volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Segundo
Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.
continuando...
Brichot convenceu-se de que estava errado. O trem parou. Estávamos na Sogne. Este
nome intrigava-me.
- Como gostaria de saber o que significavam todos esses nomes - disse eu a Cottard,
- Ora, pergunte a Brichot, ele talvez saiba.
- Mas a Sogne é a Cegonha, Siconia - respondeu Brichot, a quem eu ardia por fazer
perguntas acerca de muitos outros nomes.
Esquecendo-se de que fazia questão do seu "canto", a Sra. Sherbatoff ofereceu-me
amavelmente trocar de lugar comigo para que eu pudesse conversar melhor com Brichot, a quem
desejava indagar sobre outras etimologias que me interessavam, e assegurou ser-lhe indiferente
viajar na frente, atrás, de pé, etc. Permanecia na defensiva enquanto ignorava as intenções dos
recém-chegados, mas, quando reconheceu que eles eram amáveis, buscou de todas as formas
agradar a cada um. Por fim o trem parou na estação de Douville-Féterne, que, estando situada
mais ou menos à mesma distância das aldeias de Féterne e de Douville, trazia seus dois nomes
devido a essa particularidade.
- Caramba! - exclamou o doutor Cottard, quando chegamos à barreira onde nos tomavam
as passagens e mal fingindo só então perceber a coisa. - Não consigo encontrar o meu tíquete,
devo tê-lo perdido. -
Mas o empregado, tirando o seu casquete, garantiu que aquilo não tinha importância e
sorriu respeitosamente.
A princesa (dando explicações ao cocheiro, como o faria uma espécie de dama de honra
da Sra. Verdurin, a qual, por causa dos Cambremer, não pudera comparecer à gare, o que aliás
era raro que fizesse) levou-me consigo para um dos carros, assim como a Brichot. Para no outro
subiram o doutor, Saniette e Ski.
O cocheiro, embora muito jovem, era o principal cocheiro dos Verdurin, o único a ter
verdadeiramente o título de cocheiro; levava-os a todos os passeios de dia, pois conhecia todos
os caminhos, e de noite ia buscar e trazer de volta os fiéis. Era acompanhado por cocheiros extras
(que ele próprio escolhia) para caso de necessidade. Era um rapaz excelente, sóbrio e
despachado, mas com um desses rostos melancólicos em que o olhar muito fixo mostrava que por
uma ninharia punha-se bilioso e até mesmo com idéias negras. Mas, naquele momento, sentia-se
muito feliz, pois conseguira colocar o irmão, outro excelente modelo de homem, na casa dos
Verdurin. Primeiro atravessamos Douville. Pequenos outeiros relvados desciam até o mar em
amplas pastagens, às quais a saturação da umidade e o sal davam uma espessura, uma
suavidade, uma viveza de tons extremamente As ilhotas e chanfraduras de Rivebelle, muito mais
aproximadas aqui do que em Balbec, davam a essa parte do mar o aspecto, novo para mim, de
plano em relevo. Passamos por pequenos chalés, quase todos alugados por pintores; tomamos
por uma vereda onde vacas, em liberdade, tão assustadiças como nossos cavalos, nos barraram
a passagem por dez minutos; nos metemos pela estrada.
- Mas em nome dos céus - disse Brichot de repente -, voltemos ao pobre Dechambre;
acham que a Sra. Verdurin sabe? Por acaso lhe disseram? -
A Sra. Verdurin, como quase todas as pessoas da sociedade, justamente porque
necessitava da sociedade dos outros, não pensava mais nelas nem um só dia depois de mortas,
pois não mais podiam comparecer às quartas, nem aos sábados, nem jantar de chambre. E não
se podia dizer do pequeno clã, que nisso era a imagem de todos os salões, que se compunha
mais de mortos que de vivos, visto que, desde que alguém morria, era como se nunca houvesse
existido. Mas, para evitar aborrecimento de ter de falar dos defuntos, e até de suspender os
jantares devido a um luto, coisa impossível para a Patroa, o Sr. Verdurin fingia que a morte dos
fiéis afetava de tal modo a esposa que, no interesse de sua saúde, não convinha falar nisso. Além
disso, e talvez justamente porque a morte dos outros lhe parecia um acidente tão vulgar e
definitivo, a idéia de sua própria morte lhe causava horror e ela evitava toda reflexão que pudesse
relacionar-se com isto. Quanto a Brichot, como era um homem excelente, e perfeitamente iludido
com o que o Sr. Verdurin dizia da esposa, receava para a amiga as emoções de semelhante
desgosto.
lhe.
- Sim, ela sabe de tudo desde hoje de manhã - disse a princesa; não foi possível ocultar-
- Ah, com mil diabos! - gritou Brichot. - Ah, deve ter sido um choque terrível, um amigo de
vinte e cinco anos! Eis um que era dos nossos!
- É claro, é claro, mas o que quer? - disse Cottard. - São circunstâncias sempre penosas;
mas a Sra. Verdurin é uma mulher forte, mais cerebral ainda do que emotiva.
- Não sou inteiramente da opinião do doutor - disse a princesa, a quem decididamente seu
modo rápido de falar, seu acento murmurado, davam um aspecto a um tempo amuado e rebelde. -
A Sra. Verdurin, sob uma aparência fria, esconde tesouros de sensibilidade. O Sr. Verdurin me
disse que teve muito trabalho para impedir que ela fosse a Paris para a cerimônia fúnebre; foi
obrigado a fazê-la acreditar que tudo se realizaria no campo.
- Ah, diabo! Ela queria ir a Paris. Mas sei muito bem que é uma mulher de coração, talvez
até de coração demais. Pobre Dechambre! Como dizia a Sra. Verdurin há menos de dois meses:
"Perto dele, Planté, Paderewski, e até Risler, nada fica de pé." Ah! Ele pôde afirmar, mais
justamente do que aquele insignificante do Nero, que achou meios de lograr a própria ciência
alemã: Quais artifex pereo!'' Mas ele, Dechambre, pelo menos deve ter morrido no cumprimento
do sacerdócio, em odor de devoção beethoveniana; e corajosamente, não tenho dúvidas; em boa
justiça, esse oficiante da música alemã teria merecido morrer celebrando a Missa em ré. Porém,
de outra parte, era homem de acolher a morte com um trinado, pois esse intérprete de gênio
encontrava às vezes, em sua ascendência de natural da Champagne aparisianado, audácias e
elegâncias de garde-française.[“Meu artista morre comigo!". Segundo Suetónio, em suas Vidas
dos Doze Césares, palavras do imperador romano Nero, ao ver que sua morte era inevitável.]
Das alturas em que já estávamos, o mar não mais aparecia, assim como de Balbec,
semelhante a ondulações de montanhas sublevadas, mas, ao contrário, como aparece de um
pico, ou de uma estrada que contorna a montanha, uma geleira azulada, ou um planalto
ofuscante, situados a uma altitude inferior. O recorte dos redemoinhos parecia imobilizado e ter
desenhado para sempre os seus círculos concêntricos; e até o esmalte do mar, que
insensivelmente mudava de cor, tomava, para o fundo da baía, onde se cavava um estuário, a
brancura azulada de um leite onde pequenos barcos negros, que não andavam, pareciam presos
como moscas. Achava eu que seria impossível descobrir em algum lugar um quadro mais amplo.
Mas a cada volta uma parte nova se lhe acrescentava e, quando chegamos ao posto alfandegário
de Douville, o espigão de rocha, que até então nos ocultara metade da baía, recolheu-se, e de
súbito vi à minha esquerda um golfo tão profundo como aquele que tivera até o momento diante
dos olhos, mas alterando-lhe as proporções e multiplicando-lhe a beleza. Naquele ponto tão
elevado, o ar se tornava de uma vivacidade e de uma pureza que me embriagavam. Eu amava os
Verdurin; que eles nos houvessem mandado um carro me parecia de uma bondade
enternecedora. Desejaria beijar a princesa. Disse-lhe que jamais vira algo tão belo. Ela declarou
amar também aquela região mais que qualquer outra. Mas eu percebia perfeitamente que para
ela, como para os Verdurin, o importante era não contemplá-la como turistas, mas ali fazer boas
refeições, receber uma sociedade que lhes agradasse, escrever cartas, ler, em suma viver,
deixando passivamente a sua beleza banhá-los, em vez de fazerem dela o objeto de suas
preocupações.
Na alfândega, tendo o carro ali parado por um instante àquela tamanha altitude acima do
mar, que, como de um pico, a vista do abismo azulado quase dava vertigens, abri a janela; o
rumor, distintamente ouvido de cada onda que se quebrava, possuía, em sua doçura e nitidez,
algo de sublime. Pois não era como um índice de medida que, invertendo nossas impressões
habituais, nos mostra que as distâncias verticais podem, assimiladas às distâncias horizontais, ao
contrário da representação que nosso espírito faz habitualmente delas; e que, aproximando assim
de nuvens do céu, não são grandes; que são até menores para um rumor que as franquezas
como fazia o daquelas pequenas ondas, pois o meio que precisa atravessar é mais puro? E com
efeito, se recuamos apenas dois metros para trás da alfândega, não distinguimos mais esse rumor
das ondas, a que duzentos metros de rocha não tinham roubado sua delicada, minuciosa e suave
precisão. Dizia comigo que minha avó teria por ele aquela admiração que lhe inspiravam todas as
manifestações da natureza ou da arte, em cuja simplicidade se lê a grandeza. Sentia-me
enternecido pelo fato de que os Verdurin nos tivessem mandado buscar na gare. Disse-o à
princesa, que pareceu achar que eu exagerava demais uma simples cortesia. Sei que mais tarde
confessou a Cottard que me julgava muito entusiasta; ele lhe respondeu que eu era emotivo em
excesso e que precisaria de calmantes e de fazer retiro. Eu mostrava à princesa cada árvore,
cada casinha desabando sob suas casas; fazia com que admirasse tudo, gostaria de apertar ela
própria contra meu coração. Disse-me ela que via que eu era dotado para a pintura, que deveria
desenhar, que estava surpresa de que ainda não me houvessem dito. E confessou que de fato
aquela região era pitoresca. Atravessamos a encarapitada no alto, a pequena aldeia de
Englesqueville (Engleberti at disse-nos Brichot).
- Mas tem certeza de que vai haver o jantar desta noite, princesa, apesar da morte de
Dechambre? - acrescentou ele, sem pensar que a vinda dos carros em que estávamos já era uma
resposta.
- Sim! - disse a princesa -, o Sr. Veldulin até fez questão de que não fosse adiado,
justamente para impedir sua mulher de "pensar". E depois, passados tantos anos em que ela
nunca deixou de receber às quartas-feiras, essa mudança nos seus hábitos poderia impressioná-la. Está muito nervosa atualmente. O Sr. Verdurin estava particularmente feliz porque os senhores
vinham jantar esta noite, pois sabia que isso seria uma grande distração para a Sra. Verdurin
disse a princesa, esquecendo o seu fingimento de não ter ouvido falar em mim. - Creio que os
senhores farão bem em não falar de nada diante da Sra. Verdurin - acrescentou a princesa.
- Ah! A senhora faz muito bem em avisar-me - respondeu ingenuamente Brichot:
Transmitirei a recomendação a Cottard. -
O carro parou por um instante. Tornou a partir, mas o ruído que as rodas faziam na aldeia
havia cessado. Tínhamos entrado na aléia de honra de La Raspeliere, onde o Sr. Verdurin nos
esperava no patamar.
- Fiz bem em pôr o smoking - disse ele, constatando com prazer que os fiéis trajavam o
seu - visto que recebo honra tão elegantes. -
E, como eu me desculpasse pelo meu jaquetão:
- Ora, é perfeito. Aqui são jantares entre camaradas. Eu poderia oferecer-lhe um de meus
smokings, mas não lhe serviria. -
O shake-hand cheio de emoção que, ao penetrar no vestíbulo da La Raspeliere, e à
maneira de condolências pela morte do pianista, Brichot deu ao Patrão não causou nenhum
comentário da parte deste. Falei-lhe da minha admiração por aquela terra.
- Ah! Tanto melhor, e o senhor não viu nada, nós lhe mostraremos. Por que não passa
algumas semanas aqui? O ar é excelente. -
Brichot receava que seu aperto de mão não tivesse sido compreendido.
- Pois bem! Esse pobre Dechambre! - disse, mas à meia-voz, temendo que a Sra. Verdurin
não estivesse longe.
- É horrível - respondeu alegremente o Sr. Verdurin.
- Tão jovem - continuou Brichot. Irritado em perder tempo com essas inutilidades, o Sr.
Verdurin replicou num tom apressado e com um gemido extremamente agudo, não de desgosto,
mas de impaciência irritada:
- Pois bem, sim, mas o que é que o senhor quer, não podemos fazer nada contra isso, não
serão nossas palavras que haverão de ressuscitá-lo, não é mesmo? - E, voltando-lhe a ternura
com a jovialidade: - Vamos, meu caro Brichot, largue depressa as suas coisas. Temos uma
bouillabaisse que não pode esperar. Principalmente, em nome do céu, não vá falar de Dechambre
à Sra. Verdurin! O senhor sabe que ela oculta muito o que sente, mas tem uma verdadeira doença
de sensibilidade. Não, mas eu lhe juro que, quando soube que Dechambre estava morto, quase
chorou - disse o Sr. Verdurin num tom profundamente irônico. Ouvindo-o, dir-se-ia ser necessária
uma espécie de loucura para lamentar a morte de um amigo de trinta anos, e, por outro lado, a
união perpétua do Sr. Verdurin com a esposa não ia, da parte dele, sem que ele sempre a
julgasse, e que ela frequentemente o irritava.
- Se lhe falar nele, ainda vai acabar doente. É deplorável, três semanas depois de sua
bronquite. Nesses casos, eu é que sou o enfermeiro. Compreenda que evito tais situações. Aflija
se no íntimo com o destino de Dechambre, o quanto quiser. Pense nisso, mas não fale no
assunto. Eu gostava de Dechambre, mas não pode me querer mal por gostar ainda mais da minha
mulher. Olhe, aí está Cottard, pode lhe perguntar. -
E, de fato, ele sabia que um médico da família sabe prestar pequenos serviços, como, por
exemplo, prescrever que não é preciso sentir desgostos. Cottard, dócil, dissera à Patroa:
- Agite-se desse modo, e amanhã me fará 39 graus de febre como teria dito à cozinheira:
"Amanhã, você vai me preparar miúdos de vitela." À falta de curar, a medicina se ocupa em mudar
o sentido dos verbos e dos pronomes.
O Sr. Verdurin ficou feliz em constatar que Saniette, apesar das respostas grosseiras que
havia sofrido na antevéspera, não desertara o pequeno núcleo. De fato, a Sra. Verdurin e seu
marido tinham adquirido, na ociosidade, instintos cruéis a que não mais bastavam as grandes
circunstâncias, muito raras. De fato, haviam conseguido indispor Odette com Swann, Brichot com
a amante. Era claro que recomeçariam com outros. Na ocasião não se apresentava todos os dias.
Ao passo que, devido à sua sensibilidade fremente e à sua timidez receosa e logo assustada,
Saniette lhes oferecia um bode expiatório cotidiano. Assim, de medo que ele abandonasse,
tinham o cuidado de convidá-lo com palavras amáveis e persuasivas, como fazem no liceu os
veteranos e no regimento os antigos, em relação a um calouro a que desejam aliciar para agarrá
lo, com o fim único de o lisonjear e então pregar-lhe peças, quando ele não mais poderá escapar.
- Principalmente - lembrou à Brichot Cottard, que não ouvira o Sr. Verdurin motus [mudo]
diante da Sra. Verdurin.
- Não tenha receio, Cottard, está lidando com um sábio, como diz Teócrito. Além disso, o
Sr. Verdurin tem razão; para que servem nossos queixumes? - acrescentou; pois, capaz de
assimilar as formas verbais e as idéias que elas lhe traziam; não tendo porém finura, admirara nas
palavras do Sr. Verdurin o mais corajoso estoicismo. - Não importa, é um grande talento que
desaparece.
- Como, ainda estão falando de Dechambre? - indagou o Sr. Verdurin, que nos havia
precedido e que, vendo que não o seguíamos, voltara para trás - Escute - disse ele a Brichot -,
não é preciso exagerar em nada. Não é porque está morto que devemos transformá-lo no gênio
que ele não era. Está entendido que ele tocava bem, estava principalmente bem adaptado aquele
transplantado, não existe mais. Minha mulher entusiasmou-se por ele e foi a sua fama. Sabem
como ela é. Direi mais, no interesse mesmo de sua reputação ele morreu no momento adequado,
no ponto, como as lagostas de Caen, grelhadas conforme as receitas incomparáveis de Pampille,
vão-se, espero (a menos que se eternizem com suas jeremíadas neste casbahaterto a todos os
ventos). Não há de querer, no entanto, que todos nós rebentemos porque Dechambre está morto,
e ainda por cima quando, há mais de um ano, via-se obrigado a fazer escalas antes de dar um
concerto para reencontrar momentaneamente, bem momentaneamente, a sua agilidade. Aliás,
irão ouvir esta noite, ou pelo menos encontrar, pois esse velhaco abandona muitas vezes, após o
jantar, a arte pelas cartas, alguém que é um artista diferente de Dechambre, um rapazinho que
minha mulher descobriu (como tinha descoberto Dechambre, e Paderewski, e o resto): Morel. Ele
ainda não chegou, esse bugre. Vou ser obrigado a enviar um carro para esperar o último trem.
Vem com um velho amigo de família com quem se encontrou a que o mata de aborrecimento, mas
sem o qual, para não ter queixas do pai, seria obrigado a ficar em Doncieres para lhe fazer
companhia: o barão de Charlus.
Os fiéis entraram.
O Sr. Verdurin, tendo ficado para trás comigo, enquanto eu me desfazia de minhas coisas,
tomou-me pelo braço de brincadeira, como faz num jantar o dono da casa que não tem convidada
para lhe oferecer o braço:
- Fez boa viagem?
- Sim, o Sr. Brichot ensinou-me coisas que me interessaram muito - disse eu, pensando
nas etimologias, e porque ouvira dizer que os Verdurin sentiam muita admiração por Brichot.
- Ficaria espantado se ele não lhe tivesse ensinado coisa alguma - disse o Sr. Verdurin; - é
um homem tão apagado, que pouco fala das coisas que sabe. -
Esse cumprimento não me pareceu muito justo.
- Ele tem um ar encantador - disse eu.
- Requintado, delicioso, nada de coisas malfeitas, fantasista, leve, minha mulher o adora,
eu também! - respondeu o Sr. Verdurin num tom exagerado e como se recitasse uma lição. Só
então compreendi que o que me dissera de Brichot era irônico. E me perguntei se o Sr. Verdurin,
desde os tempos antigos de que ouvira falar, já não havia se livrado da tutela da mulher.
O escultor ficou muito espantado ao saber que os Verdurin consentiam em receber o Sr.
de Charlus. Ao passo que no faubourg Saint-Germain, onde o Sr. de Charlus era tão conhecido,
jamais se falava dos seus costumes (ignorados da maioria, objeto de dúvida da parte de outros
que preferiam acreditar em amizades exaltadas, mas platônicas, em imprudências e, por fim,
cuidadosamente dissimulados pelos poucos bem informados, que davam de ombros quando
alguma Gallardon malévola arriscava uma insinuação); tais costumes, conhecidos apenas por
alguns íntimos, eram, ao contrário, diariamente censurados longe do meio em que ele vivia, como
certos tiros de canhão que a gente só escuta após a interferência de uma zona de silêncio. Aliás,
nesses meios burgueses e artísticos, onde ele passava por ser a própria encarnação da inversão
sexual, sua grande posição mundana e suas altas origens eram totalmente ignoradas, por um
fenômeno análogo ao que faz com que, entre o povo romeno, o nome de Ronsard seja conhecido
como o de um grão-senhor, ao passo que sua obra poética é desconhecida. Mais ainda: na
Romênia, a nobreza de Ronsard repousa num erro. Da mesma forma, se, no mundo dos pintores
e dos comediantes, o Sr. de Charlus tinha tão má reputação, isto se dava porque o confundiam
com um certo conde Leblois de Charlus, com quem não tinha o menor parentesco, ou era um
parente muito distante, e que fora detido, talvez por engano, numa batida de polícia que ficou
famosa. Em suma, todas as histórias que contavam acerca do Sr. de Charlus aplicavam-se ao
falso. Muitos profissionais juravam ter tido relações com o Sr. de Charlus e o faziam de boa-fé,
julgando que o falso Charlus era o verdadeiro, e o falso talvez favorecesse, meio por ostentação
de nobreza, meio por dissimulação de vício, uma confusão que, para o verdadeiro (o barão que
conhecemos), foi por muito tempo prejudicial e, a seguir, quando ele decaiu, tornou-se cômodo
pois também lhe permitiu que dissesse:
"Não sou eu."
De fato, atualmente não era dele que falavam. Por fim, o que acrescentava à falsidade dos
comentários um fato verdadeiro (os gostos do barão) era que ele fora amigo íntimo e totalmente
puro de um autor que, no mundo teatral, tinha, não se sabe por quê, essa reputação e
absolutamente não a merecia. Quando os viam juntos numa estréia, diziam:
- Estamos sabendo - da mesma forma que se julgava que a duquesa de Guermantes tinha
relações imorais com a princesa de Parma; lenda indestrutível, pois só se desvaneceria com uma
aproximação à essas duas grandes damas, a que nunca verossimilmente haveriam de atingir as
pessoas que a repetiam, senão contemplando-as no teatro e caluniando-as para o ocupante da
poltrona ao lado. Dos costume do Sr. de Charlus, o escultor concluía, com tanto menos hesitação,
que, a situação mundana do barão devia ser bastante ruim, visto que não possuía sobre a família
a que pertencia o Sr. de Charlus, sobre seu título e sobre seu nome, nenhum tipo de informação.
Da mesma forma que Cottard achava que todo mundo sabe que o título de doutor não significa
nada, e o de interno dos hospitais alguma coisa, as pessoas da sociedade se enganam ao pensar
que todos possuem, sobre a importância social de seus nomes as mesmas noções que têm eles
próprios e as pessoas de seu meio. O príncipe de Agrigento passava por um resto aos olhos de
um empregado de clube ao qual devia vinte e cinco luíses, só readquirindo sua importância no
faubourg Saint-Germain, onde possuía três irmãs duquesas, pois não é sobre as pessoas
modestas, a cujos olhos vale pouco, mas sobre as pessoas brilhantes, que estão a par do que ele
é, que produz algum efeito o grão-senhor. Aliás, o Sr. de Charlus ia verificar, naquela mesma
noite, que o Patrão possuía noções pouco aprofundadas sobre as mais ilustres famílias ducais.
Convencido de que os Verdurin iam dar um passo em falso deixando que se introduzisse num
salão tão "seleto" um indivíduo tarado, e escultor julgou dever chamar à parte a Patroa.
- O senhor está totalmente enganado; aliás, não acredito nunca nessas coisas; e depois,
mesmo que fossem verdadeiras, digo-lhe que não seriam comprometedoras para mim, - retrucou
a Sra. Verdurin, furiosa, pois, sendo Morel o principal elemento das quartas-feiras, ela fazia acima
de tudo questão de não contrariá-lo.
Quanto a Cottard, não podia dar opinião, pois pedira licença para subir e "dar um recado"
no bom retiro e em seguida escrever, no quarto do Sr Verdurin, uma carta urgente para um
enfermo.
Um grande editor de Paris, que viera de visita e pensara que haveriam de retê-lo, foi-se
embora brutalmente, às pressas, compreendendo que não era suficientemente elegante para o
pequeno clã. Era um homem alto e forte, muito moreno, estudioso, com algo de cortante. Dava a
impressão de uma espátula de ébano.
A Sra. Verdurin, que, para nos receber no seu salão imenso, onde troféus de gramíneas,
de papoulas, flores do campo, colhidas no próprio dia, alternavam com o mesmo motivo pintado
em camafeu, dois séculos antes, por um artista de gosto refinado, se levantara por um momento
de uma partida que jogava com um velho amigo, pediu licença para terminá-la em dois minutos,
sempre conversando conosco. Aliás, o que eu lhe disse acerca das minhas impressões só
parcialmente lhe agradou. Primeiro, eu estava escandalizado de ver que ela e seu marido se
recolhiam, todos os dias, muito tempo antes da hora daqueles ocasos, que passavam por ser tão
lindos vistos daquele rochedo, e mais ainda do terraço de La Raspeliere, e pelos quais eu teria
viajado léguas.
- Sim, é incomparável - disse rapidamente a Sra. Verdurin, lançando uma olhada às
imensas janelas que faziam de vidraças. - Por mais que olhemos isso o tempo todo, nunca nos
cansamos - e voltou a absorver-se nas cartas.
Ora, o meu próprio entusiasmo me fazia exigente. Lastimava não ver do salão os rochedos
de Darnetal, que Elstir me assegurara serem adoráveis naquele momento em que refratavam
tantas cores.
- Ah, o senhor não pode vê-los daqui, seria necessário ir até a extremidade do parque, à
"vista da baía". Do banco que ali se encontra, o senhor abrangerá todo o panorama. Mas não
pode ir sozinho; acabaria se perdendo. Vou conduzi-lo até lá, se quiser - acrescentou
languidamente.
- Mas não, ora, já não bastam as dores que apanhaste no outro dia, queres ainda mais?
Ele vai voltar outro dia e então verá a vista da baía - disse o Sr. Verdurin.
Não insisti, compreendendo que bastava aos Verdurin saberem que aquele sol poente era,
mesmo no seu salão ou na sua sala de jantar, uma pintura magnífica, como um precioso esmalte
japonês, justificando o preço elevado que pagavam pelo aluguel de La Raspeliere toda mobiliada,
mas para o qual raramente erguiam os olhos; seu grande negócio aqui era viver de maneira
agradável, passear, comer bem, conversar, receber amigos agradáveis, aos quais
proporcionavam divertidos jogos de bilhar, boas refeições, alegres merendas. Entretanto, mais
tarde, vi com que inteligência eles tinham aprendido a conhecer aquela região, fazendo os
hóspedes darem passeios tão "inéditos" como a música que faziam com que escutassem. O papel
que as flores da Raspeliére, os caminhos à beira-mar, as velhas casas, as igrejas desconhecidas
representavam na vida do Sr. Verdurin era tão grande, que aqueles que somente o viam em Paris
e que substituíam a vida à beira-mar e no campo pelos luxos citadinos mal podiam compreender a
ideia que ele próprio se fazia de sua vida e a importância que suas alegrias lhe davam a seus
próprios olhos. Essa importância ainda era acrescida pelo fato de que os Verdurin estavam
persuadidos de que La Raspeliere, que pretendiam comprar, era uma propriedade única no
mundo. Essa superioridade, que o seu amor-próprio lhes atribuía à Raspeliere, justificou a seus
olhos o meu entusiasmo que, sem isso, os teria irritado um pouco, por causa das decepções que
ele comportava (como as que a audição da Berma me provocara outrora) e de que eu lhes fazia
sincera confissão.
- Ouço o carro que está voltando. Esperemos que ele os tenha encontrado - murmurou a
Patroa de repente.
Digamos, numa palavra, que a Sra. Verdurin, afora até as mudanças inevitáveis da idade,
já não se parecia mais à que era no tempo em que Swann e Odette ouviam em sua casa o
pequeno trecho de Vinteuil. Mesmo quando o tocavam, ela já não se obrigava a mostrar o aspecto
extenuado de admiração que assumia antigamente, pois este se tornara a sua própria fisionomia.
Sob a ação de inumeráveis nevralgias, causadas pela música de Bach, de Wagner, de Vinteuil e
de Debussy, a testa da Sra. Verdurin adquirira enormes proporções, como os membros que um
reumatismo termina por deformar. Suas têmporas, semelhantes a duas belas esferas ardentes,
doloridas e leitosas, onde imortalmente rola a Harmonia, repeliam de cada lado mechas prateadas
e proclamavam da parte da Patroa, sem que esta precisasse falar:
"Sei o que me espera esta noite."
Suas feições não mais se davam ao trabalho de formular sucessivamente impressões
estéticas muito fortes, pois elas próprias eram como que sua expressão permanente em um rosto
soberbo e devastado.
ontinua na página 140...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Brichot convenceu-se de que estava errado)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7
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