David Hume
Livro 1
Do Entendimento
Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade
Seção Vi
Da inferência da impressão à ideia
É fácil observar que, ao traçarmos essa relação, a inferência que
fazemos da causa ao efeito não deriva meramente de um exame desses objetos particulares, nem de uma penetração em suas essências
que pudesse revelar a dependência de um em relação ao outro. Nenhum objeto implica a existência de outro se consideramos esses objetos em si mesmos, sem olhar para além das ideias que deles formamos. Uma tal inferência equivaleria a um conhecimento, e implicaria
a absoluta contradição e impossibilidade de se conceber algo diferente.
Mas, uma vez que todas as ideias distintas são separáveis, é evidente que não pode haver tal impossibilidade. Quando passamos de uma
impressão presente à ideia de um objeto qualquer, teria sido possível
separar a ideia da impressão, substituindo-a por qualquer outra ideia.
É apenas pela EXPERIÊNCIA, portanto, que podemos inferir a
existência de um objeto da existência de outro. A natureza da experiência é a seguinte. Lembramo-nos de ter tido exemplos frequentes da
existência de objetos de uma certa espécie; e também nos lembramos
que os indivíduos de uma outra espécie de objetos sempre acompanharam os primeiros, existindo em uma ordem regular de contiguidade¹ e sucessão em relação a eles. Assim, lembramo-nos de ter visto aquela espécie de objetos que denominamos chama, e de ter sentido aquela
espécie de sensação que denominamos calor. Recordamo-nos, igualmente, de sua conjunção constante em todos os casos passados. Sem
mais cerimónias, chamamos à primeira de causa e à segunda de efeito, e inferimos a existência de uma da existência da outra. Em todos
os casos com base nos quais constatamos a conjunção entre causas
e efeitos particulares, tanto a causa como o efeito foram percebidos
pelos sentidos, e são recordados. Mas em todos os casos em que raciocinamos a seu respeito, apenas um é percebido ou lembrado, enquanto o outro é suprido em conformidade com nossa experiência
passada.
[1] Contiguidade substantivo feminino. 1 adjacência (proximidade, vizinhança) 2 contato (convivência, convívio, relação, relacionamento).
Assim, conforme avançamos, descobrimos sem querer uma
nova relação entre a causa e o efeito, quando menos esperávamos,
estando inteiramente envolvidos em outro assunto. Tal relação é a
CONJUNÇÃO CONSTANTE. Contiguidade e sucessão não são suficientes para nos fazer declarar que dois objetos são causa e efeito, a não
ser que percebamos que essas duas relações se mantêm em vários
casos. Podemos ver, agora, a vantagem de ter abandonado o exame
direto dessa relação, com o intuito de descobrir a natureza daquela
conexão necessária que constitui uma parte tão essencial dela. Desse
modo, podemos ter esperanças de chegar finalmente ao objetivo que
propusemos, embora, para falar a verdade, essa recém-descoberta
relação de uma conjunção constante pareça nos fazer avançar muito pouco em nosso caminho. Pois ela não implica nada mais que isto:
objetos semelhantes têm se mostrado sempre em relações semelhantes de contiguidade e sucessão. E parece evidente, ao menos à primeira vista, que por esse meio jamais descobriremos uma ideia nova;
podemos simplesmente multiplicar, mas não acrescentar novos objetos à nossa mente. Pode-se pensar que aquilo que não aprendemos
com um objeto não poderemos nunca aprender com uma centena de
objetos do mesmo tipo e perfeitamente semelhantes em todas as circunstâncias. Assim como nossos sentidos nos mostram um exemplo de dois corpos, ou movimentos, ou qualidades, em determinadas
relações de sucessão e contiguidade, assim também nossa memória
nos apresenta apenas uma multiplicidade de casos em que sempre
encontramos corpos, movimentos, ou qualidades semelhantes, em
relações semelhantes. Da mera repetição de uma impressão passada, mesmo ao infinito, jamais surgirá uma nova ideia original, tal
como a de uma conexão necessária; um grande número de impressões não tem, neste caso, um efeito maior que se nos confinássemos
a apenas uma. Esse raciocínio parece correto e óbvio; entretanto, seria
tolice perder tão cedo as esperanças, e assim continuaremos seguindo
o fio de nosso discurso. Tendo visto que, após a descoberta da conjunção constante entre dois objetos quaisquer, nós sempre fazemos
uma inferência de um a outro, examinaremos agora a natureza dessa inferência e da transição da impressão à ideia. Talvez acabemos
descobrindo que, em vez de a inferência depender da conexão necessária, é a conexão necessária que depende da inferência.
Tendo já visto que a transição que fazemos de uma impressão,
presente à memória ou aos sentidos, para a ideia de um objeto que
denominamos causa ou efeito está fundada na experiência passada e
em nossa lembrança de sua conjunção constante, a próxima questão é:
a experiência produz a ideia por meio do entendimento ou da imaginação? E a razão que nos determina a fazer a inferência, ou uma certa associação e relação de percepções? Se fosse a razão, ela o faria com
base no princípio de que os casos de que não tivemos experiência devem se assemelhar aos casos de que tivemos experiência, e de que o curso da natureza continua sempre uniformemente o mesmo. A fim de esclarecer essa
questão, portanto, passemos ao exame de todos os argumentos que
podem supostamente fundamentar essa proposição. E, como tais argumentos devem ser derivados quer do conhecimento quer da probabilidade, consideremos cada um desses graus de evidência, para ver se
podem nos fornecer alguma conclusão legítima dessa natureza.
Nosso método anterior de raciocínio nos convencerá facilmente
de que não pode haver nenhum argumento demonstrativo para provar que os casos de que não tivemos experiência se assemelham àqueles de
que tivemos experiência. Podemos ao menos conceber uma mudança
no curso da natureza, o que é prova suficiente de que tal mudança não é absolutamente impossível. Ser capaz de formar uma ideia
clara de alguma coisa é um argumento inegável a favor da possibilidade dessa coisa, e constitui por si só uma refutação de qualquer
pretensa demonstração em contrário.
Quanto à probabilidade, como não se aplica às relações de ideias
consideradas enquanto tais, mas apenas às relações de objetos, ela
deve, sob certos aspectos, estar fundada nas impressões de nossa
memória e sentidos, e sob outros, em nossas ideias. Se não houvesse alguma impressão misturada a nossos raciocínios prováveis, a conclusão seria inteiramente quimérica. E se não houvesse ideias misturadas, a ação da mente ao observar a relação seria, propriamente
falando, uma sensação, e não um raciocínio. Portanto, é necessário
que, em todos os raciocínios prováveis, haja alguma coisa presente à
mente, quer seja vista ou lembrada, e que dessa coisa infiramos¹ algo
a ela conectado, que não é nem visto nem lembrado.
A única conexão ou relação de objetos capaz de nos levar para além das impressões imediatas de nossa memória e sentidos é a de causa e efeito; e isso porque é a única sobre a qual podemos fundar uma inferência legítima de um objeto a outro. A ideia de causa e efeito é derivada da experiência, que nos informa que tais objetos particulares, em todos os casos passados, estiveram em conjunção constante um com o outro. E como se supõe que um objeto similar a um deles está imediatamente presente em sua impressão, presumimos, a partir disso, a existência de um objeto similar ao que habitualmente o acompanha. De acordo com essa explicação do que se passa - explicação que creio ser inquestionável em todos os seus pontos -, a probabilidade se funda na suposição de uma semelhança entre os objetos de que tivemos experiência e aqueles de que não tivemos. É impossível, portanto, que essa suposição possa surgir da probabilidade. O mesmo princípio não pode ser ao mesmo tempo causa e efeito de outro; e essa é, talvez, a única proposição intuitiva ou demonstrativamente certa acerca dessa relação.
Se alguém pensa poder eludir esse argumento, afirmando que todas as conclusões a respeito de causas e efeitos são construídas com
base em um raciocínio sólido, sem sequer determinar se esse raciocínio deriva da demonstração ou da probabilidade, a única coisa que
posso fazer é pedir que nos apresente esse raciocínio, para que seja
submetido a nosso exame. Talvez se diga que, após a experiência da
conjunção constante de certos objetos, nós raciocinamos da seguinte maneira. Sempre se viu que tal objeto produzia um outro. E impossível que ele tivesse esse efeito, se não fosse dotado de um poder de
produção. O poder implica necessariamente o efeito e, portanto, existe
um fundamento legítimo para se tirar uma conclusão da existência
de um objeto para a daquele que comumente o acompanha. A produção passada implica um poder; o poder implica uma nova produção; e
é essa nova produção que inferimos do poder e da produção passada.
Ser-me-ia muito fácil mostrar a fraqueza desse raciocínio, se desejasse utilizar aqui as observações que fiz há pouco, a saber, que a
ideia de produção é a mesma que a de causação, e que nenhuma existência implica de maneira certa e demonstrativa um poder em outro
objeto; ou então se fosse apropriado antecipar o que terei ocasião de
observar adiante a respeito da ideia que formamos do poder e da eficácia. Mas como tal procedimento pode parecer, ou enfraquecer meu sistema, por apoiar uma de suas partes em outra, ou gerar uma confusão em meu raciocínio, tentarei sustentar a presente afirmação sem esse
recurso.
Admitamos, pois, por um momento, que a produção de um objeto por outro, em um caso qualquer, implica um poder; e que esse
poder está conectado com seu efeito. Ora, uma vez que já se provou
que o poder não repousa nas qualidades sensíveis da causa, e como
não há nada presente a nós além das qualidades sensíveis, pergunto:
por que, em outros casos, presumis que exista o mesmo poder, com
base apenas no aparecimento dessas qualidades? Vosso recurso à experiência passada não serve de nada neste caso, podendo, no máximo, provar que aquele mesmo objeto que produziu um outro era, naquele mesmo instante, dotado de tal poder. Jamais poderá provar,
porém, que o mesmo poder deve permanecer no mesmo objeto ou
coleção de qualidades sensíveis; e, menos ainda, que um poder semelhante ocorre sempre em conjunção com qualidades sensíveis
semelhantes. Se se disser que temos experiência de que o mesmo
poder continua unido ao mesmo objeto, e de que objetos semelhantes são dotados de poderes semelhantes, eu recolocaria minha questão: por que, partindo dessa experiência, formamos uma conclusão que ultrapassa os casos passados de que tivemos experiência? Se vossa resposta a
essa questão for semelhante à anterior, ela suscitará uma nova questão do mesmo tipo, e assim ao infinito - o que prova claramente que
o raciocínio não possuía um fundamento legítimo.
Assim, não apenas nossa razão nos falha na descoberta da conexão última entre causas e efeitos, mas, mesmo após a experiência ter-nos informado de sua conjunção constante, é impossível nos convencermos, pela razão, de que deveríamos estender essa experiência para além dos casos particulares que pudemos observar. Nós supomos, mas nunca conseguimos provar, que deve haver uma semelhança entre os objetos de que tivemos experiência e os que estão além do alcance de nossas descobertas.
Assim, não apenas nossa razão nos falha na descoberta da conexão última entre causas e efeitos, mas, mesmo após a experiência ter-nos informado de sua conjunção constante, é impossível nos convencermos, pela razão, de que deveríamos estender essa experiência para além dos casos particulares que pudemos observar. Nós supomos, mas nunca conseguimos provar, que deve haver uma semelhança entre os objetos de que tivemos experiência e os que estão além do alcance de nossas descobertas.
Já observamos a existência de certas relações que nos fazem passar de um objeto a outro, mesmo sem haver uma razão que nos determine a fazer essa transição. Podemos estabelecer como regra geral
que, sempre que a mente constante e uniformemente faz uma transição sem nenhuma razão, ela está sendo influenciada por essas relações. Ora, tal é exatamente o caso presente. A razão jamais pode
nos mostrar a conexão entre dois objetos, mesmo com a ajuda da experiência e da observação de sua conjunção constante em todos os
casos passados. Portanto, quando a mente passa da ideia ou impressão de um objeto à ideia de outro objeto, ou seja, à crença neste, ela
não está sendo determinada pela razão, mas por certos princípios
que associam as ideias desses objetos, produzindo sua união na imaginação. Se as ideias não fossem mais unidas na fantasia que os
objetos parecem ser no entendimento, nunca poderíamos realizar
uma inferência das causas aos efeitos, nem depositar nossa crença
em qualquer questão de fato. A inferência, portanto, depende unicamente da união das ideias.
Quanto aos princípios de união entre as ideias, eu os reduzi a três princípios gerais, e afirmei que a ideia ou impressão de um objeto introduz naturalmente a ideia de qualquer outro objeto que seja semelhante, contíguo ou conectado com o primeiro. Admito que esses princípios não são nem causas infalíveis, nem as únicas causas de uma união entre ideias. Não são causas infalíveis, pois podemos fixar nossa atenção durante algum tempo em um só objeto, sem olhar para mais nada além dele. Não são as únicas causas, pois é evidente que o pensamento apresenta um movimento muito irregular ao percorrer seus objetos, podendo saltar dos céus à terra, de um extremo ao outro da criação, sem método ou ordem certa. Mas, embora admita essa fraqueza nessas três relações, bem como essa irregularidade na imaginação, afirmo que os únicos princípios gerais que associam ideias são a semelhança, a contiguidade e a causalidade.
É verdade que existe um princípio de união entre ideias que, à primeira vista, pode ser considerado diferente desses; mas veremos que, no fundo, ele depende da mesma origem. Quando a experiência mostra que todos os indivíduos de uma espécie de objetos estão constantemente unidos com os indivíduos de outra espécie, o aparecimento de um novo indivíduo pertencente a uma das duas espécies leva naturalmente o pensamento àquele que usualmente o acompanha. Assim, uma vez que tal ideia particular é comumente vinculada a tal palavra particular, a mera audição dessa palavra basta para produzir a ideia correspondente; será quase impossível à mente, por mais que se esforce, impedir essa transição. Nesse caso, não é absolutamente necessário que, ao ouvir esse som particular, nós reflitamos sobre uma experiência passada, e consideremos que ideia esteve comumente conectada ao som. A imaginação, por si mesma, supre o lugar dessa reflexão, e está tão acostumada a passar da palavra à ideia que não deixa transcorrer um só momento entre a audição de uma e a concepção da outra.
Quanto aos princípios de união entre as ideias, eu os reduzi a três princípios gerais, e afirmei que a ideia ou impressão de um objeto introduz naturalmente a ideia de qualquer outro objeto que seja semelhante, contíguo ou conectado com o primeiro. Admito que esses princípios não são nem causas infalíveis, nem as únicas causas de uma união entre ideias. Não são causas infalíveis, pois podemos fixar nossa atenção durante algum tempo em um só objeto, sem olhar para mais nada além dele. Não são as únicas causas, pois é evidente que o pensamento apresenta um movimento muito irregular ao percorrer seus objetos, podendo saltar dos céus à terra, de um extremo ao outro da criação, sem método ou ordem certa. Mas, embora admita essa fraqueza nessas três relações, bem como essa irregularidade na imaginação, afirmo que os únicos princípios gerais que associam ideias são a semelhança, a contiguidade e a causalidade.
É verdade que existe um princípio de união entre ideias que, à primeira vista, pode ser considerado diferente desses; mas veremos que, no fundo, ele depende da mesma origem. Quando a experiência mostra que todos os indivíduos de uma espécie de objetos estão constantemente unidos com os indivíduos de outra espécie, o aparecimento de um novo indivíduo pertencente a uma das duas espécies leva naturalmente o pensamento àquele que usualmente o acompanha. Assim, uma vez que tal ideia particular é comumente vinculada a tal palavra particular, a mera audição dessa palavra basta para produzir a ideia correspondente; será quase impossível à mente, por mais que se esforce, impedir essa transição. Nesse caso, não é absolutamente necessário que, ao ouvir esse som particular, nós reflitamos sobre uma experiência passada, e consideremos que ideia esteve comumente conectada ao som. A imaginação, por si mesma, supre o lugar dessa reflexão, e está tão acostumada a passar da palavra à ideia que não deixa transcorrer um só momento entre a audição de uma e a concepção da outra.
Embora eu reconheça que esse é um verdadeiro princípio de associação entre ideias, afirmo, porém, que ele é exatamente o mesmo
que vigora para as ideias de causa e efeito, e que constitui uma parte
essencial de todos os nossos raciocínios baseados nessa relação. A
única noção que temos de causa e efeito é a de certos objetos que
existiram sempre conjuntamente, e que, em todos os casos passados,
mostraram-se inseparáveis. Não podemos penetrar na razão da conjunção. Apenas observamos o próprio fato e vemos sempre que, em
consequência de sua conjunção constante, os objetos adquirem uma
união na imaginação. Quando a impressão de um deles se torna presente a nós, formamos imediatamente uma ideia daquele que
comumente o acompanha; em consequência disso, podemos estabelecer como parte da definição de uma opinião ou crença que esta é
uma ideia relacionada ou associada com uma impressão presente.
Assim, embora a causalidade seja uma relação filosófica, por implicar contiguidade, sucessão e conjunção constante, é apenas enquanto ela é uma relação natural, produzindo uma união entre nossas ideias, que somos capazes de raciocinar ou fazer qualquer
inferência a partir dela.
continua na página 119...
______________
Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3
___________________
4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário