses! Pelo contrário, é preciso que sejamos em grande número para suportar o tédio. Naturalmente, não poderemos falar coisa alguma sobre o que nos interessa. Que querem, será uma quarta-feira malograda! 
- Com efeito - respondeu Brichot, dirigindo-se a mim-, creio que a Sra. Verdurin, que é muito inteligente e põe muita coqueteria na organização de suas quartas, não fazia questão de receber esses fidalgotes de grande linhagem mas sem espírito. Não pôde resolver-se a convidar a velha marquesa, mas resignou-se ao filho e à nora. 
- Ah, veremos a marquesa de Cambremer? - indagou Cottard com um sorriso em que julgou dever pôr um tanto de lascívia e afetação, embora ignorasse se a Sra. Cambremer era bonita ou não. Mas o título de marquesa lhe despertava imagens prestigiosas e galantes. 
- Ah! Conheço-a - informou Ski, que a encontrara uma vez quando passeava com a Sra. Verdurin. 
- Não a conhece no sentido bíblico? - perguntou o doutor, deslizando um olhar ambíguo por baixo do seu lorgnon, pois esse era um de seus gracejos favoritos. 
- Ela é inteligente - disse-me Ski. - Naturalmente continuou, vendo que eu ficava calado e acentuando, a sorrir, cada palavra -, ela é e não é inteligente; falta-lhe instrução, é frívola, mas tem o instinto das coisas belas. Ficará calada, mas jamais dirá uma asneira. E, além disso, possui uma linda coloração. Seria divertido pintar o seu retrato - acrescentou, entrecerrando os olhos como se a estivesse contemplando a posar diante dele. Como eu pensava exatamente o contrário daquilo que Ski exprimia com tantas nuanças, contentei-me em dizer que ela era a irmã de um engenheiro muito distinto, o Sr. Legrandin. 
- Pois bem, como vê, será apresentado a uma bela mulher - disse-me Brichot e nunca se sabe o que pode resultar daí. Cleópatra não era sequer uma grande dama, era a mulherzinha, a mulherzinha inconsciente e terrível do nosso Meilhac, e veja as consequências, não só para aquele palerma do Marco Antônio, mas também para o mundo antigo. 
- Já fui apresentado à Sra. de Cambremer -respondi. 
- Ah! Mas então vai se achar em terreno conhecido. 
- E tanto mais satisfeito ficarei em vê-la, pois ela me prometeu uma obra do antigo cura de Combray sobre todos os lugares desta região - respondi -, e vou poder lembrar-lhe sua promessa. Interesso-me por esse padre e também pelas etimologias. 
- Não confie muito nas que ele indica - observou Brichot; - a obra, de que existe um exemplar em La Raspeliere, e que me diverti em folhear, nada me diz que valha a pena; está repleta de erros. Vou lhe dar um exemplo. A palavra bricq entra na formação de uma grande quantidade de nomes de lugares das nossas redondezas. O bom eclesiástico teve a ideia, mais ou menos extravagante, de que ela provém de briga, altura, lugar fortificado. Ele a vê já nas povoações célticas, Latobriges, Nemetobriges, etc., e a segue até em nomes como Briand, Brion, etc. Para voltar à região que temos o prazer de atravessar neste momento com o senhor, Bricquebosc significaria o bosque da altitude; Bricqueville, a habitação da altura; Bricquebec, onde vamos parar em breve antes de chegar a Maineville, a altura perto do regato. Ora, não se trata absolutamente disso, pela razão de que bricq é a velha palavra norueguesa que significa simplesmente ponte. Assim também como fleur, que o protegido da Sra. de Cambremer se dá um trabalho infinito para ligar ora às palavras escandinavas floi, fio, ora aos termos irlandeses ae e aer, é, pelo contrário, sem dúvida nenhuma, o fjord dos dinamarqueses e significa porto. Da mesma forma, o excelente padre julga que a estação de Saint-Martin-le-Vêtu, vizinha a La Raspeliere, signo da Saint-Martin-le-Vieux (vetos). É certo que o vocábulo vieux desempenhou grande papel na toponímia desta região. Em geral, vieux procede de vadtel* e significa um vau, como no lugar chamado os Vieux. É o que os angloa chamavam ford (Oxford, Hereford). Mas, no caso particular, vieux provém não de vetus, mas de vastatus, lugar devastado e nu. Perto daqui, os senhores têm Sottevast, o vast de Setold, Brillevast, o vast de Berold. Tenho tanto mais certeza do erro do cura, pois antigamente Saint-Martin-le-Vieux se chamava Saint-Martin-du-Gast e até Saint-Martin-de-Terregate. Ora, o v e o g nessas palavras são a mesma letra. Diz-se devastar, mas também desgastar Jacheres e gâtines (do alto alemão wastinna) têm esse mesmo sentido; Terregate, portanto, é terra vasta. Quanto a Saint-Mars, outrora (honni soil qui mal y pense!) Saint Merd, é Saint-Medardus, que ora é Saint-Médard; Saint-Mard, Saint-Marc, Cinq-Mars e até Dammas. Aliás, não convém esquecer que, bem perto daqui, lugares que trazem este mesmo nome de Mars atestam simplesmente uma origem pagã (o deus Marte) que permanece viva nesta região, mas que o santo homem se recusa a reconhecer. As colinas dedicadas aos deuses são especialmente bem numerosas, como a montanha de Júpiter (Jeumont). O seu cura não quer ver nada disso e, em compensação, por toda parte onde o cristianismo deixou vestígios, estes lhe escapam. Prolongou sua viagem até Loctudy, nome bárbaro, segundo ele, ao passo que se trata de Locus sancti Tudeni, e também não adivinhou, em Sammarcoles, Sanctus Martialis. O seu cura -continuou Brichot, vendo que eu estava interessado em ouvir as palavras terminadas em hon, honre, holm do termo holl (hollus), colina, ao passo que elas provêm do norueguês holm, ilha, que o senhor bem conhece em Estocolmo, e que se espalhou em toda esta região: Houlme, Engohomme, Tahoume, Robehomme, Néhomme, Quettehou, etc. -

     Esses nomes me fizeram pensar no dia em que Albertine quisera ir a Amfreville-la-Bigot (do nome dos deuses de seus senhores sucessivos, me disse Brichot), e onde ela a seguir me propusera jantarmos juntos em Robehomme. Quanto a Montmartin, íamos passar por ela dentro de alguns instantes. 

- Néhomme não fica perto de Carquethuit e de Clitourps? -perguntei. 
- Perfeitamente. Néhomme é o holm, a ilha ou península do famoso visconde Nigel, cujo nome permaneceu igualmente em Néville. Carquethuit e Clitourps, de que o senhor fala, são, para o protegido da Sra. de Cambremer, ocasião de cometer outros erros. Sem dúvida, ele vê muito bem que carque é uma igreja, a Kirsche dos alemães. O senhor conhece Querqueville, Carquebut, para não falar em Dunquerque. Pois então seria preferível que parássemos nesta famosa palavra dun, que para os celtas significava uma elevação. E isso o senhor há de encontrar em toda a França. Seu abade se hipnotiza diante de Duneville. Mas no Eure-et-Loir teria encontrado Châteaudun; Dun-le-Roi, no Cher; Duneau, no Sarthe; Dun, no Ariege; Dune-les-Places, na Nievre, etc., etc.. Este dun fá-lo cometer um erro curioso no que concerne a Douville, onde desceremos e onde nos esperam os carros confortáveis da Sra. Verdurin. Douville, em latim donvilla, diz ele. De fato, Douville está ao sopé de grandes elevações. O seu cura, que sabe tudo, ainda assim percebe que cometeu um engano. Com efeito, leu, num antigo livro de registros, Domvilla. Então ele se retrata; Douville, segundo ele, é um feudo do abade, domino abbati, do monte Saint-Michel. Com isso, regozija-se, o que é bem estranho quando se pensa na vida escandalosa que, desde o capitulário de Saint-Clair-sur-Epte, levavam no monte Saint-Michel, e que não seria mais extraordinário do que ver o rei da Dinamarca suserano de todo este litoral, onde ele mandava celebrar muito mais o culto de Odin do que o do Cristo. Por outro lado, a suposição de que o n foi mudado para u não me choca e exige menos alteração do que o muito correto Lyon, que também deriva de dun (Lugdunum). Mas enfim, o abade se engana. Douville nunca foi Donville, e sim Doville, Eudonis Villa, a aldeia de Eudes. Douville se chamava antigamente Escalecliff, a escada da vertente. Por volta de 1233, Eudes le Bouteiller, senhor de Escalecliff, partiu para a Terra Santa; no momento da partida, mandou entregar à Igreja a abadia de Blanchelande. Troca de belos gestos: a aldeia tomou o seu nome, de onde atualmente Douville. Mas acrescento que a toponímia, em que aliás sou bastante ignaro, não é uma ciência exata; se não tivéssemos esse testemunho histórico, Douville poderia muito bem provir de Ouville, ou seja, as Águas. As formas em ai (Ai gues-Mortes), de aqua, mudam-se amiúde em eu, em ou. Ora, bem perto de Douville havia águas renomadas. Imagine então como estaria contente o cura por encontrar ali algum traço cristão, ainda que essa região pareça ter sido bastante difícil para evangelizar, visto que foi necessário que insistissem nela, sucessivamente, Santo Ursal, São Gofroi, São Barsanore, São Laurent de Brévedent, o qual por fim passou o encargo para os monges de Beaubec. Porém quanto a tuit, o autor se engana; vê aí uma forma de toft, cabana, como em Criquetot, Ectot, Yvetot, ao passo que se trata de thveit, roçado, arroteamento, como em Braquetuit, Le Thuit, Regnetuit, etc. Da mesma forma, se ele reconhece em Clitourps o thorp normando, que significa aldeia, quer que a primeira parte do nome derive de clivus, vertente, quando na realidade provém de cliff, rochedo. Mas seus erros mais grosseiros decorrem menos de sua ignorância do que de seus preconceitos. Por bom francês que a gente seja, devemos negar a evidência e tomar Saint-Laurent-en-Bray pelo sacerdote romano tão conhecido, quando se trata de São Lourenço O'Toole, arcebispo de Dublin? Porém, mais que o sentimento patriótico, o preconceito religioso do seu amigo fá-lo cometer graves deslizes. Assim, o senhor tem, longe dos nossos anfitriões de La Raspeliere, dois Montmartin, Montma - sur-Mer e Montmartin-en Graignes. Quanto a Graignes, o bom cura não cometeu erro, viu perfeitamente que Graignes, em latim grania, em grego crer* significa charco, pântano; quantos Cresmays, Croen, Grenneville, Lengrorr não se poderiam citar? Mas, quanto a Montmartin, o seu pretenso lingüista quer absolutamente que se trate de paróquias dedicadas a São Martin. Fundamenta-se em que o santo é o padroeiro da cidade, mas não se dá conta de que só posteriormente foi tomado como tal; ou melhor, está cego por ódio ao paganismo; não quer ver que se teria dito Mont-Saint-Martin como se diz Mont-Saint-Michel, se se tratasse de São Martinho, ao passo que o nome de Montmartin se aplica de modo bem mais pagão a templos consagrados ao deus Marte, templos dos quais, é verdade, não possuímos outros vestígios, mas que a inconteste presença da vizinhança de vastos acampamentos romanos tornaria mais verossímeis, mesmo sem o nome de Montmartin, que elimina qualquer dúvida. O senhor vê que o livrinho que vai encontrar em La Raspeliere não é dos mais bem-feitos. 
- Objetei que em Combray, o cura nos ensinara com frequência etimologias interessantes. Provavelmente, estava mais seguro em seu terreno, a viagem à Normandia o terá desambientado. 
- E não o terá curado - acrescentei - pois chegara neurastênico e partiu com reumatismo. 
- Ah! É culpa de neurastenia. Ele caiu da neurastenia na filologia, como teria dito meu boop mestre Poquelin. Diga então, Cottard, acha que a neurastenia possa ter uma influência nefasta sobre a filologia, a filologia uma influência calmante sobre a neurastenia, e a cura da neurastenia conduzir ao reumatismo? [Alusão ao médico de Argan, em O Doente Imaginário, de Moliere. (N. do T)] 
- Perfeitamente, o reumatismo e a neurastenia são duas formas variantes do neurartritismo. Pode-se passar de uma a outra por metástase. 
- O eminente professor - disse Brichot - exprime-se, Deus me perdoe, num francês tão mesclado de latim e de grego como o poderia ter feito o próprio St. Purgon, de molieresca memória! Quanto a mim, meu tio, quero dizer nosso Sarcey nacional... -

     Porém não pôde terminar sua frase. O professor acabava de ter um sobressalto e dar um berro: 

- Caramba! - exclamou passando enfim à linguagem articulada - Já passamos por Maineville (hbl hê!) e até por Renneville. -

     Acabava de verificar que o trem parava em Saint-Mars-le-Vieux, onde quase todos os passageiros desciam. 

- No entanto, eles não devem ter queimado a parada. Não prestamos atenção, falando nos Cambremer. 
- Escute, Ski, olhe, vou lhe dizer "uma boa coisa" - disse Cottard, que se agradara dessa expressão utilizada em certos ambientes médicos. - A princesa deve estar no trem; não nos terá visto e deve ter subido para outro compartimento. Vamos à sua procura. 
- Contanto que tudo isso não vá trazer encrenca!

     E levou todos nós em busca da princesa Sherbatoff. Encontrou-a no canto de um vagão vazio, lendo La Revue des Deux-Mondes. Com receio de respostas grosseiras, adquirira há muitos anos o hábito de manter-se em seu lugar, ficar no seu cantinho, na vida como no trem, e de esperar para estender a mão a quem a cumprimentasse. Continuou a ler quando os fiéis entraram no vagão. Reconheci-a logo; essa mulher, que podia ter perdido sua posição social, mas nem por isso deixava de ser de elevado nascimento, que em todo caso era a pérola de um salão como o dos Verdurin, era a dama que, no mesmo trem, eu julgara na antevéspera poder ser uma dona de bordel. Sua personalidade social tão incerta imediatamente se me tornou clara quando soube o seu nome, como quando, após ter sofrido sobre uma adivinhação, descobre-se enfim a palavra que torna evidente tudo o que permanecia obscuro e que, para as pessoas, é o nome. Saber, dois dias após, que ela era a pessoa a cujo lado viajamos de trem, sem ter conseguido descobrir o seu nível social, é uma surpresa muito mais divertida do que ler na edição seguinte de uma revista a palavra-chave do enigma proposto no número anterior. Os grandes restaurantes, os cassinos, os "tortinhos" são o museu das famílias desses enigmas sociais. 

- Princesa, nós a perdemos em Maineville! Permite que tomemos lugar em seu compartimento? 
- Mas como não? - disse a princesa, que, ouvindo Cottard falar-lhe, só então ergueu da revista os olhos, que, como os do Sr. de Charlus, embora mais suaves, viam muito bem as pessoas de cuja presença ela parecia não tomar conhecimento. Cottard, pensando que o fato de ter sido convidado com os Cambremer, era para mim uma recomendação suficiente, ao fim de um instante tomou a decisão de me apresentar à princesa; esta se inclinou com extrema polidez, mas parecia pela primeira vez ouvir meu nome. 
- Diabo! - exclamou Cottard. - Minha mulher se esqueceu de trocar os botões do meu colete branco. Ah, as mulheres! Nunca pensam em nada. Jamais se case, está vendo? - disse-me ele. E, como este era um dos gracejos que julgava convenientes quando não se tinha o que dizer, olhou a princesa e os demais fiéis com o rabo do olho; estes, porque ele era professor e acadêmico, sorriram, admirando o seu bom humor e sua ausência de pose. A princesa nos informou que o jovem violinista já fora encontrado. Ficara de cama na véspera por causa de uma enxaqueca, mas compareceria à noite e levaria consigo um velho amigo de seu pai, que havia encontrado em Doncieres. A princesa ficara sabendo da nova pela Sra. Verdurin, com quem almoçara de manhã. - Disse-nos com uma voz breve, onde o rolar dos rr do acento russo era suave meio enrolado no fundo da garganta, como se fossem II e não rr. 
- Ah, senhora almoçou com ela esta manhã - disse Cottard à princesa, mas olhando para mim, pois essas palavras tinham por finalidade mostrar o quanto a princesa era íntima da Patroa. - A princesa, sim, é que é uma fiel! 
- Siri, gosto desse pequeno cilculo, inteligente, agladável, nada mau, muito simples, nada esnobe, e onde se tem espilito até a ponta das unhas
- Devo ter perdido a minha passagem, não a encontro - exclamou Cottard; aliás sem se inquietar além da medida. Sabia que em Douville, onde os landôs iam esperar-nos, o empregado o deixaria passar e nem por isso, cumprimentaria menos rasgadamente, a fim de dar, com tal saudação, explicação de sua indulgência, a saber, que ele reconhecera perfeitamente em Cottard um habitué dos Verdurin. 
- Não me levarão até a polícia por causa disso - concluiu o doutor. 
- O senhor dizia haver perto daqui umas águas famosas? - perguntei a Brichot. - Como é que se sabe? 
- O nome da próxima estação o atesta, entre muitos outros testemunhos. Ela se chama Fervaches. 
- Não compleendo bem o que ele quel dizel - enrolou a princesa num tom em que me teria dito, por gentileza: 
- Ele nos incomoda, não é mesmo? 
- Mas, princesa, Fervaches quer dizer águas ferventes, fervida aquae... Mas, a propósito do jovem violinista - continuou Brichot - eu me esquecia de lhe dizer a grande novidade, Cottard. Sabia que o nosso pobre amigo Dechambre, o antigo pianista favorito da Sra. Verdurin, acaba de morrer? É terrível. 
- Ele ainda era jovem - respondeu Cottard -, mas devia cuidar do fígado, devia estar com alguma porcaria ali, andava com uma cara horrível faz algum tempo. 
- Mas não era assim tão jovem - disse Brichot. - No tempo em que Elstir e Swann iam à casa da Sra. Verdurin, Dechambre já era uma notoriedade parisiense, e, o que é espantoso, sem ter recebido no estrangeiro o batismo do sucesso. Ah! Ele não era um adepto do Evangelho segundo são Barnum [ Alusão a T Barnum, charlatão americano, dono de um circo muito famoso.] 
- Mas o senhor está confundindo, ele não podia ir à casa da Sra. Verdurin naquela ocasião, pois ainda andava de fraldas. - Mas, a menos que minha velha memória seja infiel, parece-me que Dechambre tocava a Sonata de Vinteuil para Swann, quando esse clubman, de relações cortadas com a aristocracia, ainda não imaginava que viria a ser o príncipe consorte aburguesado da nossa Odette nacional. - 
- É impossível, a Sonata de Vinteuil foi tocada na casa da Sra. Verdurin muito tempo depois que Swann deixara de comparecer a ela - disse o doutor, que, como as pessoas que trabalham muito e julgam dever reter várias coisas que imaginam lhes serão úteis, esquecem muitas outras, o que lhes permite se extasiarem diante da memória de pessoas que nada têm para fazer. - O senhor está prejudicando suas relações, mas no entanto não tem o miolo mole disse o doutor sorrindo.

ontinua na página 129...
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