terça-feira, 7 de julho de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção V.a)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção V
Continuação do mesmo tema
.
     Se for verdadeira a segunda parte de meu sistema, a saber, que a ideia de espaço ou extensão não ê senão a ideia de pontos visíveis ou tangíveis distribuídos segundo uma certa ordem, segue-se que não podemos formar nenhuma ideia de vácuo, ou seja, de um espaço onde não existe nada visível ou tangível. Isso gera três objeções, que examinarei conjuntamente, já que a resposta que darei a uma delas será uma consequência da que utilizarei para rebater as outras.
     Em primeiro lugar, pode-se dizer que há séculos os homens discutem sobre o vácuo e o pleno, sem conseguir chegar a uma conclusão definitiva. E os filósofos, ainda hoje, acreditam-se livres para tomar partido de um lado ou de outro, ao sabor de sua fantasia. Mas seja qual for o fundamento que possa ter uma controvérsia a respeito dessas coisas mesmas, pode-se alegar que a própria discussão é decisiva no que concerne à ideia em questão, e é impossível que os homens tenham podido raciocinar há tanto tempo sobre um vácuo, fosse para negá-lo, fosse para afirmá-lo, sem ter uma noção daquilo que negavam ou afirmavam.
     Em segundo lugar, mesmo que se conteste esse argumento, a realidade ou, ao menos, a possibilidade da ideia de um vácuo poderia ser provada pelo seguinte raciocínio. Toda ideia é possível se é uma consequência necessária e infalível de ideias possíveis. Ora, mesmo que aceitemos que o mundo presente é um pleno, podemos facilmente concebê-lo desprovido de movimento; e com certeza se admitirá que essa ideia é possível. Deve-se também admitir que é possível conceber a aniquilação de uma parte qualquer da matéria pela onipotência divina, enquanto as outras partes permanecem em repouso. Porque como toda ideia distinguível é separável pela imaginação, e como toda ideia separável pela imaginação pode ser concebida existindo separadamente, é evidente que a existência de uma partícula de matéria implica tão pouco a existência de outra quanto o fato de um corpo possuir uma figura quadrada implica que todos os outros também a possuam. Uma vez aceito isso, pergunto agora: qual o resultado da concorrência dessas duas ideias possíveis, de repouso e de aniquilação, e o que devemos conceber que se segue à aniquilação de todo o ar e de toda a matéria sutil contida em um aposento, supondo-se que as paredes permaneçam iguais, sem nenhum movimento ou alteração? Alguns metafísicos respondem que, uma vez que matéria e extensão são a mesma coisa, a aniquilação de uma implica necessariamente a da outra; e, não havendo agora qualquer distância entre as paredes do aposento, essas paredes se tocam, do mesmo modo que minha mão toca o papel que se encontra imediatamente à minha frente. Embora tal resposta seja bastante comum, porém, desafio esses metafísicos a conceberem a matéria segundo sua hipótese, ou a imaginar o chão e o teto, juntamente com todos os lados opostos do aposento, tocando-se uns aos outros, ao mesmo tempo em que permanecem em repouso e preservam a mesma posição. Pois como é possível que as duas paredes que vão de norte a sul se toquem mutua mente, enquanto também tocam os extremos opostos das duas outras paredes, que vão de leste a oeste? E como é possível que o teto e o chão se encontrem, estando separados pelas quatro paredes situadas em posição contrária? Se alterarmos sua posição, estaremos supondo um movimento. Se concebermos alguma coisa entre eles, es aremos supondo que algo é criado. Ao contrário, se nos ativermos estritamente às duas ideias de repouso e aniquilação, é evidente que a ideia delas resultante não será a de um contato entre as partes, mas algo diferente, que podemos concluir ser a ideia de um vácuo.
     A terceira objeção vai ainda mais longe, afirmando que a ideia de um vácuo é não apenas real e possível, mas também necessária e inevitável. Essa asserção se funda no movimento que observamos nos corpos, e que, segundo se afirma, seria impossível e inconcebível sem um vácuo, para onde um corpo deve se mover a fim de abrir caminho a outro. Não me estenderei sobre essa objeção, porque ela diz respeito sobretudo à filosofia da natureza, que está fora de nossa esfera presente.
     Para responder a essas objeções, sem correr o risco de iniciar uma discussão antes de ter compreendido perfeitamente o objeto da controvérsia, devemos examinar profundamente a questão, considerando a natureza e a origem de diversas ideias. É evidente que a ideia de escuridão não é uma ideia positiva, mas a mera negação da luz ou, mais propriamente falando, de objetos coloridos e visíveis. Na total ausência de luz, um homem dotado de visão, por mais que olhe para todos os lados, não recebe outra percepção que aquela mesma que um cego de nascença receberia; e é certo que este último não possui nenhuma ideia de luz ou de escuridão. A conclusão disso é que não é pela mera supressão dos objetos visíveis que recebemos a impressão de uma extensão sem matéria; e que a ideia da escuridão total nunca poderia ser a mesma que a de um vácuo.
     Suponhamos agora um homem suspenso no ar, sendo transportado suavemente por algum poder invisível. É evidente que ele nada sente, e que jamais obtém a ideia de extensão, ou qualquer outra ideia, partindo desse movimento invariável. Mesmo supondo que mova suas pernas para a frente e para trás, isso não poderia lhe transmitir tal ideia. Nesse caso, ele teria alguma sensação ou impressão, cujas partes, sucedendo-se umas às outras, poderiam lhe dar a ideia de tempo; mas, certamente, essas partes não estariam dispostas da maneira necessária para lhe transmitir a ideia de espaço ou extensão.
     Vemos, assim, que a escuridão e o movimento, quando há total supressão de todo objeto visível e tangível, nunca poderiam nos dar a ideia da extensão sem matéria, ou seja, de um vácuo. A próxima questão é, pois, se poderiam nos transmitir essa ideia quando misturados a algo visível e tangível.
     Os filósofos comumente admitem que todos os corpos que se mostram à visão aparecem como se estivessem pintados sobre uma superfície plana, e que seus diferentes graus de afastamento em relação a nós são descobertos mais pela razão que pelos sentidos. Quando ergo minha mão espalmada, os dedos se mostram separados pela cor azul do firmamento de maneira tão perfeita quanto o seriam por qualquer objeto visível que eu pudesse inserir entre eles. Portanto, para saber se a visão é capaz de transmitir a impressão e a ideia, de um vácuo, temos de supor que, em meio a uma total escuridão, apresentam-se a nós corpos luminosos, cuja luz revela apenas eles mesmos, sem nos dar nenhuma impressão dos objetos circundantes.
     Devemos fazer uma suposição análoga a respeito dos objetos de nosso tato. Não convém supor a eliminação completa de todos os objetos tangíveis; devemos admitir que alguma coisa é percebida pelo tato; e que, após um intervalo e um movimento da mão ou de algum outro órgão da sensação, um outro objeto tangível é encontrado; e, largando-se este, um outro, e assim por diante, tão frequentemente quanto se queira. A questão é se esses intervalos não nos proporcionam a ideia da extensão sem nenhum corpo.
     Começando com o primeiro caso, é evidente que, quando apenas dois objetos luminosos aparecem à visão, podemos perceber se eles estão juntos ou separados; se estão separados por uma distância pequena ou grande; e, quando essa distância varia, podemos perceber seu aumento ou sua diminuição, juntamente com o movimento dos corpos. Mas como neste caso a distância não é algo colorido ou visível, pode-se pensar que existe aqui um vácuo ou extensão pura, não apenas inteligível à mente, mas evidente para os próprios sentidos.
     Esse é nosso modo mais natural e familiar de pensar; mas uma pequena reflexão nos ensinará a corrigi-lo. Podemos observar que, quando dois objetos se apresentam lá onde antes havia uma total escuridão, a única mudança que se pode descobrir está na aparição desses dois objetos; todo o resto continua como antes: uma perfeita negação da luz e de todo objeto colorido ou visível. Isso vale não apenas para aquilo que se pode considerar distante desses corpos, mas para a própria distância entre eles - e esta não é senão a escuridão ou negação da luz, sem partes, sem composição, invariável e indivisível. Ora, uma vez que essa distância não causa nenhuma percepção diferente daquela que um cego recebe de seus olhos, ou da quela que nos é transmitida na mais escura noite, ela deve partilhar das mesmas propriedades. E como a cegueira e a escuridão não nos proporcionam nenhuma ideia de extensão, é impossível que a distância obscura e indistinguível entre dois corpos possa jamais produzir tal ideia.
     A única diferença entre uma escuridão absoluta e a aparição de dois ou mais objetos luminosos e visíveis consiste, como disse antes, nos próprios objetos e na maneira como afetam nossos sentidos. Os ângulos que os raios de luz emanados desses objetos formam entre si; o movimento necessário ao olho para passar de um a outro; e as diferentes partes dos órgãos por eles afetados - isso é o que produz as únicas percepções que nos permitem julgar acerca da distância.¹ Como cada uma dessas percepções é simples e indivisível, porém, elas nunca poderão nos dar a ideia de extensão.

[1] Aproveitarei também esta oportunidade para confessar outros dois erros menos importantes, que uma reflexão mais madura me levou a descobrir em meu raciocínio. O primeiro pode-se encontrar no Livro 1, página 85, onde digo que a distância entre dois corpos é conhecida, entre outras coisas, pelos ângulos que os raios de luz emanados desses corpos formam entre si. O certo é que esses ângulos não são conhecidos pela mente e, como consequência, jamais podem revelar a distância.

     Isso pode ser ilustrado considerando-se o sentido do tato e a distância ou intervalo imaginário interposto entre objetos tangíveis ou sólidos. Suponho dois casos: o de um homem suspenso no ar e que movimenta suas pernas para a frente e para trás, sem encontrar nenhuma coisa tangível; e o de um homem que sente alguma coisa tangível, larga-a e, após um movimento ao qual é sensível, percebe outro objeto tangível. Pergunto então: em que consiste a diferença entre esses dois casos? Ninguém hesitará em afirmar que ela consiste meramente na percepção desses objetos, e que a sensação originada do movimento é a mesma nos dois casos. E, assim como essa sensação é incapaz de nos transmitir uma ideia de extensão quando não vem acompanhada de alguma outra percepção, ela tampouco pode nos dar essa ideia quando misturada às impressões de objetos tangíveis, uma vez que essa mistura não produz nela nenhuma alteração.
     Mas, embora nem o movimento nem a escuridão, quer quando isolados, quer quando acompanhados de objetos tangíveis e visíveis, possam nos transmitir qualquer ideia de um vácuo ou de uma extensão sem matéria, eles são as causas que nos levam a imaginar falsamente que somos capazes de formar tal ideia. Pois existe uma relação estreita entre, de um lado, tal movimento e escuridão e, de outro, uma extensão real ou composição de objetos visíveis e tangíveis.
     Primeiramente, podemos observar que dois objetos visíveis que aparecem em meio a uma total escuridão afetam os sentidos da mesma maneira, e os ângulos dos raios que deles emanam e se encontram no olho formam o mesmo ângulo que formariam se a distância entre eles estivesse preenchida por objetos visíveis que nos proporcionassem uma verdadeira ideia de extensão. A sensação do movimento também é a mesma, seja quando não há nada tangível interposto entre os dois corpos, seja quando sentimos um corpo composto, cujas diferentes partes estão dispostas umas ao lado das outras.
     Em segundo lugar, descobrimos pela experiência que dois corpos situados de forma a afetar os sentidos da mesma maneira que outros dois corpos entre os quais existe uma certa extensão de objetos visíveis, são capazes de receber a mesma extensão de objetos, sem sofrer nenhum impacto [impulse] ou penetração sensível, e sem que haja nenhuma alteração no ângulo com que aparecem aos sentidos. De modo semelhante, sempre que, para tocarmos um objeto após outro, for necessário um intervalo entre eles e a percepção dessa sensação que chamamos movimento de nossa mão ou órgão do tato, a experiência nos mostra que os mesmos objetos podem ser tocados com a mesma sensação de movimento, quando esta se acompanha da impressão interposta de objetos sólidos e tangíveis. Em outras palavras, uma distância invisível e intangível pode se tornar uma distância visível e tangível, sem nenhuma mudança nos objetos distantes.
     Em terceiro lugar, podemos observar outra relação entre esses dois tipos de distância, a saber, que elas têm quase o mesmo efeito sobre todos os fenômenos naturais. Uma vez que todas as qualidades, como calor, frio, luz, atração etc., diminuem proporcionalmente a distância, não se pode observar quase nenhuma diferença entre os casos em que essa distância é indicada por objetos compostos e sensíveis, e aqueles em que ela é conhecida apenas pela maneira como os objetos distantes afetam os sentidos.

continua na página 87...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IVa. / Seção IVb. / Seção Va. /          
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.

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