domingo, 14 de junho de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção III)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção III
Das outras qualidades das nossas ideias de espaço e tempo
     
     Não podia ter sido feita descoberta mais feliz para resolver todas as controvérsias relativas às ideias do que a mencionada acima, a saber, que as impressões precedem sempre as ideias e que todas as ideias de que a imaginação está fornecida fazem primeiro a sua aparição numa impressão correspondente. Estas últimas percepções são todas tão claras e evidentes que não admitem controvérsia; contudo, muitas das nossas ideias são tão obscuras que, mesmo para a mente que as forma, é quase impossível dizer exatamente a sua natureza e composição. Apliquemos este princípio para descobrir mais profundamente a natureza das nossas ideias de espaço e tempo.
     Quando abro os olhos e os dirijo para os objetos à minha volta, percebo muitos corpos visíveis, e quando os fecho de novo e considero a distância entre estes corpos, adquiro a ideia de extensão. Visto que toda a ideia se origina de alguma impressão que é exatamente similar a ela, as impressões similares a esta ideia de extensão têm de ser ou sensações originadas na visão ou impressões internas nascidas destas sensações.
     As nossas impressões internas são as paixões, emoções, desejos e aversões, nenhuma das quais, creio eu, será jamais tomada como o modelo donde deriva a ideia de espaço. Portanto, além dos sentidos, nada há que possa comunicar-nos a impressão original. Mas que impressão nos transmitem os sentidos? Esta é a questão principal, que decide sem apelo quanto à natureza da ideia.
     A mesa que se encontra em frente de mim é por si só suficiente, pela visão que dela obtenho, para me dar a ideia de extensão. Esta ideia é pois tirada de alguma impressão que aparece aos sentidos neste momento, e representa essa impressão. Mas os meus sentidos comunicam-me apenas as impressões de pontos coloridos, dispostos de certa maneira. Se os olhos percebem alguma coisa mais, gostaria que me indicassem. Mas se nada mais se pode mostrar podemos concluir com certeza que a ideia de extensão não é mais do que a cópia destes pontos coloridos e da maneira como aparecem.
     Suponhamos que no objeto extenso, ou na composição de pontos coloridos, donde primeiro recebemos a ideia de extensão, os pontos fossem de cor púrpura; resultaria daí que, em qualquer repetição desta ideia, não só colocaríamos os pontos na n1esma ordem uns em relação aos outros, mas ainda lhes atribuiríamos aquela precisa cor à qual estamos habituados. Mas depois, quando temos experiência doutras cores, tais como violeta, verde, vermelho, branco, preto e todas as diferentes combinações destas, e encontramos semelhança na disposição dos pontos colori dos de que elas são compostas, omitimos tanto quanto possível as peculiaridades de cor e formamos uma ideia abstrata apenas segundo essa disposição de pontos, ou modo de aparecimento, em que eles estão de acordo. Mais ainda: mesmo quando a semelhança ultrapassa os objetos de um sentido e se verifica que as impressões de tacto são similares às da vista na disposição das suas partes, tal não obsta a que a ideia abstrata as represente a ambas, em razão da sua semelhança. Todas as ideias abstratas na realidade não são mais do que ideias particulares, consideradas a uma luz determinada; nus, porque foram ligadas a termos gerais, podem representar uma grande diversidade e incluir objetos que, sendo semelhantes nalguns aspectos, noutros são muito diferentes entre si.
     A ideia de tempo, originada da sucessão das nossas percepções de toda a espécie, tanto ideias como impressões, e tanto impressões de reflexão como de sensação, proporcionar-nos-á um exemplo de ideia abstrata que compreende uma diversidade ainda maior do que a de espaço, sendo contudo representada na fantasia por uma certa ideia individual de uma determinada quantidade e qualidade.
     Assim como é da disposição de objetos visíveis e tangíveis que recebemos a ideia de espaço, assim também formamos a ideia de tempo a partir da sucessão de ideias e impressões, e em caso algum pode o tempo apresentar-se ou ser notado pelo espírito isoladamente. Uma pessoa a dormir profundamente ou inteiramente dominada por um pensamento é insensível ao tempo; e, conforme as suas percepções se sucedem com maior ou menor rapidez, a mesma duração parece à sua imaginação mais longa ou mais breve. Um grande filósofo¹ assinalou que as nossas percepções têm quanto a este aspecto certos limites, determinados pela natureza e constituição originais da mente, para além dos quais a influência dos objetos externos sobre os sentidos jamais pode acelerar ou retardar os nossos pensamentos. Se fizermos girar com rapidez um carvão em brasa, ele apresentará aos sentidos a imagem de um círculo de fogo e parecerá que não há nenhum intervalo de tempo entre as suas rotações, simplesmente porque as nossas percepções não podem suceder-se com a mesma rapidez com que o movimento pode ser comunicado aos objetos externos. Sempre que não temos percepções sucessivas não temos noção de tempo, mesmo que haja uma sucessão real de objetos. Podemos concluir destes fenómenos, bem como de muitos outros, que o tempo não pode apresentar-se à mente nem isoladamente, nem acompanhado de um objeto fixo e imutável, mas que se descobre sempre numa sucessão perceptível de objetos mutáveis.

[1] Locke.

     Para confirmar isto podemos acrescentar o argumento seguinte, que me parece perfeitamente decisivo e convincente. É evidente que o tempo ou duração se compõe de diferentes partes, pois se assim não fosse não poderíamos conceber uma duração mais longa ou mais breve. É também evidente que estas partes não são coexistentes, visto que essa qualidade da coexistência das partes pertence à extensão, e é o que a distingue da duração. Ora como o tempo é composto de partes não coexistentes, um objeto imutável, não produzindo senão impressões coexistentes, não produz nenhuma que possa dar-nos a ideia do tempo; por conseguinte esta ideia deve originar-se de uma sucessão de objetos mutáveis e, no seu primeiro aparecimento, o tempo não pode separar-se de tal sucessão.
     Tendo pois descoberto que o tempo, no seu primeiro aparecimento ao espírito, anda sempre ligado a uma sucessão de objetos mutáveis e que jamais pode doutra forma ser por nós notado, temos de examinar agora se podemos concebê-lo sem conceber uma sucessão de objetos e se ele pode, por si só, formar na imaginação uma ideia distinta.
     Para sabermos se quaisquer objetos que andam uni dos na impressão são separáveis na ideia, temos apenas de considerar se são diferentes um do outro; no caso afirmativo, é evidente que podem conceber-se separadamente. Tudo o que é diferente é distinguível, e tudo o que é distinguível pode separar-se, de acordo com os princípios já expostos. Se pelo contrário os objetos não forem diferentes, não são distinguíveis e, não sendo distinguíveis, não podem separar-se. Ora é precisamente o que se passa com o tempo, comparando-o com as nossas percepções sucessivas. A ideia de tempo não é derivada de uma impressão particular misturada com outras, e claramente distinguível delas: nasce unicamente da maneira como as impressões aparecem ao espírito, não sendo essa maneira uma nova impressão. Cinco notas tocadas numa flauta dão-nos a impressão e ideia de tempo, embora o tempo não seja uma sexta impressão que se apresenta ao ouvido ou a qualquer dos outros sentidos. Também não é uma sexta impressão que a mente encontre em si mesma por reflexão. Estes cinco sons, que aparecem desta maneira particular, não excitam emoção na mente, nem produzem uma afeição de qualquer espécie, cuja observação pudesse originar uma nova ideia. Porque isto é necessário para produzir uma nova ideia de reflexão; jamais pode o espírito, passando em revista milhares de vezes todas as suas ideias de sensação, extrair delas uma nova ideia original, a não ser que a natureza tenha forjado as suas faculdades de modo tal que ele sinta surgir de tal contemplação uma nova impressão original. Mas aqui ele apenas toma conhecimento da maneira como os diferentes sons fazem a sua aparição e pode seguidamente considerá-la, sem considerar esses sons particulares, e uni-la depois a quaisquer outros objetos. Ele necessariamente tem de ter as ideias de alguns objetos e não pode jamais sem estas chegar a qualquer concepção do tempo, o qual, visto que não aparece como uma impressão primária distinta, evidentemente não pode ser mais do que as diferentes ideias, ou impressões, ou objetos dispostos de certa maneira, isto é, sucedendo-se uns aos outros.
     Sei que há quem pretende que a ideia de duração se pode aplicar em sentido próprio a objetos perfeitamente imutáveis; é esta, segundo creio, a opinião corrente tanto dos filósofos como do vulgo. Mas para se ficar convencido da falsidade desta opinião basta refletir na conclusão precedente: que a ideia de duração tem sempre origem numa sucessão de objetos mutáveis e jamais pode ser transmitida ao espírito por qualquer coisa estável e imutável. Com efeito daqui resulta inevitavelmente que, não podendo a ideia de duração derivar de tal objeto, ela não se lhe pode aplicar com propriedade ou exatidão, nem se pode jamais dizer que qualquer coisa imutável tenha duração. As ideias representam sempre os objetos ou impressões de que derivam e não podem, sem ficção, representar ou aplicar-se a outros. Através de que ficção aplicamos a ideia de tempo mesmo ao que é imutável e, como correntemente sucede, supomos que a duração é a medida tanto do repouso como do movimento, é o que examinaremos mais adiante².

[2] Secção V (p. 87).

     Há outro argumento perfeitamente decisivo, o qual consolida a presente doutrina relativa às nossas ideias de espaço e tempo, e assenta apenas neste simples princípio: que as ideias que deles temos são compostas de partes, as quais são indivisíveis. Estes argumentos talvez mereça ser examinado.
     Visto que todas as ideias discerníveis são também separáveis, tomemos uma dessas ideias simples e indivisíveis de que se forma a ideia composta de extensão e, separando--a de todas as outras e considerando-a à parte, formemos um juízo acerca da sua natureza e qualidades.
     É claro que não é a ideia de extensão. Porque a ideia de extensão consta de partes, e esta ideia é, por hipótese, perfeitamente simples e indivisível. Não é portanto nada? Absolutamente impossível; pois dado que a ideia composta de extensão, sendo real, é composta de tais ideias, se estas fossem outros tantos nadas, uma existência real poderia ser composta de nadas; o que é absurdo. Tenho pois de perguntar aqui: qual é a nossa ideia de um ponto simples e indivisível? Não será de admirar se a minha resposta parecer um tanto nova, visto que até aqui a própria pergunta raramente foi considerada. É usual discutirmos a natureza dos pontos matemáticos, mas raras vezes discutimos a natureza das suas ideias.
     A ideia de espaço é transmitida à mente por dois sentidos, a vista e o tato; e nenhuma coisa pode jamais parecer extensa se não for visível ou tangível. A impressão composta que representa a extensão consiste em várias impressões menores, as quais são indivisíveis para a vista e o tato e podem ser chamadas impressões de átomos ou corpúsculos dotados de cor e solidez. Mas isto não é tudo. Não é apenas necessário que estes átomos sejam coloridos ou tangíveis para se revelarem aos nossos sentidos; é igualmente necessário que conservemos a ideia da sua cor ou tangibilidade afim de os abarcar pela imaginação. Somente a ideia da sua cor ou da sua tangibilidade pode torná-los susceptíveis de serem concebidos pelo espírito. Se se eliminarem as ideias destas qualidades sensíveis, os átomos ficam totalmente aniquilados para o pensamento ou imaginação.
     Ora, assim como são as partes, assim é o todo. Se um ponto não for considerado colorido ou tangível, não pode transmitir-nos ideia nenhuma; e consequentemente a ideia de extensão, que é composta das ideias destes pontos, não tem qualquer possibilidade de existir. Mas se a ideia de extensão pode existir realmente, como temos consciência de que pode, devem também existir as suas partes; e para tal têm de se considerar coloridas ou tangíveis. Portanto não temos ideia do espaço ou extensão senão quando o tomamos como objeto da vista ou do tato.
     O mesmo raciocínio provará que os momentos indivisíveis do tempo têm de ser preenchidos por qualquer objeto ou existência real, cuja sucessão forma a duração e a torna concebível pela mente.
  
continua na página 77...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II / Seção III /       
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

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